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Sai pupilo de Portugal, e regressou depois de conquistar a Sua Majestade. A estadia em terras lusas não perdurou, e Filipe Oliveira foi um aventureiro no mundo do Futebol. Itália, Hungria, Chipre e Roménia fazem parte do currículo do lateral ofensivo, que agora joga do lado do scouting na Arábia Saudita. Foi orientado por treinadores como José Mourinho, Ranieri e Jesus, mas nenhum destes é a sua escolha para dirigente que o mais marcou. Apesar de assumir alguns erros de gestão na carreira, Filipe Oliveira diz que aprendeu com todos eles.
Ao fim de ter uma carreira de 24 anos, alguns entres os grandes palcos europeus, teve uma experiência de três meses a lavar carros, e uma lição que tirou para a vida. Vencedor de um Torneio Toulon, uma Intertoto e um campeonato inglês e húngaro, o braguista nascido e criado analisa o percurso do SC Braga nos últimos anos, na mesma hora que recorda os balneários que partilhou com campeões mundiais, e ídolos, e ainda alguns momentos que perduram atravessados na garganta. Um analista sem sombra de dúvidas, o lateral não deixou de mostrar como vê o futebol português, e ainda algumas diferenças e surpresas que foi encontrando entre os campeonatos que calcou.
“Acho que o passo errado foi voltar a Portugal”
Bola na RedePara começar pelo teu início de carreira. Fizeste formação no SC Braga e no FC Porto. Numa altura em que se fala tanto de formação, e com a tua ligação ao scouting, que principais diferenças encontras? Além disso, sentes que na tua altura havia falta de oportunidades?
Filipe Oliveira: Não, no meu caso específico não posso dizer isso. Eu não saí em virtude de falta de oportunidades. Não foi de total maneira esse o caso. O que surgiu na minha altura com 17 anos foi que houve um processo que se estava a desenrolar a nível de formação, as coisas estavam a correr bem, de tal maneira, que se proporcionou ir para Inglaterra e seguir caminho. Tanto a oportunidade surgiu que eu quando saí de Inglaterra voltei com 20/21 anos para uma equipa da Primeira Liga, o Marítimo. Não posso dizer que no meu caso específico foi falta de oportunidade.
Bola na RedeAproveitando já a tua referência a Inglaterra, fazes a tua estreia como sénior no Chelsea FC, olhando agora para trás, arrependeste de ter dado esse passo?
Filipe Oliveira: Não, acho que o passo errado, e com todo o respeito e mesmo com muita humildade digo isto, mas é uma análise que tenho de fazer, e faço enquanto atleta que já terminou a sua carreira. Acho que o passo errado foi voltar a Portugal. Nunca foi ter saído para Inglaterra, eu com 18 anos tive a oportunidade de já poder-me estrear-me na equipa principal. O Chelsea, na altura da minha quarta época, estava num período de transição no próprio clube. Na altura havia um proprietário que era o Ken Bates que estava a estruturar o clube e estava com uma filosofia de poder proporcionar oportunidade aos jogadores da formação, porque o próprio clube precisava disso, precisava de rentabilizar, e eu tinha sido contratado muito nessa linha de pensamento. Entretanto chega o Abramovich, contratou o José Mourinho, e tudo mudou dentro do clube, houve uma mudança radical, não digo nos objetivos, porque o Chelsea FC já era uma equipa que lutava para ganhar títulos. Só para relembrar que no último ano do Ranieri o Chelsea FC ficou em segundo lugar no campeonato. Mas na primeira temporada de Mourinho, com todo o investimento, e com toda a qualidade do plantel, conseguiu-se chegar ao objetivo de ganhar o campeonato. Mas para nós jovens que estávamos numa fase de formação e afirmar-se na primeira equipa, tudo se tornou muito mais complicado.
1846. Filipe OLIVEIRA
Midfielder – 27.05.84 – POR
Prem Debut:
19/10/2002 (Manchester City vs. CHELSEA, W 3-0 – sub 89 mins)Prem Clubs:
Chelsea (02-06)Prem Apps: 5
Prem Goals: 0 pic.twitter.com/DTcfmv6ru1— Premier League Players (@premlgeplayers) October 22, 2020
Bola na RedeAbordaste a qualidade do plantel. Na altura o Chelsea FC já tinha o Terry, o Gallas, o Petit, o Lampard, o Crespo, entre outros. Como foi para ti com 17/18 anos chegar ao balneário e ver aqueles craques?
Filipe Oliveira: É muito curioso porque eu vinha de uma realidade portuguesa, onde nessa altura a distância da equipa de formação para a primeira equipa era muito grande. Havia a equipa B que era o meio termo, mas de juniores para a primeira equipa era uma diferença e distância muito grande. Quando chego a Inglaterra levo com esse embate. Isto porque, o edifício onde tanto a equipa de juniores, a equipa B e a equipa de seniores treinavam era o mesmo. Nós partilhávamos o mesmo edifício, ou seja, o que para um português causava alguma estranheza de poder conviver com a equipa principal, para os ingleses era algo muito natural, e isso foi muito enriquecedor a nível de crescimento. Eu chegava ao ponto de estar a trabalhar no ginásio junto dos atletas da primeira equipa. Chegava ao ponto de estar no pequeno-almoço e no almoço junto dos atletas da primeira equipa. Inclusive, nós tínhamos a tradição, comigo não aconteceu, possivelmente porque também cheguei alguns meses mais tarde a Inglaterra, mas os miúdos da equipa B e juniores tinham por tradição cuidar das botas de um dos atletas da equipa principal. Isto são tudo estratégias que os ingleses têm, muito bem na minha opinião, de encurtar distâncias e dar a visão de que é possível atingir e alcançar grandes patamares. Foi muito interessante, porque tínhamos jogadores de classe mundial, só para relembrar, o Desailly tinha acabado de ser campeão do Mundo pela França, era o capitão da seleção, mas com uma simplicidade e de uma naturalidade enorme, de convivência, diálogo, abertura, extraordinário, adorei.
