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Professor Neca entrevista À BnR

Às vezes foi sobre futebol, outras sobre política, religião ou geografia. A conversa durou mais de três horas e o Professor Neca, o melhor amigo do desconforto, tirou da mala de viagem lembranças de uma carreira de 40 anos como treinador e que conta com passagens por oito países estrangeiros e 21 clubes, só em Portugal. Ao longo do tempo em que, sempre focado em tornar realidade aquilo com que sonhava à noite, foi jogador, professor de Educação Física, de onde vem a sua alcunha, e treinador, colecionou episódios com nomes como Eusébio ou Mário Wilson. Das novas gerações, orientou Paulinho, Rodrigo Pinho, Nanú ou Helton Leite. Quanto ao que lhe falta fazer no futebol, responde a piscar o olho ao mundo do dirigismo.

– O tipo dinâmico que queria sempre mais –

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«Gostei sempre mais de jogar do que de treinar»

Bola na Rede: Tornou-se treinador em 1980. Enquanto jogador, chegou onde queria?

Professor Neca: Cheguei onde me foi possível, não onde queria. Queria ter chegado aos mais altos patamares: jogar muitos anos na Primeira Liga, chegar à seleção… Não me foi possível, porque o contexto era complexo. Com 17 anos, tinha tirado o curso industrial de eletromecânica. Nós sabíamos que, antes do 25 de abril, tínhamos duas certezas que eram morrer e ir para a tropa. O serviço militar apanhava-nos na melhor fase da nossa vida, entre os 20 e os 24 anos, que era quando um indivíduo se começava a afirmar como jogador de futebol. Como pensava já de uma forma adulta, acabei por ir para o serviço militar como voluntário dos 17 aos 21 anos. Aos 21, estava livre para correr atrás do meu sonho, que era ser jogador de futebol.

Bola na Rede: Nesse período deixou de jogar totalmente?

Professor Neca: Não, porque acabei por fazer o meu serviço militar no continente e não fui para o ultramar, para as ex-colónias. Em todo esse período, continuei a jogar. Joguei, na formação, no Gil Vicente. Estava a cumprir o serviço militar e aproveitava também para estudar à noite, em Leiria. Os últimos dois anos e meio do serviço militar fiz na Base Aérea Nº5 de Monte Real e aproveitei para tirar a secção preparatória aos institutos industriais. Estive para ir jogar na União Desportiva de Leiria, mas a equipa estava na distrital, então jogava no clube da minha terra, o Santa Maria FC, do concelho de Barcelos. Aproveitava para jogar na base e vinha fazer os jogos ao fim de semana. Aos 21 anos, antes de acabar a tropa, aproveitei as férias para ir treinar a três clubes: o Gil Vicente FC, o Varzim SC e o GD Riopele, um clube do concelho de Famalicão que chegou à Primeira Divisão e que agora foi extinto. Acabei por aceitar o Riopele, porque oferecia valências mais favoráveis, tais como o emprego. Era a equipa mais estável das três. Os clubes só libertavam os jogadores se entendessem. O Riopele acabou por comprar a minha carta ao Santa Maria. Acabei por ficar lá dois anos. Trabalhava de manhã ou de tarde, conforme os treinos. Era eletricista. Todos os dias me levantava de manhã e dizia ao espelho “estar dentro de uma empresa não é para mim”, porque sempre gostei de desporto. Comecei a procurar uma possibilidade de ir para Educação Física, deixando a eletricidade para correr atrás daquilo que gostava. Acabei por tirar o curso de Educação Física, juntando a isso o jogar futebol. Tinha grandes dificuldades financeiras – era filho de mãe solteira – não tinha possibilidades. Tinha que ganhar o meu próprio dinheiro para me poder sustentar e correr atrás de algo que era indispensável para mim já nessa altura: ter uma base cultural que me desse as ferramentas para encarar a vida de uma forma mais sustentada. Estávamos ainda no período antes do 25 de abril. Embora o futebol desse para me sustentar, existia um para além do futebol. Consegui fazer esse paralelo. Cheguei ao futebol profissional, sim, mas nunca ao mais alto nível – jogar num FC Porto, SL Benfica, Sporting CP, na seleção -, não tive essa possibilidade.

