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A obra-mestra de Tolstói faz serventia de promoção à vida e obra d Ljubinko, figura esguia e frágil aos olhos de quem não o visse em campo. Guerra e Paz foram vividas, de perto, por um homem que se sentiu obrigado a abandonar o país que o viu nascer a troco de esperança, deixando para trás a possibilidade de vestir a camisola de um campeão europeu. O grito do Ipiranga fez-se sob o desígnio do canto do galo, que se uniu com a Fénix do renascimento em Barcelos. Pinto da Costa rapinou-o para o FC Porto, onde ganhou asas esPentaculares. 14 títulos depois, levantou voo e pousou no poleiro em construção de uma águia que ainda não cantava Vitória. Do outro lado da barricada, deitou por terra as esperanças de Bernardo Silva e companhia, percebeu o quão efémero e promíscuo é o topo e deixou um conselho a Zivkovic, o “seu craque”. Em mais um exclusivo Bola na Rede, e em bom português, eis Drulović sem papas na língua.
– Guerra e Paz –
“Não fui campeão do mundo de sub-20 no Chile porque estava na tropa”
Bola na Rede [BnR]: Zdravo, Ljubinko. Hvala što ste prihvatili našu pozivnicu. U Bola na Rede volimo da se naši gosti osjećaju kao kod kuće. [Olá, Ljubinko. Obrigado por teres aceitado o nosso convite. No Bola na Rede gostamos que os nossos convidados se sintam em casa.]
Drulović [D]: Não foi nada mau! [risos] A nossa língua é muito difícil, não é fácil de pronunciar, mas percebi tudo. Para primeira vez estiveste muito bem.
BnR: Ainda usas a língua portuguesa no quotidiano?
D: Só quando falo com os meus amigos portugueses, porque maioritariamente falo sérvio. Mas aqui em casa tenho canais portugueses e acompanho tudo o que se está a passar em Portugal, por isso tenho contacto com a língua portuguesa através da televisão.
BnR: Façamos jus a Camões, então. Estás em Belgrado?
D: Sim.
BnR: Como é que a pandemia tem sido vivida por aí?
D: Talvez um pouco parecido com Portugal. Inicialmente foi muito complicado, desde meados de março até há bem pouco tempo, quando começaram a aliviar as restrições impostas pelo Governo. Não podíamos circular livremente, por dois ou três dias tínhamos de ficar em casa (…) mas agora está melhor: o país começou a reabrir as fronteiras e no comércio praticamente já está tudo aberto novamente e a voltar ao normal.
BnR: Esta é, desde o desmembramento da Jugoslávia, a época mais difícil para o povo sérvio?
D: Sem dúvida alguma. Ninguém esperava um vírus deste, que se transmite muito facilmente. É uma situação bastante delicada, em que ninguém sabia o que fazer no início. Mesmo em relação às máscaras, as opiniões dividiam-se. Tivemos muitos infetados, pessoas que morreram. Depois da guerra, este é o momento mais complicado.
BnR: A Eslovénia proclama a independência a 25 de junho de 1991, tinhas tu 23 anos. Como é que um jovem adulto assiste ao início de uma guerra no seu país?
D: Como a Eslovénia estava mais perto de Itália e da Áustria, e fazia fronteira com países mais ocidentais, podemos dizer que – embora tenha sido aí que começou – não tivemos grandes problemas com essa saída. Mais problemas houve na Croácia e na Bósnia… a Sérvia teve inúmeras ações económicas impostas pela União Europeia e pelos Estados Unidos da América, duas grandes forças mundiais. Tivemos muitos problemas para um país funcionar: fronteiras fechadas, aeroportos fechados… Lembro-me de já jogar em Portugal e não poder viajar diretamente para a Sérvia: tinha de ir até à Hungria e depois apanhar o autocarro até aqui. Às vezes pergunto-me como é que aconteceram aquelas situações e penso que houve muitas influências exteriores. A política é muito complicada.
