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Tozé Marreco e golos formaram durante anos uma simbiose perfeita. Aliás, é até hoje o jogador com mais golos na Taça da Liga. A carreira dentro das quatro linhas, por opção do próprio, acabou cedo. Agora, é fora do campo que celebra quando as bolas entram na rede. Começou o percurso como treinador na formação, nos juvenis da Académica, sendo que, na temporada que findou, esteve ao serviço do Oliveira do Hospital, clube com o qual conseguiu o acesso à nova Liga 3 e onde vai continuar em 2021/22.
– Da grande área ao banco de suplentes –
«O melhor Tozé jogava muito facilmente na Primeira Liga, o pior ia ter dificuldades no distrital»
Bola na RedeUma vez que terminaste a carreira de jogador há relativamente pouco tempo e agora estás a iniciar a de treinador, o Tozé Marreco treinador contratava o Tozé Marreco jogador?
Tozé Marreco: Dependia da forma como fosse jogar, muito sinceramente. Dependia do tipo de campo, dependia do clube, dependia da forma como a equipa fosse montada. Também tenho a certeza de uma coisa, quem contratasse o Tozé jogador sabia que dez golos, de uma forma ou de outra, iam acabar por aparecer.
Bola na RedeDizias-lhe para ele fazer alguma coisa diferente do que fazia antes?
Tozé Marreco: Obviamente que o Tozé jogador cometeu erros em alguns momentos, isso faz parte do crescimento. Também te digo que o Tozé jogador sempre foi honesto e sincero com as pessoas que o rodeavam. Cometeu erros em algumas tomadas de decisão na carreira. Se fosse possível alterar alguns momentos, com certeza que alterava.
Bola na RedeUma vez, admitiste que não eras um jogador fácil. Por que é que dizes isso?
Tozé Marreco: Disse isso porque precisava de ter muita confiança naquilo que estava à minha volta. Precisava de ter ali alguém sempre a ajudar-me, sempre a apoiar-me. Se sentia que duvidavam de mim, deixava-me cair. O melhor Tozé jogava muito facilmente na Primeira Liga, sei que o pior Tozé ia ter dificuldades no distrital. Se sentisse que um treinador na Primeira Liga confiava em mim, eu daria uma resposta excelente, se fosse para uma equipa de distrital e sentisse que o treinador duvidava um pouco de mim, eu não ia conseguir dar resposta. Foi um dos problemas da minha carreira enquanto jogador que não consegui resolver até ao fim. Por isso, disse que não era um jogador fácil. Tenho consciência que para um treinador que tem 20 e poucos jogadores para cuidar e olhar, sabia que não era fácil essa gestão comigo. Quando a conseguiram fazer minimamente, dei sempre respostas muito boas.
Bola na RedeCruzaste-te com o mister Vítor Oliveira que é considerado um senhor do balneário por lidar muito bem com os jogadores. Normalmente, diz-se que ele só conseguia o que conseguia, porque tinha um lote de jogadores da sua confiança que levava consigo para os clubes para onde ia. Vês as coisas desta forma? Consideras que eras um desses jogadores?
Tozé Marreco: Não, não concordo. Ele sempre teve o mérito de escolher bem os jogadores. Depois havia uma questão que, para ele, era fundamental, que era o caráter e aquilo que o jogador era extracampo. Ele aí confiava em mim, porque falávamos todas as pré-épocas sobre alguns jogadores em que ele tinha interesse para perceber como é que eles eram nesse aspeto. Ele ia variando, não gostava muito de ter o jogador preso três, quatro anos. Potenciava e explorava o jogador ao máximo e era muito exigente nesse momento. A grande qualidade dele era a frontalidade na gestão do balneário. Foi isso que senti sempre que faltou na minha carreira: quem está à frente, ser verdadeiro e só haver uma cara. [Com Vítor Oliveira,] sabias que o caminho era aquele e quem não estava naquele caminho ia ter chatices, seja A, B ou C, não interessa. Nessa gestão, ele era muito bom. Se tu disseres “ele fazia alguma coisa diferente no treino?”. Não, tudo absolutamente básico.
Bola na RedeOutra das confissões que já fizeste foi a de que sentias saudades de marcar golos. Qual é a diferença entre celebrares um golo como jogador e como treinador?
