«O trabalho é a boia de salvação, é onde nós nos podemos agarrar. E no final do dia, no final de um campeonato, no final de um ciclo, seja o que for, é onde fica o que nós temos» | Entrevista Bola na Rede a Vítor Martins

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Vítor Martins é um dos jovens treinadores promissores do futebol português e um dos técnicos com maior conhecimento da Segunda Liga. Cresceu no panorama futebolístico no norte do país, realizando várias funções, mas Luís Castro trouxe-o para a presença diária numa equipa técnica, no relvado. Em 2021 arrancou a sua carreira como protagonista, passando pela encubadora da Liga Revelação e assumindo na época seguinte a equipa principal do Leixões. Depois de cumprir os objetivos em Matosinhos, passou por Académico de Viseu, Feirense, Torreense e Chaves, histórico que quer levar de volta para a Primeira Liga. Para o nortenho, o segredo está no trabalho e no rigor. Tudo o resto, são frutos da dedicação aplicada. É o mais recente convidado do Entrevista Bola na Rede.

Entrevista conduzida por Ricardo João Lopes e Ailton Ricardo Pereira.

«tenho a certeza que a melhor equipa é a que consegue estar preparada para os diferentes momentos e, se possível, executar em cada fase do jogo, aquilo que é mais conveniente».

Bola na Rede: Sê bem-vindo, então, a mais uma conversa aqui com o Bola na Rede. Obrigado também por teres aceitado o nosso convite. Gostava de começar esta conversa também para dar aqui um pouco de descontração com o jogo rápido.

Vítor Martins: Vamos a isso!

Bola na Rede: Defesa a três ou defesa a quatro?

Vítor Martins: Defesa a quatro.

Bola na Rede: Ver futebol português ou futebol estrangeiro?

Vítor Martins: Futebol português, é o nosso. É o que eu tenho que ver.

Bola na Rede: Ser a melhor defesa do campeonato ou o melhor ataque?

Vítor Martins: Melhor ataque.

Bola na Rede: Vencer tranquilamente o jogo ou no último minuto?

Vítor Martins: Tranquilamente.

Bola na Rede: Ganhar neste caso a Taça de Portugal ou ser promovido?

Vítor Martins: Essa tem rasteira (risos), mas ser promovido.

Bola na Rede: Qual é que é, o teu treinador de referência?

Vítor Martins: José Mourinho.

Bola na Rede: E neste caso, um jogador que mais o surpreendeu?

Vítor Martins: Isso é um bocadinho injusto. Foram vários. Tento que nenhum me surpreenda, porque tento perceber quais são os caminhos, as coisas com que eles trabalham. Mas vou dizer, o central da moda, o Stopira.

Bola na Rede: Para terminar, um jogo baseado na posse ou, com transições rápidas?

Vítor Martins: Eu gosto muito da variabilidade. Gosto muito de momentos de posse, gosto muito de transições rápidas. Não quero ter um rótulo de nada. Portanto, vou falar. Vou falar em posse, mas sempre preparado para boas transições. E quando estamos só em transições, saber também tomar conta da bola. Portanto, é as duas.

Bola na Rede: Podemos começar então mesmo por aí a nossa conversa. O que é que, dentro do estilo de jogo que tu gostas, tu privilegias que tipo de momento para a equipa? E se se adaptas muito mais àquilo que tens enquanto recurso, ou tentas impor mais a tua ideia e depois sim ver o que é que pode acontecer?

Vítor Martins:  Isto é muito variável mesmo. E confesso que, longe de imaginar ser treinador principal, longe de imaginar ter uma equipa a minha responsabilidade, se bem que é bem dividida por todos, a principal responsabilidade será sempre dos jogadores, mas já tive as coisas bem fechadas, como o modelo de jogo. Se a bola estiver no corredor esquerdo, é aqui que eu quero o meu lateral para equilibrar, por exemplo. Tudo isso muito fechado, aqueles powerpoints antigos quase que derivavam do Championship Manager, de ter aquilo muito bem fechado. Hoje é muito mais aberto. Portanto, o que eu tento com as minhas equipas, e acho que é um sinal de inteligência, não só minha, mas de toda a gente, é ter a equipa preparada para tudo. Se montarmos só para bloco baixo e sair em transições, se calhar vão haver jogos em que teremos de fazer isso. Mas vão haver momentos na época, vão haver momentos no decorrer do campeonato que temos que tratar bem a bola, temos que saber ter a bola. Até porque é muito difícil controlar as coisas só num jogo de transições. É entregar um bocadinho o jogo sempre ao adversário. Eu acho que a melhor equipa, aliás, tenho a certeza, a melhor equipa é a que consegue estar preparada para os diferentes momentos e, se possível, executar em cada fase do jogo, aquilo que é mais conveniente. Uma equipa que ande só em transições vai ter um gasto energético muito grande. A nível motivacional também não é muito agradável andar sempre a correr atrás dela e esperar que elas nos cheguem e depois em dois, três segundos conseguir avançar para a baliza a adversária. Isso nós temos que saber fazer, mas só isso acho que é extremamente redutor. Até preparar uma semana ou, por exemplo, uma pré-época, preparar uma pré-época só com este tipo de tipologia de jogo acho que é muito redutor. Portanto, o que eu tento, e sabendo que isto é muito ambicioso, é que a equipa consiga estar preparada para todos os momentos. Para defender alto, conseguimos defender alto, conseguimos pressionar, conseguimos recuperar a bola no meio-campo adversário para chegar à baliza muito rápido. Também sabemos estar baixo, temos de saber estar baixo, confortáveis, estáveis, sem bola. Sempre com pontos de aceleração e pontos de saída e escapatórias para conseguirmos jogar. E com bola é um bocadinho a mesma lógica de procurar sempre espaço. Se fizer sentido correr aquele risco que muita gente não gosta, os adeptos não gostam nada, de andar ali perto da nossa baliza para chamar, para desmontar blocos, criar espaços para irmos para a baliza, vamos lá. Sabendo sempre, pretendo sempre incentivar isto, que o caminho ideal para a baliza é o mais curto possível, sabendo que às vezes é preciso dar 50 toques, outras vezes num pontapé de baliza ela chega lá perto e dá para chegar ao golo.

Vítor Martins Feirense
Fonte: Edmilson Monteiro/Bola na Rede

Bola na Rede: E é fácil experimentares essa ideia entrando a meio da temporada numa equipa?

Vítor Martins: Fácil não é nada, acho que nada é fácil. Primeiro, temos de levar uma ideia, temos de ter uma ideia bem consistente, temos de fazer acreditar nela e depois temos de conseguir que executem essa mesma ideia. E aqui eu estou a falar de uma ideia, mas estamos a falar de várias componentes, ou seja, se fizermos vários fragmentos de tudo aquilo que estamos a falar, há aqui construção de jogo, segunda fase de construção, decisão e definição de jogada, finalizações, sem bola, defender em bloco alto, num bloco mais médio e num bloco mais baixo. Tudo isto fica mais fácil quanto mais tempo temos para preparar até o primeiro jogo oficial. A meio da época é diferente. É chegar e tentar o mais rápido possível, passar as ideias, fazer acreditar, antes fazer um trabalho prévio e aí tem muito a ver. O meu contexto ainda é de Segunda Liga. Eu já conhecia bem o Chaves, não porque estava à espera de entrar ali, mas dificilmente tinha algum jogador que me ia surpreender. Depois é o trato, a forma como reagem à crítica, ao bom resultado, ao mau resultado, isso são coisas que só estando no dia-a-dia e no treino, no treino corre bem, no treino corre mal, à ‘dura’, ao elogio, isso são coisas que só o estar com os jogadores, com o grupo é que nós vamos percebendo. Mas o que é conhecimento técnico e tático, acho que dificilmente me surpreenderá alguém que esteja numa Segunda Liga.

