«Itália e Portugal têm de ser os dois países onde tenho de ganhar o respeito e o espaço, mostrando o meu futebol» | Entrevista Bola na Rede a Guillermo Abascal

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Guillermo Abascal, apesar de ter apenas 37 anos, consegue ser um técnico com experiência em sete países e, ao mesmo tempo, fazer parte de uma geração promissora, ainda em desenvolvimento. O espanhol cresceu pelas ruas de Sevilha e absorveu o conhecimento aprendido na La Masia, onde se cruzou com Lionel Messi, mas rapidamente percebeu que o seu lugar no futebol era na liderança de equipas técnicas. Tudo começou na Universidade do Algarve e a partir daí tratou de conhecer outras latitudes e longitudes. Suíça, Itália, Rússia, México ou Grécia fazem parte da sua viagem, absorvendo conhecimento em cada aventura, mas deixando igualmente a sua marca. O seu objetivo para o futuro é muito claro: afirmar-se em Portugal, onde tudo ganhou um sentido, ainda em 2011. Uma trajetória com sucessos, adaptações e um ou outro arrependimento (quem não os tem?). Tudo isto, em somente 10 anos de carreira. É o mais recente convidado do Entrevista Bola na Rede.

Bola na Rede: Durante a tua formação ainda como futebolista, passaste pelo Barcelona. A La Masia é mesmo outro mundo?

Guillermo Abascal: O Barcelona é um mundo à parte. Tanto é que quando um sai do Barcelona, tem de se encontrar a si mesmo, porque é totalmente diferente. Muda tudo. Eu trabalhei em seis países, mas quando uma pessoa trabalha dentro do Barcelona, repara que é algo à parte. A metodologia, a mentalidade, a forma como eles percebem o futebol, como eles falam do futebol, como os treinadores que trabalham na La Masia preparam as pessoas para serem futebolistas. É mesmo muito diferente daquilo que encontrei no resto da minha carreira. Mas tenho que dizer que é muito difícil quando um rapaz jovem tem de sair do Barcelona. O atleta tem de se adaptar a outro contexto altamente diferente. Muitos jogadores formados pela La Masia passam por muitas dificuldades depois de saírem de lá. O espaço não é o mesmo, a metodologia não é a mesma, os colegas falam outro idioma (risos). É um privilégio estar dentro do Barcelona. E o que adquirimos tem de ser utilizado pelas pessoas, quando rumam a outros projetos. É muito importante para uma pessoa compreender o futebol e essa passagem ajuda muito.

Bola na Rede: Como treinador, utilizas muitas técnicas que aprendeste no Barcelona?

Guillermo Abascal: Sim, é normal. Estamos a falar da excelência e do nível máximo. Aquilo é o nível máximo de que podemos falar no futebol. São 20 anos desde a chegada do Rijkaard. Eles decidiram voltar atrás, voltar a repetir aquilo que o Johan Cruyff já tinha feito no próprio Barcelona. Estão a praticar um estilo que os faz ganhar. Venceram a La Liga, a Champions League… tudo. O melhor período da seleção foi com o Xavi, o Iniesta, o Sergio Busquets, o Piqué, o Fàbregas… são todos do Barcelona. É mesmo o nível máximo e que, ao mesmo tempo pode ser transmitido por nós treinadores de outras equipas. A metodologia é de alto quilate. Fazes com que os rapazes compreendam o futebol. Não é o mesmo jogar futebol que compreender futebol. Isso é muito mais rápido. Com a bola chega, já sabes o que tens de fazer. Jogar futebol é diferente. Fazer compreender o futebol é algo que o Barcelona é especialista.

«Lionel Messi é o melhor jogador que eu já vi».

Bola na Rede: Durante a tua passagem pela La Masia, cruzaste-te com o Lionel Messi. Numa fase em que ainda eras jovem, esperavas que se tornasse no ícone em que se transformou?

Guillermo Abascal: É o melhor jogador que eu já vi. Nunca vi um talento assim. Ele tinha a bola no meio campo e entrava na baliza com a bola no pé. Era incrível. Ele era pequeno, ainda o é, mas em 2002/2003, quando ele começava a jogar com os miúdos mais velhos, era incrível. Eles tentavam tudo, empurrar e puxar, mas ele tinha uma grande força nas pernas. Ele conseguia manter-se em pé e jogava um futebol incrível. Eu vi o Ronaldinho, eu adorava-o, via treinos dele, ficava sempre nos campos para o ver. Mas o que vi com o Messi era muito parecido com o Ronaldinho. O Ronaldinho no top foi um dos melhores jogadores do mundo. Porém, cansou-se muito cedo. O Messi era um estilo parecido, era mesmo incrível.

Bola na Rede: A tua carreira como treinador arrancou no futebol de formação, sendo que realizaste igualmente algum trabalho de observação. Hoje em dia, esta base é importante?