BnR: Entendias o que estava a acontecer?
D: Nós percebíamos, porque sabíamos que a Jugoslávia era um país de povos diferentes, regiões diferentes e, neste sentido, foi muito fácil fazer uma guerra civil. Na minha opinião – e na da maioria do povo jugoslavo -, tudo foi feito de fora, ainda que com a ajuda de pessoas que estavam cá dentro. Depois da morte de Tito, que foi um líder pacífico e que tinha boas relações com a União Soviética e com os EUA, foi o início do descalabro. A partir daí, foi muito fácil controlar a Jugoslávia, que era um país bastante forte em termos militares. É muito mais fácil controlar pequenos países.
BnR: O futebol conseguia ser agregador num momento de segregação étnica?
D: Não creio… Quando os problemas começaram na Croácia, percebemos o que estava para vir, e tudo começou num derby entre o Estrela Vermelha e o Dínamo Zagreb, com ataques à polícia e o jogo nem chegou a terminar; foi uma situação bastante grave. Parece-me que estes ataques foram com intenção, porque um jogo de futebol, sobretudo com aquela rivalidade e com o estádio com 50 mil pessoas, teria um grande alcance. Foi aí que começou tudo.

BnR: O 1,70 m e 65 kg não te impediu de te estreares nos seniores do Zlatar Nova Varos com apenas 15 anos. No futebol, a força da técnica prevalece sobre a técnica da força?
D: É possível. Existem muitos jogadores que não são portentos físicos. Ao contrário de outros desportos em que a força é muito solicitada, no futebol qualquer pessoa pode jogar, desde que tenha jeito. No meu caso, a minha estatura era suficiente para as posições onde jogava. Se tivesse mais uns centímetros, talvez pudesse jogar um pouco mais à frente, ainda que também tenha jogado como segundo avançado. Felizmente tive a sorte de isso não ter sido impedimento, se bem que quando comecei a jogar pela primeira equipa do Zlatar Nova Varos tivesse de apresentar uma declaração médica porque ainda era muito novo. Passei pelas várias seleções até chegar à principal e só não tive sorte quando não fui campeão do mundo no Chile [Campeonato do Mundo sub-20 de 1987] porque estava na tropa, que era obrigatória; até o jogador que era meu suplente foi no meu lugar e foi campeão.
BnR: Em 1992, trocas o Rad Beograd pelo Gil Vicente, quando tinhas uma proposta do Estrela Vermelha, campeão europeu no ano anterior. A paz era a equipa em que mais querias jogar?
D: Sem dúvida. Tinha praticamente tudo acertado com o Presidente do Estrela Vermelha, mas por causa da guerra fui obrigado a sair e comecei tudo do zero, em Portugal. Por exemplo, se tivesse jogado no Estrela Vermelha um ou dois anos, era muito fácil sair para uma grande equipa da Europa, mas tive de fazer tudo de novo. Voltar a jogar bem pelo Gil Vicente para conseguir, mais tarde, sair para uma equipa grande como o veio a acontecer. Mas no futebol nunca se sabe o que pode acontecer e tive muita sorte em ter sido bem recebido em Barcelos.
– Eixo Norte-Sul –
“O Presidente do Gil Vicente queria que eu fosse para o Benfica, mas o FC Porto foi mais rápido”
BnR: Em que é que o futebol português era diferente do jugoslavo?
D: Na maneira de trabalhar. Quando cheguei ao Gil Vicente, toda a gente treinava com caneleiras, enquanto na Sérvia isso não acontecia. Levava-se muito a sério todos os treinos e os estrangeiros que chegavam tinham de se adaptar. Hoje em dia, considero-me mais treinador português do que sérvio, porque aceitei essa mentalidade de trabalho. Só assim é possível chegar a um patamar elevado. Não é por acaso que Portugal tem os resultados que sabemos; muitas vezes digo isto aos meus jogadores. Foi esta a principal diferença, porque os jogadores da antiga Jugoslávia também eram muito talentosos, com muita qualidade técnica como os portugueses, e neste aspeto não foi difícil.