Bola na RedeNo Chelsea FC ainda apanhas uma comitiva portuguesa, se assim podemos chamar, o Ricardo Carvalho, o Paulo Ferreira, o Tiago, o Nuno Morais e o Filipe Morais. Isso ajudou-te de alguma forma a estares melhor e mais preparado?
Filipe Oliveira: A nível de adaptação não teve influência nenhuma, até acho que foi mais ao contrário. Isto porque, salvo erro, a comitiva portuguesa chegou na minha quarta temporada, foi mais eu poder auxiliá-los, sobre a cidade, onde são os locais, essas coisas, do que verdadeiramente mais eles a mim. O que eu senti, e estou muito grato a quem me ajudou foi facto de falarmos a mesma língua fez com que tivéssemos uma maior proximidade, e o facto de podermos estar em convivência diária, vai-nos tornando mais próximos um dos outros. E isto a nível futebolístico, tive a oportunidade de evoluir com o Paulo Ferreira, com o Tiago, com o Ricardo Carvalho, com o Nuno Morais e o Filipe, e toda a restante equipa técnica, porque era o Mourinho, o André Vilas Boas, o Rui Faria, o Silvino.
“Esse Europeu está-me atravessado”
Bola na RedeAinda em Inglaterra, em 2003, és selecionado para ir ao torneio Toulon, onde Portugal acaba por ganhar, numa equipa que tinha, por exemplo, o Ronaldo, o Hugo Almeida e o Danny, que lembranças ainda tens?
Filie Oliveira: Foi um torneio que nos correu muito bem. Foi um torneio que Portugal fez mais uma vez história na formação, havia equipas muito fortes. Nesse ano era um dos mais novos da comitiva, e para mim foi muito enriquecedor, porque apesar de conhecer bem essa geração, porque acabei por fazer parte de duas gerações da seleção, inclusive voltei ao torneio Toulon no ano a seguir, foi enriquecedor porque houve uma convivência maior por parte de jogadores mais velhos e jogadores mais novos. O Ronaldo foi um desses casos, ele era mais novo, e acabamos por criar um grupo forte com bastante qualidade, com muita solução. Acabamos por ganhar porque realmente tínhamos uma equipa acima da média. Não o devia fazer porque realmente eramos muito fortes, mas tínhamos o Quaresma, o Raúl, o Custódio, o Danny, o Lourenço. Além disso tínhamos uma base sólida, porque vínhamos a jogar quase todos desde os sub-15, e acabamos por ter verdadeiramente um bom desempenho, e foi muito bom, porque o Torneio Toulon é para mim o melhor torneio de sub-20, e mais uma vez conseguimos deixar a marca de Portugal.
Bola na RedeProva da qualidade dessa geração, é que pouco tempo a seguir vão à final do Campeonato Europeu de sub-19, onde perdem na final por 3-1 com a Itália, como foi a prova?
Filipe Oliveira: Esse Europeu está-me atravessado. Foi em Liechtenstein e tínhamos uma comitiva portuguesa em peso, inclusive estávamos num hotel que era de um proprietário português, fomos muito bem tratados, como em todo lado, há sempre portugueses. Mas naquele caso fomos muito bem recebidos, e acabamos por fazer um torneio muito interessante e quando pensámos que já estávamos a agarrar o trofeu, escapou-nos contra uma Itália muito forte. Tinha feito parte da nossa fase de grupos, também não tinha sido fácil defrontá-los e depois na final eles entraram mais fortes. Acabaram por determinar o jogo por terem entrado mais fortes que nós.
Bola na RedeDe volta a Inglaterra, és emprestado pelo Chelsea FC ao Preston North End FC, e ainda voltas ao Chelsea antes de vir para Portugal. Nesse curto espaço tempo, passas da Segunda Divisão Inglesa para a Primeira Liga, que principais apontas entre esses dois campeonatos, muitas vezes comparados.