Bola na Rede: Mas hoje em dia a Segunda Liga não é cada vez mais rica ao nível tático?

Vítor Martins: Eu acho que sim, eu acho que é uma liga extremamente difícil nesse aspeto, porque acho que está mesmo a ser definida em pormenores. Acho que está a ser definida em detalhes e isso é fantástico. Nós vemos o Marítimo, fez uma época fantástica, fez uma época onde conquistou alguma distância, ou seja, desde muito cedo percebeu-se que tinha que acontecer algo de muito errado para que não conseguissem assegurar a subida e manter-se no primeiro lugar. Mesmo assim os jogos foram definidos em detalhes, foram definidos em pequenos pormenores. São detalhes, são pormenores, daí sim, haver um equilíbrio. Acho que também todos olhamos muito para a Primeira Liga e aí há três equipas que estão sempre a ganhar, por isso lançam uma candidatura e essas equipas conseguem ganhar sempre e se calhar empatar aqui ou ali. A Segunda Liga não é assim, é equilíbrio e é sobretudo consistência. As equipas mais consistentes, lá está que no detalhe, que no pormenor, conseguem ter, conseguem segurar-se, conseguem sair bem dos momentos que é para sofrer e sofrem mesmo, dos momentos que é para matar e conseguem matar, conseguem agredir o adversário, são aquelas que vão ter mais sucesso no final, mas sempre a contar com equilíbrio. É muito difícil na Segunda Liga pegarmos num jogo e depois analisarmos tudo e, olha, ‘foi um amasso’. E depois não é por acaso que ali à entrada do último terço, a distância do play-off de descida e do play-off de subida às vezes é dois jogos e um mês muito bom põe-nos lá em cima e quase que é impossível de lá sair se mantivermos a tal consistência, como um mês menos bom põe-nos ali numa posição muito aflitiva. Eu tenho para mim cada vez mais que é não olhar à tabela classificativa, é olhar para aquilo que estamos a fazer, é olhar para os indicadores que o jogo nos vai dando e basearmos por aí. Senão, andamos sempre assustados e iludidos e isso para quem procura consistência não é nada benéfico.

«A observação individual do que é o jogador é essencial. Acho que neste momento do calendário estamos todos a entrar nessa fase de perceber como é que o plantel pode ser melhorado, como é que podemos aperfeiçoar aqui, ali, um ou outro setor, uma ou outra posição, isso é decisivo».

Bola na Rede: Tu também foste scout no início da tua carreira, já há alguns anos atrás.

Vítor Martins: Sim, fiz um bocadinho de tudo.

Bola na Rede: Para ti a observação é extremamente importante para o sucesso?

Vítor Martins: É muito importante, tudo é importante hoje em dia. Se falarmos de uma liga, e são todas, mas um campeonato tão equilibrado como por exemplo a Segunda Liga, tudo pode diferenciar, tudo pode fazer a diferença no final. A observação individual do que é o jogador é essencial. Acho que neste momento do calendário estamos todos a entrar nessa fase de perceber como é que o plantel pode ser melhorado, como é que podemos aperfeiçoar aqui, ali, um ou outro setor, uma ou outra posição, isso é decisivo. Quanto mais conseguirmos ver sem conhecer esse trato pessoal, sem conhecermos esse lado mais humano, melhor. Existe o lado técnico e o tático, as ferramentas que existem de observação dão uma grande ajuda nesse aspeto. Muito dificilmente conseguimos perceber, sem conhecer o jogador, sem ter falado com ele uma vez, que ele vai nos dar isto, que temos que aperfeiçoar isto, e isto ele nunca vai conseguir fazer. Também podemos entender se um jogador não é capaz de executar o que queremos e optamos por outro nome. É ver o jogador, ele dá-nos isto, ele equilibra-nos para aqui, e este faz o que o outro colega na posição, que está perspetivado de fazer parte deste plantel, não consegue fazer. Portanto, procurar este equilíbrio e isso é muito importante. E depois há a outra parte, a análise coletiva, perceber como é que o adversário vai jogar, antecipar o que vai ser o jogo, perceber onde é que eles nos podem realmente deixar danos, onde eles nos podem realmente explorar, aquilo que nós também fazer é muito importante, ter um autoconhecimento do que andamos a fazer, prepararmo-nos para o jogo, pensar que facilitamos nisto, que nós não conseguimos controlar bem aquilo. Portanto, andar sempre neste jogo do rato e do gato, andar sempre a antecipar coisas, e perceber também no adversário onde é que estão, onde é que encaixam as nossas ideias, onde é que nós podemos incentivar, quais são os botões para carregar naquela semana, para conseguirmos realmente ter um jogo que nunca vai ser tranquilo, mas o jogo mais tranquilo possível.

Bola na Rede: Deves ter centenas de relatórios em tua casa guardados, quando trabalhaste no scout…

Vítor Martins: Sim, coincidiu andar agora a mudar de casa, e aparecem ali umas relíquias e há coisas incríveis. Ainda há dias encontrei um do Rui Borges no Académico de Viseu, e estava a tentar perceber algum paralelismo do que é agora o Mister Rui no Sporting.

Vítor Martins Feirense
Fonte: Bernardo Benjamim/Bola na Rede

Bola na Rede: Mas por curiosidade, que jogadores é que tu recomendaste ao FC Porto, na altura em que eras scout, e que possas dizer aqui?

Vítor Martins: Por incrível que pareça, hoje em dia as estruturas estão tão organizadas, que é difícil aparecer um jogador que seja recomendado apenas por uma pessoa. O que se faz, e o que acontece, é passar por muita gente, passar por muita triagem. Por exemplo, quem está a explodir na Colômbia, chega, acho eu, a todos os clubes na Europa. Estou a falar da Colômbia, não é por acaso, passou o Jackson Martínez, que foi sempre alguém que me entusiasmou muito, estava na altura a jogar no México. O James Rodríguez é outro exemplo, alguns jogadores que iam chegando, que os nomes muitas das vezes já estavam vistos e revistos, por pessoas com muito mais competência do que eu, mas que nós olhávamos para aquilo e dizíamos: ‘ele vai chegar aqui e vai conseguir fazer a diferença’. Analisámos o Iturbe e parecia mesmo que era um mini Messi. Acho que faz um jogo de pré-época, faz um golo incrível ao Celta e toda a gente disse que estava ali o novo Messi. O Quintero, por exemplo, era um jogador com uma tipologia de jogo muito específica, ou seja, era o farol da equipa, toda a gente andava à volta dele, lá nessa equipa da Colômbia Sub-20, e depois tem muita dificuldade em impor-se no futebol europeu porque não tinha o dinamismo, a intensidade que o jogo lhe pedia. Tinha características técnicas completamente exacerbadas.

Bola na Rede: Deixa-me só perguntar-te aqui uma curiosidade também do nosso lado que surgiu quando estávamos a fazer aqui a preparação para a entrevista. Muitas das vezes olha-se para a questão, e é cada vez mais comum até hoje em dia acontecer, de um treinador de futebol chegar ao cargo porque tem a experiência enquanto jogador. No teu caso, sentes que esta valência que tens do scout, é uma característica, uma valência diferenciadora para ti, enquanto treinador hoje, num momento ativo?