Tozé Marreco: Este ano tive, efetivamente, golos maravilhosos para festejar. Também há ali uma adrenalina grande. Houve golos que parecia que tinha sido eu a marcá-los. Festejei muitos deles, porque, na maior parte das vezes, os golos têm que ser festejados. A adrenalina é diferente, mas o sentimento de orgulho e até de alguma pertença é igual. Tinha sempre, antes dos jogos, uma ansiedade. Não era ansiedade de nervosismo, era a ansiedade de querer ver o jogo. É aquele momento em que tu sentes “ok, treinaste isto, falaste aquilo, sabíamos que eles podiam fazer mal ali, nós vamos criar-lhes dificuldades” e queria ver se aquilo ia surtir efeito ou não no jogo. Isso sim era a minha grande curiosidade. O golo mais incrível que tivemos, o último golo, nem festejei, porque toda a gente saltou e olhei para o relógio e pensei que tínhamos dois minutos para não sofrer golo. Só estava preocupado, nesses dois minutos, em segurar a vantagem. Não festejei o golo, foi o único em que fiquei no banco, porque a minha preocupação foi essa.
Bola na RedeÉ curioso falares nessa ansiedade de ver o jogo e depois falares nesse golo. No outro dia, publicaste um plano de treino onde havia um exercício onde treinavam o “canto do cacho” e o golo nasce desse esquema tático.
Tozé Marreco: Fala-se em estrelinha e sorte no futebol. Obviamente, não há campeões sem sorte, tem que existir alguma coisa que nos ajude em alguns momentos. A verdade é que, nesse plano de treino, está lá a entrada do Bonilla, que fez o golo, nessa zona. Metemos o Alphonse no campo, essencialmente, por causa das bolas paradas. Ele era o nosso melhor batedor de bolas paradas e praticamente não jogou esta época, mas eu sabia que ele batia como ninguém. Depois, tivemos a sorte do jogo, mas também a procurámos. Sabíamos que o Loures tinha dificuldades naquela zona. Correu bem, como outras tantas correram mal.

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– Objetivos, formação e Oliveira do Hospital –
«Não quero entrar nas ligas de cima apenas porque era bom jogador»
Bola na RedeQuando eras jogador disseste que se te chamasses Marrecovic sabias bem onde estavas, isto tendo em conta a valorização do jogador estrangeiro em detrimento do português. Nos últimos tempos, o treinador português tem sido bastante valorizado. Para singrares como treinador já não precisas de te chamar Marrecovic?
Tozé Marreco: Não acredito que seja necessário. Essa frase, na altura, foi uma defesa do jogador português. Agora, também por questões financeiras, estamos a olhar e estamos a perceber que a formação, que o potenciar o jogador, além de ser proveitoso ao nível da qualidade, é proveitoso ao nível financeiro e cada vez mais os clubes estão a olhar para as camadas jovens, para a formação e para o jogador português. Houve momentos na carreira enquanto jogador que eu senti, como sentiram outros colegas, que se fosse outro jogador a fazer aquilo noutra liga qualquer iria ser olhado de outra forma.
Bola na RedeQuando assumiste que querias fazer uma carreira melhor como treinador do que a que fizeste como jogador, estabeleceste algum objetivo?
Tozé Marreco: Não. Quero ir passo a passo. Não quero entrar nas ligas de cima apenas porque era bom jogador. Quero demonstrar trabalho. Se as pessoas acharem que o meu trabalho e a forma como vejo o jogo é interessante para o clube, muito bem. Não quero dar passos em que não me sinta confortável. Já podia ter dado passos grandes no decorrer desta época e não o quis fazer. Não acho que faça grande sentido. Quero ir passo a passo, ser consistente nos passos que dou para conseguir trabalhar da forma que quero. Não quero entrar na Segunda Liga, não quero entrar na Primeira Liga à força. Quando as pessoas sentirem e eu sentir que é o momento para entrar, com certeza que isso vai acontecer. Agora não, quero dar passos consistentes para fazer a carreira que quero e que vou conseguir fazer com certeza.
Bola na RedeVamos pegar naquilo que é a tua experiência como treinador de formação nos juvenis da Académica. Ainda agora, a propósito da derrota da seleção nacional sub-21 na final do Europeu, se falou muito que só as equipas principais é que têm o objetivo de conquistar troféus, as equipas de formação têm outros objetivos. Como é que olhas para a importância da formação na estrutura de um clube?