Filipe Oliveira: O processo foi muito simples. Eu estava na equipa B do Chelsea, numa competição que na altura era só para equipas “B´s”. Havia o campeonato norte e o campeonato sul, e os jogos tornavam-se sempre mais interessantes quando os jogadores indisponíveis da equipa principal vinham jogar nas equipas B, porque é um processo super normal na Inglaterra, e então muitas das vezes havia semanas em que estava a jogar contra miúdos da minha idade, e noutra semana estava a jogar contra, por exemplo, o Gilberto Silva que tinha sido campeão pelo Brasil. Mas quando eu passei para o Championship, e aí surgiu a oportunidade de eu ir emprestado por um mês, era um dos modelos possíveis na altura em Inglaterra, eu em sete jogos possíveis fiz seis. A nível pessoal foi muito enriquecedor, porque saí de Londres, fui para o norte de Inglaterra, fui para um meio mais pequeno, um clube mais pequeno, muito familiar, acolhedor, com tradições e raízes muito próprias, e nesse aspeto fez-me crescer bastante. Tive muita pena de não ter ficado lá mais tempo, que era um dos objetivos do próprio Preston, mas o Chelsea não permitiu, daí ter sido um período mais curto. É mesmo com muita pena que não fiquei lá. Mas para responder à tua pergunta, a nível de competitividade, não tem nada a ver. A nossa Liga Portuguesa, e estou a falar da realidade desse período, era uma liga com mais qualidade técnica, um jogo mais pensado, um jogo muito mais pausado, enquanto que no Championship aquilo é velocidade incrível. Eu recordo que num dos primeiros jogos que eu entrei, eu precisava de duas botijas de oxigénio, porque aquilo era uma correria. O ritmo e a intensidade com que se joga não é um jogo pensado, é um jogo de velocidade e de “box to box” como os próprios ingleses dizem. Lógico que isto mudou, evoluiu, o facto dos treinadores, digamos “europeus”, terem começado a ir para Inglaterra, mais jogadores estrangeiros ir para Inglaterra, há muitos artigos sobre isso, mesmo a nível estatístico, se compararmos as distâncias que se percorriam, o número de passes, o número de remates, já há uma diferença acentuada entre esse período e a atualidade. E eu posso dizer que é verdade, porque era uma correria doida, no sentido de uma busca constante do golo.
Bola na RedeNa última temporada no Chelsea FC acabas campeão, chegaste a tocar na taça?
Filipe Oliveira: Sim, tive a oportunidade. O mister Mourinho concedeu-me a oportunidade de no último jogo jogar contra o Newcastle, e poder ser campeão se assim posso dizer, porque fazia parte do lote de atletas que jogaram. Fui o primeiro português a conseguir esse feito, no sentido em que eu já tinha estado no clube antes, mas acabo por ter um sentimento muito misto como é lógica. A grande obra não foi feita por mim, foi feita por outros atletas, mas também é lógico que eu tendo a idade que tinha, e estar presente nas festas comemorativas, de poder desfilar no autocarro, de poder sentir o carinho de todos os adeptos, foi um episódio único e marcante da minha carreira.
“O jogador não passa pelas mãos do Jorge Jesus e continua o mesmo, é impossível.”
Bola na RedeEm Inglaterra acabas por ser campeão, em Portugal és vice-campeão pelo SC Braga num ano com alguma polémica. Há um bocado disseste que o jogo com a Itália ficou atravessado na garganta, e esta época no Braga ficou-te atravessada na garganta?
Filipe Oliveira: Sim, eu acho que, e não fazendo comparações com outras equipas, que também não é correto, acho que tínhamos uma equipa muito competitiva, um projeto já num ponto bastante sólido. O Braga já era uma equipa grande, uma equipa que tinha uma estrutura altamente organizada, com todos os processos que as melhores equipas europeias têm, e isso permitiu-nos estar mais próximos, acho que realisticamente falando, com todas as condicionantes do campeonato, acho que foi o ano em que o Braga até ao momento esteve mais próximo de realmente sonhar com o título. Houve alguns episódios que marcaram como é lógico, e fizeram ter um desfecho diferente. Eu acredito que realmente tínhamos um plantel que se podia debater até ao último jogo. Infelizmente não fomos, fomos uma equipa vencida, mas muito honrada, e que conseguimos, por menos, tenho esse sentimento como braguista que sou, nascido e criado, sinto-me muito orgulhoso porque foi um marco muito importante na história do Braga, para pelo menos amedrontar e fazer frente aos tais ditos grandes em Portugal. Começarem a levar o Braga de uma maneira mais séria e começar também a temer o clube, e a capacidade que o clube tem.
Bola na RedeQuase que podemos considerar essa época como o ponto de viragem…
Filipe Oliveira: O Braga como todos os clubes faz parte de um projeto/processo. Quer nas épocas transatas, tudo o que os antigos atletas conseguiram acrescentar ao processo, está a ser agora recolhido por esta nova geração, e será sempre no futuro, enquanto se mantiver este trajeto. O Braga está a dar passo a passo, e bem. Os clubes que têm projetos a curto prazo normalmente têm mais tropeções, e se nós pararmos para pensar, a longevidade do presidente e o trabalho acumulado assim o comprova, isto é, passo a passo. Eu recordo-me de ir ao estádio com sete/oito anos e eu via-a o Braga a lutar para não descer de divisão. Quantas e quantas vezes era os anos da aflição, e progressivamente eu cheguei a ver o Braga a jogar nas competições europeias, por exemplo. Todos os atletas foram acrescentando, o próprio clube foi-se estruturando, foi evoluindo, até estar no patamar que está hoje, mais próximo de ganhar títulos, como tem feito, títulos cada vez mais importantes, e o ano, e realmente concordo contigo, que se chegou à final da Liga Europa, foi a época mais enriquecedora e prestigiante do clube, que deixou o nome do Braga no mapa europeu. Agora já não é conhecido só pelo estádio, porque regra geral quando digo que sou do Braga toda a gente me fala do estádio. “Epá é aquele estádio de duas bancadas e tal…”. Mas agora as pessoas já começam a mudar o discurso. “É o Braga, o Braga da Liga Europa. O Braga que foi à final da Liga Europa”, o discurso começa a mudar, é muito positivo, e é fruto do trabalho dos atletas e de toda a estrutura.
Bola na RedeNo início da tua carreira apanhas logo treinadores como Ranieri e José Mourinho, mais tarde encontras o Jorge Jesus, entre todos os treinadores, qual foi o mais importante no teu caminho?
