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“Quando tens algum problema na vida, o foco tem de ser a solução”. Foi assim que José Ribeiro-Meditar encarou o maior desafio da sua vida: uma queda de sete metros que o deixou paraplégico e lhe mudou a vida para sempre. Com uma história de vida assente na superação, José Ribeiro preparou-se para a entrevista como para uma sessão de treino e, com uma linha de pensamento bem vincada, abriu o livro revelando os “segredos” de quem já treinou em todos os contextos e de quem está habituado a ganhar já muito antes do acidente. O cérebro foi a palavra que nos acompanhou ao longo da entrevista e, para além de ser a coisa mais importante que possui, é também o nome do seu próximo livro. Partilha o gosto pelo treino, com a filosofia e a poesia e admite ser fanático pelo conhecimento, pela descoberta e pela superação. Ainda antes do apito inicial da entrevista, José Ribeiro pediu a palavra e iniciou assim a partilha de conhecimento. Não percam!
José Ribeiro-Meditar: Jogadores diferentes vêm coisas diferentes em situações iguais. Aquele que vê mais e melhor é o que tem mais possibilidade de fazer a coisa certa no momento exato. A começar por aqui já te estou a falar sobre qual é a minha linha de pensamento. É uma metodologia de treino assente na especificidade, nos comportamentos e padrões do comportamento, na relação entre as componentes cognitivas, tático-técnicas, físicas e coordenativas. Os conceitos vão desde os rondos (meiinhos), jogos de posição, espaços reduzidos, jogos de situação, jogos de intenção, intencionalidade global e balizas, sempre em relação à bola. Não é apenas um jogo posicional. É um jogo em que tenho de saber onde e como me situar em campo em função do sítio onde está a bola.
Bola na RedeVou começar já por aí, pela bola. Porque é que para ti a bola é o melhor brinquedo do Mundo?
José Ribeiro-Meditar: Porque eu através da bola consigo falar de religião, política, de culturas, de tudo. É isso que a bola tem de fantástico. Mexe com as emoções e cria momentos. Sem a bola nós não estávamos agora aqui os dois a falar. Seja o contexto que eu estiver a treinar ou a ensinar, para conhecer um miúdo que eu estou a treinar, tenho de conhecer o contexto familiar e social dele. Até na formação já começas a ver miúdos a vir de outros países e de outras culturas e eu tenho de perceber a cultura deles. Tenho de conhecer os padrões de comportamento deles.

Bola na RedeO José tem um histórico como treinador muito direcionado para o futebol de formação. Que importância atribuis à formação?
José Ribeiro-Meditar: Eu até gostaria de ir mais longe, se me permitires. O desporto de formação é a coisa mais importante que nós temos. E quando falo de desporto, vou às modalidades todas. Claro que a modalidade rainha em Portugal é o futebol e a segunda modalidade com mais influência é o futsal. Há comportamentos e padrões de comportamento de outras modalidades no futebol. Na elaboração de um exercício tens o espaço, o tempo e a intensidade. Depois tens cinco componentes que vais trabalhar: a parte estratégica, a parte do foco/psicológica, a parte tática, técnica e física/capacidades motoras. Eu tenho 15 mandamentos em que tu podes ir buscar de uma modalidade e trazer para a tua modalidade. Eu vou-te mandar isso:
Comportamentos e padrões de comportamentos de outras modalidades no futebol: (Estratégia / Foco / Tático / Técnico / Capacidades motoras)
- Boxe: técnica e duelos individuais
- Andebol: tática e marcação à zona
- Basquetebol: tática e marcação individual
- Râguebi: tática e bolas paradas
- Futsal: transição do terceiro e quarto momento
- Futevólei: técnica e jogo aéreo
- Golfe: técnica de remate
- Damas: organização ofensiva e defensiva
- Xadrez: estratégica, pontos fortes e fracos do adversário
- Ténis: motivação, superação, mente e tomada de decisão
- Voleibol: time out
- GOES: físico + mente = regras
- Futebol Americano: posicionamento estrutural
- Atletismo: técnica e tomada de decisão na condução
- Desportos de combate: liderança
Gosto de brincar com isto, é o meu passatempo que depois vai dando uns livros e artigos científicos. Na minha opinião os miúdos até aos sub-12 deviam praticar outras modalidades, não só o futebol. Tu nestas idades tens que dar aos miúdos o prazer de praticar outras modalidades. Tens o Bayern de Munique, em que, não sei se vai ser neste ou no próximo ano, os miúdos até aos sub-11 não vão jogar só futebol, vão ter outras modalidades. Estou inteiramente de acordo e tu consegues trazer isto. Por exemplo, se tivermos um amigo ligado ao andebol, convidamos essa pessoa para ir dar uma aula de andebol, nem que seja uma vez por mês.