Tozé Marreco: Tem que haver um meio-termo. O mais importante é potenciar os jogadores, desenvolver aquilo que têm de melhor e tentar melhorar as suas carências, mas, a partir de certa altura, também é importante ganhar. Se me disserem “até aos juvenis podemos deixar isso um pouco de lado”, acredito. No entanto, quando estamos a disputar um campeonato nacional de juvenis ou juniores, tens que ganhar no modelo de jogo da tua formação, não abdicando disso. Não vamos meter 11 jogadores atrás da linha da bola para ganhar um jogo. Tem que se ganhar consoante o modelo de jogo definido. Agora, tem que se querer ganhar, tem que se incentivar os miúdos a ganhar, a querer ganhar, a lutar para ganhar, saber lidar com a derrota, porque, mais tarde ou mais cedo, vai fazer parte de quem anda no mundo do futebol. Ganhar é bom, é muito bom. A verdade é que está no top quem ganha mais vezes. Quanto à importância da formação, cada vez mais quem está à frente do futebol percebe que é parte essencial. Custa-me ver clubes de Primeira Liga e Segunda Liga que ainda não dão as condições certas para os miúdos se desenvolverem. Está fácil vender jogadores. Está fácil projetar os jogadores. Por isso, é um erro tremendo quando não se dá condições muito boas à formação para se trabalhar. Há bons jogadores em todo o lado, então neste país, é incrível. Depois, é preciso metê-los no contexto certo, com treinadores com formação, para os desenvolver.
Bola na RedeDeve ser bastante realizador veres os jogadores que treinaste nos juvenis começarem a aparecer na equipa principal.
Tozé Marreco: Para quem está na formação, é o maior golo veres os miúdos que estiveram contigo começarem a aparecer e a jogar. Isso é o objetivo da formação, projetar os miúdos da melhor forma. A Académica, ao longo destes anos, tem um potencial muito grande nas suas camadas jovens e continua a ter. São miúdos com um potencial muito bom a nível nacional. Nós, nesse ano, fomos a única equipa a derrotar o Benfica, empatámos no Sporting, jogámos de igual para igual com as melhores equipas do país. Os miúdos acreditavam que iam lutar para serem campeões nacionais. Efetivamente, íamos, se não fosse a questão Covid.
Tozé Marreco é o novo treinador do Oliveira Hospital. pic.twitter.com/g5aMMrrivL
— Diário de Transferências (@DTransferencias) June 18, 2020
Bola na RedeComo é que caracterizas a equipa do Oliveira do Hospital que montaste na época que agora terminou?
Tozé Marreco: Tentei variar o jogo. Dentro dos jogadores que consegui, do campo que tínhamos, do clube que tínhamos, do tipo de jogo da nossa série, montei a equipa para potenciar ao máximo as qualidades dos nossos jogadores e tentar que, no nosso campo, cometêssemos o menor número de erros possível. Éramos uma equipa com um ataque à profundidade muito muito bom, dos melhores. Trabalhávamos muito, em termos ofensivos, movimento de apoio/rutura, projeção dos laterais e a variação rápida do centro de jogo. São as premissas a nível ofensivo, que, claramente, era a nossa parte mais forte. Sentimos algumas dificuldades quando as equipas baixavam o bloco, mas depois, essencialmente quando íamos a um relvado, estávamos perfeitamente à vontade. Não era fácil no nosso campo, em casa, circulares a bola rápido e isso condiciona muito quando queres fazer organização ofensiva contra bloco baixo. Quando jogámos em relvados, fizemos isso bem. Insisti muito na variação do jogo, jogar curto e depois procurar profundidade. A nível defensivo, havia uma premissa defendida por nós que era a de nos adaptarmos em função das características fortes do adversário. Acho que esteve à vista a organização. Tínhamos sempre coberturas próximas, os momentos de pressão que treinávamos estavam bem definidos, os jogadores sabiam quando é que tinham que saltar para a pressão alta e em que momento. O alinhamento da nossa linha defensiva, aquilo a que chamo os três A’s, os apoios, o alinhamento e os ajustes, estavam muito bem feitos, porque insistíamos nisso todas as semanas no trabalho setorial. A linha defensiva estava muito bem coordenada. Organização e variabilidade do jogo seria o que destacaria mais em termos defensivos.
Bola na RedeEm termos de sistema tático, jogavam num 3-4-3.
