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Professor Neca

«Deixemo-nos de histórias. O Sporting é grande, o Porto é grande, mas o Benfica é o Benfica» – Entrevista BnR com Professor Neca

– Trabalhar onde todos querem passar férias –

«Um rapaz de 30 anos disse-me que já podia morrer, porque já tinha conhecido o Eusébio»

Bola na Rede: Partilhou balneário com o Eusébio. Ele era o treinador de guarda-redes enquanto o Professor esteve no Benfica. Como foi partilhar experiências com ele?

Professor Neca: O Eusébio era uma criatura fantástica. Quando estivemos na África do Sul, já tinha aberto o Apartheid, estava lá um rapaz moçambicano e estava muito afastado. Veio perto de mim e disse “tenho um sonho na minha vida, conhecer o Eusébio”. Disse-lhe “então, ele está ali”. Perguntou-me “como é que hei de falar com ele?”. “Vem comigo”, respondi-lhe. O Eusébio era um monstro como jogador, uma lenda do futebol mundial. No final, o rapaz, com cerca de 30 anos, contou-me: “Vivo aqui com grandes dificuldades e tinha medo de morrer. A partir de hoje, já posso morrer, porque já tive a felicidade de conhecer o meu Deus que é o Eusébio”. O Eusébio quebrava barreiras. No Benfica, toda a gente o respeitava. Ele estava onde queria, onde entendia que devia estar. Uma vez, eu fui à Coreia analisar um jogo para Portugal e ele ia comentar os jogos com um outro indivíduo… que era o Pelé.  O Eusébio tinha muito medo de andar de avião. Ele levantava-se sempre muito tarde e perguntei-lhe se ele já tinha comido alguma coisa. Respondeu-me “vou para o avião, não tenho vontade de comer”. Disse-lhe que tinha ido ao buffet do hotel e que tinha comido um bocadinho de cabrito com um bocadinho de arroz. O Eusébio começa-se a rir, rir, rir. Ele diz “você não comeu cabrito, você comeu cão”. Lá não havia cabrito, havia cão, mas eu não sabia.  O cão é um petisco que os sul-coreanos e os chineses gostam muito. Do hotel ao avião, ele foi o tempo todo a rir-se de mim.

Bola na Rede: A experiência nas Maldivas também teve o mesmo impacto que a de Angola?

Professor Neca: Soube através da Federação Portuguesa de Futebol que havia uma vaga para selecionador das Maldivas. Concorri num lote de 70 treinadores a nível mundial. O escolhido acabei por ser eu. Existia a curiosidade das Maldivas terem pela primeira vez um selecionador de um país colonizador. Não sabia quase nada das Maldivas. Ia sempre com a convicção de que tinha que ter sucesso. Como não sabia o que ia encontrar, levei material de treino para lá. As Maldivas são um país lindíssimo. Só um tsunami é que me tirou de lá.

Bola na Rede: O professor acaba por ir trabalhar para onde a maioria das pessoas quer ir passar férias.

Professor Neca: Nessa altura não se falava das Maldivas como se fala agora. Lá vou para as Maldivas com todo o material. O país é muito pequenino, tem um clima fantástico, um mar idílico. É um sítio onde qualquer pessoa gostaria de estar. Era um país pequeno, pobre, mas extremamente bem organizado. Quando começo a contactar com a realidade, eles tinham tudo: cones, bolas… A experiência que já tinha ajudou-me a inserir naquela realidade. Tínhamos logo um jogo importante com a Mongólia. Tinha um mês para organizar aquilo. As Maldivas são um país com 200 ilhas habitadas e mil que não estão habitadas. Tudo ilhas muito pequeninas, mas muito bonitas. O aeroporto é só uma ilha. Malé, a capital, também é só uma ilha. Têm uma ilha para tratar do lixo. Têm resorts em diferentes ilhas. A experiência ajudou-me a organizar a seleção. O campeonato tinha oito clubes, sete da capital e um de outra ilha. Pedi para reunir todos os treinadores para ter perceção de como organizar a seleção. Era uma seleção muito rudimentar.

