«Não vejo Portugal como candidato a campeão do Mundo» – Entrevista BnR com Danilo Dias

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Bebeu vodka, paga pelo presidente, de barriga vazia no final do jogo que apurou o CS Marítimo para a fase de grupos da Liga Europa. No entanto, o álcool não o fez esquecer a década que passou em Portugal, já que, admite, tem tanto de brasileiro como de português. Em grande parte do período em que por cá andou, foi a ilha da Madeira que o recebeu e o CS Marítimo a casa que o abrigou. Danilo Dias jogou competições europeias pelo clube madeirense e fez parte dos anos de maior fulgor dos insulares. Já ao serviço do vizinho CF União da Madeira, marcou no Dragão os golos com que o treinador sonhara que ia resolver o jogo. Deixou de jogar em 2020, tendo abraçado a carreira de apresentador de televisão.

– Perdido no Atlântico –

 

«Só soube o que era a Madeira quando pesquisei no Google e vi que era a terra do Cristiano Ronaldo»

Bola na Rede: Pelo tempo que passaste na Madeira, podemos dizer que é também a tua casa?

Danilo Dias: Sem dúvida. Não conhecia a Madeira quando fui para Portugal. Três meses antes de ir, em 2010, a ilha sofreu um temporal que foi uma catástrofe. Só soube o que era a Madeira quando pesquisei no Google e vi que era a terra do Cristiano Ronaldo e que tinha acontecido essa catástrofe. Morar numa ilha no meio do Oceano Atlântico foi algo novo. A Madeira significa muito para mim. Foi onde vivi os melhores momentos como atleta profissional, onde realizei mais jogos com a camisola de um clube, onde me dei a conhecer ao país e onde realizei o sonho de atingir a Liga Europa.

Bola na Rede: Estiveste quase 10 anos em Portugal e agora estás de regresso ao Brasil. Era um objetivo que tinhas quando acabasses a carreira de jogador?

Danilo Dias: Não. Eu e a minha esposa queríamos ficar em Portugal. Ou na ilha da Madeira, à qual temos uma ligação mais forte e onde os nossos dois filhos nasceram, ou no norte do país onde fiz os últimos anos da minha carreira. Já tínhamos aberto duas empresas em Portugal, só que veio um vírus invisível e mudou os nossos planos. Portugal é um país que me recebeu super bem. Amo o Brasil, porque nasci aqui, mas amo Portugal tanto quanto amo o Brasil.

Bola na Rede: O que é que ainda há da cultura portuguesa em ti?

Danilo Dias: Portugal está muito presente em mim. Misturo muito algumas expressões. Às vezes, misturo grama com relva. Em Portugal, aprendi a apreciar peixe, um salmão, um bacalhau à lagareiro. Gosto muito de arroz de pato. Quando vou a Portugal, não me considero estrangeiro. Tenho uma história com o país. Sou muito agradecido a Portugal.

Bola na Rede: Estás envolvido num programa de televisão. Já como jogador eras comunicativo?

Danilo Dias: Sempre gostei muito de falar. Quando estava na formação do Góias EC, passava sempre pelo campo dos seniores. Via aquele campo e imaginava que um dia podia estar ali. Há um vídeo meu a “entrevistar” os jogadores com uma havaiana a fazer de microfone. Já no CS Marítimo, por vezes, íamos visitar escolas e o clube oferecia resistência a que não fosse eu a ir sempre para que os outros jogadores não ficassem com ciúmes. No entanto, ia sempre eu, porque gostava de falar e brincar com os meninos. É a minha forma de ser. A comunicação, desde que seja saudável, tem que estar em todo o lado.

Bola na Rede: O CS Marítimo é um clube que exige uma logística diferente. Sempre que os jogos são fora, a equipa viaja de avião. Foi um aspeto que consideraste na hora de ires para o clube?

Danilo Dias: Soube depois que aterrar na Madeira era uma aflição. Pensei: imagina passar por isto todas as semanas… O Marcelo Boeck metia-se atrás de mim e abanava a cadeira do avião. Pedia para parar, mas ele só me dizia para me habituar, porque ia ser assim todas as semanas. Aí pensei: para onde é que vim? No entanto, era a minha profissão. O CS Marítimo demonstrou realmente que me queria. Ia escrever o meu nome na Europa, que é o que todos os jogadores querem. Tinha uma proposta do Hobro IK, da Dinamarca, e do FC Lausanne-Sport, da Suíça. Podia ir para esses países, mas pensei na língua, porque, na altura, não falava fluentemente inglês. Independentemente de ser um clube da ilha ou não, ia para um clube grande e que lutava por competições europeias.

Bola na Rede: Referiste-te ao Marcelo Boeck que era um jogador carismático, porque pouco jogava no Sporting CP, mas estava sempre ativo no banco. Conheceste no CS Marítimo as pessoas que mais te marcaram no futebol?

Danilo Dias: Sim. O Marcelo era muito ativo e o grito dele despertava em nós uma força-extra. Hoje, no Fortaleza EC, continua igual. Teve um milagre na vida quando estava na Chapecoense e, por sorte, não entrou no avião que caiu. Quando estávamos no CS Marítimo, éramos muito próximos. Mas há outros. O próprio Héldon, com quem fiz dupla de ataque. O Sami, que tem uma alegria diferente. O Patrick Bauer, que era muito jovem. Fiz muitos amigos.

Foto de Capa: KataMorais

Francisco Grácio Martins
Francisco Grácio Martinshttp://www.bolanarede.pt
Em criança, recreava-se com a bola nos pés. Hoje, escreve sobre quem realmente faz magia com ela. Detém um incessante gosto por ouvir os protagonistas e uma grande curiosidade pelas histórias que contam. É licenciado em Jornalismo e Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e frequenta o Mestrado em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social.

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