BnR: Nos Galos, foste orientado por Vítor Oliveira. Com base na vossa vivência, como explicas o sucesso do treinador que ganhou o epíteto de “rei das subidas”?
D: O Vítor já subiu dez ou onze vezes de divisão, penso que até entrou nos recordes do Guiness. De certeza que vai ficar na história do futebol português. O que ele fez é algo inédito e fantástico. É um grande homem e foi um dos treinadores mais importantes na minha carreira. Recordo-me de uma conversa que tivemos, pouco tempo depois de ter chegado ao Gil, numa fase menos boa para mim; ele chamou-me ao balneário e disse-me que podia jogar na posição que quisesse. Deu-me liberdade, mas nunca abusei e sempre dei o máximo pela equipa. Felizmente consegui contribuir para os bons resultados da equipa e marquei muitos golos, mesmo não batendo as grandes penalidades.
BnR: Foi amor à primeira vista.
D: Sim, porque vim treinar à experiência com mais dois colegas e ao fim de quinze minutos de me ver jogar foi falar com o Presidente e disse-lhe que tinha de me contratar.
BnR: Os dois compatriotas com quem treinaste à experiência também ficaram?
D: Não. Um deles tinha possibilidades, mas as partes não chegaram a acordo e foi-se embora.

BnR: A posição de avançado móvel, na qual jogaste quase sempre durante ano e meio, era-te fácil desempenhar?
D: Eu tinha características que me permitiam jogar atrás do ponta-de-lança, do lado direito, do lado esquerdo… o Vítor percebeu que, pela maneira como o Gil Vicente jogava, eu tinha qualidade para render nessa posição. Atrás de mim tinha o Cacioli e o Tuck, jogadores que tinham um excelente passe para me colocar a bola, e como jogávamos em contra-ataque essa posição favorecia o nosso jogo. Mesmo quando cheguei ao FC Porto joguei como avançado e fui o segundo melhor marcador do campeonato, acumulando os golos da primeira metade da época no Gil com os que marquei pelo FC Porto.
BnR: Mudas-te para o FC Porto a meio da segunda época ao serviço dos Gilistas, apesar de também teres sobre a mesa propostas dos grandes de Lisboa.
D: Em setembro, a primeira proposta que me apresentaram foi do Sporting CP. Quando saí para o FC Porto, o Presidente do Gil Vicente queria que eu fosse para o SL Benfica, só que as pessoas que detinham o meu passe optaram pelo FC Porto, que foi muito mais rápido.
BnR: Pinto da Costa era implacável?
D: Sim, porque apesar do FC Porto ser um grande clube e jogar na Liga dos Campeões, foram muito concretos na abordagem e a melhor parte da minha carreira passei-a lá, apesar de também ter passado por outros grandes clubes, como o Benfica e o Partizan. Faltou-me um troféu europeu, embora tivéssemos estado muitas vezes perto de conquistá-lo.
BnR: Quando assinaste, sabias que Ivic não contava contigo?
D: O Ivic queria contratar outro jogador, que era croata: Goran Vucevic, que estava no Barcelona. Só que o Presidente Pinto da Costa e o Sr. Reinaldo Teles queriam-me a mim e foram praticamente eles que me contrataram, o que não deixou Ivic nada satisfeito. Na altura existia aquele problema entre Croácia e Sérvia e julgo que ele tinha problemas comigo por causa disso. Por exemplo, dez ou quinze dias após ter chegado ao Porto, demos uma entrevista ao jornal A Bola e um jornalista meu amigo contactou-me depois disso a dizer que afinal a entrevista já não ia sair porque o Ivic tinha ligado para lá a pedir para não a publicarem; sentiu que podia ter problemas na Croácia por ter dado uma entrevista comigo, numa altura em que os países estavam em “guerra aberta”.
