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Um guerreiro. Uma viagem improvável. Ensinado pelo Professor e treinado por uma das lendas do tiki-taka. Nesta entrevista, desvendamos a história de Pedro Ró-Ró Correia, um jovem jogador de Mem Martins que escolheu o caminho certo e hoje é central no Al Sadd, de Xavi. Uma revista à carreira, às vivências no luxuoso Qatar e a opinião sobre a seleção das Quinas daquele que será o único português anfitrião do Mundial 2022. Esta Bola, com muita posse, vai chegar à Rede.
– Guerreiro ao caminho-
«Quando me falaram do Qatar, eu nem conhecia o Qatar»
Bola na RedeNasces em Portugal, mas tens dupla nacionalidade cabo-verdiana e qatari. Um caso invulgar, não dirias?
Pedro Correia: Sim, quando nasci em Lisboa, tinha nacionalidade cabo-verdiana, não me deram logo a nacionalidade portuguesa, e depois obtive a nacionalidade qatari, quando vim para aqui.
Bola na RedeCresceste em Mem-Martins, no bairro Casal de São José. Teve alguma influência na tua personalidade dentro e fora de campo?
Pedro Correia: Influenciou, mas tu é que escolhes o teu caminho, esquerda ou direita. Graças a Deus e à minha família segui o caminho certo e estou aqui hoje.
Bola na RedeO apelido Ró-Ró, de onde vem?
Pedro Correia: Quando comecei a jogar futebol em Mem-Martins, jogava a ponta de lança, gostava de fazer golos, era baixinho e havia dois jogadores que eu gostava muito: o Ronaldo Fenómeno e o Romário. Então, o mister Sérgio, naquela altura, fez essa fusão, juntou os dois e fiquei Ró-Ró para sempre. É assim que me tratam em Lisboa, aqui é mais Pedro.
Bola na RedeAinda em Portugal, já como defesa, jogaste no Farense. Como foi jogar em Portugal e como se dá essa ida para o Qatar?
Pedro Correia: Foi uma experiência espetacular. Joguei na formação do Benfica, joguei no Estrela, no Estoril, fui para o Farense, onde joguei três anos e depois joguei três/quatro meses no Aljustrelense. Aí surgiu a oportunidade de vir para o Qatar.

Bola na RedeSei que houve um processo de seleção para entrares no Al Ahli.
Pedro Correia: Eu vim cá para fazer testes no Al Ahli, não vim com com contrato normal, e graças a Deus fui o escolhido para ficar com a equipa. Foi onde joguei durante cinco anos.
Bola na RedePorque preferiste ir para o Qatar? Custou-te deixar Portugal?
Pedro Correia: Eu não preferi. Em casa sempre me ensinaram que a oportunidade só surge uma vez. Quando me falaram do Qatar, eu nem conhecia o Qatar, e vim para cá. Quando o meu empresário disse: “Pedro, tenho isto para ti”, eu disse “vamos”. Eu não escolhi. Podia ser Inglaterra, podia ser outra coisa, a oportunidade apareceu.
Bola na RedeChegaste então aí sem conhecer nada. Como foram os primeiros tempos?
Pedro Correia: Quando cheguei, não sabia de nada, não sabia falar inglês. A escola para mim era ir jogar à bola e ver umas miúdas. Vim sozinho, depois o meu empresário veio ter comigo, ajudou-me muito, estava sempre comigo, e estive na luta durante dois meses e tal a fazer testes até o treinador decidir que queria ficar comigo. Passado uns dias, já viajei com a equipa para um estágio no Dubai e foi aí que assinei contrato.
Bola na RedeA comunicação é muito importante dentro do campo. O facto de não saberes falar inglês foi um entrave à tua adaptação ao Qatar e à equipa?
Pedro Correia: Não dificultou nada, tive de ser guerreiro. Dentro de campo não é preciso falar muito, mas é importante saber inglês. Na altura não sabia quase nada, safava-me, entendia mais ou menos, fazia a minha parte dentro de campo e graças a Deus estava a dar certo. Dentro de campo não é preciso muita conversa, foi por isso que me safei, adaptei-me bem e fiz a minha caminhada até agora.
Bola na RedeComo lidaste com o aspeto religioso?
Pedro Correia: Não estava habituado, foi aquele choque, mas com o passar do tempo começas a perceber, fazes uma amizade com um colega muçulmano e percebes as coisas. Eles respeitam a minha religião e eu a deles.
Bola na RedeComo é a vida aí no Qatar? Qual é o aspeto mais diferente que encontraste aí?
Pedro Correia: A vida aqui é boa, se tens as condições para viveres bem, podes viver bem. Se gostas de luxo, também podes viver no luxo, aqui há de tudo um pouco. O aspeto mais diferente só se for o salário [risos]. Aqui há muita coisa diferente, é uma vida louca. Olhas para a direita, vês três Ferraris, para a esquerda e vês três Porsches, olhas para outro lado e vês Lamborghinis, não se passa nada, as pessoas gostam dessa vida luxuosa.