Guillermo Abascal: Sim, é uma base muito importante. A formação é onde começa tudo. O futebol começa precisamente aí. Nós temos a obrigação de melhorar o jogador, esta é a minha opinião. Se o técnico não melhora o produto que tem, os bons resultados são fruto do acaso. Podes ter alguns resultados bons, mas tens de ensinar para que exista um processo. Estás obrigado a melhorar o processo que tens. Se me dizem: ‘Guillermo, tens de treinar o Rafael Leão’. Eu vou pensar que ele precisa de números, então eu terei de fazer com que ele faça golos, assistências e realize bons jogos. Neste caso, o Rafael Leão é um talento, mas um talento que tem de dar resultado dentro de uma equipa. Ao melhorares o jogador, melhoras a equipa. O Barcelona também me deu essas bases para transportar o que é o futebol aos miúdos.

Bola na Rede: Em Sevilha fizeste parte da equipa técnica do Unai Emery. Qual é que era a tua função?

Guillermo Abascal: O Unai tinha um analista e depois estávamos eu e um colega que trabalhávamos dentro da academia. Éramos preparadores físicos e treinadores. Estávamos dentro do departamento de futebol base. O que fazíamos era simples: nos jogos da Champions League, estudávamos o adversário. Para nós era incrível, éramos muito jovens. Só a possibilidade de ver jogos da Champions League era incrível. Ajudávamos o Emery e o rapaz que era analista. Estávamos sempre muito perto de uma equipa que ganhou muitos títulos, uma equipa que venceu três Europa League, uma delas contra o Benfica em Basileia. Lembro-me muito bem disso. Também ganhámos uma ao Liverpool. O Unai Emery sabemos hoje em dia como é, já ganhou de tudo, é um treinador obsessivo. Para ele, os mais pequenos detalhes são fundamentais. Trabalha muito e prepara muito bem as equipas. O meu trabalho era mais com o analista, uma pessoa que nos abriu a porta. Foi muito importante para mim. Estava muito mais perto do futebol profissional numa idade ainda jovem. Tinha 25 anos.

Guillermo Abascal Basileia
Fonte: Assessoria de Guillermo Abascal

Bola na Rede: Na altura já pensavas em ser treinador?

Guillermo Abascal: Já queria ser treinador. A primeira vez que fui treinador foi quando fiz a Universidade do Algarve, ainda em 2011. Éramos todos espanhóis e tínhamos uma equipa, mas não havia um técnico. Eu também queria jogar, mas tínhamos de nos organizar (risos). Foi o primeiro toque que dei com a faceta de treinador e gostei mesmo muito. Quando voltei para Sevilha já queria ser treinador.

Bola na Rede: Quem são as tuas referências? Em quem te inspiraste para o teu modelo de jogo?

Guillermo Abascal: O meu modelo de jogo vem do Barcelona. É algo que já estava aí entranhado. Mais do que inspiração, foi refletir sobre aquilo que os treinadores me ensinavam na La Masia. Tentar entender por que razão nos ensinavam algumas coisas. O Guardiola é a minha grande inspiração. Ele na altura ganhava títulos pelo Barcelona. Também gosto muito do Jürgen Klopp. Eu acho que ele tem uma forma de ver o futebol muito efetiva. Com pouco, conseguia estar sempre perto das grandes decisões, com as equipas perto do golo. São duas inspirações muito importantes, embora sejam diferentes. O Klopp treinou na Alemanha e em Inglaterra. Hoje em dia está na seleção. O Guardiola esteve em Espanha, na Alemanha e em Inglaterra. Falava-se que estava perto de assumir a seleção de Itália. Eu tenho um grande respeito pelo Ancelotti, não me posso esquecer dele. É um treinador que consegue ganhar em diferentes culturas. São técnicos especiais.

«Neste momento, tenho duas coisas na minha cabeça: Itália e Portugal. Têm de ser os dois países onde tenho de ganhar o respeito e o espaço, mostrando o meu futebol».

Bola na Rede: Apesar da tua curta carreira, já passaste por seis países diferentes. Isso dá-te outra bagagem certamente…

Guillermo Abascal: É diferente, sim. A bagagem no final do dia é a experiência que eu tenho até agora. Se olhar para trás, já passaram quase 10 anos desde a minha estreia como treinador profissional. A bagagem vai crescendo. Neste momento tenho 37 anos. Muitas vezes penso que com 37 anos ainda se vai mais do que a tempo de começar. Mas tenho 10 anos na mala, falo cinco idiomas. É algo muito importante. Neste momento, tenho duas coisas na minha cabeça: Itália e Portugal. Têm de ser os dois países onde tenho de ganhar o respeito e o espaço, mostrando o meu futebol.

