«Gostava de voltar ao ativo, tenho vontade de voltar, gosto muito da minha profissão» – Entrevista BnR a Vasco Faísca

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    Vasco Faísca foi um jogador que se formou no Sporting, mas que foi para o Calcio evidenciar todo o seu talento. Campeão da Europa em Sub-18 em 1999, destacou-se como defesa central e esteve inclusivamente muito perto de representar a equipa A, ainda pelas mãos de Luiz Felipe Scolari. Enquanto treinador está a subir a pulso, numa trajetória muito interessante de se acompanhar, baseada no futebol ofensivo- Foi o mais recente convidado do Bola na Rede, para fazer uma entrevista sobre a sua carreira, quer dentro, quer fora das quatro linhas.

    Bola na Rede: Vasco Faísca, associamos várias vezes o teu nome ao futebol italiano, enquanto futebolista. Como é que foste parar ao país do Calcio?

    Vasco Faísca: Isso é uma boa pergunta. Essencialmente, eu era presença assídua nas seleções jovens. Na altura representava o Sporting e fui convocado várias vezes para os sub-17, sub-18, sub-21… e a minha participação em provas europeias, nomeadamente, em 1999, quando nos sagrámos campeões da Europa, em sub-18, na Suécia. A final foi contra a Itália e isso suscitou o interesse de alguns clubes, nomeadamente do Inter Milão, que foi o clube pelo qual eu acabei por assinar e depois rumei ao Vicenza, no sistema de co-propriedade. Não é um empréstimo. Eu era metade do Inter e metade do Vicenza. Foi assim, de uma forma resumida, que eu fui para a Itália.

    Bola na Rede: A tua primeira experiência foi no Vicenza, inicialmente por empréstimo do Inter Milão. Como foi a tua adaptação?

    Vasco Faísca: Teve as suas dificuldades, como tudo. Mudar de país… eu tinha somente 19 anos, ia fazer 20. Era um jogador jovem, fui sozinho, teve as suas dificuldades, mas também dizer-te que foi relativamente fácil, passado uns meses. A Itália é um país semelhante a Portugal, em termos de costumes e cultura. Não foi algo tão difícil. Porém, o mais complicado foi a adaptação ao estilo de futebol, à metodologia aos treinos. A parte tática e a parte física te uma metodologia muito exigente para os atletas. Esse impacto foi duro, mas a gente habitua-se, como tudo. Acabei por ficar imensos anos em Itália, gostava de lá estar.

    BnR: O Vicenza na época em que chegaste estava na Serie A. Sentias que o futebol italiano era o mais forte da Europa?

    Vasco Faísca: Eu chego a Itália em 2000. Nos anos 90 o futebol italiano foi o dominador na Europa, portanto sim. Na altura, o futebol italiano sem qualquer tipo de rodeio o melhor futebol do mundo, nos anos 90. Quando eu cheguei já estávamos numa fase de transição. Já havia mais campeonatos muito competitivos, como a La Liga ou a Premier League, que ainda não se tinha imposto como o mais dominador. Ainda assim, a Serie A era muito apelativa e muito forte. Foi um dos motivos porque eu quis ir para Itália. Cresci futebolisticamente e como pessoa nos anos 90, na minha adolescência, cresci a ver o campeonato italiano e  tinha o sonho de chegar a Itália. Acabei por ser o jogador mais italiano de todos os portugueses de sempre (risos). Não sei se o Mário Rui vai bater o meu recorde. Esse ainda me pertence.

    «Estive muito próximo da Seleção Nacional provavelmente mais do que uma vez».

    Vasco Faísca, treinador de futebol.

    Bola na Rede: Foste internacional jovem por várias vezes. Estiveste perto da seleção A?

    Vasco Faísca: Sim, estive muito próximo. Provavelmente mais do que uma vez, mas houve uma muito concreta, na estreia do míster Scolari coo selecionador português. Era um particular, que ia ser em Génova, um Itália x Portugal. O Scolari teve em Itália a ver-me jogar, falou comigo, cheguei a receber uma pré-convocatória, aquilo que todos os jogadores recebem antes da convocatória final. Várias pessoas da FPF e de informações privilegiadas deram-me a entender que eu seria convocado e eu estava convencido que isso ia acontecer, mas quando não aconteceu foi difícil de aceitar, mas é o que é. Acabei por não ser internacional, foi pena, mas faltou-me esse objetivo da carreira de representar a seleção A.

    Bola na Rede: Ficaste com um bocadinho de mágoa dos dirigentes e de Scolari na altura?