BnR: Zahovic, Pavlin, Sokota… Como era a convivência entre colegas oriundos das repúblicas socialistas da Jugoslávia?
D: Era ótima! Nunca tive problemas com algum companheiro durante a minha carreira, fosse português, brasileiro ou da antiga Jugoslávia. Tudo o que vivemos dentro e fora de campo foi sempre com uma grande amizade.
– EsPentacular –
“Mourinho? Eu e o Zahovic fomos várias vezes falar com Pinto da Costa para contratá-lo”
BnR: És supersticioso?
D: Todos nós somos… todos os jogadores e treinadores têm algumas coisas que fazem antes ou depois dos jogos e é normal.
BnR: Ao ponto de estar disposto a pagar 100 mil contos ao André pela camisola 11?
D: Isso foi uma brincadeira! Como sou muito ligado a esse número – nasci dia 11, às 11 horas –, praticamente joguei sempre com ele na camisola. Antigamente os números utilizados pelos titulares iam do número um ao número onze e o André já usava o 11 há muito tempo. Ao fim dos meus primeiros dois jogos, em que utilizei a camisola nove, fui ter com o André e disse-lhe “Amigo, por favor, eu não consigo jogar sem o número 11, mas respeito se não mo quiseres dar”. Ele foi impecável e a brincar disse-me “Estou aqui há 11 anos; tens de me pagar 100 mil contos”. Ele não fazia questão de ficar com ele e disse-me que só usava aquele número porque quando chegou ao FC Porto ninguém o queria. Depois ele foi falar com o Inácio, que era treinador-adjunto, e com o Paulinho Santos; o Paulinho ficou com o nove, o André com o seis e eu com o 11.

BnR: A par de Aloísio, foste um dos apenas dois jogadores estrangeiros presentes nas cinco épocas do penta. Como é que aquele grupo de trabalho viveu esse período?
D: Deixa-me dizer-te que o Aloísio é um dos melhores amigos que fiz no futebol e um grande senhor dentro e fora de campo. Quando cheguei ao FC Porto, já lá estavam vários jogadores que tinham sido campeões europeus em ’87 e eram um grande exemplo para os mais novos. Aquela geração era qualquer coisa de extraordinário! A maneira como trabalhavam… os outros jogadores não podiam dizer nada, tinham de trabalhar e esta era a mística do FC Porto. Quando vi o meu amigo Vítor Baía pela primeira vez a defender pensei “Fogo, do que vi até agora, este é o melhor guarda-redes do mundo”. Tive a sorte de trabalhar com muitos jogadores de grande qualidade, e a maioria eram jogadores de seleção portuguesa, algo que não acontece atualmente. Ganhámos o Penta e estivemos perto de ganhar o sexto campeonato, mas aconteceram jogos muito esquisitos, como aquele em Campo Maior, mas é futebol e temos de dar mérito a quem vence.
BnR: Falaste no célebre Campomaiorense 1-0 FC Porto, jogo que ficou marcado por algumas decisões de Bruno Paixão. No entanto, à época, os adversários apontaram várias vezes a arbitragem como fator de desequilíbrio a favor do FC Porto. Alguma vez te sentiste beneficiado?
D: É normal que possam existir erros; às vezes somos prejudicados, outras beneficiados. Normalmente, no fim, ganha a equipa que joga melhor durante a época. O campeonato português é muito competitivo e muitas vezes decide-se na última jornada, o que é bom. Os jogadores são muito agressivos e tecnicamente evoluídos, não é fácil de jogar nem de arbitrar. Por exemplo, quando o Zahovic saiu do FC Porto, jogou um ano na Grécia, depois em Espanha, e disse-me que é muito mais fácil jogar lá fora que em Portugal, porque tinha muito mais espaço e liberdade. Em Portugal, as marcações eram cerradas e não era fácil, principalmente para os avançados, que têm de ser muito criativos e bons tecnicamente, porque os defesas são muito bons.
