BnR/PdA: Tocaste numa questão importante. Temos um caso particular nos EUA, em que o Edrick Floréal é o treinador de uma série de barreiristas de elite (Kendra Harrison, Kori Carter, Camacho-Quinn, Sydney McLaughlin ou Omar McLeod) e isso, para muitos, tem contribuído para que as performances desses atletas evoluam mais rapidamente. Achas que por vezes sentes essa falta de motivação ou de te sentires “picada” um pouco no treino para poderes atingir mais?

TVC: Sim, sem dúvida. Eu acho que os portugueses acanham-se um pouco quando vêm cá fora porque não estão habituados. A nossa primeira experiência, muitas vezes, é logo um Europeu. Ou seja, eu saio do campeonato nacional, onde sou a maior e chego a um Europeu onde sou a pior e penso “oh meu Deus, o que é que eu faço agora?”. Foi um pouco isso que eu senti ontem ao ver muitas pessoas que eu, em pequena, via a competir pela televisão, mas depois pensei “eu agora estou aqui, não posso ficar com vergonha ou acanhada”. A nível de infra-estruturas, eu acho que as infra-estruturas são boas. A nível de apoios é mais complicado, é óbvio que não temos muitos e vai tudo para o futebol. Nós só temos os apoios quando chegamos a um determinado nível.

Não os temos no processo para lá chegar e as pessoas esperam que nós tenhamos os resultados, sem termos esse apoio durante o processo. Eu senti isso quando me lesionei. Estás lesionada e os apoios são cortados do dia para a noite. Se uma pessoa não estiver num Benfica ou num Sporting é muito difícil. Eu não me posso queixar, porque o Benfica dá-me tudo como se eu fosse um jogador de futebol e eu estou feliz em Portugal porque tenho o meu clube e sei que tenho a possibilidade de ir treinar a qualquer sítio do mundo e tenho sempre o suporte do clube. Mas se não fosse o meu clube, eu tenho a certeza que eu não estava em Portugal. Eu só não fui para os Estados Unidos porque estava no Benfica. Eu considerei isso, mas pensei “o sonho dos atletas norte-americanos é serem atletas profissionais e eu a ir para lá vou ser amadora”. Tive também a sorte do meu Mundial de Júniores ser lá e eu ter visto aquela realidade de perto e ter percebido que eles dão tudo o que o Benfica dá e não acho que os treinadores deles sejam melhores que os nossos. Acho que a principal e grande diferença poderia ser ter um bom grupo de treino e ter pessoas ao meu nível a treinar e competir comigo, a puxar por mim todos os dias.

Com Éloyse Lesueur: campeãs do passado e do futuro?
Fonte: Teresa Vaz Carvalho

BnR/PdA: Falaste um pouco das questões escolares e é verdade que nos EUA, o desporto escolar é bastante forte e as rivalidades entre atletas começam a sentir-se desde bastante cedo. Tu achas que essa rivalidade que eles acabam por sentir logo aos 13, 14 anos, acaba por influenciar no tipo de resultados que esses atletas serão capazes de atingir mais tarde?

TVC: Sem dúvida alguma! Aquilo é um bocado a lei de Darwin. Apenas sobrevivem os mais fortes e desde pequenos que se começa a perceber logo quem é que é forte o suficiente. Mas eu comparo muito isso com a situação do futebol no nosso país. Toda a gente anda no futebol e depois são muito poucos os que chegam lá. Sem dúvida que o desporto deles está muitíssimo bem estruturado, mas em Portugal, infelizmente, está apenas direcionado para o futebol e não chega às outras modalidades.

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BnR/PdA: De facto não nos podemos comparar ao caso norte-americano até pela dimensão e estrutura do país. Mas não seria bom olharmos um pouco para o caso inglês ou até, quem sabe, pensar numa estrutura mais abrangente de desporto escolar a nível europeu?

TVC: Sim, claro. A nível europeu, existe a FISEC (Fédération Internationale Sportive de L’Enseignement Catholique) e a ISF (International School Sport Federation), cheguei a participar enquanto andava no desporto escolar, mas não têm, de facto, nada a ver com a realidade norte-americana. Acaba por ser um encontro de escolas que nem é bem de escolas, acaba por ser uma selecção outra vez.