    Vasco Faísca: Sim, fiquei um pouco desiludido porque estava convencido que ia acontecer. O míster Scolari tinha ido a Itália ver-me jogar e tinha falado comigo…Jornalistas disseram-me que eu ia ser convocado, eles ligavam-me a dizer isso. Que ia ser a surpresa da convocatória e que me iam ligar para comentar a chamada. Havia muito ruido à minha volta, as expetativas cresceram. O facto de não se ter concretizado doeu mais do que no caso de não me terem dito nada. Mas rontó, fiquei perto. E essa mágoa já não existe.

    Bola na Rede: Chegaste ao Vicenza na Serie A, mas com a descida do clube, acabaste por estar na Serie B uma série de anos. Era um escalão competitivo?

    Vasco Faísca: Sim, na altura quando eu joguei, que foram seis ou sete anos, era um campeonato muito bom, ao nível da Primeira Liga Portuguesa tirando os Grandes e eventualmente o Braga, mas as equipas da Serie B eram muito fortes. Via-se com muita regularidade grandes jogadores da Serie A baixarem um nível e irem para a Serie B. A capacidade dos clubes assim o permitia. Conseguiam atrair jogadores de grande nível, porque se pagavam valores fora do normal e isso levava a que o campeonato fosse muito competitivo e de grande qualidade.

    Equipa técnica de Vasco Faísca
    Fonte: Instagram Vasco Faísca

    Bola na Rede: Chegaste a ter algum convite, nessa fase, para regressar à Serie A?

    Vasco Faísca: Sim, é normal a nível de mercado haver abordagens e contactos, mas até à coisa se realizar… depois também há questões com o clube, que é dono do teu passe e não te permite subir para patamares superiores e isso comigo aconteceu. No momento deixou alguma mágoa, mas está tudo ultrapassado. Fiz uma carreira muito interessante e fico muito feliz com o que alcancei. Bola para a frente.

    «Tive a perceção de que talvez fosse mais fácil dar o salto para um nível ainda maior se viesse para Portugal e que me colocasse na montra da Primeira Liga».

    Vasco Faísca, treinador de futebol.

    Bola na Rede: Regressaste a Portugal em 2004, inicialmente para a Académica. Sentiste que era o passo certo?

    Vasco Faísca: Tem um bocadinho a ver com o que me acabaste de perguntar. Surgiu o interesse da Académica, que estava na altura na Primeira Liga, eu estava na Serie B, num grande campeonato, mas senti ou tive a perceção de que talvez fosse mais fácil dar o salto para um nível ainda maior se viesse para Portugal e que me colocasse na montra da Primeira Liga. Num primeiro momento as coisas correram muito bem. Houve novamente a possibilidade de ser convocado para a seleção. O Nelo Vingada, que era meu treinador, disse-me que o Scolari tinha falado com ele e se eu mantivesse o nível havia a possibilidade de me convocar, mais uma vez infelizmente a coisa não se concretizou e acabei por ir para o Belenenses onde tive uma época razoável e uma época má e exatamente por isso regressei ao futebol italiano.

    Bola na Rede: Na altura qual era o gap entre o futebol italiano e o futebol português? Sentiste muita diferença?

    Vasco Faísca: Havia e continua a haver algumas diferenças, nomeadamente da ideia de jogo, mas também da metodologia do treino. Há muitas diferenças principalmente na semana tipo e no microciclo que os treinadores planeiam. Em Itália há muito trabalho físico, aqui trabalha-se um pouco mais, mas mesmo assim continuamos a dar prioridade a outras coisas e a meu ver bem. O aspeto tático também tem diferenças. O jogo também é um pouco diferente, mais italiano, apesar de que, olhando hoje para o futebol italiano, penso que o mesmo nos últimos cinco/seis anos mudou bastante. Há uma vontade de o tornar um pouco mais atrativo, mais espetacular e menos defensivo, que sempre foi a grande caraterística do futebol de lá. Na altura quando vim para Académica a diferença. O maior impacto foi o trabalho físico, que em Portugal era muito menor, já que se dedicava menos tempo de treino a aspetos somente físicos. No ponto de vista tático, em Itália trabalha-se muito as questões defensivas, aqui menos, pelo menos enquanto jogava.

    Bola na Rede: A primeira temporada no Belenenses ficou marcada pelo décimo quinto lugar, quando o plantel era muito bom. Como sentiste esta desilusão?

    Vasco Faísca: Foi triste essa época. Realmente era uma equipa construída de eventualmente chegarmos às competições europeias. Tínhamos uma grande equipa, nesse primeiro ano as coisas acabaram por não correr bem. A meu ver também estava relacionado com a criação de uma expectativa muito alto. As coisas, por um motivo ou por outro, acabaram por não correr tão bem. Porém, com a mesma equipa, com poucas alterações, o plantel era quase o mesmo, confirmou a qualidade que tinha. Eu tive somente meia época, mas esse plantel acabou por ficar em quinto lugar, qualificaram-se para a Liga Europa, foi à final a Taça de Portugal. Foi a confirmação de que esse plantel era de facto muito bom, mas o futebol tem outras coisas. Nós gostamos deste desporto também por isso, pelos resultados surpreendentes.

