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Já não é novidade para ninguém que, no último domingo, houve mais uma morte a assombrar o desporto. O que já não é tão comentado é o facto de, apesar de a envolvência ter sido com efeito um jogo de futebol, o crime ter tido apenas motivações políticas. Temos assistido a várias tentativas de “tratar todos por igual”, que mais não fazem do que lançar uma capa protectora sobre os responsáveis pelo assassínio: indivíduos de extrema-direita, vulgos fascistas.

Esses indivíduos pertencem a uma claque que supostamente apoia o Atlético de Madrid, embora os seus reais propósitos sejam outros, como mostra o vídeo abaixo. A claque tem um histórico de violência que não pode ser menosprezado – em 1998, elementos do grupo mataram Aitor Zabaleta, um basco com supostas ligações a um movimento independentista de esquerda e cuja morte, de resto, os integrantes da Frente celebram no já referido vídeo enquanto cantam que “o resultado [do jogo] não nos interessa”. As ligações dos ultras deste clube de Madrid à extrema-direita são conhecidas: desde fotos com parafernália nazi-fascista a coreografias no próprio estádio com frases retiradas de músicas do período franquista – recordo que a Guerra Civil espanhola teve início quando a facção reaccionária de Franco não aceitou a vitória legítima dos republicanos nas urnas – passando por muitos outros episódios de violência. Um deles está bem presente na memória dos portugueses. Há quatro anos, num jogo em Alvalade, largas dezenas de integrantes da Frente Atlético pararam os autocarros em frente ao estádio várias horas antes do jogo e apedrejaram os poucos elementos das claques do Sporting que por lá se encontravam.

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E qual é a resposta que a Liga e a Federação espanholas dão a tudo isto? Em poucas palavras, pede-se o “fim da violência no futebol” e uma ambígua luta contra as “claques radicais”. De resto, quase todas as críticas públicas que têm sido feitas vêem a violência como causa de si própria, em vez de compreenderem que os comportamentos delinquentes nos estádios de futebol estão ligados à extrema-direita e à sua perigosa ideologia do ódio. Os intervenientes que agora dizem lamentar a morte do adepto conhecido como Jimmy foram os mesmos que fecharam os olhos a anos e anos de violência fascista nos estádios. Os clubes e os dirigentes, inclusivamente, transformam não raras vezes alguns sectores das claques na sua guarda pretoriana. Os responsáveis do Atlético de Madrid, que nunca pareceram importados em terem uma claque fascista relacionada com o seu clube, não têm moral para agora anunciarem a expulsão dessa mesma claque do seu estádio (até porque, na prática, os elementos poderão entrar à mesma). Não devia ser preciso ocorrer uma morte para identificar, denunciar e expulsar de forma efectiva indivíduos que fazem do desporto um campo de batalha ideológico e um bastião do ódio.

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Não ponho as mãos no fogo pelo facto de os Riazor Blues – claque do Deportivo da Corunha conotada com a esquerda independentista que também esteve envolvida nos confrontos, e à qual pertencia a vítima – terem ou não combinado previamente um encontro com os fascistas, apesar de haver notícias que dizem que afinal não houve marcação prévia. A eventual combinação, cuja existência agora parece não ser assim tão clara, tinha sido avançada com pompa e circunstância por alguns media, sempre prontos a condenar de igual modo quem prega slogans de ódio e quem defende, como os Riazor Blues, o combate ao racismo. Também não estou interessado em defender todos os actos do grupo galego, e muito menos estou mandatado para tal. De qualquer modo, mesmo que tenha havido combinação, o que também houve foi um assassínio. E esse assassínio teve autores: os fascistas da Frente Atlético. Chamar-lhes fascistas não é nem mentira nem difamação, uma vez que eles próprios se assumem como tal.

É por situações destas que sempre me irritou profundamente aquela máxima do “são todos iguais”. Irrita-me quando, depois de uma desilusão amorosa, um homem diz isso das mulheres (ou vice-versa), irrita-me quando se diz isso de todo e qualquer político e irrita-me, neste caso concreto, quando se coloca no mesmo saco aqueles que se revêem em Franco, Hitler e Mussolini e aqueles que defendem a luta contra o racismo e a descriminação. Colocando agora de parte todas as outras condicionantes sociais que tornam o futebol num alvo fácil da irracionalidade, há que compreender que, quando os segundos adoptam posições violentas, o fazem como reacção ao ódio propagado pelos primeiros. E ainda bem que assim é, porque os bandos fascistas não podem ter carta-branca para fazerem tudo o que querem sem consequências. Esse é um mundo no qual eu não quero viver. E dizer isto não faz de mim um apologista da violência, porque nunca o serei.

deportivo
Riazor Blues: “Ama o Depor, odeia o racismo”. Para os dirigentes do futebol espanhol, ser fascista ou anti-racista é equivalente
Fonte: flickr.com

Para terminar, importa dizer que em Portugal também há claques organizadas com um número relevante de simpatizantes fascistas: as mais relevantes talvez sejam o Colectivo, do FC Porto, os Diabos Vermelhos, do Benfica e certos sectores da Juventude Leonina, do Sporting – nomeadamente o Grupo 1143, apesar de hoje em dia estar pouco activo. Isto, claro, sem esquecer o chamado movimento casual, que surgiu em Inglaterra e tem vindo a ganhar importância no nosso país (no ano passado, perto de 200 casuals ligados ao Sporting espalharam o pânico junto ao Estádio do Dragão, exibindo depois esse feito como uma vitória). Todos estes grupos se vêem a si próprios como pretensas “elites” e vivem à margem das claques maiores, que são, no caso português, mais frequentemente despolitizadas. Conhecer tudo isto é vital, exigir que os clubes se demarquem de quem prega estas ideias é uma necessidade. Caso contrário, os resultados estão à vista.

atletico madrid fascismo
Frente Atlético: saudação fascista e coreografia com a inscrição “Volverán Banderas Victoriosas”, uma frase de uma música franquista
Fonte: Alberto Sánchez Fernández (flickr.com)

O que se seguirá ao assassínio do adepto do Deportivo será, com certeza, a diabolização das claques em geral e um apertar de cerco às mesmas. São atitudes erradas. Oponho-me aos que querem acabar com estes grupos organizados, porque isso seria tão ridículo e ineficaz como pretender “acabar com a política” agora que José Sócrates foi preso. O combate que deve ser travado não é contra as claques nem contra a ideia de violência no geral, ao contrário do que os responsáveis pelo futebol espanhol e alguns media têm propagandeado; o que deve ser combatido é, concretamente e sem margem para dúvidas, o racismo e o fascismo, numa luta que deverá extravasar o mundo do futebol e alastrar a toda a sociedade.

Para isso é preciso analisar a realidade muito para além do desporto, ir ao fundo das questões e identificar a ideologia fascista como o verdadeiro alvo a combater. São os seus partidários, muito mais do que quaisquer outros, os verdadeiros foras-da-lei, porque negam a liberdade alheia e chegam ao ponto de ceifar vidas. Resta saber se há vontade política para isso – ainda que, infelizmente, tanto a História como os acontecimentos desta última semana estejam longe de dar os melhores indícios.

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