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Rafael Ribeiro fez história ao comando técnico da equipa de Andebol do Académico de Viseu ao conseguir colocar os beirões na Primeira Divisão pela primeira vez na sua história. Um grande passo num caminho que já tinha levado à promoção ao segundo escalão. O jovem técnico de 29 anos aponta aos desafios da nova época, não deixando de falar no passado que viveu no Académico de Viseu e do seu início de carreira.
«As equipas que sobem têm mais dificuldades para se manterem»
Bola na RedeDesde já parabéns pela subida à primeira divisão. Como defines esta última época do Académico?
Rafael Ribeiro: Antes de mais tenho de retribuir. Agradecer do fundo do coração a oportunidade que nos dão sabendo que o Andebol é uma modalidade amadora. Não temos a expressão que devíamos ter. Esta última época acaba por ser o culminar daquilo que foi projetado ao longo de seis, sete anos que estou em Viseu, em que o objetivo a médio/longo prazo era chegar à primeira divisão. Foi um caminho complicado. Nem sempre foi fácil, mas a verdade é que nos dois anos em que estivemos na Segunda Divisão fomos à fase final, o primeiro acabados de subir da terceira. Este segundo ano tínhamos o objetivo de subir, tendo em conta o ano anterior. Sabíamos que não ia ser fácil ainda por cima só subia uma equipa diretamente. Fizemos por isso.
Bola na RedeNa penúltima jornada em que garantiu a subida, o Académico foi a perder para o intervalo [11-14]. O que foi decisivo para virar o resultado contra o Vitória SC [30-26]? O que disseste aos jogadores no intervalo?
Rafael Ribeiro: A primeira parte foi complicada. O Pavilhão estava a abarrotar e íamos para o intervalo a perder por quatro golos. Apesar de sabermos que tínhamos mais um jogo para conquistar o empate que tanto necessitávamos, queríamos fechar as contas em casa, tendo em conta a atmosfera que se criou. A primeira parte não nos correu bem. O Vitória não jogava por nada e isso pode ser negativo ou positivo. No caso do Vitória, foi positivo porque jogou completamente sem pressão e as coisas saíram-lhes bem. É curioso, porque às vezes perco um bocadinho as estribeiras no balneário ao intervalo. Foi das palestras mais tranquilas que dei ao intervalo, porque percebi a ansiedade que os jogadores estavam a acusar. Se adotasse um discurso mais agressivo, provavelmente iria contribuir para que essa ansiedade e esse nervosismo continuassem. Pouco falámos de questões técnico-táticas, porque os jogadores percebiam onde estávamos mal. Em situação normal, ia cair para o nosso lado porque estávamos melhor preparados do que o Vitória.

Bola na RedeSegundo a entrevista ao Jornal do Centro que deste antes da fase final, o objetivo principal nesta época era estarem na fase final. Sentiste que a sua equipa mais leve face a outras, algumas das quais habituadas à primeira divisão, por ter o objetivo já alcançado?
Rafael Ribeiro: Uma coisa é aquilo que passamos para fora e outra é aquilo que passamos para dentro, neste caso para os atletas e o discurso que temos com eles todos os dias. Desde o primeiro dia da época passada 2021/2022, a mensagem que passámos aos atletas é que queríamos subir de divisão independentemente se fosse diretamente ou pelo playoff. O primeiro objetivo definido era a passagem à fase final e isso foi concretizado com alguma distância para os que ficaram atrás. Nós não podíamos ter subido de divisão sem termos ido à fase final. Agora sei que é mais fácil falar mas desde que o primeiro dia em que começámos a trabalhar por aquilo que tem sido a aposta do clube nos anos anteriores e sobretudo por aquilo que tinha sido a época anterior em que uma equipa acabada de subir de divisão, tinha chegado à fase final. A responsabilidade era demasiado grande para voltarmos para trás.
Bola na RedeDisseste que a médio/longo prazo o objetivo era chegar ao escalão máximo. Em 2018/2019, assumiste o cargo de treinador da equipa sénior do Académico na III divisão. Nessa altura esperavas que a equipa chegasse ao escalão máximo quatro anos depois?