Bola na Rede: Essas equipas eram compostas apenas por jogadores do país?

Professor Neca: Só jogadores e treinadores locais. Num jogo, a seleção tinha levado 17-0 do Irão. Pedi aos treinadores que me dessem os três melhores guarda-redes, os três melhores defesas-direitos, os três melhores defesas-esquerdos… Em função disso, juntei 37 jogadores que, no entendimento deles, eram os melhores das Maldivas. A partir daí, começo a fazer a minha filtragem.

Bola na Rede: Existiam jogadores das Maldivas no estrangeiro?

Professor Neca: Nenhum. Fomos jogar à Mongólia e ganhámos 1-0. Foi a primeira vez que as Maldivas ganharam um jogo fora do seu território. Foi uma festa muito grande. A Mongólia é um país de montanhas, não há mar. Nas Maldivas, durante todo o ano, a temperatura oscila entre os 23 e os 34ºC. Fomos jogar à Mongólia com -20ºC. Ainda assim, ganhámos 1-0. Passado cinco dias tínhamos o jogo da segunda mão.

Bola na Rede: O que é que fez para os jogadores não sentirem tanto essa diferença?

Professor Neca: Deram-nos lá umas meias-calças, que isso nas Maldivas não havia. Na Ásia, as federações trabalhavam muito bem combinadas umas com as outras. Pedi aos jogadores para porem papel de jornal, sacos de plástico, para atarem bem as botas para que não entrasse a humidade da neve. Na segunda mão, vêm eles – viemos até no mesmo avião – para as Maldivas. Digo aos indivíduos das Maldivas: “Eles trataram-nos muito bem, tratem-nos muito bem também. Levem-nos para o mar e eles que tomem banho no mar que eles vão achar uma delícia. Levem-nos para um resort. Passei lá nesse resort no dia do jogo, de manhã. A temperatura da água a uns 24ºC. Os jogadores da Mongólia nunca tinham visto mar. Foi uma delícia para eles. Pedi aos meus jogadores que fossem para cima deles. Acabámos por ganhar 12-0. Com a temperatura a 34ºC e depois de estarem na água, queriam correr e não conseguiam. Um jogador no dia do jogo ou na véspera não pode andar a tomar banhos em água quentinha.

Bola na Rede: Em seleções mais rudimentares como a de Angola ou a das Maldivas, tinha cuidado em deixar uma base para que os treinadores que viessem a seguir não tivessem que começar do zero?

Professor Neca: Necessariamente. O treinador não é só o indivíduo só da técnica e da tática, é também o grande organizador. 

Bola na Rede: Seguem-se experiências no Kuwait, em Moçambique, na Arábia Saudita, na Índia e, mais tarde, em Israel. Onde é que viveu episódios mais inóspitos?