Bola na RedePensas em voltar a Portugal para jogar?
Pedro Correia: Uma pessoa nunca diz não, mas eu estou na casa dos 30 anos, tenho mais quatro anos de contrato com o Al Sadd, estou bem aqui, a minha família está bem aqui, sinto-me em casa. Nunca posso fechar uma porta, mas não penso em sair daqui.
– Tiki-Taka asiático-
«Temos de ter 75% de posse de bola, tiki-taka, tiki-taka, aqui temos de pôr as equipas cansadas a correr atrás da bola»
Bola na RedeDepois de estares vários anos no Al Ahli, chegou-te esta proposta do Al Sadd. Como recebeste essa notícia?
Pedro Correia: Quando estava no Al Ahli, sabia do interesse do Al Sadd, mas eu queria cumprir o meu contrato de cinco anos até ao fim. Quando chegou ao final o contrato, disseram-me: “vais para o Al Sadd”. Entraram em contacto com o meu empresário, ele tratou de tudo e, passados uns dias, estava a treinar no Al Sadd.
Bola na RedePassando uns meses, até mesmo uns anos, tens Xavi como teu companheiro de equipa. Como é jogar ao lado desta lenda do futebol?
Pedro Correia: Não há palavras para descrever o Xavi. O Xavi é o Xavi. Com bola, sem bola, dentro ou fora de campo é uma pessoa espetacular. Toda a gente conhece o Xavi enquanto jogador, como ele joga, é top.
Bola na RedeDentro de campo conhecemos, e fora? Já agora, como viste a transição dele de teu colega para teu treinador?
Pedro Correia: É mil estrelas. Amigo, tranquilo sempre, pronto para ajudar, não há palavras. Ele, enquanto treinador, é igualzinho. Respeitamos mais porque é treinador, mas é tranquilo como era enquanto jogador. Claro que mete a sua postura enquanto treinador, mas é igualzinho, sempre pronto para rir connosco e comer connosco.
Bola na RedeO que aprendeste com ele, não só a nível tático, mas também a nível pessoal?
Pedro Correia: Dentro de campo, há uma coisa que nos está sempre a dizer: estejam as coisas a correr bem ou mal, devemos sempre ir atrás do nosso pão. Ele sempre me disse isso desde que cheguei aqui e eu meti isso na cabeça. Mesmo quando estamos a perder o jogo, ele está a mil à hora a incentivar-nos, a tentar mudar o jogo.
Bola na RedeJá te deu muitas duras?
Pedro Correia: Muitas não, mas algumas, como é normal. Às vezes o jogo ou o lance não corre como queremos e ele está ali para nos corrigir. Como colega ele também me dava duras, só tenho de ouvir e aprender.
Welcome Boss 🤘🏽 https://t.co/fbCYc4R8x6
— Al Sadd SC | نادي السد (@AlsaddSC) September 19, 2020
Bola na RedeO Al Sadd está mais conhecido na Europa, este futebol mais tático que praticam é certamente uma exigência de Xavi.
Pedro Correia: Sim, ele gosta muito disso. Temos de ter muita posse de bola, não fica feliz com 60% de posse de bola, nós treinamos muito isso. Temos de ter 75% de posse de bola, tiki-taka, tiki-taka, aqui temos de pôr as equipas cansadas a correr atrás da bola.
Bola na RedeNão há melhor solução então para Xavi do que um defesa central/lateral que já havia sido avançado.
Pedro Correia: Sim, sim. Onde ele me colocar, eu jogo, seja central, lateral esquerdo ou direito, ele sabe que comigo não tem problemas em nada mesmo.
– O professor amado-
«Quando o Jesualdo estava chateado, meu deus, começava a chamar burro a toda a gente»
Bola na RedeFoste treinado por Jesualdo Ferreira. O que é que o professor te ensinou?
Pedro Correia: O professor Jesualdo era top, que grande treinador. Aqui é difícil gostarem de um treinador assim, mas os miúdos do Al Sadd amavam o Professor, porque ele lhes ensinou bastante. Deu oportunidade a miúdos de 16 anos de jogarem pela equipa A, miúdos que estão a jogar connosco e fazem a diferença. Podes perguntar-lhes e eles vão falar do professor Jesualdo porque ele foi tudo para nós. Parava, dava-nos duras, no fim fazia vídeo, dizia “Pedro, vem cá ver o que fizeste, tens de melhorar isto, isto e isto”. Ao final de alguns anos, evoluímos muito com ele.
Bola na RedeFora do campo, sempre vos acompanhou e foi uma figura paterna para vocês?
Pedro Correia: Sim, sempre na dele, tranquilo, brincava sempre connosco, ficava no ginásio, no médico a falar connosco, mas quando estava chateado, meu deus, começava a chamar burro a toda a gente.
Bola na RedeTu tinhas mais facilidade que ninguém a falar com ele, por isso ele podia dar-te duras mais à vontade.
Pedro Correia: Ui, dava duras até não poder mais. O avançado falhava o golo e a culpa era minha. Eu só dizia “ok, ok professor, tranquilo”. Ele falava bem com toda a gente, com o Xavi, era top, palmas para ele mesmo.
