«No Football Manager fui aquilo que que devia ter sido na vida real» – Entrevista BnR com Evandro Roncatto

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– As más decisões e o inferno dos salário em atraso –

«Estive cinco meses a levantar apenas 40 euros no Multibanco».

BnR: Acabada as duas primeiras experiências em Portugal, segue-se o Chipre. Alguma experiência que queiras partilhar dessas quatro épocas?

ER: Bom, teria de perder um bom tempo… Não tenho nada a apontar ao país. É um país bonito e maravilhoso e foram quatro anos maravilhosos. A minha filha nasceu lá! É um povo doido por futebol e eu fui vice-campeão por duas vezes, com o Anorthosis. Infelizmente, depois há a célebre crise financeira e as coisas ficaram complicadas. Foi pior do que Portugal e na Grécia. Eu e a minha esposa tivemos medo do que poderia vir a acontecer porque foi um país que quebrou muito. Chegámos a viver durante cinco meses com levantamento periódicos de quarenta euros no Multibanco. Não podíamos fazer transferências, nem nada! Tive colegas que acabaram por perder milhões de euros da sua conta. Depois, a tendência piorou e os clubes não pagavam aos atletas. Estive seis meses sem receber e quando temos família, temos de ponderar as coisas. Ainda assim, é um país maravilhoso e quero voltar para que a minha filha possa ver e desfrutar do país onde nasceu.

BnR: Depois surgem as experiências negativas. Aparece o Beroe, da Bulgária, e o Niki Volos, da Grécia. O que aconteceu ao certo?

ER: Saí do Chipre e surge a proposta do Beroe. Eles até têm boa estrutura e iam disputar a Liga Europa. Mas perderam nos jogos dos playoffs, frente ao APOEL, e falharam o apuramento. Não foi fácil mudar. Estávamos num país como o Chipre, que era um país colonizado por ingleses e onde as casas eram muito boas. Depois, fomos para a Bulgária, que era uma realidade um pouco complicada. Era um país mais cinzento e sem tanto sol. Realmente, não me adaptei nada bem e tive ainda problemas com lesões.

BnR: E é aí que surge a possibilidade de te mudares para a Grécia, correto?

ER: Eu via no rosto da minha esposa que ela não estava feliz. A minha filha, por outro lado, até estava contente porque ela gosta de todos os sítios, mas a minha esposa não. Por isso, decido ir para a Grécia, porque sentia que era um país mais parecido com o Chipre. Saí de uma Primeira Divisão da Bulgária e fui para uma Segunda Divisão na Grécia. Mas, em termos de valores, era quase igual e acabei por ser campeão da Segunda Divisão da Grécia. A única coisa má foi que ficámos sem receber e, até hoje, nunca mais vi esse dinheiro, mesmo depois de termos sido campeões. Tentei por todas as vias recuperar o dinheiro, mas não consegui. O clube decretou falência e fechou as portas. No geral, foi uma experiência boa: Fui campeão e sinto que ajudei muito a equipa. Joguei a médio-ofensivo e até isso foi muito bom. Fiquei feliz por ter levantado um título importante para a cidade, mesmo que não tenha recebido o meu salário.

Evandro Roncatto em mais uma experiência em Portugal
Fonte: Clube Oriental de Lisboa

BnR: Depois do pesadelo, voltas a Portugal e chegas ao Oriental, onde as coisas parecem retomar o caminho da estabilidade. Outra boa experiência em Portugal, correto?

ER: Foi muito bom! Depois do que se passou na Grécia, queria voltar para Portugal. Apareceu o Oriental e eu já tinha ouvido falar do Carlos Saleiro e do Bruno Aguiar – ambos jogavam lá. Não pensei duas vezes porque era um clube de Lisboa. Tínhamos uma boa equipa, fizemos uma grande temporada na Segunda Liga e, mesmo sendo um clube pouco poderoso a nível financeiro, conseguimos terminar a meio da tabela. Apesar das rivalidades com o meu clube atual – Casa Pia -, tenho um carinho especial pelo Oriental e criei um laço muito grande também com o Carlos Saleiro. É um irmão que o futebol me deu. 

Mário Cagica Oliveira
Mário Cagica Oliveirahttp://www.bolanarede.pt
O Mário é o fundador e diretor-geral do Bola na Rede. É também comentador de Desporto na LiveModeTV, SIC e Rádio Observador e professor universitário.

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