Tozé Marreco: Eu não gostava desse sistema ao início. Lá está, indo ao encontro do que tínhamos disponível e do contexto todo, achei que essa seria a melhor receita para abordar a época, porque começámos noutra forma. A partir de certa altura, defendíamos em 5-4-1 ou 5-3-2, era o ponto de partida. Defendemos também em 4-5-1 e 4-4-2, fomos variando. A maior parte dos jogos, o ponto de partida foi o 5-4-1. Íamos variando. Com a União de Leiria jogámos as duas vezes em 5-3-2 para proteger muito a zona central, porque eles metiam muita gente por dentro. Havia jogos em que, nessa mesma linha de pensamento, não me importava de libertar os laterais adversários, porque tinha três centrais e o guarda-redes e sabia que podiam cruzar à vontade que ia ser difícil fazerem-nos mal. Princípios muito bem definidos, isso não mudaria, independentemente do posicionamento. O espaçamento, as coberturas, movimentos de rutura, bloco junto, linhas muito próximas, controlo da profundidade bem feito, isso não mudava, mudava sim o posicionamento dos jogadores.
Bola na RedeDás conselhos especiais aos teus avançados?
Tozé Marreco: No trabalho setorial, quer a nível ofensivo, quer defensivo, dou de igual forma. Na parte final do treino, chamo o setor ofensivo para trabalhar o ataque da área e aí pode haver mais alguma coisa em que eu possa ajudar. Aí posso ir dizendo uma ou outra questão mais específica, sobretudo no ataque da área, do ataque aos cruzamentos. Como é que o colega cruza? Que tipo de colega é que cruza? São todos diferentes e é preciso ler esse momento. Estive ali alguns anos e consigo ajudar num ou noutro pormenor que, às vezes, pode fazer a diferença. Mas a mesma coisa no setor defensivo. Quando estás dez ou 15 anos a jogar numa posição, vais tendo ali ensinamentos que podem ajudar. Tanto que o elemento da equipa técnica que eu queria acrescentar no futuro seria uma pessoa ligada ao futebol e que tivesse sido defesa, porque há ali pormenores que a mim me escapam. Uma pessoa que foi defesa 20 anos, com certeza poderá ajudar em mais algum momento.
– Da adaptação e variabilidade nasce a surpresa –
«Estou perfeitamente aberto a mudar muitas das coisas que penso se achar que é o melhor para a equipa»
Bola na RedeQue rescaldo fazes da época em termos de objetivos conseguidos?
Tozé Marreco: Era impossível pedir melhor. Partindo para a época com semanas de atrasado, com um plantel novo, uma equipa totalmente nova, começámos com três derrotas. Absolutamente impensável chegarmos ao final da época com uma subida de divisão. O Oliveira do Hospital está entre as 24 equipas da Liga 3, sabendo que vai ser uma liga competitiva. [Na primeira fase,] terminámos em segundo, só atrás da União de Leiria, terminámos à frente de sete equipas que tinham orçamentos que não eram mais altos, eram o dobro e o triplo do nosso. Portanto, este tipo de situações não acontece todas as épocas. Era absolutamente impensável isto acontecer. A partir de janeiro, acreditava que era possível, fazendo o nosso trabalho calados. Por isso, foi feito o reforço em janeiro para acrescentar opções. Tínhamos um plantel curto em termos de opções. Com os jogadores que falei disse-lhes que acreditava que podíamos ficar nos cinco primeiros lugares. Depois terminares em segundo e terminares em primeiro na Fase de Acesso à Liga 3 é ótimo, é impossível dizer que não.
Bola na RedeNão deixa de ser curioso que o Oliveira do Hospital, embora tenha realizado mais jogos, acabe por fazer mais pontos do que, por exemplo, o Trofense, vencedor do Campeonato de Portugal. Não fosse uma União de Leiria tão dominante na vossa série e podíamos ter visto o Oliveira do Hospital na Fase de Acesso à Liga 2?
Tozé Marreco: Eu disse isso uma vez na brincadeira, mas é verdade. A União de Leiria que era uma equipa fortíssima. Eles tiveram dificuldades connosco, porque empatámos os dois jogos e, principalmente o primeiro, foi injusto o resultado. A União de Leiria era a equipa mais forte e, se calhar, a análise que fazes bate certo. Fomos os segundos classificados a 13 pontos deles. Depois ficámos à frente de equipas como o Benfica de Castelo Branco, Condeixa, Marinhense, equipas que apostaram fortíssimo para estarem na Liga 3. Podia ter sido uma surpresa ainda maior.
Sabem que mais?
A melhor classificação de sempre do clube está garantida.
Hoje fechámos o nosso lugar nos cinco primeiros.Parabéns a todos. São os nossos heróis.