Professor Neca: Foram todas experiências fantásticas. Nas Maldivas foi a primeira vez que vivi num país muçulmano. Quase sempre fiz isto: trabalhava fora durante um ou dois anos e regressava um bocadinho a Portugal. Tinha sempre mercado. Era a forma de não fazer o corte com a família e de não perder contacto com a realidade do nosso país. O futebol, a partir do ano 2000, sofreu uma alteração mais acelerada, tal como a própria sociedade. O futebol nunca se pode dissociar daquilo que é a realidade social. Portugal, no que diz respeito ao futebol, foi sempre muito vanguardista. Estamos na linha da frente no que toca à formação de treinadores e jogadores. No Euro 2004, estava na seleção das Maldivas, procurei ter férias para ter contacto direto com uma seleção que tinha sido campeã do mundo, a França. Como fui treinador do SC Tirsense e treinador do Aves, passei parte substancial da minha carreira nestes dois clubes. A França estava instalada num hotel em Santo Tirso e fazia os treinos nos estádios destes dois clubes. No pós-Maldivas passei por diferentes países e adaptei-me sempre muito bem. Tenho dificuldade em dizer qual o país em que me senti melhor. A Arábia Saudita, por os dois pilares da civilização muçulmana estarem lá, no caso, Meca e Medina, é, sem dúvida, o país mais conservador dos países muçulmanos. O facto de ser o único país do mundo em que as mulheres não conduziam mostra isso. A crise do petróleo é que levou a que libertassem a possibilidade de as mulheres poderem conduzir. Na Arábia Saudita estava num clube forte [o Al-Ittihad FC], em Jeddah. Jeddah é uma cidade onde passam todos os peregrinos que vão a Meca. Meca, em relação a outras cidades da Arábia Saudita, já estava mais desenvolvida, porque era uma cidade que contactava com povos vindos de outras latitudes. Estava com a equipa de sub-23. O Manuel José era o treinador da equipa A. Desenvolvemos um trabalho muito bom, porque também tínhamos excelentes condições de trabalho.

Bola na Rede: Nesse ano, não era para ter ido para a Arábia Saudita, mas sim para a Índia.

Professor Neca: Era para ir para o SC East Bengal, um dos principais clubes da Índia, mas ficava em Calcutá. Ainda não tinha bom conhecimento da cidade e não me cheirou bem. Acabei por optar pela Arábia Saudita, porque, em termos financeiros, era mais vantajoso e porque a Índia ainda estava numa fase de crescimento para aquilo que é o futebol profissional. Acabei por ir para a Arábia Saudita. Trabalhámos lá muito bem. Temos que nos aculturar rapidamente no sítio onde estamos. Se estamos na Arábia Saudita, temos que ser sauditas. Se estamos na Índia, temos que ser indianos.

Bola na Rede: Em termos de jogo jogado também pensa dessa forma?

Professor Neca: Em termos de jogo jogado, temos que perceber o que são os hábitos locais. Nos países árabes, os jogadores, às vezes, não vão ao treino. Se a mãe vai às compras, o filho vai levá-la.

Bola na Rede: Isso acontecia muitas vezes?

Professor Neca: Não muitas vezes, porque nós criámos hábitos de treino para que houvesse grande motivação dos jogadores. Assim, eles gostavam do treino e vinham mais vezes. Os jogadores estão no treino e querem é jogar. Se não jogam, já é mushkila [“problema” em árabe]. Havia outros treinadores, de uma linha que não a nossa, em que os treinos eram só correr e saltar. Há aspetos muito dos árabes. O clima na Arábia Saudita é quente. Eu ia todos os dias, ao nascer do sol, caminhar ou correr um bocadinho à beira-mar. Às vezes, levava um livro e deixava-me estar. Numa altura qualquer, numa zona em que não havia quase ninguém, estava sentado em cima de um livro. Passou um indivíduo que me disse que ali não gostavam que as pessoas se sentassem em cima de livros. É um sacrilégio uma pessoa estar sentada em cima de um livro. Pedi-lhe desculpa e retirei o livro. Culturalmente, os países são diferentes uns dos outros. Outra coisa que fui apreendendo foi que quando um indivíduo me aparecia pela esquerda para entrar, ele nunca entrava. Eu achava esquisito. O muçulmano dá sempre prioridade à direita. Por exemplo, o muçulmano nunca dá nem recebe nada com a mão esquerda, porque a mão esquerda é a mão para fazer coisas sujas.

Official: Lito Vidigal has been named Maccabi Tel Aviv manager. pic.twitter.com/qJNkTWCSVL

— Raphael Gellar (@Raphael_Gellar) February 11, 2017

Bola na Rede: O Professor está muito atento às questões geopolíticas. Quando esteve em Israel, sentiu a presença do conflito israelo-palestiniano?