💬…Por detrás de um atleta 👫 que dá um pontapé na bola ⚽️, está uma criança.
Por detrás da criança existe um contexto familiar.Para compreendermos 🧠a criança que está à nossa frente, temos que perceber 🧠 o contexto de onde ela vem.
…O contato humano é fundamental 🎤 pic.twitter.com/IhfOrMCplp
— José Ribeiro.Meditar Oficial⚽ (@jose_r_meditar) July 8, 2020
Bola na Rede“Um miúdo, quando termina um dia, sai do treino, o pai vai buscá-lo e a primeira coisa que o pai pergunta é como correu o treino. O pai não pergunta como é que correu a escola”. Recupero esta citação do Luís Castro para te questionar como é que se educam os pais?
José Ribeiro-Meditar: Eu costumo dizer que há quatro itens de avaliação num treinador ou num coordenador técnico. São as competências tático-técnicas, liderança, as relações humanas e a comunicação. Focando na formação, nos miúdos mais novos até aos sub-13, os pais têm que fazer parte do processo e o grande problema é que eu não posso educar sem formar. Como é que eu posso formar um atleta se primeiro tenho de educar uma criança? Um pai é a mesma coisa. O treinador deve ter uma comunicação aberta, deve haver relações humanas entre os pais e o treinador e devemos estabelecer desde logo regras. Vou te dar um exemplo, este ano tive com os miúdos dos 9 aos 10 anos e eu impus pequenas regras, uma delas era que os miúdos tinham que deixar o balneário da equipa adversária limpo. Outra regra, o papá e a mamã não vão vestir o menino lá dentro e os meninos com seis e sete anos já sabem apertar os atacadores, não tem que ir lá o treinador. A minha filha também anda na escola e eu prefiro que ela tenha um professor educador do que um professor formador. Um professor que incute regras e não um professor autoritário. Também sou a favor dos treinos à porta fechada, é como as aulas que também são à porta fechada e sou a favor de que haja comunicação entre os professores e os pais, explicar tudo e dizer quais são as regras. Os pais devem fazer sempre parte do processo. Por exemplo, eu se tiver a treinar uma equipa de juvenis, juniores ou seniores, eu não faço convocatórias em papel. Se eu tiver um escalão com 23 atletas, os 18 que eu convoco digo cara à cara. Se houver algum que pergunte porque não foi convocado eu respondo logo “Tu não foste convocado porque no treino desta semana, neste espaço aqui, tu não tiveste presente”. Olho no olho, cara à cara. O treino de futebol são aulas e durante a semana trabalho os sete momentos de jogo. O sexto momento é o penalty e o sétimo momento do jogo é as equipas de arbitragem. Os meus atletas estão completamente proibidos de falar com os árbitros. Eu costumo dividir o clube de futebol em três partes: o presidente, que é o dono do clube, o balneário, que é dos atletas e depois temos o retângulo do campo, o jogo e isso é do treinador. Se eu não falo com o árbitro e não insulto árbitro nenhum, nenhum atleta meu vai insultar os árbitros. Eu não posso defender certos princípios do futebol e depois ser incoerente com essa maneira que eu defendo.
