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Natural de Vila Nova de Gaia, foi no FC Porto que Manuel José deu os primeiros pontapés na bola. Aos 41 anos, assume que está na hora de pendurar as chuteiras ao serviço do CD Candal, clube que lhe deu muito e a quem fez questão de retribuir. O Bola na Rede foi conhecer um bocadinho melhor um dos jogadores mais “chatos” para qualquer adversário, no bom sentido da palavra, que passou pelo nosso campeonato.
«Tive 12 anos no FC Porto, saí aos 23 anos de idade e acabei por fazer um jogo pela equipa principal do FC Porto treinada pelo mister José Mourinho»
Bola na RedeQuem é que é o Manuel José dentro e fora de campo?
Manuel José: Sou uma pessoa muito tranquila, gosto de estar em casa e de aproveitar o tempo livre para estar com os amigos e com a família. Dentro do campo, e isto é válido para todos os clubes onde passei, tento dar sempre o máximo de mim para honrar a sua camisola.
Bola na RedeComeçou a sua carreira no Ermesinde e no Candal, ainda na formação, mas a sua primeira grande experiência foi no FC Porto. Que impacto é que esta experiência teve na sua carreira e na sua própria vida?
Manuel José: A minha experiência no FC Porto deu-me todas as bases e alicerces para me tornar um bom profissional de futebol, assim como um bom homem. Tive 12 anos nesta casa, saí aos 23 anos de idade e acabei por fazer um jogo pela equipa principal do FC Porto treinada na altura pelo mister José Mourinho, e é como disse anteriormente, no FC Porto aprendi a ser jogador de futebol no verdadeiro sentido da palavra e a ser homem. A aprendizagem que tive permitiu-me ter algum sucesso como jogador e como homem.
Bola na RedeDurante a sua longa estadia no Dragão, passou por alguns empréstimos a outros clubes, sendo que o primeiro que mais se destaca é na Académica OAF, e logo no ano em que o FC Porto conquista a Taça UEFA, atual Liga Europa. Como é que se sente por ter feito parte, ainda que de uma maneira indireta, desta conquista?
Manuel José: Quando cheguei à Académica encontrei uma equipa que lutava pela manutenção. Foi um experiência muito agradável porque joguei em praticamente todos os jogos, quase sempre a titular, numa época em que garantimos a manutenção apenas na última jornada, mas onde cresci muito. Em relação à conquista da Taça UEFA pelo FC Porto, sinto-me muito contente por ter feito parte, ainda que por meio ano, daquele grupo de jogadores fantásticos que em dois anos ganharam não só esta competição mas também a Liga dos Campeões, mantendo praticamente os mesmos jogadores porque foram poucos os que entraram para a equipa. Nesse ano fiz também a minha estreia na Taça de Portugal diante da equipa do Trofense, por isso foi um ano muito especial para mim enquanto jogador.
Bola na RedeDepois seguiram-se dois empréstimos, um ao Vitória SC e outro ao Vitória FC, onde conquistou pela segunda vez na sua carreira a prova rainha do futebol português, a Taça de Portugal. Qual das conquistas é que teve, para si, mais importância?
Manuel José: Ambas as conquistas têm uma importância enorme para mim mas se tivesse de destacar uma iria provavelmente escolher a segunda porque foi onde somei mais minutos de jogo, joguei praticamente em todas as eliminatórias, e marquei o golo na final. No entanto, as duas conquistas foram importantes para mim porque com 23 anos já tinha duas Taças de Portugal no currículo, o que para um jogador de futebol é feito e um orgulho enormes. Só quem joga uma final da Taça é que sabe qual é o valor que a sua conquista representa.
Bola na RedeEm 2005 abandona definitivamente o FC Porto e ruma ao Boavista FC onde, após uma grande época de consolidação na primeira liga, sai para a Roménia para representar o Cluj. Esta é a sua primeira época “fora de casa” e logo na Roménia. Imagino que existam algumas histórias caricatas para contar, não?