    Bola na Rede: Na segunda época foste treinado pelo Jorge Jesus. Por que não jogaste tanto?

    Vasco Faísca: O míster achou que havia jogadores que se calhar mereciam jogar mais. Era a opinião dele e isso é legitimo. Eu hoje sou treinador e o treinador tem que escolher onze. Eu com ele, infelizmente, não fui escolhido muitas vezes, mas deixa-me dizer-te que foi um prazer enorme e foi uma grande escola. Ainda hoje trago isso comigo. Do ponto de vista tático, foi o melhor treinador da carreira que tive, apenas em seis meses. Reconheço que o Jorge Jesus era um treinador muito à frente para a época. Atualmente continua a mostrar toda a sua qualidade, mas foi de facto uma grande aprendizagem com ele.

    «Jorge Jesus achou que havia jogadores que se calhar mereciam jogar mais, era a opinião dele e isso é legítimo».

    Vasco Faísca, treinador de futebol.

    Bola na Rede: Cruzaste-te com o Rúben Amorim no Belenenses (e com o Cândido Costa). Como era a tua relação com eles? Tens alguma história?

    Vasco Faísca: Começo pelo Cândido Costa. Já o conhecia anteriormente, porque ele fez parte da seleção e 1999. Foi meu colega mais tempo. Já tínhamos sido colegas nas seleções e cruzámo-nos no Belenenses. O Cândido, como já disse, o que nós vemos é ele próprio. Sempre foi assim, o palhaço do balneário, uma pessoa como sentido de humor extraordinário, é algo inato nele. Ele tem muito jeito para meter o pessoal a rir e sempre o fez desde muito jovem. Não em admiro nada daquilo que ele tem demonstrado. Claro que fico surpreendido com este percurso, está a demonstrar quase ser um cómico, a nível daquilo que é a televisão portuguesa, mas sempre ligado ao futebol, que foi a vida e a paixão dele. Em relação ao Rúben Amorim, é uma pessoa muito bem-disposta, diferente do Cândido. Não era o animador do balneário, mas era uma pessoa bem-disposta, ume excelente jogador e uma pessoa inteligente, com personalidade forte e portanto, caraterísticas que eu considero muito importantes para ser um treinador de alto nível, como ele está a demonstrar ser.

    Bola na Rede: 2006/07 fica marcado pelo teu regresso a Itália. Porque decidiste regressar?

    Vasco Faísca: Sinto-me lá muito bem. Para mim a Itália é quase como estar em casa. Tive recentemente em Itália, já não estava há alguns anos. Para mim, é como estar em casa, é um país que me diz muito e importante no meu percurso, de carreira e de vida. Na altura tive três motivos. Gostava muito de Itália, o facto de não estar a jogar no Belenenses e eu queria jogar mais e surgiu o interesse do Padova, porque estava lá um treinador que me treinou no Vicenza, que é o Andrea Mandorlini, que mostrou muito interesse em mim e o negócio acabou por se concretizar.

    Bola na Rede: No Padova vais para um outro patamar, na Serie C, inicialmente. É muito diferente estar numa Serie C a comparar com a Serie B?

    Vasco Faísca: Depende do clube. Eu na altura estava na Primeira Liga. Foi complicada a escolha, pois nunca tinha estado num patamar tão em baixo. Mas as informações que me davam sobre o clube eram muito boas, falaram muito bem do clube, com uma ambição enorme, com uma capacidade económica muito grande para poder crescer e eventualmente chegar a outros patamares, nomeadamente na Serie B. Foi o que acabou por acontecer, não foi logo na primeira temporada, mas sim na terceira. Era um clube com uma dimensão muito boa, uma cidade espetacular, muito ligada a grandes jogadores como o Del Piero, que começou lá. O clube tinha um historial grande a nível futebolístico dentro do país. Apesar de ter começado na Serie C, acabou por ser uma experiência muito rica a todos os níveis, como o desportivo e até mesmo o humano e o social.

    Vasco Faísca treinador
    Fonte: Instagram Vasco Faísca

    Bola na Rede: Tornaste-te um dos líderes do balneário do Padova, que até passou a ser uma equipa que lutava pelo acesso à Serie A. Contudo, em 2010 rumaste ao Ascoli que tinha objetivos mais modestos. Porque trocaste de equipa?

