«Não vejo Portugal como candidato a campeão do Mundo» – Entrevista BnR com Danilo Dias

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«Norton de Matos sonhou que ia resolver o jogo no Dragão. Entrei e marquei dois golos»

Bola na Rede: Já reparei que és uma pessoa que bebe muito dos outros. Há alguma coisa que te tenham dito durante a tua carreira como jogador que te tenha marcado particularmente?

Danilo Dias: Em 2010, antes de ir para o CS Marítimo, quando estava no Ipatinga FC, íamos disputar a semi-final do Campeonato Mineiro. O nosso avançado tinha-se lesionado nos quartos-de-final e não ia poder jogar. Um dia, entrei no departamento médico e estavam lá alguns jogadores a fazer tratamento. Ia pegar em algum material e ia para o treino. Um dos jogadores que estava lá disse “eishh… entrou o jogador de quem vamos depender para ir para a final… estamos f******…”. Toda a gente se riu. Acabei por fazer os dois melhores jogos com a camisola do Ipatinga FC. O primeiro jogo ficou 0-0 e o outro ganhámos 3-1. Fiz dois golos contra o Cruzeiro EC e foi o meu passaporte para a Europa. Acabei por ser recompensado mesmo com o que disseram sobre mim.

Bola na Rede: Qual foi o clube de maior dimensão que te abordou?

Danilo Dias: O Kayserispor, o RC Deportivo de La Coruña e o VL Wolfsburgo FG.

Bola na Rede: A ida para o Qarabag FK do Azerbeijão parecia ser um grande desafio. Acaba por ser lá que conquistaste os teus dois títulos. Foi uma experiência tão difícil quanto depois se veio a revelar compensadora?

Danilo Dias: Tornei-me conhecido por causa dos jogos de qualificação para a Liga dos Campeões, onde marquei dois golos. No entanto, sofri uma lesão no menisco que comprometeu tudo. A operação, em Istambul, não correu como esperava e atrasou a minha recuperação. O meu regresso à competição não foi bom devido ao frio e aos campos sintéticos. Tive que voltar a adaptar-me. Perdi grande parte da época a tentar adaptar-me ao país. Havia limite de jogadores estrangeiros. No segundo ano de contrato, o Qarabag FK contrata um estrangeiro para o meu lugar. A partir daí, fui leal para com o clube e o clube para comigo. Encontrámos um acordo de rescisão que foi bom para ambos. Voltei para Portugal. Se pudesse, tinha ficado lá até ao fim da carreira. O campeonato é um pouco limitado, mas compensa na estrutura do clube e nos valores financeiros que praticam.

Bola na Rede: Sofreste com o choque cultural?

Danilo Dias: Fui feliz no Azerbeijão, mas quando conheci a cultura, levei um choque. O inverno lá é muito frio. Os azeris são muito ligados aos russos e aos turcos. São uma cultura muito fechada. Vi que tinha que ter cuidado com a minha forma de ser, de brincar, de mostrar ser um brasileiro alegre, de sorrir e abraçar as pessoas. Tinha que ter atenção a isso fora de casa. Até na forma como me vestia tinha que pensar.

Bola na Rede: Quando regressaste a Portugal, foste para o CF União da Madeira. Alguém sentiu que foste desleal?

Danilo Dias: Sempre tive lealdade para com o CS Marítimo. O maior rival do CS Marítimo sempre foi o CD Nacional. O CD Nacional tentou-me contratar duas vezes e não fui em nenhuma. Numa porque era leal ao CS Marítimo. Na outra, estava no América Mineiro FC, ainda tinha um ano de contrato, e o CD Nacional estava muito mal, perto de cair para a Segunda Liga e optei por não ir. Vou para o CF União da Madeira a dois dias do mercado fechar, quando estava quase certo no FC Arouca. Não fui para o FC Arouca, porque tenho uma ligação forte com a Madeira. O presidente do CF União da Madeira, Filipe Silva, queria afrontar o presidente do CS Marítimo, Carlos Pereira, com uma contratação sonante e demonstrou muito interesse em mim. Só que não vi o CF União da Madeira como um rival. Vi um clube desejoso de voltar a disputar a Primeira Liga e foi por isso que fui para lá.

Bola na Rede: Acredito que um dos jogos que mais te marcou tenha sido aquele no Estádio do Dragão em que fazes dois golos ao FC Porto.

Danilo Dias: Não foram só dois golos ao FC Porto, foram dois golos ao Casillas, um guarda-redes de nível mundial. Esses golos têm uma história antes.


Bola na Rede: Qual é a história?

Danilo Dias: Treinei com a equipa titular durante a semana inteira. Estávamos no hotel na véspera do jogo e o mister Luís Norton de Matos chamou-me. Disse-me que queria falar comigo no dia seguinte, depois do pequeno-almoço. Aí, ele diz-me que sonhou que eu ia começar no banco e que ia entrar para resolver o jogo. O titular ia ser o Miguel Cardoso para cansar o Maxi Pereira. Era um jogo contra o FC Porto, num domingo à noite, toda a gente ia ver. Disse ao mister que respeitava o sonho, mas que queria jogar de início. Estava num bom momento de forma. Acabei por ir para o banco chateado. No final da primeira parte, o Miguel Cardoso falha um golo e perde a confiança. Ao ver o Miguel Cardoso morto mentalmente, ganhei força. Pensei que ia entrar e mudar realmente o jogo. Entro com o jogo em 2-0 para o FC Porto e marco dois golos. Por falha do nosso guarda-redes, sofremos o 3-2 já muito perto do fim, mas era jogo para ficar 2-2.

Bola na Rede: O que é que o mister Norton de Matos te disse depois?

Danilo Dias: No fim do jogo, comentou comigo que o sonho dele estava certo.

Bola na Rede: Chegaste a experimentar o Campeonato de Portugal no Berço SC e no SC Mirandela. É uma realidade que o luxo das ligas profissionais acaba por esconder?

Danilo Dias: Exatamente. É um campeonato com um nível competitivo elevadíssimo. Há boas equipas. Portugal é um país pequeno, mas vasto em clubes de futebol. Cada vila tem o seu clube do coração. Há muitos talentos que saem das divisões inferiores para a Primeira e para a Segunda Liga.

Bola na Rede: Estavas habituado a jogar na Primeira e Segunda Liga. É muito diferente?

Danilo Dias: Muito. Estava no Campeonato de Portugal só pelo prazer de jogar futebol. Quando saí do CD Cova da Piedade, já era para ter terminado a carreira.

 

Francisco Grácio Martins
Francisco Grácio Martinshttp://www.bolanarede.pt
Em criança, recreava-se com a bola nos pés. Hoje, escreve sobre quem realmente faz magia com ela. Detém um incessante gosto por ouvir os protagonistas e uma grande curiosidade pelas histórias que contam. É licenciado em Jornalismo e Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e frequenta o Mestrado em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social.

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