Bola na Rede: Mais perto do final da entrevista falaremos do teu futuro. Contudo, falemos do começo. Arrancaste a tua carreira como treinador em 2017/18 ao serviço do Chiasso. Como foi a experiência? É o futebol suíço, não é o espanhol ou o português, aos quais estavas mais familiarizado.

Guillermo Abascal: Não é. Eu tenho de dizer que o futebol suíço é um futebol muito interessante. É um futebol que tem muitas culturas dentro dele próprio. Na seleção verificas isso: há muitos eslavos, também existem sul-americanos (Ruben Vargas), além de uma componente africana (Djibril Sow e Embolo). A Suíça é um país pequenino, um pouco como Portugal. Tem oito ou nove milhões de habitantes, mas não tem uma relação tão profissional com o futebol como outras nações. As pessoas preferem ser médicas, por exemplo. Ganham mais dinheiro. A nível económico não te dá um estatuto muito alto, mas é um futebol que, uma vez lá dentro, vês que é cada cantão é muito diferente. O suíço-francês é muito mais próximo do que vemos na Ligue 1, muito rápido e físico. Já o da parte alemã é muito mais frio, com mais calma. Parece fácil, mas não é. A Alemanha e a França influenciam muito. Outros jogadores querem ir para a Serie A, em Itália. É um bocadinho como um porto de mar. Tu chegas lá, mas não sabes o que é, se estiveres perdido. A Suíça é um pouco isso, é muito multicultural. Eu tive essa oportunidade, não sabia nada quando cheguei. Não tinha conhecimento nenhum, mas gostei muito. Trabalhámos bem e os resultados apareceram muito rápido.

Guillermo Abascal Basileia
Fonte: Assessoria Guillermo Abascal

Bola na Rede: É um facto. Conseguiste dar o salto para o Lugano, mas nesse desafio os resultados ficaram aquém. O que é que aconteceu?

Guillermo Abascal: Eu estava no começo da carreira. Salvámos a equipa que estava para descer. Depois fizemos nove jogos, com três deles numa semana: perdemos, empatámos e empatámos. Porém, empatámos com o Basileia. O Lugano viveu alguns problemas e conseguimos a manutenção. Eles na época anterior tinham-se qualificado para a Europa. Da minha parte, podíamos ter tido mais um ou dois pontos. Mais do que isso era complicado. Contudo, a estrutura não estava alinhada. O diretor dizia uma coisa, o presidente outra. Quando queres fazer um e outro felizes, não consegues fazer feliz a ninguém. Os resultados surgiram daí. Acho que a mudança ocorreu demasiado cedo. Eu também era muito jovem, tinha pouca força nas costas, posso afirmar isso agora. O diretor queria mudar, mas o presidente é que me escolheu. Era um ambiente muito difícil para trabalhar. Mas o mais importante foi salvar a equipa. O Lugano na altura estava sempre a jogar competições europeias, por isso conseguirmos isso foi muito importante.

Bola na Rede: A tua passagem seguinte foi por Itália, onde talvez tenhas dado um passo ao lado. No Ascoli assumiste as funções de diretor de formação, além de técnico das camadas jovens. Como é que foi passar de treinador principal para desempenhar funções na estrutura?

Guillermo Abascal: Eles não tinham nada. Eles disseram que eu tinha de treinar os Sub-19 e fazer outras funções. De um dia para o outro eu estava no Ascoli e tinha de preparar o treino dos Sub-19, mas depois tinha de tratar da organização de toda a academia: treinadores, metodologia… para mim foi uma oportunidade muito importante. Eu sempre quis ir para Itália, experimentar esse futebol. Um espanhol ir para a Itália não é muito comum. O Fàbregas fez esse caminho, mas não há muitos mais. Eu queria fazer o meu trabalho, mas os dois trabalhos ao mesmo tempo, era muito complicado. Em Itália também muda tudo rápido. Mudam os diretores, não há muita paciência. Eu nesta equipa estive 18 meses e quatro diretores desportivos. Era muito difícil, mas eu gostei da experiência. Quando vais como treinador profissional vais num nível onde podes conhecer a cultura. Porém, com jovens conheces mesmo como eles estão a preparar o seu futuro, como vivem o futebol. Entendes como é que a Federação trabalha nas camadas jovens. É muito diferente, eu gostei. Fomos campeões dos Sub-19, mas o clube estava caótico. Cheguei a ser interino na equipa principal, voltei para os Sub-19, subi novamente… era um caso difícil.

«Com os mais jovens tens de ser mais pai, tens de os guiar para seguirem uma linha. O discurso, quando se tratam as pessoas com respeito, não é assim tão diferente».

Bola na Rede: Como é que adotavas o teu discurso perante os jovens em comparação com os mais velhos. Quais as diferenças?