Manuel José: A minha decisão de ir para a Roménia deve-se sobretudo a dois fatores: uma nova experiência enquanto jogador e a possibilidade de realizar um contrato muito superior ao que tinha em Portugal. Quando lá cheguei encontrei um clube que tinha subido para a primeira liga há cerca de três anos, que nunca tinha ganho nada e as coisas foram correndo bem para mim. Assinei um contrato de três anos com o Cluj, sendo que no primeiro ano conseguimos logo o apuramento para as competições europeias, que como tu sabes é muito difícil de conseguir num país como a Roménia. No segundo ano fomos campeões e ganhámos a taça, o que nos permitiu entrar diretamente na Liga dos Campeões, onde enfrentámos um grupo constituído pelo Girondins de Bordeaux, o Chelsea FC e a AS Roma. Nesse último ano conquistamos mais uma vez a Taça da Roménia mas falhamos a conquista do campeonato, também pelo desgaste normal provocado pela Champions. No final o meu balanço em relação a esta experiência é positivo porque conquistei um campeonato e duas taças, cresci e evoluí muito como jogador, e consegui ganhar algum dinheiro, que foi realmente um fator muito importante na minha decisão.

Bola na RedeRegressa a Portugal para vestir as cores do FC Paços de Ferreira onde, na minha opinião, atingiu o seu “prime”. Ficou para a história pacense o possível acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões que, infelizmente, não se concretizou. Para si este momento foi um misto de emoções, tendo em conta que foram dois dos jogos mais importantes da sua carreira?
Manuel José: Tínhamos a perfeita noção que era um objetivo muito complicado de alcançar, porque ficámos em terceiro lugar do campeonato e não iriamos ser cabeças de série do sorteio e provavelmente iria calhar uma das equipas mais fortes que estavam presentes na competição. E calhou, calhou-nos uma equipa que nos anos anteriores estava habituada a marcar presença na Liga dos Campeões com frequência, o Zenit, recheado de estrelas como o Hulk, Danny, Luís Neto, Witsel, para não falar nos vários internacionais russos que faziam parte daquela equipa. Logo que soubemos do resultado do sorteio sabíamos que era uma missão difícil para nós, mas acho que foi uma experiência boa, para desfrutar de dois jogos na Liga dos Campeões. Sabíamos que a chegada à fase de grupos iria ser muito complicada porque tínhamos de passar um playoff no qual não iriamos ser favoritos e aí torna-se quase impossível.
«Estive às portas da Seleção Nacional, mas infelizmente não se
proporcionou a oportunidade»
Bola na RedePassando em revista o seu percurso nas seleções nacionais, onde foi internacional até à já extinta “seleção B”, é um desejo que fica, representar a seleção principal das quinas numa grande competição?
Manuel José: Sim, eu estive às portas da seleção principal, na altura na chamada “seleção B” que hoje em dia já não existe, com o Scolari, mas infelizmente não se chegou a proporcionar a oportunidade na equipa A. Tenho a noção que a minha ida para a Roménia também acabou por não contribuir para este sonho, porque a nível desportivo não foi a melhor opção que tomei. A Roménia na altura não tinha a visibilidade que hoje tem, hoje as pessoas acompanham e conhecem um pouco da realidade do futebol romeno, também por causa de todos nós, portugueses, que vamos para lá jogar. Mas sim, um dos meus sonhos no futebol, talvez até o único sonho que não realizei, foi precisamente não ter chegado à seleção principal do nosso país. Ganhei títulos em Portugal, fora de Portugal, joguei Liga dos Campeões e Liga Europa, por isso, creio que fui cumprindo todos os “sonhos” que tinha enquanto jogador profissional de futebol.

Bola na RedeAos 41 anos, ainda a jogar futebol como tanto gosta, o que se segue na sua vida? Existem planos a curto prazo?
Manuel José: A ideia é realmente terminar a minha carreira de futebolista profissional esta época. Prometi a mim mesmo que o ia fazer, não pela falta de mentalidade competitiva, mas pelos sinais que o corpo já começa a dar, porque tenho sofrido bastante com o desgaste que tive ao longo da minha carreira e essencialmente com o joelho e, por isso, chegou a hora de pendurar as botas. Quero agradecer às pessoas que nestes quatro anos me acarinharam num dos clubes que me viu crescer e para o qual voltei com toda a vontade de ajudar. Acredito que este clube está na divisão que deve sempre de estar, que é na maior divisão da Associação do Porto, e fico contente por poder ter ajudado nesta fase final da minha carreira.