Vítor Martins: Honestamente, acredito que sim. Acho que todos nós, como jogadores ou treinadores é claro que temos pontos mais fortes, pontos mais fracos, pontos para poder corrigir, pontos para poder melhorar, e acredito que na área da análise não preciso de me dedicar tanto, ou seja, não há tanto gasto de energia, porque eu tenho a bagagem, em pequenos pormenores, tenho um conhecimento também de alguns treinadores e de alguns jogadores.  Se me dá alguma vantagem, no início do campeonato em relação aos outros? Não acho que dê nenhuma, pronto, todos temos a base, todos temos uma base, todos temos um caminho. O meu caminho foi assim, um bocadinho, quase como um cisne negro, e fui chegando, foram-me aparecendo as oportunidades e quis dizer a todas que sim, quis dizer a todas que estava preparado. O que eu queria era estar preparado, e que nunca ninguém me acusasse que eu não tentei, ou que disse que não, ou que não tinha, ou que não tive capacidade. Isso é que eu não poderia permitir. Depois há uma altura na minha vida em que comecei a ter convites para ser treinador adjunto. Acho que há uma idade também para sermos analista, para ser aquele analista que tem muita energia, que nos acham piada. Depois há uma altura em que olham para nós, e estamos a ficar mais velhos e que nos empurram para o treino e para o trabalho mais de estar no relvado. Aceitei um convite, depois de ter alguns, de uma pessoa que estimo muito, do míster Luís Castro. É assim que vou para treinador adjunto. O meu ciclo no Porto B termina com o Rui Barros, onde o míster opta para não continuar a carreira de treinador, com toda a legitimidade. Eu começo a ter convites para ser treinador principal e voltei a pensar no sentido de aproveitar oportunidades. Acho que foi mais o meio que me fez do que propriamente eu tomar decisões. No fundo, é estar preparado, é sentir-me útil, é sentir-me a acrescentar, e cheio de energia e motivação, e com muita paixão, como desde o primeiro dia. Essa pergunta é mesmo muito específica. Eu gosto muito da análise, perco muito tempo na análise. O que eu tento fazer na minha semana de treinos, onde montamos, é sempre o exercício do passo, o treino está sempre montado para aquilo que nós acreditamos que vai ser o jogo. Isso é o que a análise que me dá. Se achamos que o jogo vai ser mais duro, por algum motivo, então se calhar a semana é uma semana mais leve, do ponto de vista da comunicação e do trato até. Depois há outros momentos em que ganhámos um jogo e na semana seguinte todos se acham artistas. Se calhar aí temos que pôr um ponto. Temos de trabalhar bem no treino aquilo que queremos colocar em prática no jogo.

Bola na Rede: Foste adjunto do Luís Castro durante duas temporadas. Ele é uma referência para ti? Também te pergunto porque é que ele nunca se conseguiu estabilizar, num grande futebol português? Ele treinou o FC Porto, mas durante poucos jogos.

Vítor Martins: Eu acho que isso é uma pergunta difícil, mas ele esteve em grandes clubes. O ‘problema’ que temos é que existem demasiados bons treinadores, para termos só Três Grandes. O Luís Castro sempre teve tudo e também acho que está tudo relacionado com os timings. Tem a ver com os momentos em que se entra, e ele quando chegou ao FC Porto havia uma clara mudança de ciclo, uma clara mudança de paradigma. Ele acaba por fazer bem as coisas. Acho que enfrenta um super Benfica e não teve o tempo a pôr o cunho pessoal. Na Europa ainda derrotou o Nápoles, mas calha contra o Sevilha, um daqueles Sevilhas que ganhavam sempre a Liga Europa. Apesar de ter feito um bom jogo em casa, depois lá não conseguiu fazer o mesmo. Para ‘descansar’, teve também uma meia final na altura, para Taça da Liga, com o Benfica, na altura treinado pelo Jorge Jesus, aquele Benfica que amassava toda a gente. O FC Porto foi competitivo. Se tivesse conseguido vencer os jogos todos daquele mês, tinha tudo, e se calhar tinha sido o treinador do FC Porto por mais tempo, embora isto seja completamente especulativo.

«O Francisco começa na equipa B, faz todos os treinos, participa em todos os jogos, na fase inicial, e depois é absorvido pela equipa A, que é o grande objetivo das equipas B, além de ser competitiva e não passar por dificuldades e andar lá na cauda da tabela classificativa».

Bola na Rede: Até porque o Luís Castro e tu estiveram no Chaves e no Vitória SC e conseguiram realizar duas boas campanhas.

Vítor Martins: Sim, acho que acima de tudo, e mérito do míster é claro, mas acho que mais do que os pontos, mais do que era a qualidade de jogo que as equipas apresentavam, a valorização individual que os jogadores apresentaram foi enorme. Nós é que estávamos de fora e íamos sentindo, mas tudo isso acabou por ser uma grande mais valia. O míster saiu do Vitória SC para o Shakhtar Donetsk. Na altura não sabíamos o que ia acontecer no mundo, mas o Shakhtar Donetsk, se calhar a nível individual, ia jogar de olho nos olhos com os Três Grandes. Se calhar o Shakhtar era favorito.

Bola na Rede: E não o acompanhaste para a Ucrânia porquê?

Vítor Martins: Não há uma razão, são várias razões. A meio da época no Vitória tinha decidido não seguir na equipa técnica qual fosse o caminho. Ainda assim, poderia ter seguido, porque tive esse convite. Sou muito agarrado às minhas coisas, a ideia de ir para tão longe, talvez me tenha assustado um pouco, porque mantenho uma excelente relação com toda a equipa técnica. Fui muito bem substituído pelo João Brandão, em que tenho a certeza que acrescentou também à equipa técnica, portanto, não há um porquê, há várias coisas que me fizeram ficar, e não me arrependi nada, mantenho o objetivo, o sonho de participar em jogos de Liga dos Campeões, de Liga Europa, fases finais dessas competições, mantenho isso intacto. Portanto, não foi ali, há de ser mais à frente.

Bola na Rede: Nós, enquanto montávamos este guião, fomos analisando os plantéis com que trabalhaste. Tu passaste pelo FC Porto B em 2020, e cruzaste-te com dois nomes que eu gostava que nos falasses um bocadinho:  Francisco Conceição e Evanilson, embora com este último por poucos jogos.

Vítor Martins: Sim, com o Evanilson foram mesmo muito poucos jogos e era só mesmo aquela dinâmica de vir ao jogo sem fazer qualquer tipo de treino, de preparação. Foi muito específico para o Evanilson ter tempo de jogo, ter competitividade, participar, ir-se ambientando numa lógica de Segunda Liga. O Francisco era ao contrário. O Francisco inicia a época vindo do COVID 19, naquela altura tão chata e que procurávamos todos perceber bem o que é que ia acontecer a seguir. O Francisco começa na equipa B, faz todos os treinos, participa em todos os jogos, na fase inicial, e depois é absorvido pela equipa A, que é o grande objetivo das equipas B, além de ser competitiva e não passar por dificuldades e andar lá na cauda da tabela classificativa. Há sempre este objetivo de conseguir pôr os jogadores competitivos, jogadores com capacidade de jogarem ao mais alto nível, que é jogarem na Primeira Liga, nas Champions, e o Francisco fez exatamente isso nesse ano.