Guillermo Abascal: Tens de tratar uma pessoa sempre como uma pessoa. Quando eu estava no Lugano tinha 27 ou 28 anos e orientava jogadores com 36, com muito mais experiência que eu. Eu tentava aprender com a experiência deles. Com os mais jovens tens de ser mais pai, tens de os guiar para seguirem uma linha. O discurso, quando se tratam as pessoas com respeito, não é assim tão diferente. O Lamine Yamal tem 19 anos, mas joga com os adultos. É o mesmo contexto, tens de saber que são pessoas e entender a individualidade de cada um deles.

Bola na Rede: Com a tua experiência, qual a tua opinião sobre o treinador na estrutura? Por exemplo, nas decisões importantes para o clube (como o mercado) os técnicos devem ser consultados?

Guillermo Abascal: É uma pergunta muito difícil. Eu já dei todos os passos. No Spartak Moscovo tinha de assinar para se fazer a contratação, tinha de dar o meu aval. Mas tive outras situações em que não, não tive essa oportunidade. Queríamos um perfil de jogador e eles traziam um jogador. O que é que eu penso? Como pessoa que já trabalhou em vários departamentos, o jogador de futebol é um produto. O clube tem de investir no produto, tem de o pagar. Eles compram um produto e dizem para o treinador o trabalhar. O produto tem de render, melhorar e gerar resultados. Não se pode lesionar. Qual o nosso trabalho? Melhorar o produto. Se obviamente o produto não é aquilo que nós precisamos e queremos dentro das caraterísticas, vai ser muito complicado. Eu acho que as equipas que ganham títulos estão muito bem alinhadas: clube, diretor, treinador e contratações. Quando tudo está alinhado, tudo a remar para o mesmo lado, funciona bem.

Guillermo Abascal no Spartak
Fonte: Assessoria de Guillermo Abascal

Bola na Rede: Em 2021 assinaste pelo Volos, mas ao final de poucos meses regressaste à Suíça, neste caso para o Basileia. Nesta entrevista referes muito a Itália e Portugal como as tuas segundas casas, mas a Suíça não está neste patamar para ti?

Guillermo Abascal: Eu gosto muito da Suíça. A minha primeira experiência foi lá. Voltar para o Basileia para mim na altura era um sonho tornado realidade. Estava a ir para o campeão. É uma liga que conheço melhor, um campeonato de que tenho uma sensação sempre muito positiva. É um futebol muito mais rápido, menos tático. Para nós espanhóis, ir para a Suíça ou para a Alemanha é muito importante em termos da adaptação a um futebol de transições. Adoro Portugal pelo nível cultural, comida, temperatura, a paixão pelo futebol. Adoro isso. O mesmo posso dizer pela Itália. Falo português e italiano aprendendo na rua porque gostava. A Suíça também fica no meu coração, apesar das minhas preferências.

Bola na Rede: Inicialmente, a tua missão no Basileia passava por seres treinador adjunto. Todavia, assumiste o comando técnico poucos dias depois. Como te preparaste?

Guillermo Abascal: Eu não estava preparado (risos). A primeira ideia era um contrato de longa duração para ajudar o treinador, aprender o alemão. Porém, mudou tudo muito rápido. Quantos dias foram?

Bola na Rede: 28 dias, salvo erro.

Guillermo Abascal: 28 dias depois tinha outro papel. Eu vinha de ser treinador principal, não era difícil para mim. A adaptação ao futebol foi muito rápida. Já conhecia a equipa e os resultados foram muito bons. Apenas perdemos dois jogos, um deles contra o Zurique, que já era campeão. Vivi a experiência de jogar a Conference League, guiar o Basileia no Vélodrome. Treinei jogadores jovens que hoje em dia são muito importantes. O Ndoye, que hoje em dia joga no Nottingham Forest, o Esposito (hoje em dia no Inter Milão), o Wouter Burger, que é um dos destaques do Hoffenheim. Atuar no St. Jacob Park com 45 mil pessoas, com uma pressão muito bonita, foi mesmo muito bom. Porém, depois disso apareceu o Spartak. Se tinha mudado tudo num mês, depois de cinco meses foi um ponto final em definitivo.

«Eu sou um treinador internacional, já treinei em sete países e tenho essa capacidade de adaptação».

Bola na Rede: Antes de passarmos pelo teu capítulo no Spartak, há aqui um tema que gostaria que aprofundasses. Quando chegas a um desafio novo (que pode ser a meio da temporada), impões as tuas ideias ou preadaptas-te ao que já tens?