🚨 Manuel José extends the connection with the CD Candal for another season.
The 40-year-old midfielder has worked at FC Porto, União de Lamas, Académica, Vitória SC, Vitória FC, Boavista, CFR Cluj, Paços de Ferreira, Leixões and Gondomar. pic.twitter.com/nAiTlRGTZj— World of Football (@Infogenuino) July 31, 2021
Bola na RedeQual é que foi, para si, o golo mais importante da sua carreira?
Manuel José: O golo com mais importância foi o golo que marquei contra a Académica OAF pelo FC Paços de Ferreira, golo esse que nos deu o acesso à Liga dos Campeões e que nunca mais irei esquecer, porque nos deu o terceiro lugar no campeonato e o sucessivo apuramento que queríamos. Mas no FC Paços de Ferreira tenho vários momentos, por exemplo, temos um jogo contra o Estoril, em que todo o plantel ainda hoje acredita que foi decisivo para esse tal apuramento para a Champions, em que faltavam 14 minutos para jogar, com um nevoeiro enorme, e eu marquei o golo decisivo.
Bola na RedeSe pudesse voltar atrás no tempo e falar com o jovem Manuel José, o que é que lhe diria?
Manuel José: Dizia-lhe para fazer praticamente as mesmas coisas que eu fiz ao longo da minha carreira. O futebol está muito diferente, com as redes sociais, com o dinheiro que envolve hoje em dia, com as próprias televisões a passarem os jogos todos, desde os juvenis e mesmo a nível de seleções. Hoje a projeção de um atleta das divisões mais baixas é muito diferente, mas eu iria provavelmente tomar as mesmas decisões que tomei, porque foram todas tomadas por mim, pela minha própria cabeça, porque entendi que era o melhor para mim e para os que me rodeiam.
Bola na RedeQual é que foi o momento da sua carreira em que lhe deu o “click” para começar a pensar noutro tipo de objetivos e para deixar alguns dos sonhos para trás? Foi no momento em que se muda para a Roménia?
Manuel José: Não, eu durante os primeiros dois anos no Cluj, ainda pensava que provavelmente iria sair daquela realidade, assinar por outro clube e eventualmente chegar a um “grande”. Mas depois com o decorrer do tempo, fui dando sempre o meu melhor em todas as épocas, e a prova disso é que talvez a minha melhor época da carreira tenha sido aos 31 ou 32 anos. Depois acabei naturalmente por já não ligar tanto a isso, até pela experiência que já tinha desde novo, de ter convivido numa equipa como a do FC Porto, com tantos craques, e que ganhou tudo o que havia para ganhar, ser treinado pelo José Mourinho e poder jogar ao lado de jogadores como o Deco, Vitor Baía, Secretário, Paulinho Santos, Jorge Costa, são coisas que sem dúvida que nunca vou esquecer para o resto da minha vida.
PASSES CURTOS
Bola na RedeCristiano Ronaldo ou Lionel Messi?
Manuel José: Cristiano Ronaldo sem dúvida, até porque joguei com ele seleção e portanto não tinha outra forma de ser.
Bola na RedeMarcar ou assistir?
Manuel José: Assistir.
Bola na RedeSéries ou Filmes?
Manuel José: Filmes.
Bola na RedeKylian Mbappé ou Rafael Leão?
Manuel José: Kylian Mbappé.
Bola na RedeBacalhau à Brás ou Bacalhau com Natas?
Manuel José: Bacalhau à Brás.
Bola na RedeFrancesinha ou Prego?
Manuel José: Francesinha.
Bola na RedeGanhar a Liga dos Campeões ou ganhar um Mundial?
Manuel José: Ganhar a Liga dos Campeões.
Bola na RedePaulo Fonseca ou Carlos Brito?
Manuel José: Sinceramente escolho os dois porque ambos tiveram um papel fundamental no jogador e profissional que me tornei, cada um à sua maneira. O mister Carlos Brito apanhou-me muito mais novo, e o mister Paulo Fonseca já me apanhou mais velho, mas é uma pessoa pela qual eu tenho um grande carinho porque conseguiu extrair de mim toda a qualidade que eu tinha e deu-me a oportunidade que provavelmente não teria noutro clube.