Um orgulho Oliverense.🔵⚪️#FCOH #SomosFCOH #JuntosPeloFCOH pic.twitter.com/qyw104rUv5
— FCOliveiradoHospital 🇵🇹 (@FCOH_futebol) March 14, 2021
Bola na RedeJá falaste da questão de teres que te adaptar ao contexto para onde vais. Sentes que com o avançar da tua carreira como treinador, e com um leque mais alargado de projetos entre os quais possas optar, essa adaptação se vai diluir, porque vais escolher melhor o contexto?
Tozé Marreco: Eu tenho uma ideia de jogo “ótima”, ou seja, posso aplicá-la de forma diferente. Acho que há sempre coisas que temos que adaptar. Estou perfeitamente aberto a mudar muitas das coisas que penso se achar que é o melhor para a equipa, para o campeonato ou para a série. A Liga 3, por exemplo, vai ser extremamente competitiva, mas não sabemos que tipo de futebol vai existir, vai ser muito dúbio. Pode-se ir diluindo alguma parte, pode fazer sentido, mas, na minha cabeça, também faz sentido adaptar ao máximo para a equipa ter sucesso, tal como perceber a análise ao adversário para o condicionar ao máximo e para nós estarmos confortáveis no nosso jogo. Pode ir decrescendo, mas acho que vai ter sempre que acontecer essa adaptação ao contexto. Eu, no meu campo sintético, em Oliveira, num passe de dez metros, a bola saltava sempre. Vou estar a forçar a saída baixa, a saída por dentro sabendo que basta uma má receção para o adversário estar próximo da nossa baliza? Falava muitas vezes aos jogadores no custo-benefício. Vale a pena pôr aquele passe e temos segurança para o fazer? Ok. Se não, o erro, e nós perdemos os dois primeiros jogos por erros na primeira fase de construção, vai-nos sair muito caro, ainda para mais no nosso campo. Não deixámos de o fazer, mas pensámos no custo-benefício. Essas adaptações é que acho que ajudam a equipa a ter sucesso.
Bola na RedeJá conseguiste aplicar a tua ideia de jogo na plenitude?
Tozé Marreco: O futebol de formação, quando não tens a pressão de ter que ganhar, dá-te a oportunidade de experimentar. No ano passado [2019/20], acabei a jogar no sistema que gostava mais, que agora não sei qual é que gosto mais, a verdade é essa. Na segunda fase, tínhamos dois estilos de jogo, variávamos. Não gosto só de um estilo de jogo associativo, apoiado, curto, gosto de alternar o estilo de jogo. Gosto de jogar curto, gosto de jogar longo, gosto de procurar a profundidade, gosto de atrair dentro para jogar fora, quando vejo que as equipas têm dificuldade no jogo interior, abrimos muito bem o jogo para depois procurarmos por dentro. Não gosto só de um tipo de jogo. Em termos de sistema, aquele em que o ano passado joguei era um 4-1-3-2, que, se calhar, era o meu sistema preferido e a formação deu-me oportunidade de o pôr em prática a 100%.
– De olhos na Liga 3 –
«Esta Liga 3 vai ser uma Segunda Liga»
Bola na RedeO mister Toni Pereira diz, muitas vezes, que, na Primeira Liga, se fazes um passe longo é jogar na profundidade, se fazes um passe longo, no Campeonato de Portugal, é chutão na frente. Também se trabalha bem no Campeonato de Portugal?
Tozé Marreco: Disso não há dúvidas. É o que te digo, a variabilidade é das maiores riquezas que o jogo pode ter. Às vezes, uma transição pode ser tão bonita como uma organização ofensiva que após 30 passes acabe em golo. Fazer os 30 passes só faz sentido se for para desmontar a equipa adversária, não é fazer passes por fazer. Não há só um tipo de futebol e choca-me ouvir “ah… fizeram um golo em transição”. Não vale? Quer dizer, se o Ederson meter diretamente no Sterling ou no Aguero não conta? Faz-me confusão isso. Não há só um tipo de futebol e temos que respeitar todos. Também perdi, este ano, jogos em que o adversário rematou duas vezes. E então? Mérito deles. Não os posso deixar chutar as duas vezes. São fortes na transição? Não os posso deixar transitar, se não eles vão-me matar. Se puder chegar à baliza adversária em dois passes, prefiro chegar em dois passes do que fazer 50. Para algumas fações parece que, para ser bonito, tem que se fazer os 50 e isso não concordo.