Leixões Vitor Martins
Leixões Vitor Martins

Bola na Rede: E em 2021 consegues, de facto, a tua primeira oportunidade como treinador principal, ainda que num contexto de Sub-23. Eu gostava de saber como é que se deu o convite e se gostaste da experiência.

Vítor Martins: Honestamente, como já expliquei, o Rui Barros optou por me não seguir a carreira de treinador, e com toda a legitimidade. Fiquei em casa à espera de convites. Fui tendo um ou outro, fui tendo alguns treinadores que, por acaso, naqueles momentos, queriam montar equipas técnicas e perguntaram-me se eu estaria disponível, ao qual eu disse que sim. Por acaso, não houve ninguém que me disse que era para começar a trabalhar no dia seguinte, senão tinha continuado a minha carreira como treinador adjunto. Pus-me sempre predisposto a isso. Era o segundo ou terceiro ano das equipas da Liga Revelação, dos Sub-23. Não tinha agente, não tinha representante, ligavam-me pessoas, ligavam-me os clubes, até alguns agentes a dizer que me queriam colocar como treinador principal numa equipa do Sub-23. E eu também, no fundo, não ia fechando nenhuma porta, ia deixando aberto, o que é certo é que começámos. E já foi bem tarde. Os meus pais são de Matosinhos, estávamos em Matosinhos… eu podia misturar um bocadinho as coisas. Até fui eu que fui deixando mais em ‘Banho Maria’. E o que é certo é que depois foi onde eu acabei por dizer que sim, foi onde comecei a trabalhar, e recordo com muita saudade dessa equipa, que também acho que fizemos uma excelente participação na Liga Revelação. Na altura herdámos um plantel muito… muito magoado, porque tinha tudo no ano anterior para ser campeão e teria sido fantástico para o Leixões. Portanto reformulámos ali algumas coisas. Havia ali uma espécie de pessimismo e de uma nuvem negra numa equipa que teve tudo quase para agarrar e não conseguiu. Começámos praticamente de novo, do zero, queríamos ter ganho, preparámos tudo para ganhar, mas ficámos em terceiro a nível nacional, na fase depois de Apuramento de Campeão. Batemos com o Vasco Botelho da Costa e aquele Estoril que também limpava tudo. Não era fácil. Mas acho que os objetivos foram atingidos, que era praticar bom futebol, fazer crescer jogadores e alguns depois, herdei-os para equipa principal também, conseguir que alguns fizessem parte do plantel.

Bola na Rede: Vês a Liga Revelação neste momento como um passo fundamental, tanto para o jogador jovem, como também para o treinador jovem?

Vítor Martins: Acho que tem muito a ver com qual é o projeto e qual é a equipa. Depende da cultura de clube. Onde eu estive, fazia sentido. Há outras que eu tenho alguma dificuldade em perceber o porquê de existirem Sub-23, porque têm equipas B, porque estão noutro contexto. Há uma décalage tão grande entre o que é a realidade do Sub-23 e o que é a realidade de equipa A e B, que me faz alguma confusão. Outros não. Por exemplo, Leixões, voltando a Leixões, acho que é uma equipa que é modelo nessa gestão, que até teve equipa B. Mas a missão dos Sub-23 era abastecer a equipa principal e isso é o correto. Nesse aspeto, acho fantástico. Noto outras, com uma decalagem tão grande, até ideias de tipologia de jogo, de forma de estar, de nível de jogador, que honestamente faz-me alguma confusão.

Bola na Rede: Sentiste-te preparado para essa subida, para essa promoção à equipa principal?

Vítor Martins: Eu tinha de me sentir preparado. Como eu disse era dos meus objetivos. É claro que se me ligarem agora para ir para o Real Madrid, que não vão ligar, de certeza, eu tenho de pôr muitas reticências (risos). Se for escolhido o José Mourinho, acho que está muito bem entregue e que corra muito bem.  Mas dizer que quem está nos Sub-23, tem de pensar e fazer a projeção de poder vir a ser treinador dos A’s. Isto pode-me acontecer pelo sucesso do treinador de cima ou pelo insucesso do treinador. Na altura, o meu antecessor foi o José Mota, a quem eu tenho uma admiração incrível e tivemos sempre um trato muito terra a terra, muito honesto um com o outro, sempre. Confesso que quando iniciei nos Sub-23 eu queria ir a ganhar o próximo jogo e mais um e mais um e ir à fase de apuramento campeão. Depois, na fase de apuramento campeão fazer o melhor possível, ser campeão, se possível. No final dessa temporada contei com outras abordagens para ser treinador das equipas sub-23, de equipas um bocadinho mais estruturadas, com mais peso no nosso futebol. Contudo, sentia-me preparado. Acho que beneficiei também de um momento frágil do Leixões. Acho que também depende do momento. Se, por exemplo, nesse ano o Leixões opta por fazer um ótimo plantel, por atacar realmente uma subida de divisão, se calhar não tinha sido eu o escolhido para treinar, por muita competência que tinha demonstrado, por muito bem que jogasse a equipa de Sub-23, por muito que fizéssemos crescer aqueles jogadores, se calhar o caminho era outro. Aí beneficiei um bocadinho de um momento frágil do Leixões e lá fomos nós, enquanto equipa técnica, a preparar bem as coisas. Pensámos mesmo jogo a jogo, mesmo o calendário que nós tínhamos lá era jogo a jogo, era sobrevivemos a este, vamos a mais um, sobrevivemos a este, vamos a mais um. E foi isso que fizemos, sobrevivemos, acreditámos muito. E criámos um grande grupo, um grupo que passou por muita dificuldade, um grupo que soube sofrer, que sofreu, mas que nunca arranjou desculpas, só trabalhou para ganhar jogos.

«desculpas é o que todos querem, é olhar pensar que eles não recebem, se calhar até estão mais fracos, se calhar vai ser um jogo fácil. Nós éramos exatamente o contrário. Era chegar lá dentro e não nos faltava nada, íamos trabalhar no máximo durante a semana e depois no jogo entregar-nos a 100%».

Bola na Rede: Eu queria-te perguntar quais foram realmente as principais dificuldades neste teu trabalho.

Vítor Martins: Acho que não era segredo, nós começamos com menos um ponto por falta de controle salarial, ou seja, havia essas coisas que, honestamente, e não vou dizer isto para valorizar o trabalho, mais ao contrário, acho que quem está numa situação frágil, quem tem contratos baixos, quem não recebe ao dia, acho que só tem que se agarrar ao trabalho e não arranjar desculpas e tentar ir para melhor, fazer as coisas para conseguir evoluir. Porque desculpas é o que todos querem, é olhar pensar que eles não recebem, se calhar até estão mais fracos, se calhar vai ser um jogo fácil. Nós éramos exatamente o contrário. Era chegar lá dentro e não nos faltava nada, íamos trabalhar no máximo durante a semana e depois no jogo entregar-nos a 100%. E acho que quem relembra essa equipa do Leixões, relembra sempre uma equipa que ganhou, que empatou, que perdeu, mas que deixou sempre tudo em canto. Foi muito competitivo. Aqueles primeiros cinco jogos foi dizer a jogo a jogo, mas lembro do nosso jogo é em Penafiel, o primeiro jogo. Na altura é um Penafiel muito competente e nós aos 30 e tal minutos o Zaga é expulso e nós agarramo-nos ali àquele ponto. Mesmo assim temos duas ocasiões. Conseguimos chegar ao final com o empate e só tínhamos zero pontos, aquele ponto soube tão bem. E isso ainda nos motivava mais. Portanto, fomos fazendo assim bem as coisas. Janeiro, achávamos que íamos conseguir algo mais, procurámos ainda melhor, perdemos três figuras importantes da equipa, e agarrámo-nos outra vez e fomos em busca de soluções e acabámos. Foi um campeonato sem sobressaltos, nesta questão da tabela. Existiram sobressaltos, como acontece em todo lado.