Filipe Oliveira: É sempre complicado responder a essa pergunta. Com muita honestidade, todos os treinadores acrescentam sempre algo a um atleta, por muitas das vezes que o atleta não se identifique por várias razões, há sempre pontos de aprendizagem. Eu tive a felicidade, e vinco fortemente, tive muita felicidade na qualidade dos treinadores que tive ao longo da minha carreira. Desde o primeiro treinador que eu tive, que foi o mister Carlos Batista, no SC Braga, que para mim é um dos grandes pioneiros na formação do Braga, mas ao longo da carreira fui sempre tendo bons treinadores, que me ensinaram, explicaram e mostraram as coisas. Aqueles que disseste e pedindo já desculpa aos outros, mas aquele que tive mais afinidade foi o mister Paulo Sousa. Acho que foi também aquele que entendeu melhor a minha personalidade, que é um dos fatores mais importantes no futebol, além da componente tático-técnica, entender a personalidade de um atleta é importante para tirar o melhor partido das qualidades dele, e acho que nesse capítulo, o mister Paulo Sousa foi de longe o que melhor partido tirou das minhas qualidades porque foi o que me conhecia melhor. De todos aqueles que referiste, eu pessoalmente, não preciso de apresentar nenhum, mas o mister Jorge Jesus foi para mim o treinador com o qual eu enriqueci mais, com aquele que eu senti que a nível tático eu consegui entender o jogo de uma outra forma, porque a forma intensa com que ele trabalha, assim obriga o atleta. O jogador não passa pelas mãos do Jorge Jesus e continua o mesmo, é impossível. Nesse aspeto, na componente de aprendizagem técnico-tática foi quem mais me marcou. A nível pessoal e de rendimento, o mister Paulo Sousa, sem dúvida.
“Aquela infraestrutura era melhor que a infraestrutura do Chelsea, de longe, com umas condições brutais, e cada vez mais os clubes estão apetrechados e reforçado com este tipo de infraestruturas”
Bola na RedeNa época que és vice-campeão pelo SC Braga, num plantel com bastante qualidade, acabas por somar 21 jogos, na temporada a seguir vais para Itália. Recebeste mais alguma abordagem além da do Parma FC?
Filipe Oliveira: Na altura estava em processo de renovação com Braga, porque estava em final de contrato, e a oportunidade que surgiu de Itália foi uma oportunidade boa, porque o Parma era um dos clubes distintos em Itália. Se nós analisarmos friamente o futebol italiano da altura, e mesmo do passado, não era um futebol muito propício para os atletas portugueses, não há um registo muito grande de atletas portugueses em Itália como há em outros países, pelas características e pelas especificidades do futebol italiano. Temos grandes jogadores que passaram por Itália, mas tivemos muitos outros jogadores que não conseguiram fazer nada em Itália, e não só portugueses. Na altura o meu empresário também era italiano e a informação que me fizeram chegar era que o Parma era um clube diferente dentro de uma realidade italiana. Era um clube de menor pressão, de uma cidade mais pequena, e tinha tido um passado muito recente de grandes triunfos. Eles tiveram jogadores incríveis, o Crespo, o Veron, o Zola, o Thuram, o Cannavaro, o Buffon… é tudo de Parma. Aquilo era o ninho de talentos. Isso fez-me pensar bastante, eu disse “epá acho que vou dar uma oportunidade”. Eu tenho fascínio por Itália, já sabia falar italiano porque tinha aprendido em Inglaterra, nem sequer ia ter a barreira da língua e na altura decidi voltar a emigrar. Contudo, verdade seja dita, eu quando cheguei ao Parma, eu fui como lateral e o jogador que estava na minha posição era o Zaccardo, que tinha sido o campeão do Mundo pela Itália, e o diretor foi muito transparente e correto. “Este primeiro ano vai ser complicado para jogares com regularidade, contudo, nós queremos que fiques cá porque queremos que te adaptes o mais rapidamente possível”. Nesse período o Braga queria-me novamente de volta, por empréstimo, só que o clube não me permitiu vir emprestado porque queriam que me adaptasse lá. Felicidade ou infelicidade o Braga chega à final da Liga Europa, e eu acabo por ficar em Itália e jogar muito pouco. Nos primeiros seis meses estive emprestado em Turim, porque na altura o diretor desportivo do Torino era uma pessoa que me conhecia muito bem, que já me queria contratar na altura em que estava no Leixões, e o que eu pensei? “Bem se eu no Parma não vou jogar com tanta frequência, eu quero é jogar para me adaptar o mais rapidamente possível”. Então fui para a Série B, e o Torino é quase como um Benfica de Itália, em Turim, existe a Juventus e o Torino, lá o clube grande é o Torino. Isto por causa da sua história. Chegou a ser a melhor equipa italiana… do mundo… tiveram uma tragédia quando a equipa chocou contra a igreja da cidade, mas era um clube muito grande. O meu fascínio para ir para lá era esse, o objetivo era subir e poder dar sequência. Honestamente, não me adaptei, tive bastante dificuldade na adaptação pela especificidade, e hoje com a experiência que tenho e pela maturidade considero que terá sido um erro ir para lá. Eu tinha características muito diferentes do campeonato italiano. Eu era um lateral muito ofensivo, com raiz de extremo, e em Itália a realidade desse período era totalmente diferente. Apesar de ter assinado cinco anos, acabei por ser emprestado no ano a seguir para a Hungria e prossegui a carreira.
