«O meu sonho não era jogar no Sporting ou no Benfica, só queria jogar no Estrela da Amadora» – Entrevista a Jorge Andrade

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Da Amadora até Itália, do velhinho Estrela até à «vecchia signora». aos 39 anos Jorge Andrade recorda com carinho e partilha alguns dos momentos mais caricatos da sua carreira: tudo em mais uma entrevista BnR.

Bola na Rede [BNR]: Cresceste na Amadora e foste formado no Estrela. Como é ver o clube onde cresceste desaparecer?

Jorge Andrade [JA]: O Estrela é uma questão muito sensível. Comecei a jogar no Estrela aos oito anos de idade, mas até aos oito anos ia todos os dias ao estádio, visto que morava na Reboleira. Era um contacto muito próximo e vi o Estrela a crescer desde um clube de campo pelado até à primeira divisão. Vi-o ganhar a Taça de Portugal. Tinha 10 anos, tive a possibilidade de estar no clube quando as coisas aconteceram. Era um clube muito mágico e muito familiar, onde os jogadores eram tratados como filhos e tínhamos todas as regalias. Para terem uma ideia, hoje os meninos pagam para jogar, têm de comprar o material… no Estrela não! Tinha direito a botas, tinha direito a um cesto com roupa lavada em todos os treinos. Eram miminhos que faziam todos os jogadores especiais. Íamos para o Estrela da Amadora com um sorriso nos lábios e ver tudo desaparecer da forma como desapareceu é muito triste. Apesar de existir um grupo desportivo que está a nascer até aos juniores, nunca é igual. O Estrela perdeu toda aquela magia. Era uma zona privilegiada, perto de Lisboa, que conseguia reunir muitos craques. Tenho pena pelo clube, pelo passado do Estrela, mas a vida continua. Faz-me muita confusão, mas houve pessoas que estiveram à frente do clube naquela altura e tiveram de tomar as decisões e se calhar foi muito complicado para eles ter de gerir um clube já em falência.

BNR: Ainda no Estrela: soube que estiveste um ano emprestado ao Massamá e que na altura chegaste ao pé do teu pai e disseste que o Estrela já não te queria e que querias deixar de jogar futebol. Podes contar-nos um pouco desse episódio?

JA: Eu até aos 15 anos era um rapaz muito enfezadinho, muito pequenino e tinha muitas dificuldades em acompanhar os colegas, que estavam a crescer. Nesse ano foram dispensados 12 jogadores: éramos todos muito pequenos e, na altura, a maioria foi para o Real Massamá. Na altura estava muito desanimado. Chorei bastante. Um dos desabafos que tive com o meu pai foi que não queria jogar mais. Para mim só havia uma realidade no futebol que era jogar no Estrela da Amadora. O meu sonho não era jogar no Sporting ou no Benfica, que eram os clubes grandes, mas sim no clube onde ia brincar todos os dias, o clube onde tinha os meus amigos e toda aquela família. Naquela altura ninguém mudava de clube. Começava-se num clube e fazia-se a formação toda no mesmo clube. Foi uma idade de reflexão. Foi bom para mim para ver que o futebol não é só brincadeira, que não é só ir ao campo com os amigos, e a partir dali pus objetivos na minha vida: nunca mais nenhum treinador me ia dispensar. E foi o que aconteceu. Deu-me força e foi uma mudança de mentalidade para levar o futebol mais a sério.

Fonte: Bola na Rede

BNR: Tinhas pouco mais de 20 anos quando foste jogar para o FC Porto. Como foi a adaptação a esta nova realidade, em que tiveste de sair de casa e ir para longe?

JA: Na Reboleira, nos primeiros dois anos, para terem noção, eu ia a pé para os treinos. Eu era capaz de jogar um jogo contra o Sporting ou contra o Benfica e se o meu pai não ficasse à espera tinha de ir a pé para casa. Ou se o Filipe Martins, que foi meu colega, já tivesse ido embora tinha de ir a pé. Era uma realidade muito diferente. Eu demorava quase uma hora de casa até aos treinos porque no caminho a pé ia cumprimentando toda a gente. Era um ambiente espetacular. A adaptação à equipa profissional do Estrela da Amadora foi muito fácil. Já a mudança para o Porto foi uma mudança muito grande, visto que a partir dali sim, senti o profissionalismo com estágios, com o mudar de cidade. Senti um pouco [a diferença] no meu dia a dia, mudou-o. Fez com que me concentrasse só no futebol, enquanto que na Amadora conseguia fazer outras atividades e outras coisas, até porque tinha os meus amigos e família perto de mim. Para teres uma ideia, no Estrela da Amadora ainda completei o meu 12º ano. Deu para estudar, deu para me divertir, enquanto que no Porto as coisas foram diferentes. Os primeiros meses de adaptação foram diferentes e tive que perceber como é que o clube funcionava.

BNR: Foi ao serviço do FC Porto que foste chamado pela primeira vez à Seleção. Na altura jogaste ao lado de jogadores como Rui Costa, Pauleta ou Luís Figo. Como é ter o prazer de jogar ao lado de jogadores lendários como esses?

JA: Felizmente quando se joga num clube como o FC Porto é tudo mais fácil. Eu joguei no Estrela da Amadora e só fui chamado a primeira vez aos sub-20. Depois quando fui para o FC Porto até para os “A” me chamaram. É mais fácil, a visibilidade é outra, embora o jogador seja o mesmo, mas faz com que as coisas acelerem. O FC Porto também me ajudou muito nesse processo, pois queria promover-me como jogador para valorizar. O papel económico e a entrada das SADs nos clubes fizeram com que o jogador tivesse uma valorização diferente. Os jogadores eram também tratados como negócios e isso fez com que todos os processos que eram muito demorados no Estrela da Amadora passassem a ser muito rápidos. Apareci a jogar na Seleção com esses grandes craques num jogo contra a França em 2001 e a partir daí joguei sempre na equipa. As coisas correram bem e é estranho, ao principio, jogar com jogadores que vimos na televisão, que foram campeões mundiais e depois estar ali a partilhar o campo e a ser cúmplice nos momentos dos jogos e estágio. Isso fez com que a minha ida para a Seleção fosse sempre uma ida de alegria. Era sempre fantástico ser escolhido e, se calhar, mesmo cansado de um jogo, era pegar logo no carro e ir para a Seleção para estar no estágio com os colegas que depois se tornaram amigos.

BNR: Jogadores que acabaram por te transmitir novas aprendizagens e maneiras de ver as coisas, com certeza…

JA: Sim! Muitos já tinham começado a carreira internacional e ganho títulos importantes. Foram jogadores que começaram a abrir o mercado para o jogador português e penso que hoje em dia todos beneficiam disso – até jogadores na China temos. Foi a Geração de Ouro, uma geração muito forte que ajudou a fazer com que o jogador português fosse valorizado e que hoje em dia tenha mercado em muitos lados.

Joana Libertador
Joana Libertadorhttp://www.bolanarede.pt
Tem a vaidade, o orgulho, a genica, a chama imensa. Para além da paixão incontrolável pelo Benfica, tem um carinho especial pelas equipas que vestem vermelho e branco. Menos na NBA. Aí sofre por aqueles que vestem branco, ou azul, ou amarelo, ou preto (depende do dia) - os GS Warriors.                                                                                                                                                 A Joana escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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