BnR: Prejudicado talvez, mas num avião.
D: Essa é uma história engraçada! Naquela altura estava em grande forma, era um dos melhores jogadores do FC Porto. Vinha de dois jogos a marcar e, depois do treino, estávamos todos à espera para assinar a convocatória para um encontro da Taça das Taças frente à Sampdoria, uma das melhores equipas italianas naquela época, orientada pelo Eriksson e com Mancini e outros jogadores jugoslavos que jogavam comigo na seleção. Quando olho para a convocatória e não vejo lá o meu nome disse “É impossível”. Olhei uma segunda vez e não estava mesmo o meu nome; fiquei muito surpreendido. Passado uns minutos o Inácio chamou-me e disse-me que o mister queria falar comigo. Quando chego ao pé do falecido Bobby Robson – com quem sempre tive uma excelente relação e que, mesmo quando não me punha a jogar, não conseguia ficar chateado com ele -, ele diz-me com aquele sotaque “Drulo, eu mucho zangado com Presidente!”. “Porquê, mister?”, perguntei-lhe. “Não há lugar no avião”. [risos] Então o mister queria optar pelo Latapy e arranjou a desculpa do avião. O jogo foi numa quinta-feira [vitória por 1-0 em Itália] e domingo tínhamos o derby contra o Benfica; o Bobby Robson tinha como lema “equipa que ganha não se mexe” e comecei no banco. Um jogo importantíssimo – ia decidir o campeão no primeiro ano do Penta – com as Antas cheias. O Secretário foi expulso e a vinte minutos do final entrei para o lugar do Yuran e marquei o golo da vitória. Foram os melhores vinte minutos da minha carreira. No final do jogo, o mister entra no balneário e diz-me “Impossible! Impossible!” e eu disse-lhe “Não há problema, mister. É normal ter de tomar decisões”. Na semana seguinte voltei ao onze, marquei um golo e fiz duas assistências.
BnR: É sob o comando de Bobby Robson que te cruzas com José Mourinho.
D: Sempre tivemos uma excelente relação. O que ele conseguiu é extraordinário! Todos os treinadores portugueses devem-lhe muito; ele abriu-lhes as portas da Europa. Fazer o que ele fez no FC Porto vai ser muito difícil repetir. Sempre admirei Mourinho desde que trabalhámos pela primeira vez, quando diziam que não era treinador, que era tradutor… mas o que achei mais impressionante, e foi quando percebi que ia dar certo, foi no Benfica. Sinceramente, nunca vi uma equipa mudar do 8 para o 80 em tão pouco tempo. O jogo contra o Sporting [3-0] (…) como jogador do Porto estava a ver aquilo e não era a mesma equipa. Foi uma mudança brutal. Já no Leiria, eu e o Zahovic fomos várias vezes falar com Pinto da Costa para contratá-lo.

BnR: Jogaste com inúmeros craques, mas deixa-me perguntar-te por três. Já se viam em Sérgio Conceição qualidades para vir a ser treinador?
D: Nunca se pode dizer nunca. O Sérgio tinha uma mentalidade ganhadora e isso é o mais importante. Nem naquela altura gostava de perder, ficava com uma azia impressionante. Ainda hoje é muito impulsivo – parece-me menos, agora. Quando começou, tinha várias reações que não eram normais para treinador. Todos sabemos o que aconteceu quando era treinador do Braga, tinha vários problemas com os presidentes. Está mais tranquilo agora, a experiência conta. Com naturalidade voltou a um clube que conhece muito bem e tem feito um excelente trabalho.
BnR: Na época 98/99, chega ao clube um menino chamado Deco. Perceberam-lhe logo o génio?
D: Já o conhecíamos do Salgueiros. Toda a gente sabia que ele tinha um grande talento, só faltava confirmar se tinha caráter e mentalidade para jogar no FC Porto, porque é muito mais difícil jogar numa equipa grande por causa da pressão e da concorrência dentro do plantel. Ganhámos ainda mais criatividade no último terço com a aquisição de um jogador que toda a gente sabia que ia ser um craque de nível mundial.