Bola na Rede: Essa é uma condição, digamos assim, obrigatória para quem trabalha contigo. Porque para esta conversa, porque é a primeira vez que estou a ter a oportunidade de conversar contigo, eu tenho essa sensação que tu privilegias muito aquilo que é o trabalho.

Vítor Martins: Sim, é a boia de salvação, é onde nós nos podemos agarrar. E no final do dia, no final de um campeonato, no final de um ciclo, seja o que for, é onde fica o que nós temos. O quanto me dediquei a isto, o quanto é que eu fiz para isto, o que é que eu podia ter feito diferente. E aí, bem, podiam ser tomadas de decisão diferentes, opções diferentes, mas a dedicação, a paixão com que nós entregamos… Aí é algo que eu no dia em que sentir que não estou no topo, tenho que mudar de ramo, tenho que mudar de direção, porque, como eu dizíamos no início desta conversa, é tudo no pormenor, é tudo no detalhe, que se abdicarmos aqui nisto, as coisas acabam por fazer a diferença e cai para o outro lado, que é sempre o que nós não queremos. E às vezes o nosso máximo não chega, acho que é a pior realidade que nós enfrentamos e às vezes o máximo não chegou. O máximo não chega, fizemos tudo, o ‘que é que eu mudava nesta semana para desaguar num resultado diferente?’ E às vezes não encontramos realmente nada. Temos a sorte de começar logo a preparação para outro jogo, de arrancar e passado uma semana, duas no máximo, estarmos outra vez a competir. Isto é a grande mais-valia do futebol, é a grande mais-valia destes ciclos pequeninos que nós temos. Por isso eu sou um admirador confesso daqueles que andam quatro anosa prepararem-se para algo, dos atletas olímpicos, que depois têm às vezes uma decisão, aquele minuto, aquele dia que não acordaram tão bem, e o ciclo é de quatro anos. O nosso, felizmente, é de semana a semana, em outras realidades até é de três em três dias, portanto, nisso somos os privilegiados. Mas isso do que é o trabalho, do que é a dedicação, do que é o que é o trabalho, vamos errar o trabalho, vamos cometer erros, vamos ter dias melhores, dias piores, mas essa dedicação tem que ser um compromisso. Não está relacionado com o clube onde nós estamos, tem que ser primeiro com nós próprios. Quem trabalha comigo tem que estar assim, senão está a mais e é engolido, não consegue continuar.

Bola na Rede: Eu notei que falaste com muita paixão do Leixões, os teus pais vivem na região do clube. Porque é que abandonaste o Leixões apenas com um ano de treinador na equipa A?

Vítor Martins: Tive uma proposta de renovação que não aceitei, havia alguns pressupostos, isto eu não quero estar aqui a levantar, acho que o Leixões está muito bem entregue neste momento, está com alguém que é leixonense, está com alguém que percebe melhor que ninguém o que é o Leixões, o míster Carlos Fangueiro. Acho que o clube está muito bem entregue naquilo que é o ser humano. Portanto, não há aqui nenhum tipo de saudosismo, nada disso. Mas na altura eu senti que o treinador do Leixões tinha que ser altamente motivado, ter a energia no máximo. Havia pequenos pormenores elementares para mim no local de treino, onde íamos treinar, como é que íamos estar e isso não estava 100% definido. Optei por não continuar, isto é 100% verdade, embora me possam desmentir, porque acho que cada um tem a sua verdade. No dia em que eu disse que não continuo no Leixões, é verdade que sabia que dificilmente não ia para um outro projeto, mais cedo ou mais tarde, ou que dificilmente não ia iniciar a próxima época. Mas senti que já não era o treinador ideal para o Leixões e que o Leixões também não seria o clube ideal para eu dar o passo seguinte. Portanto, ficou tudo bem e seguimos os caminhos diferentes, agora com todo o respeito sempre que tive e que tenho pelo Leixões. Mantenho muita amizade, muita admiração com alguns elementos. Não conseguimos ficar bem com todos, é verdade que hoje somos rivais, amanhã vamos ser rivais e depois da manhã vamos ser rivais, mas sempre com o maior carinho, até porque foi quem me abriu as portas para ser treinador principal. Deu-me ali um tempo, porque é verdade isto, eu sinto que fui para o Leixões e quem me convidou para o Leixões deu-me um tempo para crescer, para falhar, pôs-me ali no Sub-23 e agora estava lançado, estava nas feras ou nos tubarões, porque aquilo é no Mar, estás lançado aos tubarões e se não é esse primeiro ano nos Sub-23, se calhar não tinha aguentado tanto ou não tinha feito tão bem. Portanto, todo o carinho para o Leixões, embora esteja completamente alinhado noutras ideias neste momento, mas também folgo em saber que eles encontraram a paz, estão por mares muito mais tranquilos.

Vítor Martins novo treinador do Académico de Viseu
Fonte: Académico de Viseu FC

Bola na Rede: De facto tu iniciaste a época seguinte num novo projeto, ao serviço do Académico do Viseu. Pergunto-te quais é que foram os objetivos que te propuseram no início da pré-época?

Vítor Martins: Nós tínhamos um claro objetivo, que era lutar por uma subida de divisão. Isto começa a ser cada vez mais moda também na Segunda Liga. Nesta fase há mais candidatos para subir do que propriamente em que nós indicamos vai ter dificuldade em se manter. Só há três vagas. Há que ter alguma paciência de todas as partes e acho, inclusive da minha também, que não houve muita naquele início de campeonato. As coisas estão muito bem resolvidas. Embarcaram por outra ideia, por outro caminho e manteve-se. Acho que só este ano que sentiu mesmo um Académico que podia subir, depois da troca de treinadores, da troca dos Sérgios. A partir daí sentiu-se e olhou-se para um Académico que realmente estava a conseguir fazer média de pontos, a conseguir jogar, a conseguir jogar de uma forma livre, não pressionada para conseguir chegar à subida. E assim foi. Nesse ano era tentar lutar por subir. Acho que nos atrasámos a montar o plantel. Eu lembro-me, às vezes ainda vou ver aquele primeiro jogo que fazemos na pré-eliminatória da Taça da Liga com o Rio Ave. Outra vez um jogo que estávamos a fazê-lo bem. O Jonathan tira-nos dois golos. Não é por isso que perdemos, mas só para dar um sinal que as coisas já estavam a ser competitivas. Depois o Christophe é expulso e perdemos com três golos de canto. Lançámos alguns jogadores que nunca tinham feito, por exemplo, nenhum minuto pela uma equipa profissional. Mas as coisas estavam alinhadas. Eu sabia que ia ser assim. Formámos ali um plantel um bocadinho mais tarde. E há ali um momento em que sentia que aquilo estava… Era preciso aquele clique que não chegou. Até à sétima jornada não chegou. E quando também me sinto que não é o ideal e que sinto desconfiança, sou eu o primeiro a levantar-me e a seguir o meu caminho. Acho que só assim é que faz sentido. Hoje olho para trás e se calhar com um bocadinho mais de paciência, com um bocadinho mais de experiência, com um bocadinho mais de… Não sei o termo específico, mas juntando estas características todas, se calhar com mais calma as coisas poderiam ter sido diferentes. Na altura passamos ali um ciclo menos positivo. E um dos jogos foi com o Aves, do Jorge Costa, que tinha estado no Fontelo e que tinha feito bem e que saía a seis jornadas do fim. E perdemos. Isso criou muito dano. Perdemos também com o Santa Clara nos Açores. Ou seja, essas duas derrotas deixaram-nos claramente fora. Mas até perdemos por acaso com as equipas que acabaram por subir. E naquela altura estávamos fora da subida.