Rafael Ribeiro: Não, comecei a acreditar se calhar na segunda ou terceira época. No início, não me passava pela cabeça. Quem vê agora o Académico de Viseu, só vê a ponta do iceberg. O primeiro ano foi muito complicado. Não tínhamos jogadores para treinar. Tínhamos cinco, seis atletas. Apesar disso nesse primeiro ano, ficámos perto de passar à fase de subida da terceira divisão. O clube não tinha capacidade. Não tínhamos matéria humana, não tínhamos qualidade e por mais boas ideias que tivesse na altura, isso não era suficiente. Como se veio a comprovar demorámos três anos a subir à segunda divisão.
Bola na RedeA equipa destacou-se como a melhor defesa tanto na I fase como na final. Na última época, sendo a melhor defesa da I fase nas três das últimas quatro épocas. Há uma maior preocupação técnico tática nos treinos com os princípios defensivos face aos ofensivos?
Rafael Ribeiro: Sim, foi algo que sempre batalhei bastante, apesar de ser difícil porque normalmente os jogadores gostam de ter a bola na mão. está muito enraizado em Portugal. Soubemo-nos rodear de jogadores com capacidade e gosto por defender que é importante porque muitas vezes este trabalho defensivo é invisível em comparação com o ofensivo. Ao mesmo tempo, também é importante bons guarda redes. Por muito que se trabalhe na defesa, se não se tiver guarda redes com boas eficácias, é quase impossível não sofrer muitos golos.
«A região não consegue criar jogadores suficientes com qualidade para se apresentarem ao nível de uma segunda divisão e muito menos da primeira»
Bola na RedeComo descreves a forma de jogar da tua equipa?
Rafael Ribeiro: Obviamente que na minha cabeça há uma forma de jogar e isso não quer dizer que se concretize na prática. Nós estamos muito dependentes das características dos jogadores. Nem nós nem quase ninguém da segunda divisão, e mesmo da primeira, conseguimos ter a capacidade de ir buscar os jogadores que precisa para determinado modelo de jogo. Por isso, eu tive de adaptar a minha forma de pensar o jogo com aquilo que tinha. Posso dar um exemplo: um lateral direito que deveria ser um jogador canhoto. Este ano não tivemos nenhum jogador canhoto a jogar lateral direito e ter um destro naquela posição muda completamente a nossa forma de estar sobretudo no ataque. Obviamente há alguns pontos comuns: defender bem em 6×0 flutuante, sair bem e rápido para o ataque, prolongar os ataques o máximo de tempo possível, a não ser que existam oportunidades claras de golo e também a questão da recuperação defensiva, porque sofremos poucos golos em transição e em contra ataque.
Bola na RedeNos últimos quatros anos o perfil de jogador do Académico mudou, deixando de dominar o jogador com muitos anos de casa. Vai ser mais difícil na primeira divisão o lançamento de jovens formados no clube?
Rafael Ribeiro: Completamente. As pessoas aperceberam desde o primeiro ano que nós conseguiríamos ir ao encontro dos objetivos que nos tinham proposto. No primeiro ano, não tínhamos ninguém de fora do distrito de Viseu. À medida que o tempo foi avançando, foram entrando jogadores de outros pontos do país e estrangeiros. Teve de haver um investimento por parte da direção nesse sentido, porque a região não consegue criar jogadores suficientes com qualidade para se apresentarem ao nível de uma segunda divisão e muito menos da primeira. Na região, há um clube na segunda e três na terceira divisão. Isto advém de muitos fatores: muitos atletas chegam à idade de irem para a faculdade e vão para Porto, Coimbra, Lisboa, Aveiro,… Acabamos por não dar seguimento ao trabalho que vem debaixo para a equipa sénior. Também há a questão da pandemia, sofremos e continuamos a sofrer muitas baixas, os escalões debilitados no número de atletas. Infelizmente, nos últimos dois anos, mais neste último ano, a formação não conseguiu acompanhar o desenvolvimento da equipa sénior.

Bola na RedeQue melhorias consideras mais urgentes para se fazer na formação para diminuir a diferença em relação aos seniores?
