«O meu sonho não era jogar no Sporting ou no Benfica, só queria jogar no Estrela da Amadora» – Entrevista a Jorge Andrade

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BNR: Ainda na Seleção, temos um Mundial da Coreia em 2002, que ficou marcado por uma série de acontecimentos menos bons. Que recordações te traz esse Mundial?

JA: Na altura pensava que era o primeiro Mundial de muitos e acabou por ser o meu único, porque depois na Alemanha lesionei-me. Foi um Mundial onde havia um misto de alegria e tristeza porque como era muito longe, na Coreia, não tínhamos a proximidade de ver o público português como tivemos noutras ocasiões. Ali estávamos um pouco na expectativa de ver aquilo que as outras Seleções seriam. Não sabíamos muito bem em que forma estavam os Estados Unidos, não sabíamos se a Coreia ia estar tão forte como demonstrou estar – foi até ao quartos de final do Mundial – e a Polónia, essa sim, era uma seleção que conhecíamos melhor. Foi uma fase de grupos meio estranha. Nós eramos os favoritos e não passamos, o que fez com que tudo fosse muito triste. No entanto, para mim, como experiência, foi muito rica, porque consegui, muito jovem, ir a um Mundial e cumpri um sonho de menino. Toda gente gostava de jogar um Mundial. Embora eu entrasse só para apagar fogos, ou porque a equipa precisava de defender ou de ir atrás do resultado. Mas um Mundial é um Mundial e é daqueles objetivos cumpridos.

BNR: Dois anos depois tivemos o Euro 2004, que foi o oposto do Mundial. Portugal teve uma prestação quase perfeita e acabou por “cair” na final.

JA: Sim, o Europeu mudou a minha vida em termos desportivos e fora do desporto. Penso que todos os jogadores que jogaram aquele Europeu foram acarinhados de tal forma que deixaram de ser apenas jogadores de futebol. Passaram a ser, naquele momento, heróis para as pessoas “normais”, porque foi a primeira vez que a Seleção foi uma final e a primeira vez que Portugal organizou uma competição como o Europeu. Que foi, diga-se, organizado de uma forma exemplar e naquela altura o facto de a Seleção Portuguesa chegar a uma final fez com que todo o país se mobilizasse para aquela data especial. O país estava todo em festa, esqueceu-se da politica e de todos os problemas, crises económicas… todos os jogadores que entraram naquele Europeu saíram valorizados, porque até as pessoas que trabalhavam no talho ou na mercearia queriam que Portugal ganhasse. Ganhámos muitas adeptos que são só de Seleção e não de clubes, por exemplo. Foi muito bom e muito importante para a minha carreira.

BNR: Foi esse o troféu que mais te custou não conquistar?

JA: Não. Em termos de troféus eu gostava de ter ganho o campeonato com o FC Porto e saí antes de o ganhar. Isso sim, porque é um clube onde toda a gente ganha um campeonato e eu em dois anos não ganhei nenhum. Naquela altura era quase natural qualquer jogador que jogasse no FC Porto ser campeão. Quanto ao Europeu, depois destes anos todos, depois de Portugal ser, pela primeira vez, campeão europeu em França, eu até não fico triste pela história ter sido assim. Acho que Deus escreve direito por linhas tortas e a primeira vitória contra a França talvez signifique mais para muitos emigrantes do que aquilo que a vitória [frente à Grécia] nos poderia trazer a nível individual. Claro que era um marco muito importante, mas penso que pelo trajeto que fizemos, já foi quase como uma vitória e mudou a vida de quem jogou aquele Europeu.

Fonte: Bola na Rede

BNR: Ainda a nível de troféus, se tivesses que escolher entre a Supertaça Espanhola, ao serviço do Deportivo, ou a Taça de Portugal, ao serviço do FC Porto, qual dirias que teve mais significado para ti?

JA: Ganhei também a Supertaça com o FC Porto e com um golo meu. Acho que ficar na história de um clube como o FC Porto, quando marcas um golo, a nível individual faz com que penses que fizeste alguma coisa de importante. No Deportivo, por exemplo, quando eu cheguei à equipa vinha da conquista do Campeonato, vinha da conquista da Taça de Espanha contra o Real Madrid, no ano de centenário do Real. O importante foi estar em grupos fortes que me ajudaram a atingir patamares muito altos nos campeonatos em que estava. Tive a sorte de jogar em Espanha e conseguir bater as grandes equipas como o Real Madrid e o Barcelona. Por exemplo, o Real esteve 17 anos sem vencer na Corunha. Hoje em dia é impensável um Deportivo da Coruña ter força para vencer um grande como o Barcelona e o Real. Tive nesses anos de ouro tanto do FC Porto, a contruir um caminho, como do Deportivo e na Seleção. Foram anos muito bons, andava sempre com um sorriso de orelha a orelha e era um privilegiado por poder jogar futebol nos anos em que as cosias corriam bem.

BNR: As lesões acabaram por te obrigar a sair relativamente cedo do relvado. Qual é o sentimento de nos vermos obrigados a deixar de fazer aquilo de que mais gostamos?

JA: É um sentimento de chegar à meta antes do tempo. É o mesmo que correr uma maratona e aos 25 quilómetros já estar a festejar que já tinha acabado, mas afinal não era a meta. Foi incompleto, faltavam ainda muitos quilómetros para chegar ao fim e eu não cumpri esse objetivo. No entanto perdi ritmo, por causa das lesões, e melhor do que arrastar-me e prejudicar-me porque o meu rendimento não era bom, decidi que devia acabar a carreira e preferi deixar de jogar. Não suportava dores, não suportava estar todos os dias com fisioterapeutas para poder entrar num campo. Acho que a carreira foi bonita e não a queria estar a estragar para toda a gente ter uma imagem positiva do Jorge. A vida continua e temos que preservar também as coisas boas que fizemos. Mais vale curto e bom do que longo e mau. Nesse aspeto defendi-me um pouco para que as coisas tivessem sido sempre a crescer, desde o Estrela da Amadora até à Juventus. Não está nada mau para quem veio da Amadora.

Joana Libertador
Joana Libertadorhttp://www.bolanarede.pt
Tem a vaidade, o orgulho, a genica, a chama imensa. Para além da paixão incontrolável pelo Benfica, tem um carinho especial pelas equipas que vestem vermelho e branco. Menos na NBA. Aí sofre por aqueles que vestem branco, ou azul, ou amarelo, ou preto (depende do dia) - os GS Warriors.                                                                                                                                                 A Joana escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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