BnR: Como explicas o fenómeno que foi Mário Jardel?
D: Quando o Mário foi para o FC Porto estávamos na Escócia a fazer a pré-época. Eu e o Fernando Mendes eramos companheiros de quarto e lembro-me que depois de um treino, em que o Mário queria dominar uma bola e ela saiu pela linha, o Fernando dizer-me “Drulo, como é possível o FC Porto ter gasto tanto dinheiro num jogador que nem uma bola sabe dominar?” [risos] Passados dois ou três dias, tivemos um jogo em que ganhámos 3-1 ou 3-0 e o Jardel marcou dois golos; a partir daí nunca mais parou. Para mim é dos melhores, se não o melhor, goleador que apareceu em Portugal. Nunca vi alguém jogar tão bem de cabeça; chegávamos a ficar depois dos treinos a vê-lo treinar finalização. Tive pena de quando fui para o Benfica ele não me ter acompanhado.Nessa altura, fui falar com a direção do clube a dizer que o Jardel me tinha ligado e queria sair da Turquia e voltar a Portugal, mas o Luís Filipe Vieira tinha contratado o Mantorras… e também havia o episódio com Vilarinho.
BnR: Do que é que ainda falas com Fernando Santos?
D: De muita coisa, sobretudo de futebol. Quando olho pela primeira vez para uma pessoa, quero perceber o Homem que é, isso para mim é mais importante; um treinador pode ser mais ou menos bom, mas é o Homem que me interessa. O Fernando é um grande treinador e uma grande pessoa. A sua carreira e o seu palmarés não são por acaso. Sempre que preciso falo com ele. Quando Portugal jogou na Sérvia pela última vez, as minhas filhas queriam uma fotografia com o Cristiano e ele permitiu que elas fossem ter com os jogadores. É um grande amigo.
– O Início do Fim –
“Mantorras? Foi uma grande aposta de Luís Filipe Vieira e foi por causa dele que o Jardel não foi para o Benfica”
BnR: Arrependes-te de, quando deixaste o Porto, não teres aceitado o convite do Futre para ires para o Atlético Madrid?
D: Falámos nesse sentido, mas é o futebol… a minha família queria ficar em Portugal e, como não cheguei a acordo com o FC Porto, optei pelo Benfica. Quando cheguei à Luz, o clube não estava numa boa situação; foi também quando entrou Luís Filipe Vieira, que fez do Benfica aquilo que é hoje – um pouco à imagem do que fez Pinto da Costa no FC Porto. Foi Luís Filipe Vieira quem me escolheu para capitão, apesar de ter acabado de chegar, e nunca tive problemas com quem quer que fosse, pela minha maneira de estar. Ainda bem para o futebol português que existem estes dois grandes clubes e esta rivalidade, que desde que exista respeito é bonito.
BnR: Há tempos disseste que os balneários de Benfica e Porto não tinham nada a ver.
D: A exigência era muito diferente. Aquilo que senti como jogador do FC Porto (…) éramos muito disciplinados, inclusive nos treinos, que eram muito mais difíceis do que os jogos; era uma luta constante, mas séria e profissional. Quando cheguei ao Benfica, chegaram muitos jogadores, de muitas nacionalidades, e não era fácil construir uma equipa. Faltava atitude, mentalidade vencedora.

BnR: Mantorras foi o jogador com maior potencial com quem jogaste?
D: Não tenho dúvidas. Tive muita pena do que lhe aconteceu. Foi uma grande aposta de Luís Filipe Vieira e foi por causa dele que o Jardel não foi para o Benfica. Recordo-me de que o Doutor Martins, após tê-lo examinado, ter ido ter comigo e, em privado, dizer-me “O Pedro dificilmente vai voltar a ser um jogador de top”. Tinha tudo para ser um craque.