    Vasco Faísca: Isto tem sempre muito a ver sobre aquilo que são as nossas sensações em relação ao que pode ser a época desportivo, seja do ponto de vista coletivo, mas também individual. Eu sentia que nessa segunda época na Serie B ia jogar menos e no Ascoli houve a demonstração muito grande que eu assinasse por eles, contavam muito comigo, para ser uma peça importante naquela equipa, que apesar de lutar por objetivos diferentes do Padova, era um clube que iria disputar a Serie B, que é muito equilibrada e há surpresas, um pouco como a Segunda Liga Portuguesa. Acabei por aceitar por isso, também pela renovação de contrato por mais anos. São estas coisas que temos de colocar nos pratos da balança para definir a nossa carreira. A minha passagem pelo Ascoli foi extremamente positiva.

    Bola na Rede: Em seguida foste para a Grécia. Queria viver uma experiência nova?

    Vasco Faísca: foi uma experiência diferente em outro país. Também, com a idade que tinha, também me renovaram o contrato por mais dois anos, o prolongar da carreira com o nível económico muito aceitável é importante. Ia estar na Primeira Liga Grega e havia jogadores portugueses no plantel e isso puxou-me para ir para lá. Também queria ter novas aventuras, isso sempre me deu água na boa e fui atrás disso. Gostei imenso da Grécia, acabei por voltar por questões familiares, estava longe da minha mulher e da minha filha. Pela minha vontade tinha ficado mais uma época ou duas, foi muito bom do ponto de vista profissional e social. Gostei muito das gentes gregas, do povo, das pessoas, adorei.

    «Angelos Anastasiadis é má pessoa, mau treinador, está mal preparado, é um fundamentalista religioso».

    Vasco Faísca, treinador de futebol.

    Bola na Rede: Coincidiste com o Angelos Anastasiadis, a que em 2018 teceste várias críticas, inclusivamente de que o grego era má pessoa. Foi o pior treinador que já tiveste?

    Vasco Faísca: De longe. Sou muito sincero, não faz parte da minha maneira de ser andar a criar polémica, mas há coisas que têm limites. No caso dele, penso que é má pessoa, é mau treinador, está mal preparado, é um fundamentalista religioso, fala sempre quase somente de religião, pouco de futebol, pouco ou nada, algo que eu nunca tinha visto na minha vida. Fico surpreendido pelo nível que ele conseguiu atingir como treinador, chegou à seleção. Aqui em Portugal nem da distrital passava, é o que é. É outro país, são costumes e crenças diferentes e já agora sublinho isto, eu só tive essa declaração não pelo facto de ele ser mau treinador, mas acima de tudo por ele ser muito má pessoa. Se ele fosse apenas mau treinador eu nunca teria dito nada publicamente, mas o facto de ele ser a pessoa que é e depois andar a vender que é uma pessoa que é muito religiosa, que faz tudo por Deus e pela Nossa Senhora, faz parecer que ele é um santo, quando é tudo menos um santo. Foi por aí que me quis manifestar e dar um murro na mesa, porque há pessoas prepotentes e ele é uma delas. Ele tem uma imagem totalmente distinta daquilo que eles são na realidade. Esse assunto está mais do que enterrado.

    Bola na Rede: Antes de finalizares a tua carreira como jogador, passaste por três projetos diferentes em Itália. Era necessário ser nesse país o encerramento da tua carreira ou alguma vez pensaste que podia ser em Portugal?

    Vasco Faísca: Pensei que podia ser em Portugal, pela ligação ao Farense, ao clube da minha cidade. pensei muitas vezes em acabar a carreira aqui. infelizmente isso não foi possível, o Farense andava em divisões muito abaixo e não se concretizou. Acabei por terminar por Itália para depois tornar-me treinador e consegui pelo menos ser treinador do Farense e concretizar esse desejo, embora não como jogador.

    Bola na Rede: Depois de tanto tempo em Itália e em cidades distintas, quais são os destinos que recomendas?

    Vasco Faísca: Eu joguei no norte, no centro e no sul. Gostei muito de várias cidades, é difícil eleger só uma. Eu fiz oito anos na região do Veneto, gostei muito de lá estar, seja em Vicenza como em Padova. Ascoli também gostei muito são as zonas às quais estou muito mais ligado. Nas outras tive apenas uma época, em Matera, em Francavilla Al Mare, mas também gostei muito. Porém a minha ligação é muito maior a Ascoli e no Veneto pelos anos que estive por lá. Gosto muito de lá estar.

    Bola na Rede: Revelaste numa entrevista que torces pelo Farense e pelo Sporting. Ficas triste por nunca teres jogado, ao nível profissional e sénior, num dos dois?