Bola na Rede: Tu sentiste alguma pressão precisamente por suceder ao Jorge Costa, que esteve mesmo perto da subida?

Vítor Martins: Nós pressão vamos ter sempre. Vamos ter sempre pressão de fazer melhor. Nós queremos isso. Nós quando chegamos queremos deixar o nosso cunho pessoal, a nossa marca, o nosso registo e é fazer melhor. Claro que o Jorge Costa é muito mais que um treinador que estava a fazer bem no Académico de Viseu. É uma referência do futebol português. Tinha uma aura que eu ainda não encontrei em ninguém dentro de um banco. Eu posso admitir isto. Quando fui ao Fontelo, como treinador do Leixões, acho que foi a primeira vez em que eu me senti mesmo treinador. Era uma fase adiantada da época, não sei precisar ou não, mas estava ali o Jorge Costa. Eu pequenino olhava para o Jorge Costa, e isso fazia-me pensar ‘é um Deus que está aqui, não é?’ E eu sinto que estou a jogar contra o Jorge Costa. Ou seja, estamos aqui. Ok, vamos lutar. O jogo ficou 2-2, mas estamos a lutar. E nesta posição de treinador já levantar os braços fica mal. E o Jorge Costa tudo o que dizia, às vezes até dizia uns palavrões, mas fica bem. Há aqueles momentos que nos marcam. E esse marcou-me por completo. E essa equipa do Académico era realmente muito forte, jogava muito bem. E ele depois repete o modelo no AVS SAD. E consegue subir no final dessa época. Agora, pressão vamos ter sempre. Aliás, eu sucedi ao Pedro Bessa, o diretor desportivo. Ele é que faz a parte final. Mas havia muito isso, havia muito aquele sentimento de se o Jorge Costa continua, o Académico tinha subido. Há sempre os ‘ses’ no futebol, há sempre isso. E ficou aquela ideia. Os adeptos perguntavam: ‘e agora quem é este miúdo que está aqui, quem é este gajo que vem para aqui agora, querem o quê?’ Sentia um bocadinho isso e cria dano. Por muito que se tentem desvalorizar as coisas, são coisas que ficam cá dentro. Mas já passou.

«Claro que o Jorge Costa é muito mais que um treinador que estava a fazer bem no Académico de Viseu. É uma referência do futebol português. Tinha uma aura que eu ainda não encontrei em ninguém dentro de um banco. Eu posso admitir isto. Quando fui ao Fontelo, como treinador do Leixões, acho que foi a primeira vez em que eu me senti mesmo treinador».

Bola na Rede: Na época seguinte foste para o Feirense, sentiste uma maior estabilidade?

Vítor Martins: Muita estabilidade. Não no início, houve algumas peripécias. Estive contratado, depois deixei de estar contratado. Senti uma coisa que foi incrível, no primeiro treino que estou a fazer. É normal no início das pré-épocas, nos primeiros treinos, estar tudo ainda um bocadinho a ver o que vai acontecer. Os níveis físicos não estão a top, os níveis de foco, de atenção não estão a top. E ali eu parecia que estava a treinar uma equipa que ia fazer um jogo importantíssimo, um playoff para a promoção. Acho que aquela gente tem mesmo medo do que aconteceu no ano anterior, que foi jogar aquele playoff ainda para mais com um rival, o Lourosa. Sentir aquele medo do ‘isto não nos pode acontecer outra vez’, para mim foi um privilégio. Entrei e passámos logo a estar com os índices de concentração, os índices motivacionais, tudo muito no máximo, mesmo estando um pouco longe do início da competição. Não houve aquele momento em que deixa ver o que está a acontecer, quase de casamento, perceber se isto faz sentido ou se não faz. Não, foi logo tudo no máximo. Ninguém dizia um ‘ai’, ninguém dizia nada, combinávamos que era para fazer de uma certa maneira, mas o grupo não queria ir ao playoff. E assim foi. Muito menos andar nos lugares de descida.

Bola na Rede: E isso deu-te outro traquejo como treinador?

Vítor Martins: Sim, são experiências, vão dar sempre. Daqui a quatro anos venho cá, vou voltar a dizer que todas as experiências são muito ricas, é caminho para a frente. As boas, as más, o que vamos aproveitando, só assim é que faz sentido. Mas sim, estamos a falar de três equipas com realidades totalmente diferentes, em que depois no que é uma Segunda Liga é tudo muito semelhante, muito competitivo, como já falámos, mas as culturas, as realidades, o que vem da bancada é totalmente diferente de uns sítios para os outros, de umas formas de estar para as outras. O treinador, apesar de ser o mesmo, também foi ficando diferente, porque é totalmente diferente de um jogo no Estado do Mar, com um jogo no Fontelo ou um jogo no Manuel Marques, vai ser sempre assim.

Vítor Martins assina com o Feirense
Fonte: CD Feirense

Bola na Rede: Tu na altura sentiste que, no final desta época, que era o momento certo para dares o salto para uma equipa com outros objetivos?

Vítor Martins: Senti, senti. O que me fez não ficar no Feirense, já o disse no passado, foi o facto da a pessoa que mais lutou para que eu estivesse no Feirense acabou por sair. Era o nosso diretor na altura, o Tiago Calisto. Então, não fazia sentido depois, com a saída dele, eu continuar por lá. Portanto, tinha que encontrar um outro rumo. Felizmente, acho que mais uma vez o que fomos fazendo em campo, o que fomos fazendo a cada jogo, o crescimento da equipa foi notório, isso deu-me talvez o maior leque de decisões para poder eleger no final dessa época, de optar por dar um passo certo e procurar um projeto mais consolidado, um projeto mais assertivo, no sentido de que me desse capacidade de lutar por mais vitórias do que empates ou derrotas.

Bola na Rede: E foi isso que te atraiu para ir para o Torreense?

Vítor Martins: Foi muito isso. Acho que o Torreense, e não é por estar agora a atingir esse sucesso, é um projeto que dá garantias. Claro que quando começa uma época, nenhuma equipa da Segunda Liga vai dizer que vai ganhar uma Taça de Portugal, é completamente irreal. Mas é um projeto que dá garantias de lutar por vitórias, de acabar bem no final. É uma equipa que tem uma capacidade de recrutamento muito acima da realidade da Segunda Liga, acho que é uma equipa que tem crescido a nível de departamentos de apoio, tem um departamento médico muito forte, tem um departamento de fisiologia muito forte, tem um departamento de scouting top. Portanto, tudo isso são coisas que um treinador sente que tem, ou seja, que as ramificações vão acabar por se consolidar e vão acabar por fazer a diferença no final. Outra vez a questão de equilíbrio, os que estão mais preparados em todas as outras áreas, vão ser os que no final da época podem atingir o sucesso- A balança vai se desequilibrando nestes pequenos pormenores que fazem a diferença toda no final.

