«O CD Tondela era o único clube em que não me via como suplente» – Entrevista BnR com Tozé Marreco

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– Da adaptação e variabilidade nasce a surpresa –

«Estou perfeitamente aberto a mudar muitas das coisas que penso se achar que é o melhor para a equipa»

 

Bola na Rede: Que rescaldo fazes da época em termos de objetivos conseguidos?

Tozé Marreco: Era impossível pedir melhor. Partindo para a época com semanas de atrasado, com um plantel novo, uma equipa totalmente nova, começámos com três derrotas. Absolutamente impensável chegarmos ao final da época com uma subida de divisão. O Oliveira do Hospital está entre as 24 equipas da Liga 3, sabendo que vai ser uma liga competitiva. [Na primeira fase,] terminámos em segundo, só atrás da União de Leiria, terminámos à frente de sete equipas que tinham orçamentos que não eram mais altos, eram o dobro e o triplo do nosso. Portanto, este tipo de situações não acontece todas as épocas. Era absolutamente impensável isto acontecer. A partir de janeiro, acreditava que era possível, fazendo o nosso trabalho calados. Por isso, foi feito o reforço em janeiro para acrescentar opções. Tínhamos um plantel curto em termos de opções. Com os jogadores que falei disse-lhes que acreditava que podíamos ficar nos cinco primeiros lugares. Depois terminares em segundo e terminares em primeiro na Fase de Acesso à Liga 3 é ótimo, é impossível dizer que não.

Bola na Rede: Não deixa de ser curioso que o Oliveira do Hospital, embora tenha realizado mais jogos, acabe por fazer mais pontos do que, por exemplo, o Trofense, vencedor do Campeonato de Portugal. Não fosse uma União de Leiria tão dominante na vossa série e podíamos ter visto o Oliveira do Hospital na Fase de Acesso à Liga 2?

Tozé Marreco: Eu disse isso uma vez na brincadeira, mas é verdade. A União de Leiria que era uma equipa fortíssima. Eles tiveram dificuldades connosco, porque empatámos os dois jogos e, principalmente o primeiro, foi injusto o resultado. A União de Leiria era a equipa mais forte e, se calhar, a análise que fazes bate certo. Fomos os segundos classificados a 13 pontos deles. Depois ficámos à frente de equipas como o Benfica de Castelo Branco, Condeixa, Marinhense, equipas que apostaram fortíssimo para estarem na Liga 3. Podia ter sido uma surpresa ainda maior.

Bola na Rede: Já falaste da questão de teres que te adaptar ao contexto para onde vais. Sentes que com o avançar da tua carreira como treinador, e com um leque mais alargado de projetos entre os quais possas optar, essa adaptação se vai diluir, porque vais escolher melhor o contexto?

Tozé Marreco: Eu tenho uma ideia de jogo “ótima”, ou seja, posso aplicá-la de forma diferente. Acho que há sempre coisas que temos que adaptar. Estou perfeitamente aberto a mudar muitas das coisas que penso se achar que é o melhor para a equipa, para o campeonato ou para a série. A Liga 3, por exemplo, vai ser extremamente competitiva, mas não sabemos que tipo de futebol vai existir, vai ser muito dúbio. Pode-se ir diluindo alguma parte, pode fazer sentido, mas, na minha cabeça, também faz sentido adaptar ao máximo para a equipa ter sucesso, tal como perceber a análise ao adversário para o condicionar ao máximo e para nós estarmos confortáveis no nosso jogo. Pode ir decrescendo, mas acho que vai ter sempre que acontecer essa adaptação ao contexto. Eu, no meu campo sintético, em Oliveira, num passe de dez metros, a bola saltava sempre. Vou estar a forçar a saída baixa, a saída por dentro sabendo que basta uma má receção para o adversário estar próximo da nossa baliza? Falava muitas vezes aos jogadores no custo-benefício. Vale a pena pôr aquele passe e temos segurança para o fazer? Ok. Se não, o erro, e nós perdemos os dois primeiros jogos por erros na primeira fase de construção, vai-nos sair muito caro, ainda para mais no nosso campo. Não deixámos de o fazer, mas pensámos no custo-benefício. Essas adaptações é que acho que ajudam a equipa a ter sucesso.

Bola na Rede: Já conseguiste aplicar a tua ideia de jogo na plenitude?

Tozé Marreco: O futebol de formação, quando não tens a pressão de ter que ganhar, dá-te a oportunidade de experimentar. No ano passado [2019/20], acabei a jogar no sistema que gostava mais, que agora não sei qual é que gosto mais, a verdade é essa. Na segunda fase, tínhamos dois estilos de jogo, variávamos. Não gosto só de um estilo de jogo associativo, apoiado, curto, gosto de alternar o estilo de jogo. Gosto de jogar curto, gosto de jogar longo, gosto de procurar a profundidade, gosto de atrair dentro para jogar fora, quando vejo que as equipas têm dificuldade no jogo interior, abrimos muito bem o jogo para depois procurarmos por dentro. Não gosto só de um tipo de jogo. Em termos de sistema, aquele em que o ano passado joguei era um 4-1-3-2, que, se calhar, era o meu sistema preferido e a formação deu-me oportunidade de o pôr em prática a 100%.

Francisco Grácio Martins
Francisco Grácio Martinshttp://www.bolanarede.pt
Em criança, recreava-se com a bola nos pés. Hoje, escreve sobre quem realmente faz magia com ela. Detém um incessante gosto por ouvir os protagonistas e uma grande curiosidade pelas histórias que contam. É licenciado em Jornalismo e Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e frequenta o Mestrado em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social.

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