    Vasco Faísca: Hoje não, mas na altura deixou alguma mágoa, naquele período do Sporting. Eu queria ficar no Sporting, de alguma forma fui empurrado para sair e perante propostas tão boas para sair para o estrangeiro, como a do Inter e outras na altura, acabou por ficar muito fácil decidir sair. Não sentia grande vontade da direção daquele período em que eu me mantivesse e fosse aposta do clube, mas gostaria de ter chegado à equipa principal do Sporting. Eu cheguei a jogar particulares e a ir para o banco, mas nunca fui um jogador utilizado com regularidade. A questão do Farense é completamente diferente, foi mais o azar do patamar em que estava o clube. O Farense desceu às distritais, nem sequer estava nos campeonatos profissionais e isso coincidiu com um momento alto da minha carreira e tornou-se quase impossível que deixasse o futebol profissional para ir para o futebol amador aqui em Faro. Fiz como treinador principal e se calhar foi ainda mais gostoso, digamos assim, contribui para a subida à Primeira Liga.

    Bola na Rede: Foram 544 jogos no total, com sete golos marcados. Qual foi o jogo que te marcou mais?

    Vasco Faísca: Normalmente estamos mais ligados ao momento de festa. Eu diria dois: a final do Campeonato da Euro Sub-18, em que ganhamos 1-0, é um jogo que ficará gravado na minha memória para sempre, e um jogo que foi especial e difícil de ganharmos, quando estava no Padova na Serie C e jogámos a final do play-off frente ao Pro Patria, que tinha uma equipa muito boa. Tínhamos empatado em casa e tínhamos que ir ganhar fora de casa. Fizemos isso, com um jogador a menos logo na primeira parte, o lateral esquerdo foi expulso à meia hora de jogo. Vencemos 1-2, com 10 jogadores vencemos uma final. O Padova já não subia de divisão há mais de 10 anos. Foi muito marcante e muito satisfatório.

    Bola na Rede: Hoje em dia és treinador e fizeste os dois primeiros cursos em Itália. Quando é que surgiu esse “bichinho” de quereres ser treinador?

    Vasco Faísca: Surgiu muito cedo, quando tinha 24 anos, quando apanhei um treinador em Itália, que se chama Beppe Iachini, que foi possivelmente o primeiro treinador que me mostrou o quanto um treinador pode ter influência tática numa equipa e eu fiquei muito impressionado com o trabalho dele, na altura. Senti que evoluí imenso como jogador e que a equipa jogava muito melhor, devido aos ensinamentos que ele nos dava e à organização tática que ele colocava na equipa. Fazia render a equipa mais do que aquilo que era a qualidade do plantel. A partir desse momento eu fiquei apaixonado por esta possibilidade de ser treinador e a partir daí fui sempre olhando para os meus treinadores com muita atenção e com vontade de absorver ensinamentos deles. Hoje em dia tento fazer a junção dos conhecimentos que os treinadores me deram e fazer um cocktail de ideias para depois colocar em prática aquilo que acredito.

    Vasco Faísca a treinar
    Fonte: Instagram Vasco Faísca

    Bola na Rede: Para quem não te conhece tão bem, qual é o teu modelo tático preferido?

    Vasco Faísca: Hoje fala-se muito em modelos e estruturas. A estrutura tática, que é a questão do 4x4x2 ou do 4x2x3x1, eu não tenho nenhum preferido, posso jogar de inúmeras formas, com táticas diferentes. O que eu não abdico numa época, embora se calhar excecionalmente posso alterar a estratégia e a identidade, é tentar ter uma equipa ofensiva, que jogue para atacar e para tentar ganhar o jogo, uma equipa que seja pressionante. Isso são marcas que me definem muito e o jogo que eu procuro. Tenho tentado fazer isso em todas as equipas que tenho passado e felizmente as coisas têm corrido muito mais vezes bem do que mal. É isso que eu gosto e acredito.

    Bola na Rede: Começaste a tua carreira como treinador principal no Olhanense. Como se deu o convite?

    Vasco Faísca: Foi interessante. Tem relação com as ligações que fazes na carreira. Eu era adjunto do Vasco Matos no Vilafranquense e isso abriu-me as portas do futebol português. Eu e o Vasco jogámos juntos, somos amigos e ele deu-me essa possibilidade e a ida para Olhão deu-se porque o clube tinha investidores italianos. A propriedade era italiana. Na altura o Olhanense tinha um diretor desportivo que era o Beppe Di Bari, que eu conhecia pelo menos de nome, do meu tempo em Itália. Fiz dois ou três telefonemas para algumas pessoas amigas em Itália, para saber se alguém o conhecia. Entrei em contacto com ele e a partir do momento em que o clube sentiu que tinha que mudar de treinador eles entraram em contacto comigo. Quando o fizeram não estava nada à espera. Pensava que queria preparar a época seguinte, mas na altura foi para assumir de imediato e eu lancei-me de cabeça e aceitei o desafio, felizmente. Correu muitíssimo bem.