-O mais forte é o que melhor se adapta às situações-
«Eu sou fanático pelo conhecimento, pela descoberta e adoro me superar. A superação para mim é algo fundamental»
Bola na RedeQueria evitar tocar no tema do acidente, mas acaba por ser inevitável. Em 2012, um acidente mudou-lhe a vida para sempre. Uma queda de sete metros deixou-o paraplégico e dependente de uma cadeira de rodas. Como é que conseguiu renascer do acidente e reinventar-se em cima de uma cadeira de rodas? E quais foram as principais diferenças entre o José antes do acidente e do José depois do acidente?
José Ribeiro-Meditar: A coisa mais importante que o José antes do acidente e o José depois do acidente tem é o cérebro. Eu tive que adaptar o meu cérebro ao meu corpo. Quando tens algum problema na vida, o foco tem de ser a solução. Foquei-me na solução e na minha reabilitação. São mais as coisas que nós não controlamos do que as coisas que controlamos. A perda faz parte da vida. Imagina que estás a cortar uma maçã e cortas um dedo. A primeira coisa que acontece é a revolta, depois vem a aceitação e por fim a transformação. Antes de eu ter o acidente já treinava futebol, depois do acidente continuei a treinar futebol. Subi equipas antes do acidente, subi equipas depois do acidente, já “morri na praia” com equipas antes do acidente e depois do acidente. Só houve uma coisa que não morreu, o cérebro. Aquilo que eu acreditava antes do acidente, continuo a acreditar e a desenvolver o meu conhecimento. Eu sou fanático pelo conhecimento, pela descoberta e adoro me superar. A superação para mim é algo fundamental. Acho que todos os dias nós nos superamos, no simples acordar e levantar já nos estamos a superar. Por exemplo, se tu não gostas de acordar cedo e tens de acordar às 8h porque tens um compromisso às 9h, já é um momento de superação. A superação está sempre presente.

Bola na RedePara ti o que é mais importante: ser o mais forte ou o que melhor se adapta às situações?
José Ribeiro-Meditar: Ah essa está boa. É o que melhor se adapta. Por exemplo, no jogo do PAOK contra o Benfica, o Abel Ferreira falou de uma coisa e eu estou completamente de acordo com ele. Ele disse “eu tenho que ajustar as velas em função do vento”. O Abel contra o JJ foi o que melhor se soube adaptar e aquele que melhor se sabe adaptar é aquele que vai ganhar. Tu tens de saber os jogadores e/ou a turma que tens à tua frente e o contexto em que estás inserido. Eu gosto de ver o confronto de ideias. Dá-me prazer ver o Simeone a jogar como me dá prazer ver um Guardiola a jogar, como me deu prazer ver o Bielsa contra o Klopp. Eu adoro o futebol inglês, gosto da cultura inglesa e da maneira como eles vivem o futebol. Aqui em Portugal precisamos de mais pessoas como o Carlos Carvalhal e como o Bruno Lage, precisamos de gentlemans. Mas eu vou te dizer uma coisa, dá-me mais pica ver alguns jogos da formação em Portugal do que jogos da Primeira Liga. Qual é o meu clube de futebol? É a bola: o melhor brinquedo do Mundo.
Bola na RedeComeça a haver um “ruído” no campeonato português que acaba por ser insustentável…
José Ribeiro-Meditar: Estão a destruir o nosso futebol. As pessoas que estão ligadas ao futebol e ao desporto em Portugal são líderes de opinião. Tu a teres uma turma com dez miúdos, tu és líder de opinião e tudo começa aqui se nós queremos mudar as nossas mentalidades e comportamentos.
-Saber ganhar e “morrer na praia”-
«A minha primeira grande referência no treino é o José Mourinho»
Bola na RedeÉ tempo agora para relembrar alguns dos feitos do José como treinador. Treinaste os juniores do Sanguedo, onde foste campeão distrital. Treinaste a equipa de futebol 7 do Calçada, onde também foste campeão…
José Ribeiro-Meditar: Tu sabes muita coisa acerca de mim (risos).
Bola na RedeFiz a minha pesquisa (risos). Até no futebol feminino nos Dragões Sandinenses foi a única equipa dos distritais a chegar às meias-finais da Taça de Portugal…
José Ribeiro-Meditar: Tu pesquisaste bem. Tu tens o meu livro. Tu tens os “segredos de Meditar”. Como é que sabes essas coisas todas? (risos).