Bola na RedeDe onde vem a tua admiração por José Mourinho e o que é que as tuas equipas bebem das equipas dele?
Tozé Marreco: A equipa que gostei mais de ver jogar futebol foi o Porto de 2004. O treinador português tem que agradecer ao Mourinho as portas que ele abriu. É inacreditável o que conquistou e as portas que abriu para outros colegas poderem aparecer. A equipa que mais me marcou foi o Porto de 2004, porque havia essa alternância no jogo e porque, em termos defensivos, tinha uma capacidade de pressão inacreditável. A equipa conseguia ser prática e jogar bonito, ao mesmo tempo. Era bastante completa. [Mourinho], em termos de personalidade, é aquilo que ainda gosto mais que é a frontalidade, a energia, a paixão que ele tem no jogo. Para mim, vai ser sempre referência. Agora também está na moda bater no Mourinho pela forma como ele joga. Em termos de personalidade e de organização será sempre uma referência. Nesse Porto de 2004, com jogadores que vinham do nada, ele conseguiu ser campeão europeu.
Bola na RedeNesta equipa do Oliveira do Hospital, tens dois antigos colegas de equipa: o André Fontes, no Desportivo de Chaves e na Naval, e o Nando Pedrosa, no Tondela. É fácil separares as águas? De que forma gostas de te posicionar dentro do grupo?
Tozé Marreco: Acho que quando as regras são claras, não pode haver grande dúvida. O Fontes foi o primeiro jogador com quem falei na altura em que aceitei o convite. Por terem jogado comigo, não me precisam de tratar por mister, podem-me tratar por Tozé à vontade, não demonstra mais ou menos respeito. Agora, têm que respeitar as minhas opções e têm que cumprir as regras que estão definidas. A partir daí, não vai haver problema nenhum. Há momentos em que é para treinar, há momentos em que é para brincar, há momentos em que é para nos rirmos. Os jogadores, quando são inteligentes, percebem isso. Não houve problemas nenhuns. Conhecia bem o caráter do Fontes, por isso é que também o fui buscar. Sabia que podia ser uma referência importante ali dentro, além da qualidade de jogo que nos dá. Em muitos momentos, partilhei opiniões com ele. A última decisão é minha, eu é que sou o responsável por isso. Não há grandes dúvidas nesse momento. As regras são claras, não precisei de meter travão em nenhum deles. Souberam os dois lidar com a situação.
Se vos disserem que não há heróis, é mentira.
Nós temos os nossos, vocês são uns heróis.
Obrigado.
Rumo à fase de acesso da Liga 3.#FCOH #SomosFCOH #JuntosPeloFCOH #NãoFicaNinguémParaTrás pic.twitter.com/ExH34YAViq
— FCOliveiradoHospital 🇵🇹 (@FCOH_futebol) April 10, 2021
Bola na RedeNa construção do plantel, desempenhaste funções de scouting, geriste o início do processo de negociação de alguns jogadores… Vês alguma vantagem nesse acumular de papéis ou essa situação é apenas fruto de uma estrutura menos profissionalizada?
Tozé Marreco: Acho que o mais importante de tudo é a escolha dos jogadores. Nesse processo quero estar sempre envolvido. Se num sítio me dizem que não posso escolher jogadores, será difícil eu ir. É lógico que tem que haver um acordo entre a estrutura e o treinador, mas o treinador tem que ter uma voz ativa no processo de contratação. Não discuto questões financeiras com os jogadores, não quero fazer parte disso. Quero fazer parte sim da escolha dos jogadores, porque acho essencial. É o momento mais importante da época. Por isso, é que chegar um treinador a meio ou no final da época para um plantel que não foi ele que escolheu não é fácil. Quero ser voz ativa nesse processo, porque acho que é essencial. Quero ter sempre a minha base de dados organizada para aquilo que o futuro traz, quero ter jogadores referenciados desde guarda-redes a pontas de lança para, num projeto para onde for, saber que tenho aqueles jogadores e ver “ok, aquele dá para a Primeira Liga”, “aquele tem potencial para jogar na Segunda Liga”. Se tiver no meu plantel um jogador que é referência e ele sair, já tenho ali dois, três nomes preparados para o caso disso acontecer. Além da adaptação ao contexto, a capacidade de antecipar problemas, seja no campo, no balneário ou neste tipo de questão, tem que ser uma qualidade do treinador. Tento antecipar esses problemas fazendo uma base de dados bastante alargada. A maior loucura de ter aceitado isto [Oliveira do Hospital] foi não conhecer absolutamente nada. Desde o final da época até agora, temos as séries todas já vistas com jogadores que achamos que têm qualidade para os diferentes contextos que aí vêm.