Guillermo Abascal: É muito boa pergunta. Obviamente existe uma diferença pequena: se a equipa que vais começar a trabalhar é parecida com o teu futebol ou se é muito diferente. Mesmo nós como treinadores temos de escolher. Se eu vou com pouco tempo começar com uma equipa que é muito diferente do que faço, preciso de um tempo que se calhar não tenho. Assim fica mais difícil. Eu sou um treinador internacional, já treinei em sete países e tenho essa capacidade de adaptação. Num período curto, o primeiro ponto é a adaptação e tens de ser tu a adaptar-te, sem mudar muito. A pouco e pouco, sendo muito inteligente, tentas introduzir tudo o que queremos fazer. Mas é um processo demorado. O bom trabalho às vezes não dá resultado.

Bola na Rede: Rumaste à Rússia num período em que já existia um conflito do país com a Ucrânia. De que forma esta guerra afetou o futebol e a tua carreira?

Guillermo Abascal: Afetou muito. Acho que a situação bélica de conflito que existe afetou o país. Passaram a existir muitas restrições. O campeonato ficou afetado, tratava-se de uma liga com uma grande capacidade económica, com um patamar muito alto, mas numa fase em que os clubes russos podiam disputar as competições europeias. Como não existe essa possibilidade, os jogadores ficaram desmotivados. Atualmente, os clubes russos estão a pagar mais dinheiro ao atleta local, mas os jogadores possivelmente não têm qualidade para receber tal ordenado. A justificação? Evitar que os atletas rumem à Europa, onde iriam ganhar menos dinheiro, mas podiam participar de provas continentais. É uma situação que não é fácil para os jogadores russos jovens. Para mim e para a minha carreira, também não foi simples. Ficámos em terceiro no primeiro ano e poderíamos jogar Europa League. Com 30 e poucos anos era uma grande oportunidade. Com a guerra, este sonho não foi cumprido. Afetou a minha progressão na carreira. Mas o futebol na Rússia tem qualidade, existe muito talento. Infelizmente, trata-se de um talento bloqueado.

Bola na Rede: Sentiste algum receio ou chegaste mesmo a pensar em abandonar a Rússia durante o período que estiveste no país?

Guillermo Abascal: No final da segunda época ocorreu o atentado do Crocus, foi algo muito duro para todos. Eu já tinha um filho, ele nasceu em Moscovo, a minha mulher também estava comigo. Era uma situação complexa. Inicialmente era tranquilo, mas foi complicando ao longo do tempo. Muitas vezes íamos jogar a Krasnodar e demorávamos 15 horas, uma vez que não podíamos ir de avião. Não é possível existir um voo normal. O Sochi hoje em dia tem jogos cancelados devido aos drones. É uma situação em que tens de avaliar muitas coisas. Hoje em dia, voltaria. O Spartak tratou-me de forma incrível, deu-me tudo de bom. Tenho muitos amigos lá, mas era uma situação que afetou a minha progressão.

Bola na Rede: Na Rússia voltaste a cruzar-te com o Tomás Tavares, que já tinhas orientado no Basileia. A sua contratação foi um pedido teu?

Guillermo Abascal: Foi um pedido expresso. O Tomás Tavares no início comigo não jogava, isto ainda no Basileia. Mas depois do jogo contra o Marselha começou a atuar. Ele já tinha alguma experiência. Eu gostava muito dele, é um atleta muito rápido, pode jogar à direita e à esquerda. Tem uma grande mentalidade e uma personalidade incrível. Dá vontade de abraçá-lo todos os dias. É um rapaz que tinha um potencial alto. Depois da primeira lesão tivemos a possibilidade de o contratar para o Spartak e avançámos. Sofreu uma segunda lesão e eu depois saí da equipa. Ele tem 25 anos, tem muito tempo. Gosto do Tomás por tudo.

«Se tivéssemos vencido essa partida, subiríamos ao quarto lugar. Fomos despedidos. Passámos de um extremo ao outro. Foi uma decisão feita no momento equivocado».

Bola na Rede: Como treinador, até pensando neste caso do Tomás Tavares, como é que lidas com estes jogadores que estão lesionados? Existe uma conversa sobre o tema?

Guillermo Abascal: Claro que sim. Neste caso do Tomás Tavares antes também existiu uma adaptação à Rússia, uma cultura diferente. Nós somos pessoas, nunca nos podemos esquecer isso. Estamos a trabalhar com indivíduos, não com máquinas. Existe uma abertura, falar e ajudar. O contacto com os jogadores é sempre especial.

Bola na Rede: Acabaste por sair do Spartak Moscovo para regressares a Espanha e à Andaluzia, assinando pelo Granada em 2024. Tinhas mais ofertas? Foi uma decisão tua regressar a Espanha?