Bola na RedeNão posso revelar as minhas fontes (risos). Já falaste um pouco sobre quais são as tuas preferências a nível de estilo de jogo e eu aproveito agora para questionar quais são as tuas principais referências de onde foste “beber o teu conhecimento” para aplicares no teu treino?
José Ribeiro-Meditar: Falaste bem, referências, porque eu não gosto da palavra ídolo. A minha primeira grande referência no treino é o José Mourinho. Eu ainda estagiei no FC Porto no tempo em que ele esteve lá e o Luís Castro era o coordenador. Quando apareceu o Mourinho eu guardei tudo e fiz investigação. [José vira a câmara e mostra a sua vasta coleção de livros]. Fui estagiar ao FC Porto, na altura estive com o Zé Guilherme, que agora é responsável pela disciplina do futebol na FADEUP e também estagiei com o Ilídio Vale. Depois tenho duas equipas que me marcaram: o Brasil de ’82 e o Milan do Arrigo Sacchi. O Brasil pela maneira como atacavam e o Milan pela maneira como organizavam o jogo, na marcação à zona e zona pressionante. Gosto muito do Barcelona do Luís Enrique, gostei mais do Barcelona do Luís Enrique do que do Barcelona do Guardiola. Também adoro o Klopp. Eu ao dizer que adoro o Klopp e o Luís Enrique em termos de jogo, tu já estás a ver como é que uma equipa minha joga. Eu não gosto do “vai à linha, cruza e faz golo”, eu gosto de três avançados. Se não marca Messi, marca Neymar, se não marca Neymar marca Suarez. Se não marca Salah, marca Mané, se não marca Mané marca Firmino. É disso que eu gosto. Gosto muito da Juventus do Allegri pelo lado da estratégia, gosto muito da equipa do Joachim Low, quando ganhou o Mundial 2014 acho que do ponto de vista estratégico é de topo, gosto muito do Simeone e da maneira como ele puxa pelos adeptos, porque é um treinador super emotivo e eu também me considero um treinador emotivo. Gosto muito do futebol sul americano, gosto mais do atleta uruguaio e argentino do que do atleta brasileiro, gosto daqueles miúdos mesmo do bairro com raça porque com esses é que tu ganhas jogos. Já treinei em vários contextos e em vários grupos, eu costumo dizer que a mim ninguém me ensina como “morrer na praia”, porque eu já morri na praia, mas a mim também ninguém me ensina como se sobe de divisão porque eu também já subi de divisão uma série de vezes. Mas claro que tu para subires de divisão tens de ter atletas de qualidade.

Bola na RedeAinda em torno das referências, certamente que o José tem noção de que também é uma referência para muitos. Sentes algum peso ou pressão por seres um exemplo? Com certeza que devem haver dias menos bons.
José Ribeiro-Meditar: Claro que sim. Eu até vou pegar nisto aqui. [José pega no segundo livro que escreveu em 2018, “O Vagabundo”, para num capítulo e começa a ler]: “A infelicidade é não permitires que a mudança aconteça. Agarras-te com força para que as coisas sejam estáticas. Ao amares uma mulher, desejas que ela seja tua amanhã como é hoje. Aí surge a infelicidade. Ninguém tem a certeza sobre o momento seguinte, então o que dizer sobre o amanhã. A vida está continuamente a mudar, só uma coisa é permanente: a própria mudança”. Não sei se respondi à tua pergunta, mas claro que sim. Todos nós temos dias em que estamos piores. Por exemplo, eu agora estou muito focado no “Tempo”, que é o seguimento do livro “O Vagabundo”, que só vai sair para o ano. Eu agora estou muito virado para a poesia, eu tenho poemas que consigo escrever de manhã, outros à noite e há outros que só consigo escrever com barulho, isto parece de loucos, mas é verdade. Muitas vezes nós temos de nos isolar no bom sentido da palavra. Vou te dizer mais uma coisa, o nosso cérebro é dividido em dois hemisférios, o esquerdo e o direito. O esquerdo é científico: racional, lógico e matemático. O direito é emocional, criativo e intuitivo. Eu sou uma pessoa muito intuitiva e nada racional. Sei quais são os meus pontes fortes e os meus pontos fracos. Aprendi a camuflar os meus pontos fracos.