Rafael Ribeiro: Desde logo aumentar a base, também faço aqui um mea culpa porque sou coordenador do clube. Quando digo base, falo nos escalões dos mais pequeninos, minis, bâmbis e infantis. Apesar de vir a demorar muito tempo até chegar aos seniores, é preciso começar por algum lado.
Bola na RedeComo é feita a análise e observação para a escolha dos reforços? O Académico tem uma equipa de olheiros ou é a própria equipa técnica?
Rafael Ribeiro: A equipa técnica sou eu. É uma realidade completamente distinta do que é o Futebol que na segunda liga, acredito eu, têm uma equipa técnica vasta, um diretor desportivo, um ou dois olheiros. Aqui no Andebol não é assim. Sou eu que falo diretamente com os jogadores obviamente sempre com a permissão da direção. Normalmente como os jogadores que tenho trazido para Viseu têm sido apostas ganhas, a direção dá-me carta branca nesse sentido. É minha responsabilidade. No Andebol, conhecemo-nos uns aos outros. Pessoalmente, tenho maior rede de contactos no Norte porque foi lá que fiz a minha carreira enquanto jogador e treinador. Contudo, também facilmente se consegue chegar ao contacto com atletas do Sul. Depois é ouvir opiniões, falar com os atletas que já jogaram com o jogador em questão. Observação através de vídeos é feita mais para quem vem do estrangeiro. Já tivemos casos e este ano estamos a trabalhar para trazer alguém de fora. Ainda não é tão evoluído como no Futebol. Aqui não há jogos televisionados na segunda divisão. Há os vídeos que nós filmamos e que passamos uns aos outros.
Bola na RedeNeste momento, há maior disponibilidade dos atletas em virem jogar para o Académico?
Rafael Ribeiro: Sem dúvida. Ao dia de hoje, chegamos a jogadores e mercados que há um ano não chegávamos. Ao mesmo tempo que se abrem novos mercados, as exigências por parte dos jogadores são outras e nós não queremos perder estabilidade. Não podemos entrar em loucuras para fazer de tudo para ficar na primeira divisão. A estabilidade do clube tem de se manter seja qual for o desfecho. Nós somos um clube e estamos a entrar agora neste circo. Alguns jogadores acabam por exagerar, na minha opinião, nas condições que pedem. No entanto, vamos ter muitos jogadores que já atuaram na primeira divisão.
Bola na RedeNa entrevista antes da fase final, disseste que mesmo que o Académico acabasse por ficar na II Divisão iria ter um plantel da I Divisão. A base do plantel será a do ano passado?
Rafael Ribeiro: Não. São ciclos normais e vamos ter muitas entradas para compensar. Nessa altura, já tínhamos assegurados dois ou três jogadores fechados em posições chave independentemente onde estivéssemos na época seguinte. Foi por isso que disse isso. Depois à medida que a fase final foi decorrendo e a subida ganhou forma, fechámos mais alguns jogadores que nos podem dar garantias da primeira divisão. Eu não podia estar à espera do dia 4 de junho [data do final da temporada] para começar a construir a equipa porque provavelmente muitos jogadores já estariam fechados noutros clubes. O mercado está muito cerrado: não há oferta ou a que há não tem a qualidade que entendemos ser necessária. A redução do número de equipas também provoca mais dificuldades. Portanto, não foi um processo fácil. O plantel ainda não está fechado. Ainda estamos à procura de uma ou duas soluções que não é fácil de encontrar dentro do que são as nossas limitações.
Bola na RedeE na próxima temporada, o Académico vai conseguir o lateral direito canhoto que referiste que faltava nesta?
Rafael Ribeiro: Sim, até foi um dos primeiros jogadores que se comprometeu connosco independentemente de estarmos ou não na primeira divisão. É sempre mais difícil contratar um canhoto, porque não são muitos. Ainda procurámos ter dois. Muitas equipas da primeira divisão têm dois porque primeiro têm capacidade financeira para isso e permite manter o mesmo estilo de jogo. Nós só vamos ter um lateral direito canhoto de raiz. Provavelmente vamos ter de fazer uma adaptação para ter uma alternativa, mas já está assegurado o lateral direito canhoto e isso deixa-me mais tranquilo e entusiasmado. Ao fim ao cabo, sabemos que, à partida, vamos descer porque as equipas que sobem têm sempre mais dificuldade em se manter. O campeonato vai voltar a reduzir [de 14 para 12 equipas] o que dificulta ainda mais a tarefa. Se o campeonato mantivesse as 16 equipas da última época, eu acredito piamente que nós nos manteríamos na primeira divisão. Contudo, isto ao mesmo tempo torna tu mais interessante porque a responsabilidade está do lado dos que vão lutar para não descer connosco que já têm muitos anos de primeira divisão. Se for possível não ficar nos últimos dois lugares [de descida direta] e lutar pelo playoff, ótimo. Se for possível fugir dos quatro últimos lugares, incrível seria um milagre, mas também seria fruto de muito trabalho com certeza.