Bola na RedeÉ na Hungria que encontras uma estabilidade de cinco épocas e meia no MOL Fehérvár FC. Como é o futebol húngaro?
Filipe Oliveira: O processo de ir para a Hungria foi curioso. Na primeira fase não queria ir porque eu não conhecia nada da Hungria. Eu fui convidado pelo mister Paulo Sousa, que me explicou muito bem o projeto, e foi a única pessoa responsável pela minha ida para a Hungria. Não foram as pessoas ou o nome do clube, não foi o campeonato, porque eu não conhecia. Eu fui pelo mister Paulo Sousa, pela pessoa, pelo projeto, por tudo aquilo que ele me diz. Quando eu vou é tudo novo, mas acabou por ser uma agradável surpresa porque realmente o na altura Videoton, agora MOL Fehérvár FC era, e é, um dos maiores clubes da Hungria, com objetivos muito concretos e específicos, que querem colocar o clube em patamares de excelência internamente, e a nível europeu, e eu identifiquei-me imenso. Identifiquei-me com as pessoas e com a filosofia do clube. A nível de diferenças futebolísticas, é lógico que o campeonato húngaro na altura não tinha a qualidade dos campeonatos onde eu tinha jogado, mas tinha tudo, tinha os condimentos todos para serem um campeonato muito interessantes europeu. A nível de paralelismo, considero que poderá ser um campeonato como o austríaco, polaco, suíço, por aí. Há um forte investimento no futebol, a nível de infraestruturas o futebol húngaro cresceu imenso. Já na minha altura quando cheguei, na minha temporada treinávamos nas instalações do Puskas, que era um clube parceiro. Aquela infraestrutura era melhor que a infraestrutura do Chelsea, de longe, com umas condições brutais, e cada vez mais os clubes estão apetrechados e reforçado com este tipo de infraestruturas. O MOL Fehérvár tem neste momento sete/oito campos de treino, com indoor sintético, com o estádio totalmente renovado em 2019, com um edifício para a própria academia, tudo isto em anos recentes. O futebol húngaro tem crescido muito por causa disso, estão mais capazes, e vão começando a recolher os frutos porque a própria formação vai usufruindo destas condições melhores. Isso para mim foi muito interessante, fui bem recebido, percebi que havia margem de progressão para o projeto, e foi daí que fiquei e comecei-me a agarrar àquela gente, que são pessoas com que eu me identifico muito.
Korábbi játékosunk, Filipe Oliveira – aki jelenleg is klubunk kötelékébe tartozik a játékosmegfigyelő-hálózatunk tagjaként – ma ünnepli 36. születésnapját. Boldog Születésnapot, Oli! / Feliz Aniversario, Oli! 🎂 #vidi #molfehervarfc pic.twitter.com/EOskKNL1WG
— MOL Fehérvár FC (@MOLFehervarFC) May 28, 2020
Bola na RedeDepois dos 159 jogos na Hungria vais para o Chipre e para a Roménia. São duas realidades completamente distintas e, às vezes, pouco agradáveis para alguns jogadores portugueses. Como foi a tua experiência nesses dois campeonatos.
Filipe Oliveira: A experiência no Chipre foi muito agradável, de seis meses, na transição de ter saído do Vidi para o Anorthosis, um gigante adormecido no Chipre. Mais uma vez identifiquei-me com a história do clube. O facto de serem de Famagusta, de ser uma equipa de espírito lutador, de muita proximidade, paixão, identifiquei-me imenso com o projeto. Infelizmente o clube estava num processo de mudança estrutural, a nível de presidente, estavam com imensos problemas financeiros, mas sempre com máxima seriedade com os atletas. Essa foi outra das coisas que ficou vincada e eu apreciei muito, fiquei só seis meses, foi um período que correu muito bem. A nível pessoal foi uma prestação muito interessante, proporcionou-se eu poder renovar e ficar lá. Na altura havia outras propostas do Chipre, e eu fiquei ali um bocadinho dividido, e depois por virtude e ironia do futebol acabei por ficar sem clube quando tinha duas propostas em cima da mesa concretas para assinar. É um pouco estranho, mas foi realidade. Passado o período em que tive seis meses sem jogar, proporcionou-se o projeto na Roménia, o único motivo pelo qual fui para a Roménia foi muito simples. O Sepsi é um clube húngaro dentro da Roménia. Na altura eu fui para lá a convite de um diretor húngaro que me conhecia muito bem e eu tinha grande estima e muito respeito. Então eu aceitei a proposta para ir para lá. Foi um choque, confesso, foi um choque porque a mentalidade romena é muito característica, muito específica. Foi a nível de infraestruturas, mentalidades e futebolístico. O campeonato é muito interessante, competitivo, com qualidade, ao contrário do que se pode pensar, é um campeonato onde existe bastante qualidade a nível de atletas. Agora a parte estrutural, de organização dos clubes, é caótica. O Sepsi era diferente porque era um clube que estava num processo de crescimento. Eu fui com um objetivo muito concreto, de ajudar o clube a manter-se na Primeira Divisão, porque eles estavam nesse processo, e têm feito um trabalho extraordinário. Estão agora num patamar que eu não tinha qualquer tipo de dúvidas que iam alcançar, e eles ainda estão no início do processo. O Sepsi vai ser um dos grandes clubes da Roménia, a lutar para ser campeão, agora eles começaram o processo. Na altura, dois/três anos atrás tinham começado nas divisões amadoras, conseguiram subir o clube para a segunda divisão, tudo fruto do presidente que na altura ainda lá estava, com as pessoas da estrutura. Mas precisavam de crescer a nível de infraestruturas, estádio, staff, precisavam de se munir de mais gente e capaz. Sendo um clube húngaro têm apoio do governo húngaro. O governo húngaro está a apoiar atualmente alguns clubes fora do país com raízes húngaras, e daí eu estar tão convicto que enquanto continuar nesta linha eles podem alcançar patamares superiores. A nível pessoal a experiência acabou por ser de seis meses e coincidiu com o final da minha carreira. Eu comecei a sentir que estava a começar a baixar o nível de carreira, em virtude da idade, da performance, do que eu representava para o mercado futebolístico. Coincidiu também com um período em que tive seis meses sem a minha família, foi uma experiência dura, foi um dos pontos que me custou bastante, e daí eu ter decidido terminar.