Guillermo Abascal: Foi uma decisão que, voltando atrás, arrependo-me. Não deveria ter feito aquilo. O Granada vivia uma situação, sendo que hoje em dia não está excelente, complexa. Quando os clubes não são sólidos, não têm uma estrutura forte, vão sofrer sempre. Os problemas vão sempre existir. Eu sempre treinei fora de Espanha. Na Rússia nasceu o meu primeiro filho. No mesmo verão em que voltámos, casei-me. Foram muitos anos no estrangeiro e comecei a pensar em regressar para estar mais perto do resto da minha família. Porém, eu já sabia que o projeto do Granada não tinha muita confiança. Não podias confiar naquilo. O diretor geral pensava de uma maneira, o diretor desportivo pensava de outra. A propriedade era da China. Não sabias com quem estavas a falar. Era uma situação muito difícil. Tanto é que, ainda agora, depois de seis jogos a jogar um bom futebol, não se entende bem a nossa saída. Empatámos três jogos: Elche, Deportivo de A Coruña e Málaga, três equipas que hoje em dia estão na La Liga. Falhámos um penálti aos 90+8′. Se tivéssemos vencido essa partida, subiríamos ao quarto lugar. Fomos despedidos. Passámos de um extremo ao outro. Foi uma decisão feita no momento equivocado.

Guillermo Abascal no Granada
Fonte: Assessoria de Guillermo Abascal

Bola na Rede: O Granada é um pouco como o Real Valladolid? Realizando uma antevisão à La Liga 2, encaixamos os dois no mesmo perfil: históricos, mas sem um rumo bem definido.

Guillermo Abascal: O Zaragoza é exatamente o mesmo, está na Primera RFEF esta época. É uma gestão que não tem uma linha, que mudam muito de ideias e assim não sabem o que têm de fazer. Não podem dizer nada contra mim, os resultados estão à vista de todos.

Bola na Rede: No Granada orientaste o Ricard Sánchez, hoje em dia no Estoril Praia. Perguntava-te se é um lateral que pode ainda dar mais um salto em Portugal?

Guillermo Abascal: Pessoalmente, o Ricard tem ainda uma margem de melhoria muito grande. Trata-se do seu nível tático. A nível técnico, é um jogador que já demonstrou a sua qualidade. O seu nível físico é muito bom, pode fazer um jogo muito equilibrado. Mas ainda tem potencial para melhorar a nível tático. O Basileia perguntou-me pelo Ricard em 2024 e eu dei uma boa referência. Nos campeonatos europeus ele pode fazer a diferença. No Estoril Praia é um lateral completo, faz a ala toda. Ele pode melhorar ainda mais e se o conseguir vai ser um jogador ainda melhor.

Bola na Rede: Também te passou pelas mãos o Reinier, cedido pelo Real Madrid, que o comprou por 30 milhões de euros, mas nunca se conseguiu afirmar. Porque é que o brasileiro não conseguiu desenvolver-se como o esperado?

Guillermo Abascal: Podes fazer-me a mesma pergunta 100 vezes e eu vou-te dizer a mesma coisa. A sua cabeça é o problema. É um jogador com umas capacidades excelentes. Fisicamente e tecnicamente tem um bom nível. Não é um Ronaldinho ou um Vinícius, mas tem um talento incrível. Mas durante o jogo apaga-se. Ele quer, mas não consegue. Tem uma personalidade bastante boa, um carácter de topo. Ele gosta muito de trabalhar. Eu já trabalhei com o Arthur Cabral. Esse tipo de jogadores gosta de futebol, gosta de falar de futebol. É uma história que não tem o final esperado. As expectativas eram demasiado altas. Ele não tem um final feliz, infelizmente, precisamente por isso. Isto é a minha opinião.

«O Paulinho é um predador de área, dentro dela sabe perfeitamente como se mover. Lembra-me um bocadinho o Ruud van Nistelrooy».

Bola na Rede: A tua mais recente aventura foi do outro lado do Atlântico, no Atlético San Luís. O que é que te atraiu a rumar ao México?

Guillermo Abascal: É complicado (risos). Para os europeus ir para a América não é fácil. Eu estava em Portugal nessa altura, esperava uma oportunidade e ter contactos com o futebol luso. Já tinha uma casa lá e queria começar. Porém, apareceu essa oferta. Há muitos clubes com multipropriedade. Neste caso, os donos são do Atlético de Madrid. Quando olhas para os colchoneros, verificas que existe estabilidade. O Simeone está lá desde 2011. Isso atrai bastante os treinadores. O México também me atraiu porque estavam lá o Sergio Ramos e o Canales. Existiam europeus que também estavam no augeo a ir para aí. O Domènec Torrent, espanhol, estava lá no clube. Era também o ano do Mundial. Eu era uma pessoa curiosa, queria experimentar, viver uma nova aventura. Sou sincero, experimentei e não gostei. Mas é simplesmente por acaso. As pessoas são diferentes, o formato é diferente com o Apertura e o Clausura, existe um playoff. Eu não gostei do formato. Também não existem despromoções, trata-se de um campeonato fechado.