BnR: Em 2003, regressas a casa e a um país com um nome diferente daquele que deixaste onze anos antes. Os resquícios da guerra ainda estavam muito presentes?
D: Não, já estava tudo normal. O “culpado” do meu regresso à Sérvia foi o Ivica Kralj, com quem havia jogado no FC Porto. Na brincadeira disse-lhe para dizer ao diretor desportivo do Partizan que estava disponível para regressar e jogar a Liga dos Campeões e quando estou no aeroporto de Belgrado, de malas feitas para voltar para Portugal, tocou o meu telemóvel; era o diretor desportivo do Partizan e chegámos a acordo em dois minutos, apesar de ter propostas de outras equipas em Portugal.
BnR: Nesse ano cruzas-te com Andrija Delibašić e Simon Vukčević no Partizan. Tinham qualidade para ter deixado uma marca maior no futebol português?
D: O que fizeram foi bom, mas podiam ter feito mais. Vukčević tinha tudo: um pé esquerdo fantástico, fisicamente era muito forte e difícil de lhe roubar a bola. Tinham qualidade para muito mais, mas há certas situações que não podemos controlar e num clube grande é preciso algo mais do que apenas qualidade.
BnR: Penduras as botas em Penafiel, comandado por um jovem chamado Luís Castro. Surpreende-te o seu trajeto?
D: Sim e não. Foi uma aposta do Presidente, quando o Manuel Fernandes saiu, e foi uma grande surpresa. Naquele ano assegurou a manutenção, mas no ano seguinte desceu. Depois foi para o FC Porto e isso talvez tenha sido o fator mais importante para a sua carreira; deve muito a essa experiência. É uma pessoa muito inteligente e, mais tarde, fez excelentes trabalhos nos clubes por onde passou.
BnR: Portugal continua a ser o melhor país do mundo para viver?
D: Sim! Eu adoro Portugal e às vezes falo com a minha mulher e digo-lhe que gostava de voltar a trabalhar aí, apesar de financeiramente os clubes portugueses terem algumas dificuldades e se ganhar muito mais dinheiro em países como os Emirados Árabes Unidos ou o Uzbequistão.
– Globetrotter –
“Zivkovic talvez tenha de mudar de clube”
BnR: O golo à Eslovénia no Euro 2000 teve um sabor especial?
D: Muito! Foi um golo importante para mim e para a equipa, porque conseguimos passar de 0-3 para 3-3; foi o segundo, ainda fiz a assistência para o terceiro, acabámos com um jogador a menos e ainda podíamos ter marcado o quarto. Fui um dos melhores jogadores da fase de grupos e recordo-me de que La Gazzetta dello Sport me pôs entre os seis melhores da competição até àquele momento. Foi a confirmação do meu valor junto de uma seleção que tinha muitos craques.
BnR: Atualmente, a Jugoslávia seria candidata ao título em qualquer competição que participasse?
D: Não tenho dúvidas disso! Com um bom selecionador, tinha qualidade para ser campeã do mundo e da Europa. Alguns interesses sobrepunham-se às opções dos técnicos que tivemos e impediram-nos de chegar mais longe. Aliás, continua a ser um problema para o futebol sérvio hoje em dia. Quando fui selecionador, tentaram condicionar-me, mas tens de ser uma pessoa com caráter e com valor e meter a jogar quem merece.

BnR: Conduzes a Sérvia ao título no Euro sub-19 em 2013, eliminando o Portugal de Cancelo e Bernardo Silva nas meias-finais e a França de Laporte e Martial na final. Esta conquista abriu-te as portas da seleção principal demasiado cedo?