Bola na Rede: Foi professor desde 1976.

Professor Neca: Correto. Em 1976, acabo o curso de Educação Física e fui professor até 1990. Treinei na Primeira Divisão a dar aulas. Fazia as duas coisas. Quando chego com o Aves à Primeira Liga, dava aulas de Educação Física, era treinador, observador, treinador de guarda-redes e preparador físico.

Bola na Rede: Sobre acumular funções, no Santa Maria já tinha sido treinador/jogador.

Professor Neca: O Santa Maria estava a passar grandes dificuldades e pediu-me para ser treinador/jogador.

Bola na Rede: Como é que geria a relação com os seus colegas?

Professor Neca: Temos que falar no que era o treinador nessa altura. Os tempos eram diferentes, o nosso país tinha muitos analfabetos. Isso era muito significativo. O que a minha mãe mais me pedia era “tenta saber ler e escrever e, se for possível, vai para professor”. Isto para dizer que com 26 anos já era professor de Educação Física, já tinha jogado em clubes profissionais, já tinha uma identificação com o que era o futebol profissional, já tinha estado quatro anos no serviço militar, uma escola de formação, de disciplina, respeito e rigor. Foi um ano fantástico, correu extremamente bem. Subimos de divisão. O clube queria que eu ficasse, mas tinha que partir para outra situação que aquilo já não me motivava. Disse que ia deixar de jogar para me concentrar só nas aulas. No entanto, aquilo era pouco tempo. Era um tipo dinâmico, queria sempre mais. Estive algum tempo parado. O Prado estava na Terceira Divisão e estavam a fazer um campeonato muito bom. Vieram ter comigo à escola. Acabei por regressar ao futebol. Sentia que tinha jeito para o futebol. Até podia contar aqui uma história.

Bola na Rede: Conte.

Professor Neca: Quando vou para o Riopele, o clube tinha duas opções: ou eu entrava no Riopele, ou entrava um outro miúdo que estava no Benfica de nome João Alves, o Luvas Pretas. O João Alves foi dos melhores jogadores da história do futebol português. Eles acabaram por optar por mim e a minha carta foi mais cara do que a dele. Sempre tive a preocupação de ter uma profissão para além do futebol. Percebia que o futebol era instável. Dei sempre grande prioridade à profissão. Nunca deixei de correr atrás daquilo que era a segurança, de, em termos culturais, me formar como pessoa. Ao longo do tempo, ajudei muitos jogadores de futebol a formarem-se como professores de Educação Física, na Economia, na Medicina, na Engenharia, porque os incentivava e dava possibilidades, até em termos de treino, para que eles o pudessem fazer. Gostei sempre mais de jogar do que de treinar. O jogar futebol tem uma magia tremenda. Estive no Prado um ano. Jogava e pediram-me também para ser preparador físico. Lá fui preparador físico. Algum tempo depois, disse para me deixarem só a jogar. Fiquei até final da época. Atualmente, o GF Prado está nos distritais. Nessa altura, foi a única vez que esteve na Segunda Divisão Nacional. Acabámos por descer. O clube entra numa crise grande e digo que me vou embora para jogar mais um pouco noutro lado qualquer. O clube incentivou-me a ficar como treinador. Percebia-se que havia ali um treinador. Os jogadores aceitavam a minha liderança com a mesma naturalidade com que respiramos. Comecei a treinar o Prado. Todos os dias haviam dificuldades, mas todos os dias transmitia esperança de que as coisas iam melhorar. Foi nessa esperança que lutámos até ao último jogo para subir de divisão. E há coisas do destino. Nas Aves, num dos últimos jogos, estava 2-2 nos 90 minutos e há um penálti a nosso favor. O meu central bate o penálti com tanta violência que vai ao poste e a bola vai para o meio-campo e, no contra-ataque, o Aves faz o 3-2 e acaba o jogo. Não subimos de divisão. Um dos clubes que subiu foi o Valdevez.

Bola na Rede: Que foi para onde foi depois…

Professor Neca: Exatamente. Parte dos jogadores do Valdevez foram meus colegas na Segunda Divisão no Prado. Foram os jogadores que pressionaram a direção do Valdevez para que o treinador fosse eu. Acabo por ir para o AC Valdevez da Segunda Divisão Nacional. Sem subir, acabei por subir.