El #Anorthosis ha fichado al extremo portugués Filipe Oliveira (32 | #Videoton). Llega libre y firma hasta final de temporada. pic.twitter.com/u2NPULcU5O
— Mercatosphera (@mercatosphera) January 31, 2017
Bola na RedeQue peso tiveram esses seis meses sem clube, entre a aventura do Chipre e da Roménia, quando tomaste a decisão de terminar a carreira?
Olhando agora para trás, eu tive como palavras muito sábias, porque é uma pessoa que eu admiro e tenho sempre em consideração e sempre que tenho dúvidas na minha carreira eu tento consultar que é o mister Paulo Sousa. Na altura em que tive com ele na Hungria ele deu-me a sua opinião, a conversar abordamos o final de carreira, e ele disse-me: “a paragem deve ser uma paragem o menor possível. Interromper, fazer um período de férias e começar novo projeto”. O meu processo foi totalmente oposto. O facto de eu ter ficado seis meses sem competir, deu-me muito tempo para refletir, para perceber o que eu queria no pós-futebol. Ou seja, todo aquele embate que todos os atletas têm, independentemente do patamar que o atleta possa jogar, isto é, algo comum a todos os profissionais, o final de carreira é algo que marca e deixa marcas. A uns mais a outros menos, dependendo da forma como entram no mercado de trabalho. E o facto de ter estado seis meses a refletir sobre isso deu-me a estabilidade e a certeza da decisão. Então quando decidi terminar carreira, não fiquei com portas abertas. Eu costumo dizer isso às pessoas mais próximas, porque há muita gente que me pergunta “não tens saudades de jogar?” e eu digo que não, honestamente. Eu tive essa prova. Passado seis meses de terminar a carreira, eu comecei a trabalhar com o Videoton novamente, e fui assistir a um jogo na Inglaterra, entre o Chelsea e o Videoton para a Liga Europa. Estava no estádio do Chelsea a assistir ao treino anterior ao jogo, e eu vi os meus ex-companheiros de equipa a preparem-se para o jogo e eu não senti a mínima vontade de estar lá dentro. Estava muito feliz por eles, porque qualquer jogador que jogue no Videoton tem por objetivo estar nestes palcos, mas, no entanto, eu não senti qualquer tipo de vontade de estar lá dentro a competir. Para mim foi o momento que eu entendi, “epá isto realmente acabou para mim”.
Deal done: #Sepsi OSK signed a contract with former @FCPorto, @ChelseaFC and @TorinoFC_1906 midfielder Filipe Oliveira. What a move!#Liga1 #TransferTalk pic.twitter.com/tBy4DwRzAv
— maidan sport (@maidansport) January 11, 2018
“Eu tinha acabado de ter uma carreira de 24 anos, em que acho que joguei em bons e clubes e comecei a lavar carros.”
Bola na RedeQuando acabas a carreira a oportunidade do scouting aparece logo, ou pensaste noutros caminhos?
Filipe Oliveira: Eu fiz um período de cerca de três meses que parei mesmo. Depois o meu pai abordou-me e disse “não achas que já chega?”, eu disse “tens razão, já chega de férias, também já estou saturado”. Ele perguntou-me o que ia fazer, e eu disse-lhe que naquele momento não sabia, no sentido, sei o que quero, mas vou-me preparar-me para isso. Ele disse “pronto, vais começar a trabalhar comigo”. O meu pai tem uma empresa de automóveis e foi a minha primeira experiência pós-futebol, foi na empresa dele. A empresa tem vários sectores: administração, chaparia, pintura, eletricista, mecânica, etc. e quando eu comecei, é curioso, e eu não tenho vergonha, nem tão pouco complexo, que as minhas raízes são de raízes humildes e crescimento pelo trabalho, a primeira coisa que fiz pós-futebol foi lavar carros. Isto foi na altura um choque para mim, porque o meu pai meteu-me na empresa dele, dentro destes todos setores, pôs-me a lavar carros. Eu tenho um respeito enorme pelo meu pai, que é o meu melhor amigo, eu perguntei-lhe “porque é que me vai pôr a lavar carros”. Ele disse-me, se um dia queres fazer parte da administração, tens de perceber e entender o que é passar por todos os setores, então vais começar pela lavandaria. Ou seja, eu tinha acabado de ter uma carreira de 24 anos, em que acho que joguei em bons e clubes e comecei a lavar carros. Eu aceitei aquilo como um desafio. Primeiro porque não havia uma área que eu não sabia trabalhar, não sabia ser mecânico, chapeiro, pintor, num escritório poder-me-ia movimentar melhor, mas o meu pai entendeu que não tinha ainda o traquejo para lá trabalhar, e eu vi aquilo como um paralelismo com o futebol. Eu tenho de dar uma oportunidade a vir para aqui, isto é um negócio de família, então eu para ter chegado a alta competição, eu tive de começar nos infantis, eu tive que começar com os exercícios de passar com a parte dentro do pé, com esta força. Eu juro-te, foi o mesmo pensamento, eu tenho de aprender isto do zero, se eu quero dar uma chance tenho de começar do zero. Basicamente passado outros três meses, que não deve ter sido mais, eu estava bastante desgastado, porque a empresa do meu pai tem um ritmo que é o ritmo do trabalho, não é nenhuma queixa, era