Bola na RedeEle está no Boavista. Acompanhas o campeonato português? Quem achas que pode levar de vencida a Liga este ano?
Pedro Correia: Lógico, acompanho o meu Benfica, e os outros jogos também. Só vi alguns resumos da equipa do professor Jesualdo ainda. O Sporting tem feito um bom campeonato até agora, o Benfica também está bem, eles dão-me sempre aquela dor de cabeça, mas no final das contas que o Benfica seja campeão.

Bola na RedeTinhas mais esperança com Jorge Jesus no início do que a que tens agora?
Pedro Correia: É complicado. Muita coisa mudou, o futebol, os jogadores. Uma pessoa não pode exigir que ele chegue e ganhe logo os campeonatos todos. Temos de ser mais pacientes, mas como benfiquista quero sempre ganhar, já enquanto jogador percebo que é preciso tempo e para o ano, com a equipa que tem, pode ganhar os títulos que perdeu este ano.
– O evento da década-
«Portugal tem boa seleção, jogadores de muita qualidade, têm possibilidade de chegar à final»
Bola na RedeA chegada de mais internacionais experientes facilitou o vosso crescimento?
Pedro Correia: Ajudou-nos bastante. São profissionais, têm outro andamento, outro pensamento, têm muito futebol e isso ajuda sempre a equipa. É sempre bom ter jogadores com experiência que jogaram nas grandes ligas para ajudar o futebol do Qatar a evoluir.
Bola na RedePara onde caminha a evolução do futebol no Qatar?
Pedro Correia: Com o passar do tempo, as equipas começaram a praticar um futebol mais bonito, mais tático, começou-se a jogar futebol a sério. Os jogadores têm evoluído bastante, ganhamos inclusive a Taça Asiática. O futebol no Qatar tem boas equipas, que conseguem lutar pela Champions Asiática.

Bola na RedeAinda sobre a evolução do futebol qatari, são a seleção número 58 do mundo, ganharam a Taça Asiática. A que objetivos se propõem e o que está diferente?
Pedro Correia: A seleção do Qatar tem evoluído bastante, estamos a trabalhar há muito tempo, temos feito um bom trabalho e jogado grandes jogos, que dão para evoluir a equipa. Jogamos contra seleções fortes, trabalhamos juntos, os jovens têm-se aplicado muito. Na seleção que ganhou a Taça da Ásia, eu tinha 30 anos e mais um ou outro, o resto era tudo jovens de 25 para baixo, e isso dá um balanço bom. Agora é continuar, estamos no Mundial, estamos no grupo de Portugal para a qualificação para o Mundial, temos a Copa América, a Gold Cup, é bom para evoluirmos.
Bola na RedeAchas que vais continuar a ir à seleção e estar no Mundial? Como vai ser jogar contra Portugal?
Pedro Correia: Só se Deus não quiser. Eu vou continuar a trabalhar para estar lá, jogar regularmente, sem lesões. Jogar contra Portugal vai ser especial, jogar contra os colegas que tenho lá. Não vai ser nada fácil apanhar os craques todos pela frente, mas estamos lá para jogar.
Bola na RedeSobre o Mundial, tem havido várias polémicas com trabalhadores que estão a construir os estádios. Como se acompanha isso?
Pedro Correia: A vida é injusta, podia ser eu a estar ali a trabalhar. Alguém tem de construir, não sei explicar, estão ali 24 horas a trabalhar por turnos, mas eu nunca vi com os meus olhos para estar a opinar.
Bola na RedeO Mundial do Qatar vai ser o evento que marca a década aí. O que esperas da tua seleção e o que esperas de Portugal?
Pedro Correia: Nós vamos fazer um bom trabalho, queremos qualificar-nos no grupo, acho que se fizermos isso vamos deixar o país bem, por todo o trabalho que eles fizeram, por todas as condições que nos querem dar. Quanto a Portugal, eles têm boa seleção, jogadores de muita qualidade, têm possibilidade de chegar à final, jogadores com experiência nessas competições e jogadores jovens com muito talento.
Bola na RedeO Qatar vai jogar agora a Copa América, como referiste. Estão no grupo do Brasil, como vai ser apanhar o Neymar?
Pedro Correia: Não será a primeira vez, já jogamos contra eles. É uma experiência espetacular, a seleção do Brasil é muito forte, perdemos dois a zero a jogar lá, jogamos bem, eles têm jogadores individualmente muito fortes e jogar contra esses atletas é muito bom.
Bola na RedeOlhando para a tua carreira, de Mem Martins para o Qatar, como descreves o teu percurso?
Pedro Correia: É a vida de um guerreiro mesmo, passei por muita coisa para chegar aqui, não foi fácil. Sempre acreditei nos sonhos e lutei por eles, é o que tenho feito até agora e vou continuar nesta caminhada que vai continuar a dar certo.
Artigo revisto por Inês Vieira Brandão