Professor Neca: Há uma diferença abissal entre aquilo que é notícia e o que é a realidade. Quem não vive a realidade, imagina coisas que estão fora dela. Israel é o povo eleito. O israelita é um povo muito ligado e é isso que permite que continue a sobreviver. A partir da Segunda Guerra Mundial, os israelitas foram colocados no país. Nos anos 40, Israel era um pais tremendamente atrasado. Os israelitas foram para lá e começaram a transformar o país, que, agora, tem condições excecionais. É um país lindíssimo. Jerusalém é uma cidade que sempre sonhei conhecer. Tive o privilégio de trabalhar no Maccabi Tel Aviv FC, que ficava a cerca de 100 quilómetros de Jerusalém. Estive lá mais de 10 vezes. As três principais civilizações estão em Jerusalém – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo – e convivem com uma naturalidade tremenda. Sentes que é um país onde há uma segurança musculada. Militarmente, estão muito bem organizados. Todos os cidadãos, rapazes e raparigas, têm dois anos de serviço militar e ninguém discute isso. Se me perguntares “os israelitas são os maus da fita e os palestinianos é que são os bons?”, isso é sempre complexo. A religião tem uma profundidade muito grande. Os líderes religiosos e políticos manipulam as religiões para o lado que melhor entendem. Não há um mau da fita. Israel tem que estar sempre bem preparado, porque senão é comido pelo que está à sua volta, por ódios sustentados através dos séculos. Os líderes políticos e religiosos estão interessados nesta conflitualidade. Claro, vi lá fundamentalistas judeus que são iguais aos fundamentalistas islâmicos. São irracionais em relação àquilo que é o respeito pelo outro. É um país seguro. Também é caro, mas os seus habitantes ganham bem. É um país culto em que a tecnologia e as universidades estão sempre à frente no mundo. Gostei profundamente de viver em Israel.

Bola na Rede: Os próprios clubes israelitas têm uma promiscuidade muito grande com a política. Por exemplo, o clube que o Professor eliminou na meia-final da Taça, o Beitar Jerusalem, tinha uma ligação muito forte ao antigo governo. Uma vez contrataram um jogador muçulmano e, do ponto de vista da revolta dos adeptos, foi algo muito impactante.

Professor Neca: Exatamente. Também há um clube do norte que é só muçulmanos. Foi o único clube onde tivemos que sair pela porta do cavalo. Era um conflito sempre presente entre esse clube e o Maccabi Tel Aviv. Havia um ódio muito grande entre estes dois clubes. Isso resulta do ódio instalado entre as duas religiões. Se tentares entrar na Arábia Saudita com o passaporte com carimbo de Israel, não te vão deixar entrar. O controlo que é feito para entrar em Israel também é tremendo. Fazem-no por uma questão de segurança. Em Belém, a parte palestiniana, tinha uma placa a dizer “proibida a entrada a israelitas”. Noutra visita a Belém, deixámos de ter GPS no carro. Quando há problemas, eles cortam a internet para não haver qualquer tipo de contacto. Vimos uma série de árabes. Aquilo estava a ser uma intifada entre palestinianos e israelitas. Israel será sempre um barril de pólvora, mas onde toda a gente se movimenta com tranquilidade, porque as forças armadas israelitas têm sempre o controlo das coisas.

Em criança, recreava-se com a bola nos pés. Hoje, escreve sobre quem realmente faz magia com ela. Detém um incessante gosto por ouvir os protagonistas e uma grande curiosidade pelas histórias que contam. É licenciado em Jornalismo e Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e frequenta o Mestrado em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social.

Em criança, recreava-se com a bola nos pés. Hoje, escreve sobre quem realmente faz magia com ela. Detém um incessante gosto por ouvir os protagonistas e uma grande curiosidade pelas histórias que contam. É licenciado em Jornalismo e Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e frequenta o Mestrado em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social.

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