Bola na RedePerante os três candidatos ao título, a forma de jogar terá de ser diferente?
Rafael Ribeiro: Eu não concordo com aqueles que dizem que os jogos contra o Porto, o Sporting ou o Benfica não é um jogo do nosso campeonato. Não é verdade porque dentro da competição não há campeonatos diferentes. Sabemos que temos 99,9% de probabilidade de não ganhar esses jogos, mas nada nos impede de deixar pelo menos desconfortável este tipo de equipa. Vai depender do contexto no momento. No Andebol não é como o Futebol em que posso ter 11 jogadores atrás da linha da bola e não rematar à baliza. Por exemplo, às vezes marcar dois golos consecutivos sem eles marcarem pode provocar algum tipo de reação.
Bola na RedePara acabar este capítulo do Académico, foi notícia do jornal O Jogo a contratação de três jovens jogadores cedidos pelo Sporting CP [Benjamin João, Duarte Seixas e Eduardo Almeida]. Como vês a questão da juventude e a experiência no escalão máximo? Consideras que é necessário que a base do plantel tenha anos de experiência prévia na primeira divisão para atingir os objetivos do clube?
Rafael Ribeiro: Primeiro, confirmo que fomos buscar três atletas ao Sporting. Segundo ponto. Vamos partir do pressuposto que os outros são melhores do que nós, porque têm mais anos, têm atletas com outras capacidades. Então a forma que temos de diminuir esta diferença é provavelmente trabalhar mais do que os outros. Esses três miúdos do Sporting vêm nesse contexto: procuramos jogadores que pudessem vir para Viseu, morarem na casa que temos para oferecer aos atletas e poderem treinar além das cinco vezes por semana à noite, fazer ginásio e treinos bi/tridiários. Apesar de serem jovens e dois deles serem ainda atletas sub20 para o ano, eles são da formação de Sporting o que acaba por ser um cartão de visita. Os três vêm de um ano de primeira divisão a jogar regulamente. O meu objetivo é inseri-los num contexto diferente com um misto de juventude e experiência. Não experiência de idade porque não vamos ter atletas dos 34 anos para cima, mas vamos ter atletas com experiência de primeira divisão. Se calhar o ano passado sentiram a diferença do que é passar da equipa B ou de uma segunda divisão do que é o escalão máximo. Eu acredito que no nosso contexto irão mostrar mais do que no ano passado e a mim não me importa temos ido buscar três atletas à equipa que ficou em último lugar no ano passado [Boa Hora].

Bola na RedeCom a subida de divisão, vais contar mais com elementos na equipa técnica?
Rafael Ribeiro: Não vai entrar ninguém de fora. Eu continuarei a ser o treinador, treinador adjunto e o treinador de guarda redes do Académico de Viseu. Provavelmente terei alguma ajuda na análise de jogo de uma pessoa de dentro do clube que também é treinador porque é muito diferente uma primeira e uma segunda divisão sobretudo nos jogos que vamos ter obrigação de lutar para ganhar. O clube não tem condições para trazer ninguém de fora. Sou profissional do clube, só vivo disto por isso também tenho obrigação de preparar os atletas da melhor forma.
«Gostava de estar numa equipa, se for preciso como adjunto, que me permitisse ter alguém ao lado que me fizesse ver o Andebol de outra forma»
Bola na RedeComo se iniciou o teu percurso no Andebol?