    «Não tenho qualquer tipo de rivalidade agressiva para com o Olhanense ou para com o Portimonense, antes pelo contrário».

    Vasco Faísca, treinador de futebol.

    Bola na Rede: Sendo um adepto do Farense, o que sentiste em estar com a camisola de um dos rivais regionais?

    Vasco Faísca: A vida de jogador e treinador tende a estas coisas. Temos que saber conviver com isso. Eu apesar de ser do Farense, sou algarvio e fico e ficaria muito feliz que os clubes do Algarve, principalmente o Farense, o Olhanense e o Portimonense, que estivessem na Primeira Liga, porque o sul está muito pouco representado a nível futebolístico no nosso mapa nacional. Não tenho qualquer tipo de rivalidade agressiva para com o Olhanense ou para com o Portimonense, antes pelo contrário. Gosto de rivalidade saudável, desportiva, que de facto existe. Sou também profissional e esta oportunidade que o Olhanense me decidiu dar eu estou muito agradecido e adorei representar o clube. Foi um episódio muito positivo, é um clube pelo qual nutro muito carinho e estarei muito agradecido para sempre.

    Bola na Rede: O teu projeto seguinte foi no Braga B. É muito diferente treinar uma equipa A de uma equipa B?

    Vasco Faísca: É diferente. Para um treinador como eu que ambiciona subir mais patamares é difícil, porque queremos de alguma forma implementar as nossas ideias e ganhar os jogos, queremos classificar-nos o melhor possível e acabas por ver o teu trabalho dificultado. A equipa principal é a prioridade e é assim mesmo que tem que ser e eu aceitava isso com naturalidade. Porém, era uma dificuldade extra, porque durante o ano acontecia imensas vezes preparares a semana de treinos e depois há jogadores que têm que ir para a equipa B ou vice-versa e os da A têm que jogar pela B e organizar isto e manter a identidade tática da equipa é muito mais difícil e essa é uma dificuldade acrescida para todos os treinadores que estão na B ou nos sub-23. Mas sabemos de antemão que é assim. Não fiquei surpreendido que assim fosse e aceitei dessa forma. Deixa-me dizer-te que foi uma experiência extremamente rica, gostei muito de trabalhar no Braga. É um clube que tem condições incríveis para um clube trabalhar. Foi uma aprendizagem muito grande que tive em Braga, senti que evoluí muito como treinador. Foi mais um passo na minha carreira extremamente bom e positivo que fez de mim e da minha equipa técnica melhores treinadores.

    Bola na Rede: Em 2021/22 assinaste pelo Alverca, mas tiveste no cargo somente seis jogos. O que aconteceu?

    Vasco Faísca: São aquelas coisas às vezes difíceis de explicar. Em seis jogos, nós fizemos quatro de campeonato e dois de taça, onde tivemos três vitórias, um empate e duas derrotas, não é um score fantástico, mas também não é o suficiente para mandar embora um treinador. Na altura, o Alverca quis-me muito namoraram-me muito e eu abracei com muito prazer esse projeto. O Alverca era um bom clube, com boas condições e com boa equipa. Era o primeiro ano de Liga 3 e quis fazer um grande campeonato com aquela equipa. A direção do Alverca naquele momento optou por outro treinador e isto é público. O Argel foi despedido de uma equipa do Brasil e de repente estava livre no mercado e o Alverca após um empate nosso em casa, achou que era motivo suficiente para despedir um treinador que eles tanto quiseram um mês e meio antes ou dois meses antes e à quarta jornada decidem trocar de treinador, possivelmente porque gostavam mais do Argel e quiseram-no ir buscar. Foi tão pouco tempo que nem deu tempo para ser avaliado, mas eles acharam que a vinda do Argel poderia ser positiva.

    «O despedimento do Alverca até me deu jeito. Deu-me a possibilidade de realizar o meu sonho de voltar a representar o Farense, que já tinha representado nas camadas jovens».

    Vasco Faísca, treinador de futebol.

    Bola na Rede: Na mesma temporada acabaste por treinar o Farense. Como te sentiste ao representar o teu clube do coração?

    Vasco Faísca: Este despedimento até acabou por vir num bom momento. Deu-me a possibilidade de realizar o meu sonho de voltar a representar o Farense, que já tinha representado nas camadas jovens. Passei pelo futebol, basquetebol, ginástica desportiva quando tinha seis anos. Fiquei muito feliz com a possibilidade de treinar o Farense que na altura estava a passar um mau bocado. A equipa tinha acabado de descer da Primeira Liga e a meio da época encontrava-se em zona de play-off de descida, estava em antepenúltimo lugar. Possivelmente não haviam muitos treinadores que queriam arriscar o próprio nome e colocarem-se naquela aventura complicada que eu acabei por aceitar. Abracei esse projeto com muita vontade e muito entusiasmo, com uma paixão redobrada por ser o Farense.