-Um ‘vagabundo’ que tem no ‘cérebro’ o seu maior ‘segredo’-
“Se fosse mais novo tenho a certeza que era atleta de alta competição fosse em que modalidade eu estivesse»
Bola na RedeEm 2016 escreveu ‘Os Segredos de Meditar no Futebol’. O José imaginava algum dia escrever livros? Fale-me um pouco de como surgiu a ideia e o porquê se ter aventurado no mundo da escrita.
José Ribeiro-Meditar: ‘Os Segredos de Meditar no Futebol’ é a minha bíblia. São aquelas experiências todas que eu te falei com o Ilídio Vale, José Guilherme, e fui fazendo o meu dossier de treinador. Eu já era para ter escrito antes de ter tido o acidente. Depois do acidente foi uma maneira de eu passar uma mensagem porque eu também sou ativista da cura da lesão medular. O livro nasceu quando eu terminei o projeto do futebol feminino, eu fiquei desgastado e pensei “Vou publicar o livro”. O meu gosto pela escrita já vem de antes do acidente. Eu de 1998 a 2000 trabalhei no jornal 1º de Janeiro e trabalhei na parte dos suplementos e publireportagens. Atenção que eu não sou licenciado em jornalismo, mas há umas “luzes” que me acendem e tu ficas autodidata.
Bola na RedeConsegues revelar algum dos “segredos de Meditar no futebol”?
José Ribeiro-Meditar: Meditar é um pseudónimo, são os segredos do Meditar. No livro eu falo do Sanguedo, da equipa de futebol feminino, do Calçada. Depois no capítulo três falo da parte do jogo que vou aprofundar mais à frente no “Essência da Bola”. Dentro desse capítulo falo do modelo de jogo, dos princípios do jogo, os momentos de jogo, organização ofensiva e defensiva, as transições defesa-ataque e ataque-defesa, falo nas características do jogador, organização estrutural, modelo de treino.

Bola na RedeO José também tem uma veia poética e em 2018 escreveu o livro ‘O Vagabundo’. Quem é esse vagabundo?
José Ribeiro-Meditar: Esse vagabundo é aquele gajo que ficou paraplégico. Vou pegar aqui numa parte do livro para te dizer quem é este vagabundo. “No relógio do vagabundo, o vagabundo tem 67 mandamentos: o primeiro é a liberdade, o segundo é a viagem e o terceiro é o momento. Ao tomares conhecimento das palavras, a tua vida e as tuas relações vão ser totalmente diferentes. Na ressaca da droga, na embriaguez do álcool, na roleta do casino e na passerelle da vida, o vagabundo refugia-se na palavra silêncio: o quarto mandamento. Segue-se a música, a poesia e o amor. O caminho é longo e a palavra consciência torna-se o quinto mandamento…”. Neste livro eu falo que a morte física não me assusta, a mim o que me assusta é eu saber que as pessoas que me amam vão sentir a minha perda. Eu digo-te isso aqui porque no acidente que eu tive em que fiquei paraplégico e em que estive um ano no hospital eu vi o que essas pessoas sofreram. Eu também sofri. Mas voltando ao vagabundo, o vagabundo é uma pessoa que não tem casa, tanto dorme aqui como na rua, como na casa de um amigo. “O Vagabundo” é um livro que fala sobre filosofia e poesia, mas é o livro que melhor fala de futebol.
Bola na RedeA nível de projetos futuros já estou inteirado que vem aí outro livro.