o constatar uma realidade. Não me estava a identificar com o que estava a fazer, e não tem nada a ver com os lavar carros, porque eu ia percorrendo, gerindo, ia para a receção, ia fazendo outras coisas, mas eu não me estava a identificar com o que estava a fazer, sentia falta de sentir o futebol. Os meus próprios fins de semana e tudo, eram totalmente atípicos. Sábado e domingo eu tinha tempo para a minha família, o que é ótimo, mas para quem tinha feito o que fiz durante 24 anos era muito estranho. Aos fins de semana não tinha nada para fazer, faltava qualquer coisa, e então comecei-me a mover e a preparar neste período de três meses. Inclusive tinha-me inscrito no curso de treinador, tinha começado a fazer umas formações a nível futebolístico que me pareciam importantes para me dar outra bagagem. Aí surge o convite do Videoton para poder integrar, porque na altura em que saí para o Chipre, o Diretor Desportivo já na altura ele queria que eu terminasse a carreira e começasse a trabalhar na estrutura. Na altura tinha dito que não estava preparado para acabar a carreira. Acabou por se proporcionar, entrei no mundo scouting dessa forma, foi mais uma aprendizagem, tudo bem que eu tinha a base técnico-tática do jogo em virtude de ter já lá estado durante vários anos, mas faltava-me tudo o resto. Um conselho que eu dou a um ex-atleta, é exatamente essa, nós atletas, ex-atletas, temos bastante experiência a nível de campo, estar dentro de campo, mas não temos o mínimo de noção, ou temos pouca noção de como funcionar tudo fora de campo, tudo o que envolve um clube de futebol desde a estrutura, administração, de departamentos específicos, dos processos, um jogador de futebol está completamente out. E então foi para mim muito interessante de crescer e ter a oportunidade e dar os primeiros passos no scouting num clube que me identificava tanto. Para mim não era um trabalho, nunca senti que trabalhei para o Videoton, sempre senti que era uma missão minha, era um projeto com o qual me identifico, por isso eu vou fazer de tudo para ajudá-los. Acabou por se proporcionar no departamento scouting, tive a oportunidade de trabalhar com gente capaz, com um departamento muito bem organizado, um departamento mais bem organizado que a grande maioria dos clubes nacionais, com metodologia, estrutura, base, recursos humanos, isso para mim foi muito positivo. No período de dois anos mais ou menos que eu lá estive posso dizer que cresci imenso, eu entrei também com essa perspetiva, de dizer, “eu começo no 0, tudo o que poder absorver e evoluir vou abraçar”. Nunca parei, esta é outra das mensagens que deixo a ex-atletas, é nunca parar de aprender, de se formar. Nós infelizmente, a grande maioria dos atletas, em virtude de começar muito jovem como profissional, não tem base académica, e a base académica é importante, para adquirir conhecimento e estar a par do que está feito. Não posso evoluir se não souber o que os outros estão a fazer, para ter grau de comparação e arranjar soluções dentro daquilo que já existe. Como tal, fiz uma pós-graduação com a Liga, gestão e organização profissional, em parceria com a universidade católica. A Liga está a fazer um trabalho pioneiro, apesar de haver todo este ruido em relação à Liga, eu acho que eles têm feito um trabalho de excelência e pioneiro, porque têm dado a possibilidade de formar gente, dar a possibilidade de formar pessoas de qualquer tipo de background, seja académico, não académico, desportivo, financeiro, qualquer.
Vidi erweitert seine Scouting-Abteilung. In Zukunft werden Pető Tamás, Filipe Oliveira und Darázs Tamás für den Klub tätig sein.#vidi, #molvidi pic.twitter.com/xsupLJ2dGK
— Transfermarkt Ungarn (@fradista80) February 26, 2019
Bola na RedeEstás agora na Arábia Saudita, a trabalhar na área do scouting, como é que tem sido a experiência?
Filipe Oliveira Eu neste momento estou a coordenar dois departamentos, o de observação e o de scouting. O de scouting é algo que não existe no mundo árabe, é um departamento onde o qual o clube não tem investido, e este clube, o Al-Wehda achou por bem ter alguém que pudesse explorar, dar feedback, criar base de dados, criar perfis de atletas, identificar o que há internamente. A experiência tem sido muito desafiadora, e as pessoas que cá estiveram têm muita facilidade de entender o que eu digo. O mundo árabe é muito diferente do nosso mundo europeu. Não digo melhor ou pior, é diferente. Esta realidade faz-nos sair constantemente sair da nossa zona de conforto, faz-nos ter de arranjar constantemente soluções, faz-nos constantemente questionar-nos sobre nós próprios, sobre a própria força mental que temos. Nesse aspeto esta experiência tem sido fenomenal e, recentemente, conheci um senhor francês que já trabalhou cá cinco e que me disse e tem sido a ideia geral: ” quem consegue trabalhar aqui, trabalha em qualquer parte do mundo”. Cada vez mais tenho consciência que isso é verdade.