Professor Neca Benfica
Fonte: serbenfiquista.com

Bola na Rede: Seis anos depois de ter começado a treinar já estava na Primeira Liga. Foi uma ascensão meteórica?

Professor Neca: O Aves queria que eu ajudasse a estabilizar o clube na Segunda Divisão. Acabámos por organizar bem a equipa com jogadores da zona. Contra todas as previsões subimos à Primeira Divisão Nacional. Tinha 33 anos. A partir daí foi a peregrinação que veio até hoje.

Bola na Rede: Nesse ano com o Aves na Primeira Divisão tem o Silvino na baliza. Em entrevista ao BnR, ele disse: “Foi o Professor Neca que me incutiu esse espírito de conquista, de querer ganhar sempre mais. Eu, antes, treinava, fazia o meu trabalho, e se perdesse, olha, perdia”. Essa mentalidade acompanha o Professor ao longo de toda a sua carreira?

Professor Neca: Sempre. As nossas experiências ajudam-nos a compreender um conjunto de coisas. O Silvino é um amigo. Precisávamos de um guarda-redes de referência, porque a nossa equipa era uma equipazinha com limitações. O Silvino acaba por vir para o Aves. Forcei muito para que viesse um jogador diferenciado. O Silvino era um guarda-redes extraordinário, mas acreditava pouco nas suas capacidades. Em termos profissionais, acabámos por nos juntar no Mundial da Coreia e do Japão, ele como treinador de guarda-redes e eu como adjunto e analista do António de Oliveira. Quando eu era jogador, o treino era muito empírico, ou seja, os treinadores eram ex-jogadores e repetiam no treino o que faziam enquanto jogavam. Era só treino físico e íamos cansados para o jogo, aproveitávamos o jogo para descansar. Quando começo a ser treinador, treino o jogo, aquilo que se faz hoje, mas que nos anos 80 eu já fazia. Os resultados começavam a aparecer. Os jogadores davam-se bem com isso. Não iam cansados para o jogo, estavam mais disponíveis. Além do Silvino, há outros jogadores que me diziam que se sentiam muito bem.

Bola na Rede: Derivado da experiência que foi ganhando, acabou por ter oportunidade para, mais tarde, ir para o Benfica só que enquanto treinador-adjunto. Se não fosse num contexto como o do Benfica, via isso como um passo atrás?

Professor Neca: O Artur Jorge era o Mourinho daquela altura. Tinha sido campeão europeu, tinha acabado de ser campeão francês pelo Paris Saint-Germain FC, era uma grande referência como treinador, tal como, enquanto jogador, também o tinha sido. Havia essa oportunidade de ir para o Benfica como adjunto. Era mais uma forma de ir para um grande clube, o clube de maior expressão. O Benfica é o Benfica, deixemo-nos de histórias. O Sporting é grande, o Porto é grande, mas o Benfica é o Benfica. Era uma oportunidade de contactar com um treinador que era uma grande referência do futebol português. Recusei a continuidade no Braga como treinador principal, para ir para adjunto.

Bola na Rede: Numa lógica de aprendizagem?

Professor Neca: O povo português diz, do alto da sua sabedoria, que “vivemos a aprender e morremos sem saber”. Se tu queres saber tens que viajar ou ler. O viajar também era fundamental para que tivesse contacto com outras gentes, com outras pessoas e com outras formas de pensamento. Mantive-me no Benfica por dois anos. O Artur Jorge saiu e ficou o Capitão Mário Wilson. Aprendi muito com Mário Wilson também. O Benfica tinha dois projetos nessa altura – o Alverca e um protocolo com a seleção de Angola da qual poderia ser selecionador. Amavelmente, o Benfica deu-me a escolher um destes dois projetos. Mário Wilson disse-me “Neca, eu vou morrer sem nunca ser selecionador de um país estrangeiro. Vai a Angola, eu dispenso-te uma semana”. Fui a Angola contactar com aquela realidade e acabo por me tornar selecionador angolano durante dois anos.

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