D: O grande problema daqui é que qualquer treinador que faça um bom resultado nas camadas jovens tentam “sacá-lo” logo. Se fosse em Portugal ou noutro país, teria passado para os sub-21. Estou muito orgulhoso do que conquistámos, até porque foi o primeiro “ouro” no futebol sérvio, e não deixei que se metessem no meu trabalho; eu senti estas interferências quando era jogador e disse para mim mesmo “se um dia estiver naquele lugar, farei as coisas de maneira diferente”. Sete jogadores dessa seleção são hoje jogadores da seleção principal.
Já agora deixa-me dizer-te o seguinte: quando mais tarde assumi a seleção principal e só fiz quatro jogos, tive pena de não continuar, porque tinha a certeza que teríamos ido ao Euro 2016 e faríamos uma grande competição. Tenho a certeza absoluta! O Presidente da Federação Sérvia tinha-me dado a palavra de que ia continuar à frente da seleção, mas não valeu de nada; várias pessoas fizeram tudo para que isto não acontecesse.
BnR: Aleksandar Mitrovic teria sido um bom reforço para os clubes portugueses?
D: Posso dizer-te que em relação ao Mitrovic falei com algumas pessoas que são ligadas aos clubes grandes de Portugal. Disse que era um grande jogador e um grande negócio futuro; recordo-me que depois do Campeonato da Europa saiu para o Anderlecht por quatro ou cinco milhões, que para Porto e Benfica não era nada, e que se jogasse um ano ou dois em Portugal saía por 50 milhões. Acredito que este ano vá proporcionar uma grande transferência para uma das melhores equipas da Europa.
BnR: Apesar de não conseguir o apuramento para o Mundial 2014, a Sérvia disputou até à última uma vaga com a Croácia. Em último lugar do grupo ficou a Macedónia, seleção com a qual acabaste por assinar.
D: Tinha contrato com a Federação Sérvia até dezembro de 2014, mas, como já disse, acabei por não ficar; o Presidente ainda me propôs voltar aos sub-19, mas queria ir-me embora. É quando surge o convite da Macedónia, onde trabalhei com o Luís Diogo como treinador adjunto, e fizemos um bom trabalho. Mas a Macedónia é um país com apenas dois milhões de habitantes e muito menos potencial que a Sérvia, apesar de termos feito grandes jogos, como contra a Espanha e Ucrânia. Foi um trabalho muito positivo e tinha mais dois anos de contrato, só que apareceu o Partizan…
BnR: É em Belgrado que orientas Andrija Zivkovic. Como explicas o seu recente apagão?
D: Em relação ao Zivkovic, é difícil de perceber e de explicar. Ele foi o nosso melhor jogador naquele ano, o nosso craque. Li que Bruno Lage disse que o Zivkovic desistiu de lutar (…) não sei, mas esta situação não é boa para ele e talvez tenha de mudar de clube. Parece-me que perdeu a ambição de vencer no Benfica. Muitas vezes falo com jogadores que vão jogar em Portugal e digo-lhes aquilo que têm de fazer, porque a concorrência é muito grande. É muito diferente do que acontece aqui na Sérvia, em que os jovens jogadores são mais mimados.
BnR: Já este ano, ao serviço dos sub-23 do Uzbequistão, alcançaste o 4.º lugar no Campeonato da Confederação Asiática. A Ásia Central é um mercado para o qual o campeonato português devia olhar?
D: O Uzbequistão, por exemplo, tem muitos jogadores talentosos. Penso que se as equipas europeias se virarem para lá, vão encontrar um país de futebol e de muito talento. Existem muitos que jogavam à vontade na Primeira Liga Portuguesa.
BnR: Por onde passa o teu futuro?
D: Depende das propostas que receber, mas de certeza que se não houvesse a pandemia já tinha voltado a trabalhar. Tenho várias situações em aberto.
BnR: Treinar o Gil Vicente é um objetivo?
D: Enquanto lá estiver o Vítor Oliveira, não! [risos] Se um dia tiver proposta, gostava de voltar, porque é um clube e uma cidade muito importantes para mim. Se não, noutro clube português.
Obrigado, Drulo.