Bola na Rede: Um pouco como a MLS…

Guillermo Abascal: Um pouco como a MLS, mas sem ser a MLS (risos). É muito diferente. Estruturalmente é distinta. Os campos são diferentes. Foi mais uma experiência, difícil do ponto de vista futebolístico. Quase todos os treinadores eram argentinos: Gabriel Milito, Diego Cocca, Eduardo Berizzo, Nicolás Larcamón… Também estava o Loco Abreu. Eram muito poucos os treinadores mexicanos. O que menos gostei foi do formato, por isso é que saí. Tinha ainda mais um ano de contrato, mas não era uma situação para continuar.

Guillermo Abascal Spartak
Fonte: Assessoria de Guillermo Abascal

Bola na Rede: Qual é a tua opinião sobre o Paulinho?

Guillermo Abascal: Nós tivemos o melhor marcador, o João Pedro Galvão, que já jogou no Estoril Praia. Ele fez 26 golos connosco. Fez mais golos do que o Paulinho, que também estava na corrida. O Paulinho é um predador de área, dentro dela saber perfeitamente como se mover. Lembra-me um bocadinho o Ruud van Nistelrooy, um jogador de área. Com movimentos mesmo muito bons. No campeonato mexicano está a sair-se muito bem. Eu gosto muito dele, os adeptos, não apenas do Toluca, também o adoram.

Bola na Rede: Começas esta época sem clube. É algo que ocorre por opção tua ou chegaste a ter ofertas?

Guillermo Abascal: Cheguei a ter ofertas, mas não apareceu o projeto adequado. Em alguns casos optaram por outro treinador. Noutros casos, fui mesmo eu que não continuei com as conversações. Já passaram 10 anos desde o meu começo. Eu preciso de estabilidade. Eu sou treinador e o treinador ganha tempo quando ganha jogos. Sei plenamente isso. Mas eu quero estabilidade no clube que eu quero trabalhar, que não haja muitas mudanças de diretores. Passei por isso na minha carreira. Estou a precisar de mais solidez nas costas. Quero um projeto alinhado com o que posso fazer. Obviamente, sei que neste momento, se aparecer algum clube, pode não ser a equipa que eu quero. Porém, tenho de ir para a frente com a minha decisão. Se tenho uma oportunidade, estou obrigado a escolher bem. Na vida é muito mais difícil saber dizer não do que sim. Pensamos: ‘apareceu o Sevilha’. O Sevilha é um histórico, mas está a viver um momento complicado. Eu sou adepto do Sevilha, seria o sonho da minha vida, mas este não é o momento para ir para lá. Sei que vão aparecer projetos, vou seguir a Primeira Liga em Portugal nestas semanas. Posso viajar no país, ver os jogos. Ver em direto dá uma relação muito maior com o campeonato. Podem-me ligar de outros países, claro. Neste momento, a minha prioridade é ficar perto de casa.

«O Marco Silva está obrigado a ganhar. Por quê? Porque nos últimos anos perderam. As águias têm de lutar».

Bola na Rede: Nos últimos meses chegaste a ser associado ao Estoril Praia, numa fase em que a tua prioridade passa por treinar em Portugal. Houve algum fundo de verdade nos rumores que surgiram?

Guillermo Abascal: Eu não falei com ninguém. Os empresários ligaram-me e disseram-me que existia interesse. Era uma das opções que eles tinham para eu trabalhar. Obviamente, a minha motivação na altura era muito grande. Conheço a equipa, principalmente o Ricard Sánchez. É uma equipa que pode fazer muito melhor do que fizeram na época passada. Terminaram em décimo lugar, com 39 pontos. Eu tinha essa motivação e sabia do interesse. Não consegui aprofundar as conversações sobre o tema, para chegar a algo mais sério. Mas fiquei contente pelo interesse. Eu não tenho carreira em Portugal. Quando trabalhei no Cádiz numa fase em que não treinei, fiz scouting na Liga Revelação, em 2019. Mas não tenho mais do que essa experiência. É normal que os clubes olhem para os que já trabalharam no país. Estou disponível para falar, ter conversações com clubes portugueses. Eu conheço o campeonato e posso realizar um bom trabalho.

Bola na Rede: Hoje em dia vemos a Primeira Liga com vários jogadores espanhóis, que passaram pela La Liga, La Liga 2, Primera RFEF… Parte destes nomes atingem o sucesso. Pode Portugal ser um bom território para os técnicos de Espanha?

Guillermo Abascal: Eu acho que sim. Nós somos muito parecidos, mas com algumas diferenças. Os treinadores portugueses e espanhóis têm metodologias muito parecidas. Têm um jogo propositivo, querem dominar o adversário. No entanto, há diferenças. O português é mais comunicativo, mais quente, tem mais fogo. Eu já experimentei isso, cruzei-me com alguns portugueses em Itália e na Rússia. O Carlos Vicens está a fazer um bom trabalho no Braga, deve abrir portas. Nós também temos aberto também as portas para os portugueses: Queiroz ou Mourinho, por exemplo. Pode ser uma sinergia muito positiva para as duas partes.