    Bola na Rede: Em 2022/23, fizeste parte do projeto de subida, com 13 vitórias em 22 jogos, acabando, segundo o que consta em certos rumores, por ser despedido a uma hora do começo do jogo com o Estrela da Amadora. Isto é verdade?

    Vasco Faísca: É mito. Fui despedido depois do jogo frente ao Torreense, fui despedido logo em Torres Vedras. A direção é que decidiu comunicar o despedimento do treinador Vasco Faísca uma hora antes do desafio com o Estrela da Amadora. Do ponto de vista estratégico não percebi a lógica, mas pronto, foi essa a decisão deles e acabou por ser isso.

    Bola na Rede: Ficaste desiludo com a decisão de te despedirem?

    Vasco Faísca: Sim, fiquei eu e pensaria que ficaria qualquer treinador que tinha começado aquele projeto na época anterior em que entrei em janeiro, em que o clube estava em antepenúltimo lugar. Conseguimos acabar essa época de uma forma tranquila, a meio da tabela, o que nos deu tempo para prepararmos da melhor forma a época seguinte em que se queria uma época vencedora, para que o Farense pudesse voltar à Primeira Liga. Foi o que aconteceu. Na época seguinte, desde o primeiro dia até ao último dia em que estive lá, estive praticamente sempre dentro do objetivo, estivem em segundo lugar quase sempre. Se calhar é possível que a distância que tínhamos do Moreirense pudesse ter desiludido algumas pessoas, mas é um facto que o Moreirense subiu de divisão batendo os recordes todos da Segunda Liga. Nós estávamos dentro daquilo que é a normalidade média de pontos e de vitórias das equipas que têm subido. Ter sido despedido dessa forma foi duplamente triste e doloroso, porque já o ficaria noutro clube qualquer se isso acontecesse, mas sendo no Farense, há uma ligação maior e a desilusão foi ainda maior.

    «Não tenho qualquer tipo de dúvida que conseguiríamos a promoção. Nós saímos e deixámos o Farense em segundo e o Farense acabou em segundo. Não houve grande diferença».

    Vasco Faísca, treinador de futebol.

    Bola na Rede: O José Mota acabou mesmo por levar o Farense à subida de divisão. Sentias que tu e a tua equipa técnica seriam capazes de ter feito o mesmo?

    Vasco Faísca: Sim, claramente. Não tenho qualquer tipo de dúvida. Nós saímos e deixámos o Farense em segundo e o Farense acabou em segundo. Não houve grande diferença. Mas respondendo e forma muito clara, claro que sim. Sentíamos que tínhamos a equipa connosco e todas as equipas têm altos e baixos, mas houve muito mais altos que baixos, por isso estivemos quase o campeonato todo em segundo lugar e, portanto, ficámos desiludidos, mas como já disse publicamente isto faz parte do futebol e da vida. Para mim é bola para a frente, fiquei feliz pelo Farense ter subido de divisão. Fiquei muito feliz por ter contribuído para isso de forma decisiva e digo isto sem qualquer tipo de vaidade. José Mota teve grande mérito, jogadores igual, assim como a direção, mas a equipa técnica que lá esteve antes fez 22 jogos e foi fundamental. Mas não quero qualquer tipo de louro. Não fui o primeiro nem serei o último. É altura de procurar novas aventuras e novos sucessos.

    Bola na Rede: O teu último desafio foi ao serviço do Belenenses, que acabou por descer de divisão. Achas que a estrutura do clube estava preparada para regressar ao futebol profissional?

    Vasco Faísca: A estrutura dirigente sim, acredito que sim. Acho que há muitos exemplos de clubes com uma estrutura até menor e que têm conseguido fazer campeonatos bastante razoáveis na Segunda Liga. O futebol tem disto. O Belenenses vinha de cinco/ seis épocas sempre a ganhar e sempre a subir de divisão, a fazer um percurso extraordinariamente bom. Na Segunda Liga deparou-se com um campeonato profissional, muito mais difícil e onde veio-se a demonstrar que acima de tudo o plantel do Belenenses faltava-lhe qualquer coisa, um bocadinho mais de qualidade. Isso verificou-se logo desde o começo da época. O Belenenses era apontado como uma das equipas apontadas à descida. O Belenenses tinha um orçamento mais baixo que as outras equipas e isso sabia-se. A maioria daquele plantel vinha da Liga 3, com alguma exceção. Não era impossível conseguir a manutenção e eu aceitei ir para lá, mas era uma missão muito complicada. Essencialmente faltava alguma qualidade do ponto de vista do plantel na sua generalidade, apesar de existirem jogadores muito interessantes que podem jogar na Segunda Liga e eventualmente no futuro em outros patamares. Também faltou aquela ponta de sorte que faz a diferença durante a temporada.