Bola na RedeQue problemas é que a Liga 3 vem resolver e que oportunidade vai proporcionar?
Tozé Marreco: Vem separar as melhores equipas do Campeonato de Portugal, aquelas que têm mais condições para chegarem a uma Segunda Liga. É lógico que depois vão haver surpresas como o Oliveira do Hospital e isso é a beleza do futebol. Esta Liga 3 vai ser uma Segunda Liga, não tenho dúvidas nenhumas. Em termos de qualidade e de competição entre as equipas, vai ser uma Segunda Liga praticamente. Acredito até que vão haver clubes nesta Liga 3 com um orçamento maior do que muitos clubes da Segunda Liga. Vai ser uma oportunidade incrível para os jogadores para ainda estarem mais visíveis com as transmissões televisivas que vão ter e com o impacto que o campeonato vai ter. Vai ser uma liga fortíssima. Foi uma revisão que faz todo o sentido para preparar estas equipas e para as equipas que caem da Segunda Liga não caírem diretamente no Campeonato de Portugal. Vai dar uma competição e uma emoção ao jogo muito grande. A oportunidade grande vai ser para os jogadores de estarem ainda mais envolvidos num contexto que vai ser profissional. Na Zona Sul temos Vilafranquense, Torreense, Alverca, União de Leiria, equipas que podiam estar perfeitamente na Segunda Liga. Os clubes vão apostar e vai envolver mais dinheiro, o que é ótimo para os jogadores poderem desenvolver as suas carreiras. Concordo plenamente com a questão dos relvados. Depois, espero que haja um controlo efetivo e que não haja problemas a nível salarial. Tem tudo para ser uma competição muito boa.
– Em tempos, goleador –
«O Tondela era o único clube em que não me via como suplente»
Bola na RedeComo jogador, deste os teus primeiros passos como profissional no estrangeiro. Alguma vez pensaste em ser daqueles jogadores que é emigrante a vida toda ou sempre tiveste o objetivo de regressar a Portugal e te mostrares nos nossos campeonatos?
Tozé Marreco: Sempre tive a ambição de jogar aqui. Costumo dizer que tive que ir à volta. Havia sempre a ambição de jogar aqui. Se calhar, essa ambição foi um erro, podia ter ficado. Depois, tinha as questões familiares que me obrigavam sempre a fazer muitas viagens. Chegou uma altura em que também queria estar mais perto de casa e mostrar que podia jogar em Portugal. Pensei sempre em ir jogar para fora para depois voltar.
Bola na RedeQual era aquele jogar para quem tu olhavas e consideravas que tinha características parecidas com as tuas e, por isso, gostavas de repercutir os seus movimentos e ações?
Tozé Marreco: Se me perguntares por uma referência, dizia-te o Falcão. Quando eu jogava nas Aves, ia ver muitos jogos do Porto, porque na televisão não tens noção do tipo de movimentos que o Falcão fazia. O van Nistelrooy na área também era qualquer coisa… Mas, se me perguntares uma referência assim grande, dir-te-ia o Falcão pela movimentação que ele fazia e porque, tal como o Jardel, vias o tipo de movimentos na área e não era por acaso que eles apareciam sozinhos. Só consegues perceber isso estando no estádio. Perceber como é que se escondem dos defesas, como é que se posicionam antes, que tipo de contramovimentos é que fazem… Depois, as pessoas dizem “olha, estão sozinhos na área”. Estão sozinhos, porque conquistaram esse espaço. Eles sabem onde é que o colega está, o colega sabe onde é que eles vão aparecer. As coisas não acontecem por acaso. O Falcão e o Jardel na área eram absolutamente temíveis.
Bola na RedeO que faltou para fazeres uma carreira mais sólida na Primeira Liga?
Tozé Marreco: Faltou coragem e uma oportunidade. Sabes que nas duas vezes que fui para a Primeira Liga fui para contextos para fugir à descida. Um jogador com as minhas características precisava de outro tipo de jogo e não jogar ali na aflição. Aí não houve oportunidade para me conseguir mostrar. Quando houve oportunidades, após a época em Tondela, senti que havia ali uma ou outra equipa que queria fazer essa aposta em mim, mas aí já preferi sair por uma questão financeira.