Bola na RedeO Scouting veio para ficar, ou abres a porta a outros cargos, como treinador?
Filipe Oliveira: Não tenciono ficar pelo scouting, não é o objetivo principal, eu gostaria, não sei dizer quando, também não tenho pressa, nem tão pouco estabeleci uma lata limite, gostaria de ter a oportunidade talvez ser um diretor desportivo, no futuro. Acho que ainda tenho passos para percorrer, ainda há alguns pontos que tenho de adquirir, estou cada vez mais preparado para isso. O scouting foi a minha porta entrada pós futebol, estar fora de campo, progressivamente tenho acrescentado responsabilidade, cargo, funções, tenho diminuído a proximidade com a equipa, diminuído a proximidade com a estrutura, diminuído a proximidade com o diretor, com o presidente, com o topo da pirâmide do clube. Eu acho que isso é importante dentro do processo, é o tal entrar na empresa para lavar e depois poder vir a ser o dono da empresa, penso exatamente, e volto a dizer, foi uma aprendizagem enorme que tive por parte do meu pai e vou levar para o resto da vida. Não acredito, e cada vez mais tenho assistido a pessoas que tem partilhado publicamente essa ideia, eu não sou da opinião que eu bom ex-atleta será um bom treinador, será um bom diretor, um bom presidente, não acredito nisso, logico que há exceções. Devemos dar passos curtos num processo de crescimento, essa é a minha visão, e eu estou a tentar percorrer esses passos dentro do que me é permitido e possível, com as minhas dificuldades e condicionalismos, na vontade de poder evoluir e crescer. O futebol é um desporto dinâmico e tudo o que está à volta também, seja o scouting, o departamento jurídico, marketing, fisioterapia, o que quiserem, são departamentos dinâmicos e nós temos de nos adaptar constantemente e não parar. Adaptar, evoluir e crescer.
“Se faria as coisas diferentes, acho que todos faríamos se tivéssemos mais informação”
Bola na RedeRegressar a Portugal, está nos teus planos?
Filipe Oliveira: Claro, a minha carreira foi feita de idas e vindas. O futebol português é nitidamente um dos melhores exemplos a nível europeu. Acho que para a dimensão do nosso país temos muita qualidade interna, nos mais variadíssimos cargos, não estou a dizer nenhuma novidade, pela quantidade de treinadores lá fora, preparadores, fisioterapeutas, scouting, em todos os pontos dentro de um clube tu consegues ter pessoas portuguesas além-fronteiras. Contudo, Portugal é sempre a base, é sempre o porto de abrigo, a partir do momento que eu me identifique, e que tenha oportunidade, porque antes de mais é preciso ter a oportunidade, e me identifique com o projeto apresentado, lógico que sim. Contudo, neste momento estou aqui, tenho contrato até final de junho, tenho uma missão e um trabalho para desenvolver, dentro de todos os condicionalismos que este projeto tem, que todos têm, mas só posso falar deste porque é o que conheço melhor. Tentar deixar o melhor projeto possível para deixar ou continuar com uma base sólida, com uma base que possa ser a rampa de lançamento mais até no departamento scouting que no departamento de observação.
Bola na RedeUmas perguntas rápidas agora, melhor jogador com quem jogaste?
Filipe Oliveira: Não direi que é o melhor, mas quem admirei mais e tornou-se um ídolo, Zola. Para mim tornou-se um exemplo, já tive a oportunidade de dizer isso e agradecer por tudo aquilo que fez por mim em Inglaterra. Foi o que mais me marcou.
Filipe Oliveira.
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— Forgotten Premier League Footballers (@ForgottenPL) January 9, 2021
Bola na RedeJogo com melhores memórias?
Filipe Oliveira: Nunca pensei nisso, é curioso, nem sei se alguma vez me fizeram essa pergunta. Não tenho nenhum em particular, tenho vários. Ao longo da minha carreira, felizmente, houve vários jogos que me marcaram, primeira vez que joguei como profissional, a primeira vez que joguei na Liga Europa, na Champions, a primeira oportunidade de poder nem que fosse um só jogo ser campeão inglês, todo o percurso com o Braga, ganhar a Intertoto, e depois ser vice-campeões nacionais, poder ser campeão na Hungria. Dentro de todo este historial, são vários, assim um específico, acho que para mim é me difícil dizer.
Bola na RedeJogo ou momento que mais te marcou pela negativa na carreira?
Filipe Oliveira: Os seis meses que tive parado porque foi um erro de gestão de carreira. Tenho mais que um, eu acho que a minha carreira, e agora volto a dizer, vivo bem com isso porque todas as decisões que tomei no momento, considerei-as as melhores decisões, com os recursos e informação que tinha, mas fazendo uma análise de tudo, não cometi só um erro. Se faria as coisas diferentes, acho que todos faríamos se tivéssemos mais informação. Mas por exemplo, o facto de ter ido para Itália, tenho a plena consciência que alterou completamente a minha carreira, o facto de ter regressado a Portugal no período que saí de Inglaterra afetou imenso a minha carreira, o facto de ter entrado com todo o respeito num mercado como o futebol húngaro afetou a minha carreira no sentido de valor de mercado, uma coisa é estares em Itália, Portugal e depois na Hungria.