    «Estou convicto de que o Belenenses vai ter um futuro risonho nos próximos anos e vai voltar aos palcos que merece, que é a Primeira Liga».

    Vasco Faísca, treinador de futebol.

    Bola na Rede: Acreditas que foi o projeto mais difícil que tiveste na tua carreira enquanto treinador?

    Vasco Faísca: Sim. Foi o mais difícil pelo desafio em si. Eu aceitei ir para o Belenenses quando estavam em antepenúltimo lugar e tinham acabado de perder com o último classificado que era o Lank Vilaverdense. O cenário não era muito animador. Sabia das próprias limitações do plantel, como acabei de dizer. Não era um plantel dos mais fortes da Segunda Liga, antes pelo contrário. Contudo, acreditei com a minha chegada, talvez conseguíssemos tirar a equipa do buraco da descida e conseguirmos lutar até ao último jogo pela manutenção. Depois realmente verificámos que havia limitações no plantel, havia alguns problemas internos mesmo a nível e grupo, muito difíceis de gerir e fomos tentando melhorar isso e penso que fizemos. Isto depois do comboio vai andando e perde-se um, dois, e entras naquilo que eu costumo chamar de túnel do desespero e o problema passa a ser muito mais psicológico, de falta de confiança e isso acabou por acontecer. Com muita pena minha o Belenenses acabou por descer. Ter contribuído para isso, por um lado desilude-me, por outro deixa-me triste porque há muita gente que adora o clube, nomeadamente o presidente, que eu acho muito competente, que vinha de um percurso extraordinariamente positivo, sempre a subir de divisão e a colocar o clube novamente nas ligas profissionais, que é onde o Belenenses tem que estar, porque é um clube a nível nacional muito grande. Isto é futebol, foi o que disse em outra entrevista, nem sempre se ganha. Houve um período em que tivemos um número absurdo de lesões, coisa que a mim raramente me tinha acontecido. Tudo isto contribuiu para que as coisas não tenham corrido da melhor maneira. Estou convicto de que o Belenenses vai ter um futuro risonho nos próximos anos e vai voltar aos palcos que merece, que é a Primeira Liga.

    Fonte: Instagram Vasco Faísca

    Bola na Rede: Não falando diretamente deste caso específico, mas o que é que um treinador faz quando pensa que já não vai dar para atingir o objetivo?

    Vasco Faísca: É difícil. O treinador tem muita coisa para gerir. Quando se chega a esse ponto, é evidente que a motivação cai. É também obrigação, a meu ver, do treinador manter a equipa o mais motivada possível, dentro do possível, porque também há a dignidade do jogador, do treinador e acima de tudo uma camisola e um símbolo que representamos e temos e honrar até ao último segundo do último jogo. Eu tento passar a mensagem que é necessário manter sempre o profissionalismo, mesmo sabendo que matematicamente já se desceu de divisão ou as coisas já estão tão difíceis que é mesmo uma miragem alcançar o objetivo.

    Bola na Rede: Planeias regressar já ao ativo no começo de 2024/25? Tens alguma oferta ou está em conversações com alguma equipa?

    Vasco Faísca: Gostava de voltar, tenho vontade de voltar, gosto muito da minha profissão. Neste momento tive várias abordagens, coisas no estrangeiro, coisas aqui também em Portugal. Após o final dos campeonatos é que as conversações se tornam mais aceleradas e, portanto, a ver vamos o que vai acontecer. Eu gostava muito de voltar aqui a Portugal, se não acontecer aqui vou avaliar algumas abordagens que tenho tido para fora, inclusivamente para Itália, que falámos muito disso. E ver o que o futuro nos reserva. O que mais me apaixona é treinar.

    Bola na Rede: Para quando uma aventura em Itália?

    Vasco Faísca: Vamos ver, pode estar para breve, tive algumas abordagens, até coisas que me surpreenderam muito pela positiva. Há muitas coisas que os clubes têm que decidir.

    Bola na Rede: Mas algum dia terá que acontecer…

    Vasco Faísca: Isso sim, não tenho muitas dúvidas que irá acontecer, é esse o meu desejo. Não pensava que fosse para já, mas sei que um dia vai acontecer. Tenho uma ligação muito grande a Itália e gostava de voltar lá enquanto treinador. Recebi algumas abordagens e pode eventualmente acontecer antes daquilo que tinha previsto, vamos ver.

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