«Cláusula de 25 milhões de euros? Eu acho que isso partiu de uma brincadeira. acho que nem nunca esteve no contrato».

Bola na Rede: Como é que é para um treinador da Segunda Liga, ainda jovem e promissor, ter uma cláusula de rescisão de 25 milhões de euros?

Vítor Martins: Eu acho que isso partiu de uma brincadeira (risos). Acho que nem nunca esteve no contrato, honestamente, porque eu quando tenho esse defeito de assinar um bocadinho, de confiar nas pessoas, acho que nem sequer era legal uma vez que tinha que acompanhar o salário e aí confesso que não estava nesse ponto. Acho que foi por brincadeira. Não me lembro se algum jogador renovou nessa altura, mas entrámos muito bem no campeonato, ou seja, aquelas primeiras séries foram positivas e deu-se ali uma hipótese de renovação que depois mais valia nem ter acontecido. É a velocidade do futebol, que é o dia-a-dia, que é mesmo o momento e depois perdeu-se o sentido de tudo aquilo. Mas àquela data estava tudo bem e tudo indicava este desfecho de uma equipa competitiva que poderia vir a lutar por uma subida de divisão e que poderia fazer bem em todos os jogos que se propusesse a jogar e daí o resultado da Taça de Portugal.

Bola na Rede: E o que é que correu mal para teres saído tão cedo?

Vítor Martins: Não foi apenas um ponto em específico. Nós fizemos ali uma série de jogos com algumas peripécias, em que as coisas não saíram, não houve o desaguar. Há uma série de cinco partidas em que nós não conseguimos ganhar para a Liga. No intervalo dos encontros do campeonato, derrotámos o Lourosa fora e o Casa Pia fora para a Taça de Portugal. Ou seja, eram indicadores que a equipa não estava num ponto lastimável, mas eram indicadores na Liga em que as coisas não estavam a sair. E depois foi um momento em que alguma instabilidade emocional. Acho que nesses cinco jogos só o jogo com o Lourosa é que acabamos 10 para 10, todos os outros estavam a ser marcados ali um bocadinho com expulsões e isso, verdade seja dita, numa Liga tão equilibrada isso vai criando uma diferença. Não quero que isto soe a desculpa, mas foi esse momento, foi muito específico. Nesse momento a equipa não estava a conseguir somar pontos. Se só avaliarmos esses cinco jogos, não estávamos a conseguir somar pontos de alguém que se propunha a acabar nos primeiros lugares e a lutar por uma subida de divisão. E acabou. Há momentos de reflexão, eu gosto sempre de refletir, eu gosto sempre de pensar e foi mostrada vontade de parte a parte de se calhar a equipa precisava ali de alguma coisa diferente. Custou-me porque acho que a equipa estava num bom ponto, custou-me porque a equipa acho que dava bons sinais, custou-me porque tinha e tem excelentes jogadores, mas ficou tudo bem. O Torreense ficou bem e eu estou também muito bem. Felizmente passado muito pouco tempo, consegui arranjar um outro projeto. Tudo o que eu validei no Torreense, valido agora no GD Chaves, ainda mais próximo do que é da minha terra natal, é muito importante do que é a nossa natureza. Ninguém é melhor, nem pior. Às vezes somos só diferentes. O que é certo é que já estive em Chaves há nove anos atrás, agora voltei e sinto-me muito bem, muito bem por lá e com vontade tremenda de fazer as coisas o melhor possível porque é um clube que merece, é gente que merece e é gente que acredita em mim e quando acreditam em nós é meio caminho andado sentir essa confiança para fazermos bem as coisas.

Vítor Martins Torreense
Fonte: Bernardo Benjamim/Bola na Rede

Bola na Rede: E tu sentes que esta façanha do Torreense da conquista da Taça de Portugal é um bocadinho tua também?

Vítor Martins: Não, não é nada minha, não quero mesmo nenhuma colagem ao sucesso. É minha até ao dia 31 de dezembro que é o dia que eu saio e saí e a equipa estava com determinados pontos e estava na Taça de Portugal. Até aí é um bocadinho minha e dos jogadores. É daquilo que fizemos e lembro-me de todos esses jogos. Eu gosto mesmo muito da Taça de Portugal acho que foi o Vitória que me fez ser assim. O Vitória ama a Taça de Portugal, cada jogo eu lembro-me que fomos jogar a Valença do Minho e os invadiram aquilo e fizeram uma festa. Foi uma coisa incrível que não se via um espaço onde não houvesse uma pessoa, estava uma pessoa em cima de pessoas e era só uma terceira eliminatória e senti que a Taça era especial a tal a festa da Taça. Para nós treinadores não é festa nenhuma, temos que preparar o encontro, mas foi sempre uma competição que eu gosto muito e na altura era mais uma oportunidade de ganhar, mais uma oportunidade de valorizar. É engraçado que hoje recordamos e nem sei se há imagens televisivas, mas o primeiro jogo com o Torreense para a Taça é um jogo de extrema dificuldade, é um jogo na Correlhã, também nessa zona de Portugal, no Minho, num sintético, enquanto era uma equipa muito assertiva, num jogo onde nós temos também uma expulsão. Tentámos sempre controlar tudo, mas as coisas tiveram difíceis. Conseguimos vencer com a competência de quem estava lá dentro de levar por vencido a equipa, mas era um jogo em que há momentos muito grandes de equilíbrio. Agora, olhando para tudo isto, acho que há ali um momento em que uma equipa da Segunda Liga ou até mesmo fora do top 6 da Primeira Liga, todas as outras têm que ter uma pontinha de casualidade, de alguma felicidade no sorteio para conseguir chegar a uma final, e depois ainda mais para conseguir ganhá-la. O Torreense beneficia disto e na altura elimina o Leiria em casa, depois veio o Fafe e acho que o mais bonito de toda esta história é mesmo isto. As pessoas daqui a uns anos vão ver o histórico e vão ver o símbolo do Torreense ali pelo meio e vão analisar o percurso. Vão descobrir ou relembrar que o Torreense eliminou o Fafe nas meias-finais, mas o Fafe estava bem? Não, o Fafe estava na Liga 3, mas eliminou o Braga, o Moreirense e o Arouca, ou seja, tudo clubes da Primeira Liga. Tem de se dar ênfase a esta situação. O Torreense olhou para o Fafe como uma equipa que estava super bem na Taça de Portugal. É uma história que nos inspira. Quando começamos, quando arrancamos é quase impensável pensar que vamos conseguir chegar à final, porque a grande verdade é que estamos a pensar no que é o campeonato, a pensar que temos de conquistar os três pontos no próximo jogo, mas que no final do campeonato é incrível alcançar uma entrada na Liga Europa. É toda uma história inspiradora.

Bola na Rede: Em fevereiro regressaste a Chaves desta vez com a missão de ser treinador principal. Qual é que foi o objetivo que te propuseram?