Rafael Ribeiro: Eu não comecei no Andebol. Grande parte da minha infância e adolescência joguei Futebol. Joguei muito tempo no Salgueiros, apesar de o meu pai que sempre esteve ligado ao andebol. Jogou em algumas das melhores equipas nacionais, mas sempre deixou-me decidir o que eu queria fazer. Só que a uma dada altura o meu pai treinava o Clube Veteranos da Senhora da Hora que subiu de divisão, mas era necessário ter camadas jovens para ser promovido. Então, eu e os meus colegas do Futebol juntámo-nos e ao fim de semana jogávamos, mas não treinávamos. Houve uma altura em que era impossível conciliar as duas modalidades e eu optei pelo Futebol. Só que, entretanto, quis parar e o meu pai convenceu-me a voltar para o Andebol, no Leça da Palmeira. Comecei a jogar muito tarde nos juvenis e cheguei a júnior já a jogar nos seniores, mas na altura já começava a dar treinos aos mais pequenos. Depois deixei de jogar muito novo e houve a possibilidade de ir para a Dragon Force começar a treinar. Considero-me melhor treinador do que jogador, mas também não era difícil.
Bola na RedeComo foi o teu percurso nas camadas jovens do Porto?
Rafael Ribeiro: Eu tive três anos na Dragon Force/ FC Porto. Eu comecei com treinador dos Infantis e adjunto dos Juvenis e acabei a minha ligação ao Porto como adjunto da equipa B e ainda como treinador dos Infantis. Depois, vim para Viseu através do FC Porto.
Bola na RedeComo surgiu a oportunidade de vires para o Académico de Viseu?
Rafael Ribeiro: O Académico percebeu, na altura, que para andar para a frente tinha de se associar algum projeto. O Professor José Magalhães [diretor desportivo do FC Porto], em nome do Porto, fez a ponte e entendeu que eu poderia ser uma opção válida para assumir o projeto e, em 2016, fiz esta mudança na minha vida.
Bola na RedeQue treinadores mais te inspiraram neste percurso?
Rafael Ribeiro: É uma pergunta difícil. Eu estive no Porto no período de Obradovic que veio impor um andebol mais físico, mas a verdade é que foi campeão nacional sete vezes consecutivas. Independentemente do estilo de jogo e da forma de ele ser no jogo e no treino, o que importa é o que ele fez. É uma referência. Também o meu pai pela forma de lidar com a equipa. É um treinador de grupo e eu cada vez me convenço mais que, por mais boas ideias para os treinos e para o jogo, é fundamental ter uma relação incrível com os atletas porque são eles que vão jogar e sem eles o treinador não faz nada. Internacionalmente, aprecio muito a escola espanhola. O Barcelona foi agora bicampeão europeu, primeiro com o Pasqui e agora com o Ortega, dois técnicos espanhóis. A própria Seleção Espanhola, apesar de não ser a melhor em termos individuais, tem um jogo que lhes permite estar sempre nas decisões.
Bola na RedeTens 29 anos de idade. Como é a relação com os jogadores, sendo alguns deles até mais velhos?
Rafael Ribeiro: Foi difícil ao início. Eu tinha atletas bem mais velhos do que eu. Entrei com 24 anos no Académico. Cheguei a ter um atleta com 42. Eu fui sozinho para Viseu a viver pela primeira vez fora de casa. Obviamente que tive de me apoiar nos meus atletas porque eram a minha companhia. Ainda hoje são, mas naquela altura havia a relação amigo atleta e hoje isso não se confunde. Muitos dos meus jogadores são meus amigos, mas já há uma distinção bem clara. O facto de termos subido consecutivamente e de estarmos neste patamar hoje faz com que olhem para mim com outros olhos já de há algum tempo porque os resultados falam por si. Já não se faz confusão de jogar contra atletas mais velhos do que eu, no início fazia.
Bola na RedeQue metas traças para a tua carreira?