Bola na RedeJá admitiste publicamente que podias ter continuado no Tondela no ano em que subiram de divisão só que não o fizeste por sentires que não ias ter um papel principal na equipa. Tomarias hoje outra decisão? Sentes que perdeste aí uma grande oportunidade?
Tozé Marreco: Sou sincero, aí foi parte do orgulho. O Tondela era o único clube em que não me via como suplente. Depois das épocas que fiz em Tondela, depois de fazer 20 e tal golos… O [Vítor] Paneira foi um pai para mim, é um amigo, é uma pessoa que estimo muito, mas nem eu lhe podia pedir para ele me garantir que ia jogar, nem ele o ia fazer. As condições que o Tondela me podia proporcionar naquela altura, comparado com as propostas que tive de fora, entendi que era o melhor para mim. Não posso dizer que me arrependi, porque fui para uma liga incrível, uma liga maravilhosa [Liga Belga] e onde me pagavam quatro vezes mais do que aquilo que iria ganhar no Tondela ou no Boavista, que foi o clube que mais fez força para que fosse para lá. Primeiro, não ia aceitar ser suplente em Tondela e, depois, a questão do Boavista foi uma questão financeira. O Boavista encaixava-se no tipo de clube que para mim iria fazer sentido. Acreditava que era um clube que me poderia ter levado para outros patamares nesse ano. Com a idade com que estava, tive que pensar no meu futuro e tenho que aceitar a proposta de uma liga que era também interessante.
“TOZÉ MARRECO TERMINA LIGAÇÃO AO CD TONDELA” – Obrigado pelos 36 golos de verde e amarelo! http://t.co/n02SSXRzoW pic.twitter.com/WLCFXa0mJB
— CD Tondela (@CDTondela1933) July 19, 2015
Bola na RedeSeria possível dares continuidade, num contexto de Primeira Liga, ao rendimento que trazias da Segunda Liga?
Tozé Marreco: Há uma coisa que é inegável. Jogadores que fazem mais de 15 golos na Segunda Liga, fazem golos na Primeira Liga. Fazem, não tenho dúvidas. Paulinho, Dyego Sousa… É só pensar um pouco. Quem faz 15 golos na Segunda Liga vai fazê-los na Primeira Liga. Eu também os fazia, não tenho dúvidas. Se os jogadores têm qualidade para fazer 15, 20 golos, como eu fiz, na Segunda Liga, têm capacidade para os fazer na Primeira.
Bola na RedeNa época em que és Melhor Marcador da Segunda Liga, foste também considerado o Melhor Jogador. Um avançado só é bom se fizer golos?
Tozé Marreco: Em algumas análises, sim. O adepto comum então… Podes fazer um jogo incrível, podes pressionar nos timings certos, podes organizar a equipa porque o avançado tem um papel preponderante nos momentos de pressão, podes orientar pressão, podes segurar 50 bolas, podes ganhar 50 duelos, mas se rematas duas vezes e não fazes golo, o adepto comum vai-te dizer que não fizeste um bom jogo. Até alguns treinadores, na avaliação que fazem, fazem-no muito pela questão dos golos. Posso-te dizer que o meu avançado [David Silva] não fez golo na primeira volta toda e não o tirei. Aquilo que ele nos dava no resto era tanto que só faltava o golo e eu sabia que, mais dia, menos dia, ele ia acabar por acontecer. Houve aí uma fase em que se contratavam metros. Se era um avançado que tinha 1,95m, ok. E também houve a fase do avançado que corre por correr. Acho que tem que haver aqui um equilíbrio. Tento procurar avançados com essa capacidade que nos dá em todo o jogo, mas também que finalizem bem. Também não quero um avançado que faz um golo por época.
Bola na RedeJá pensaste no que vais dizer ao Paulinho se ele bater o teu recorde de golos na Taça da Liga?
Tozé Marreco: É lógico que vá acontecer. Se não for nesta época, será daqui a duas épocas. Pode ser que seja uma forma da Liga reconhecer o Melhor Marcador. Acho que isso aí vai acontecer quando passar o Paulinho ou outro nome qualquer para a frente. Não houve esse reconhecimento por parte da Liga de eu estar estes anos todos à frente dos melhores marcadores e acredito que isso vá acontecer quando o Paulinho passar e acho que é mais do que justo, porque ele é 50 mil vezes melhor avançado do que eu.
Artigo revisto por Joana Mendes