Vítor Martins: O objetivo passa sempre por ganhar todos os jogos. Eu próprio assumi que se tratava de preparar a equipa para lutar para a subida, sentia muito equilíbrio, sentia muito uma distância muito pequena entre o que eram os pontos mínimos para descer e os pontos máximos para subir. Houve ali dois ou três jogos que poderíamos ter feito melhor, conseguimos ali um ou outro empate e tínhamos entrado nesses últimos três jogos decisivos se calhar ainda na luta. Ficou bem marcado que lutámos sempre para ganhar, que fizemos sempre jogos muito, muito competentes com exceção do jogo no Olival com o Porto B. Todos os outros, acho que sim, que era uma equipa que se predispunha a fazê-lo e não é por acaso que conseguimos ganhar. Se bem que este último jogo frente ao Marítimo já é em condições muito, muito específicas para as duas equipas. Fomos conseguindo ser bons contra as boas equipas e podíamos ter tido uma palavra a dizer. Tudo o que mostrámos vão ser os alicerces daquilo que já estamos a fazer e que será o futuro do Chaves.

«O Torreense olhou para o Fafe como uma equipa que estava super bem na Taça de Portugal. É uma história que nos inspira. quando arrancamos é quase impensável pensar que vamos conseguir chegar à final, porque a grande verdade é que estamos a pensar no que é o campeonato, a pensar que temos de conquistar os três pontos no próximo jogo, mas que no final do campeonato é incrível alcançar uma entrada na Liga Europa. É toda uma história inspiradora».

Bola na Rede: A missão para a próxima época é a subida?

Vítor Martins: Terá de ser, acho que é um bocadinho hipócrita alguém que está nos Chaves dizer o contrário. Podia agora estar aqui a baixar um bocadinho as expectativas e deixaria de ser real. Temos de lutar a cada jogo e preparar a equipa para ser competitiva e se for competitiva, vai ganhar mais vezes. Ganhando mais vezes pode estar nesse leque de equipas, porque há mesmo muitas, que vão lutar pela subida. Existem os emblemas que desceram, tenho a certeza absoluta que as outras que tentaram muito até perto do fim agora este ano, vão lutar outra vez e nós temos que estar lá. Depois existem os pormenores, os detalhes.

Bola na Rede: Quão orgulhoso estás de ver o Vozinha e o Stopira que treinaste esta época no Mundial de 2026?

Vítor Martins: Estou mesmo muito orgulhoso, porque são duas personalidades incríveis e depois os Mundiais são tudo. Começa o Mundial e ainda vem aquele menino que coleciona os cromos e que neste momento até estão esgotadíssimos. O Mundial fazia com que tudo parasse, o telemóvel desaparecesse e só viver para o Mundial. Quando éramos adolescentes replicávamos as jogadas e os grandes jogadores em cada momento seguinte, em cada intervalo de cada jogo. Portanto hoje ter dois jogadores que conheço e que se apaixonaram por esta ideia, dois jogadores que estão numa idade avançada e que ponderaram o seu futuro nos últimos anos, chegarem aqui mais perto dos 40 do que dos 30, é um motivo de orgulho. Poderem jogar o Mundial é mais uma vez algo que nos tem que inspirar a todos porque a oportunidade surge às vezes quando nós não acreditamos e ter dois jogadores a representar, ainda para mais um país que é muito simpático para todos que nos diz muito, é fantástico. Eles são diferentes, mas são dois seres humanos inacreditáveis no que é o lado humano, o lado social e duas referências que me vão acompanhar para o resto da vida, portanto estou muito orgulhoso por os ter conhecido e mortinho para ter os cromos deles (risos). Quero pôr na caderneta e poder dizer aos meus filhos que treinei aqueles rapazes.

«Portugal é um candidato a vencer o Mundial 2026. Favorito? Acho um pouco arrogante».

Bola na Rede: Vês Portugal como um dos candidatos ou como favorito?

Vítor Martins: Sempre como um candidato. Como favorito, acho que é um bocadinho arrogante porque há outras grandes seleções. Eu venho de uma geração que não via Portugal nos Mundiais, ou seja, apaixonava-me pelo Mundial e tinha que andar à procura de outras equipas e de outras referências e acho que já nos esquecemos um bocadinho disso, que isto é uma coisa nova para nós, se bem que a FIFA alterou algumas regras e estão mais equipas. Agora falhar um apuramento para uma seleção de topo da UEFA vai ser sempre algo muito difícil, portanto eu acho que nós somos candidatos. Acho que é impossível haver um único favorito, acho que é mesmo. Olhamos para outras grandes eleições e às vezes até nos esquecemos que a França tem uma super equipa, que a Inglaterra deixa jogadores inacreditáveis de fora. Portanto todos eles também podem ser considerados favoritos. Depois depende muito dos níveis físicos, da densidade de jogos, de como chegam os jogadores-chaves. Além disso, há a questão do pormenor. A Argentina venceu o Mundial 2022, mas contra os Países Baixos precisou das grandes penalidades.  Podia ter caído para o outro lado.

Bola na Rede: Gostavas de um dia participar numa competição deste estilo?

Vítor Martins: Gostava muito, gostava muito. Há duas competições que acho que o mundo para mesmo: o Mundial de Futebol, porque sou apaixonado por futebol, e os Jogos Olímpicos. Acho que estas duas são as grandes efemérides mundiais, não há mais nada mais importante no mundo para mim do que estas duas competições. Infelizmente, os Jogos Olímpicos no futebol é um bocadinho o patinho feio. Até eu que gosto de ver tudo e não troco futebol por nada, esqueço-me um bocadinho do futebol nos Jogos Olímpicos, portanto gostava. Porém, ainda não é um objetivo de carreira. Estar quatro anos à espera, estar a fazer uma convocatória tão difícil. Numa outra fase da minha carreira, não fecho a porta. Agora estou com uma idade de estar todos os dias a trabalhar.

Bola na Rede: E para terminar também esta conversa Vítor também com base em tudo o que tivemos aqui a falar o que é que tu consideras para ti que é mais importante antes da bola entrar na rede?

Vítor Martins: Entrar na baliza certa (risos). É importante é saber que todos estejamos alinhados numa ideia. Eu não gosto muito do aleatório, colocar a bola na frente e esperar pelo que aconteça. Isso é ter sorte ou azar. É tentar controlar os caminhos, de pensar que se fizermos isto a possibilidade de a bola entrar na rede aumenta. Se acreditamos nisso, vamos incentivar, vamos treinar esse processo. Para mim, isto é mesmo muito importante. Claro que, se o guarda-redes chuta a bola, bate num defesa e entra, para mim continua a estar perfeito, é sinal que estamos a ganhar 1-0. Não estou aqui com falsos moralismos. A minha função é controlar o processo, não é castrar. Tudo tem um princípio, meio e fim e eu não quer perder isso. Claro que também existe o ponto de vista defensivo, quando a bola entrou na nossa baliza é porque algo falhou. São vários pormenores, às vezes acasos que não conseguimos controlar. Eu quero muito joguem para a frente que arrisquem, mas o erro do meu colega tem de ser compensado pelo meu posicionamento. Tudo isto faz parte dos processos, do caminho que nunca quero abdicar. Às vezes, não sabemos qual é esse caminho. Por isso é que é importante o conhecimento do grupo, análise, dos nossos jogadores e daquilo que nós achamos que vamos encontrar.

Vítor Martins Chaves
Fonte: Edmilson Monteiro/Bola na Rede
Ricardo João Lopes
Ricardo João Lopeshttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo João Lopes realizou a sua formação na área da História, mas é um apaixonado pelo desporto (especialmente pelo futebol) desde criança, procurando estar sempre a par da atualidade.

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