Rafael Ribeiro: A curto prazo, o que me dava mais gozo era manter o Académico na primeira. Vale mais do que o título de campeão da segunda divisão. Depois, sem falsas modéstias, acho que tenho ainda muito para aprender e gostava de estar numa equipa, se for preciso como adjunto, que me permitisse ter alguém ao lado que me fizesse ver o Andebol de outra forma. Eu acho que cometo muitas falhas não só na forma de estar no jogo, mas sobretudo na forma daquilo que é o treino. Eu sei que não tenho muitas portas em Portugal em que possa viver só do Andebol. Se eu quiser continuar só a depender do Andebol, muito provavelmente terei de ir para fora. Dependendo do que possa ser o nosso desempenho na primeira divisão, pode surgir a oportunidade de aprender fora. A longo prazo, assumir uma equipa que lute por outros objetivos pelos quais o Académico vai lutar para a próxima época e por que não juntar o título da primeiro divisão ao da segunda.
Bola na RedeComo vês a evolução do Andebol nacional, em termos de clubes e da Seleção?
Rafael Ribeiro: Vejo de uma forma natural. A partir do momento em que existe um desenvolvimento dos clubes, a Seleção A e as jovens só têm a ganhar. Na minha opinião, é devido a vários fatores: os clubes investem mais, mesmo com atletas estrangeiros com qualidade acabam por aumentar o nível dos jogadores portugueses. Os jogadores também estão melhor preparados, apostam-se nos atletas mais novos, começa-se a trabalhar cada vez mais cedo que resulta num desenvolvimento precoce como mostra a participação da Seleção no Mundial Sub-20. A participação e o facto de chegarem longe nas provas europeias no caso do Porto, Sporting e Benfica, acabam por trazer mais qualidade. No entanto, as equipas europeias têm um patamar grande que baixa consideravelmente ao fim de semana no campeonato. Acho que é preciso que as equipas da parte debaixo terem uma aposta maior para reduzirem as distâncias, mas isso vai demorar muito tempo. Quanto maior for o sucesso no Andebol, mais miúdos vão querer jogar, mais clubes vão surgir e a qualidade vai acabar por surgir.
Bola na RedeDepois da conquista da Liga Europeia pelo Benfica, é possível repetir o feito ou chegar à Final Four da Champions esta época? A diminuição dos jogos no campeonato pode ajudar nesse sentido?
Rafael Ribeiro: Eu estou triste pelo campeonato ter sido reduzido. Este facto leva a menos jogos e menos duelos desnivelados. Isso vai fazer as equipas com maior orçamento e de outro nível. O que o Benfica fez este ano foi incrível. Não só por ter ganho o título europeu, mas porque venceu ao campeão da Alemanha, a melhor liga do mundo. É um feito que tem de entrar para a história. A aposta que o Porto tem feito é para chegar longe na Liga dos Campeões. Os reforços já anunciados são prova disso mesmo, principalmente o dinamarquês vindo do Aaalborg que esteve no lote dos nomeados para melhor central da Liga dos Campeões [Nikolaj LÆSØ], o que há alguns anos seria impossível. Primeiro, é importante passar para os oitavos de final que já não consegue há três anos. O grupo é equilibrado, porém mais acessível do que em 2021/2022. Já o Sporting e o Benfica podem ter ambições de chegar a uma Final Four. O Belenenses e o Águas Santas não têm nada a perder, têm muito menos responsabilidade do que as outras três equipas.
Bola na RedePara o final, queres deixar alguma mensagem aos adeptos do Académico de Viseu e do andebol em geral?
Rafael Ribeiro: Aproveitem ver o Académico na primeira divisão. Vai ser um momento histórico. Para os adeptos da modalidade, sempre que o Académico jogue, devem ir ver. Prometemos ter um andebol positivo. Vamo-nos divertir. Não temos responsabilidade, os outros é que têm e isso vai-se notar dentro de campo. Em relação aos viseenses, apelámos a que toda gente nos ajude. É tudo mais: mais receitas, mas também mais despesas. Precisamos muito do apoio da região: empresas, indústria, … Porque só assim é que podemos competir contra as outras equipas. Apelar a que todos os jogos em casas sejam mesmo jogos em casa. Às vezes, no Pavilhão do Fontelo, não tínhamos a noção se estávamos a jogar em casa ou fora. Se não fizerem barulho, pelo menos que marquem presença porque é diferente jogar com um pavilhão cheio do que vazio. É o que vou dizer aos atletas e serve também para os viseenses: aproveitem a oportunidade de uma equipa no escalão máximo!
Artigo revisto por Joana Mendes