BnR/PdA: No que diz respeito a trazer mais público para o desporto, em especial os mais jovens. Que tipo de iniciativas é que achas que podem ser particularmente interessantes para isso passar a ser uma realidade?

TVC: Eu acho que o desporto escolar deveria ser obrigatório. Ou seja, eu acho que para além da aula de Educação Física, todas as crianças deveriam escolher um desporto para fazer, como actividade extra-curricular. Acho que isso seria muito bom para dar a conhecer outros desportos que não o futebol. E é importante porque sinto que as pessoas só se lembram que há outras modalidades de 4 em 4 anos e sempre para exigir resultados. Este tipo de eventos como o deste fim-de-semana – Great City Games – em Portugal seria algo importante também. No entanto a cultura britânica é também diferente da nossa. Eu vi que no meu evento tinha uma atleta juvenil que foi apresentada como a esperança inglesa para daqui a 8 anos, ou seja, eles promovem muito as crianças e os jovens atletas e não apenas quando já és uma estrela, como acontece em Portugal.

BnR/PdA: Os ídolos são normalmente muito importantes para os jovens que acompanham a modalidade. Como esta é a última questão, vou-te complicar um pouco: Tens algum ídolo no desporto desde pequena, deixando de parte os teus familiares?

TVC: Quando eu era mais nova, os meus ídolos eram sempre os melhores. Ou seja, se eu vejo o Bolt a ganhar uma medalha, ele é o meu ídolo porque ele é o ídolo de toda a gente. Se eu vejo o Mo Farah a ganhar, ele é o meu ídolo porque ele é o ídolo de toda a gente. Eu acho que isso foi assim até determinada idade. Eu sempre tive como referência os nossos atletas, como a Naide Gomes, o Nelson Évora e outros mais antigos como a Aurora Cunha ou a Rosa Mota, mas a determinada altura passei talvez a valorizar outro tipo de atletas, que têm histórias difíceis de superação e que nos transmitem coisas muito positivas.

Consigo valorizar um atleta como o Jorge Paula, o Yazaldes ou o Arnaldo Abrantes, porque olho para a história de vida deles e inspiro-me. Eu olho para o Arnaldo Abrantes e vejo um médico, atleta olímpico, super bem-sucedido em ambas as partes e é óbvio que é algo a louvar e que te faz incentivar a querer fazer igual. Quando, por exemplo, estou na escola a stressar antes de uma prova, eu digo para mim própria “fogo, o Arnaldo é médico e foi aos Jogos Olímpicos ao mesmo tempo. Se ele consegue, eu também consigo”. Em relação ao Jorge Paula e ao Yazaldes, treinando com eles e vendo a quantidade de lesões pelas quais eles passaram e o facto de terem caído e se terem levantado várias vezes, isso é algo que me inspira a lutar. Com o passar do tempo percebi que, por vezes, as referências não têm que ser aquelas pessoas mediáticas que ganham tudo, mas podem ser atletas que talvez até nunca tenham ido a um Europeu ou Mundial, mas que têm histórias tão interessantes para contar e tão motivadoras que acabam por nos entregar um pouco de si. Não digo ídolos porque sinceramente eu não idolatro ninguém, mas acho que posso retirar um bocadinho de toda a gente para poder moldar a pessoa que quero ser.

O futuro parece ser risonho para Teresa Vaz Carvalho
Fonte: Adidas

BnR/PdA: Tentas fazer isso em relação aos mais jovens ou achas que ainda é cedo?

TVC: (risos) É cedo. Eu fico feliz quando eles me vêm pedir para tirar uma foto, costumo sempre perguntar o que é que eles fazem e digo-lhes para não desistirem e para perseguirem o seu sonho. Sinceramente, eu gostava de um dia ser uma referência. Gostava que alguém quando pensasse em Atletismo, que eu fosse um dos primeiros nomes que lhes surgisse à cabeça. Quando eu penso em Atletismo, penso logo na Naide, no Nelson, na Aurora, na Rosa e gostava que um dia o meu nome estivesse junto com os deles.