Guillermo Abascal e Quincy Promes
Fonte: Assessoria de Guillermo Abascal

Bola na Rede: És um seguidor da Primeira Liga, como é público. Pedia-te uma pequena avaliação sobre a luta pelo título. Quem é que achas que parte na frente?

Guillermo Abascal: O Benfica tem obrigação de ganhar neste preciso momento. Não tem tempo. O FC Porto contou com tempo para pensar em quem podia trazer para fazer melhor. O Benfica já não tem esse tempo. O Marco Silva está obrigado a ganhar. Por quê? Porque nos últimos anos perderam. As águias têm de lutar. O Sporting viveu recentemente grandes resultados e agora talvez esteja a perder um pouco de gás. Se jogarmos na guerra, o FC Porto vai ganhar. Porém, se o Benfica estiver ‘frio’ e conseguir resultados, que para o treinador são tudo, pode entrar perfeitamente nesta luta. Na minha opinião pessoal, o FC Porto vai continuar na frente, com o Sporting e o Benfica um escalão mais abaixo. Os azuis e brancos estão mais relaxados e tranquilos.

Bola na Rede: Um atleta que já enfrentaste na tua carreira foi o Yeremay Hernández, numa altura em que orientavas o Granada e ele estava no Deportivo de A Coruña. Fez inclusivamente uma assistência nessa partida. O espanhol tem sido apontado ao Sporting de uma forma recorrente. Inclusivamente, realizámos uma entrevista ao Imanol Idiakez que afirmou que o extremo poderia ser uma estrela em Portugal. Segues o mesmo pensamento? Ou acreditas que os 40 milhões de euros de que se chegou a falar seriam um exagero?

Guillermo Abascal: No futebol, hoje em dia quase tudo é um exagero. Eu sou muito contrário a pagar muito e ter um rendimento baixo. É como estava a dizer sobre o caso do Reinier. Eu não gosto de comprar expectativas. Para mim Portugal foi sempre um campeonato que comprou por pouco dinheiro e vendeu muito alto. É o valor mais importante do futebol português e dos treinadores portugueses: melhorar o produto que vem de fora. Até mesmo melhorar o que já existe dentro de portas. Para mim, pagar 40 milhões de euros é um exagero.

Bola na Rede: O treinador espanhol também trabalha bem a formação…

Guillermo Abascal: Sim, sem dúvida. Para mim é muito melhor pagar menos, revalorizar e vender. Eu cresci no Sevilha do Monchi. O que é que ele fez? Contratou o Dani Alves, o Poulsen, o Keita, o Adriano… chegaram muitos jogadores por 500 mil euros, um milhão… e depois vendia por 30 milhões de euros. Deram oportunidade ao Sevilha a oportunidade de ganhar e crescer. Sou mais partidário desse modelo. 40 milhões de euros para o futebol português é muito.

«Em termos de identidade, prometo uma equipa sem medo de ninguém, que joga sempre para ganhar os jogos. O que eu gosto mais na minha vida é que as pessoas que estejam nas bancadas possam estar identificadas com que fazemos no campo. É o mais importante».

Bola na Rede: Falaste do Sevilha e refletiste sobre o Sporting. Uma vez que tocaste nestes dois clubes, pergunto-te se o Giorgi Kochorashvili poderá ser um elemento diferencial dos andaluzes?

Guillermo Abascal: Hoje em dia, sem dúvida. É uma equipa que precisa de um jogador como ele. Melhora o plantel de certeza absoluta.

Bola na Rede: Para fecharmos, se algum dia virmos Guillermo Abascal num banco do futebol português, o que é que vamos poder assistir?

Guillermo Abascal: Vamos poder ver uma equipa vertical, em termos táticos. Uma equipa muito agressiva no momento defensivo e ofensivo. Uma equipa que olha para a frente e que quer jogar de forma vertical para chegar à baliza. Quero que a equipa tenha bola, mas que seja vertical. Já em termos defensivos, existirá muita paixão, muita agressividade, e gosto pelo contacto. Uma equipa que gosta de se defender para ter a bola e atacar. Em termos de identidade, prometo uma equipa sem medo de ninguém, que joga sempre para ganhar os jogos. O que eu gosto mais na minha vida é que as pessoas que estejam nas bancadas possam estar identificadas com o que fazemos no campo. É o mais importante.

Ricardo João Lopes
Ricardo João Lopeshttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo João Lopes realizou a sua formação na área da História, mas é um apaixonado pelo desporto (especialmente pelo futebol) desde criança, procurando estar sempre a par da atualidade.

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