José Ribeiro-Meditar: Este livro faz parte de uma trilogia, é “O Cérebro”. O cérebro é a coisa mais importante que nós temos. Este ano para escrever o livro “O Cérebro” eu treinei uma equipa de miúdos dos 9 aos 10 anos, quis treinar num contexto adverso, daqueles em que para teres oito ou nove miúdos vês-te à rasca. É nesse contexto que o teu livro vai ser top. Tens de ir para o terreno. Veio lá a SporTV o Canal 11 e há um jornalista que me diz “Oh Mister, você é bom demais para a equipa que está a treinar” e eu virei-me para ele e disse “Mas eu para ir para o FC Porto, treinar os miúdos da Dragon Force, é fácil demais”. Se eu quero que este livro tenha uma parte científica eu tenho de ir mesmo lá abaixo, à rua, aos miúdos que nunca deram um pontapé na bola. O livro “O Cérebro” era para ser de 300 páginas inicialmente, só que eu achei melhor dividir o livro em duas partes. Uma vai ser “O Cérebro”, mais dirigido para o futebol de formação com temas como a criança, a rua, a superação, o coach e o scout, em que se foca na formação até aos 13 anos, que é a idade da descoberta. A outra parte é “A essência da bola”, ligado ao pensamento adquirido e único. Os três estágios de crescimento da criança até à sua fase adulta são a idade da descoberta, a idade do pensamento próprio e a idade do pensamento adquirido/único. Em Portugal há muita literatura sobre futebol, mas há uma coisa que eu fui reparando: falta literatura ao nível da formação. A observação que tu fazes de um miúdo até aos 13 anos, não é a mesma que tu fazes a partir dos 13 anos para cima. Tenho mesmo bons testemunhos neste livro, desde o Nené Reis, ao Acácio Santos, o Jorge Maciel, o Freitas Lobo e muito mais.

Bola na RedePedia agora que recorresse à sua experiência enquanto treinador para fazer uma previsão daquilo que espera que vá ser o campeonato nacional deste ano.
José Ribeiro-Meditar: No campeonato nacional deste ano vamos ter o FC Porto e o SL Benfica a lutar pelo título. O FC Porto é favorito porque foi campeão, o SL Benfica vai entrar com pressão, muita pressão devido ao fator JJ, o próprio investimento que o presidente fez foi enorme. A pressão está toda do lado do SL Benfica, não está nada do lado do FC Porto mesmo tendo sido campeão. Vamos ver quem é que o FC Porto ainda vai vender, mas vai ser entre FC Porto e SL Benfica. Estou curioso para ver o Ruben Amorim, vamos ter um super Braga, estou com curiosidade para ver o Vitória de Guimarães que está sempre no “quase”, mesmo o Boavista que foi buscar o Vasco Seabra, o Rio Ave… Tem aí uma série de treinadores novos. Estou com curiosidade para ver o Tiago no Vitória, O Vasco Seabra no Boavista e o Mário Silva no Rio Ave. Também tenho muita curiosidade para ver a luta entre o Sporting e o Braga, para ver quem vai ficar no terceiro lugar. Para mim essa é a minha maior curiosidade neste campeonato
Bola na RedeQue conselhos darias ao José Ribeiro mais novo?
José Ribeiro-Meditar: [José fica algum tempo a pensar] Tinha feito vida de atleta. No futebol só não fui atleta de alta competição por causa da minha cabeça. Se fosse mais novo, sabendo o que sei hoje, tenho a certeza que era atleta de alta competição fosse em que modalidade eu estivesse. Houve uma série de comportamentos que eu tive que eu os mudava completamente. Nunca fumei drogas nem era muito de álcool, mas fui viciado na noite e essa era um dos comportamentos que eu mudava. Eu adoro o desporto e, por exemplo, quando vejo os Jogos Olímpicos, as modalidades que mais me fascinam e deixam vidrado são o atletismo e a natação. Mas era isso, teria mudado o meu comportamento a nível de regras.
Bola na RedeQual foi a melhor lição que o futebol te deu?
José Ribeiro-Meditar: Olha, foi esta aqui. Através da bola fui conhecendo imensos amigos. Esta é a melhor lição. Eu nesta fase quero é divertir-me com o futebol. Neste ano quando fui treinar essa equipa de miúdos dos 9 aos 10 anos com a Paula, a primeira coisa que eu lhe disse foi “Isto é para nós nos divertirmos”.
Artigo revisto por Joana Mendes













