-Um FC Porto agridoce-

«É difícil pedir que o FC Porto apostasse em nós e quisesse continuar a ganhar ao mesmo tempo»

 

Bola na Rede: Falemos do inicio da tua carreira. Como inicias a tua carreira futebolístca e porquê o futebol? Eu sei que o teu pai também foi desportista na Polónia, mas em desportos diferentes. Foste levado pelo facto do futebol ser o desporto rei por larga vantagem em Portugal?

Tomás Podstawski: Sim, foi isso. Primeiro, a cultura desportiva sempre esteve presente no seio da minha família. Os meus pais são os dois professores de educação física, por isso sempre tivemos uma abordagem para o desporto de uma forma muito natural e isso esteve sempre presente na nossa vida. Várias modalidades, aprendi sempre muita coisa com os meus pais e tínhamos uma família numerosa, por isso como tenho dois irmãos, era sempre fácil divertirmo-nos e fazermos vários desportos diferentes. Mas claro, estando a viver em Portugal, eu sinto o peso que o futebol tem cá e foi algo que acabou por puxar de uma forma natural para aquilo que é o desporto rei. As outras modalidades tinham outras dificuldades com apoios e condições que só o futebol tem.

Bola na Rede: E iniciaste a tua formação onde?

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Tomás Podstawski: Comecei no Boavista FC aos oito anos, fiquei lá cinco anos e depois passei para o FC Porto e estive lá nove anos até chegar ao escalão de profissional sénior.

Bola na Rede: E como se deu essa transição ainda jovem do Boavista FC para o rival da cidade, o FC Porto?

Tomás Podstawski: Não houve problemas, era muito jovem. Fui eu e os meus dois irmãos, acabamos por ir do Boavista para o FC Porto. O FC Porto já funcionava muito bem a nível de scouting e já observava jogos desde miúdos. Na altura, a mudança pareceu-me ser a melhor e não havia dúvidas de que queria mudar, pela dimensão do clube e pelas condições que podiam oferecer.

Bola na Rede: Qual o momento do teu percurso na formação em que tiveste a certeza de que querias ser jogador de futebol profissional?

Tomás Podstawski: Eu assinei o meu primeiro contrato profissional aos 16 anos e foi a partir daí. Ainda era muito jovem e ao assinar contrato profissional, passei a ser remunerado, comecei a ser chamado à seleção e já era reconhecido dentro dos quadros do FC Porto como sendo um jogador de valor e sentia essa valorização por parte do clube. Por isso, nessa altura senti que queria aquilo para a minha vida. Penso que andava no 9.º/10.º ano da escola.

Bola na Rede: Falaste das seleções jovens, tu és um dos mais internacionais de sempre pelas seleções jovens. Ninguém melhor do que tu para nos contar a realidade das seleções jovens numa idade em que ainda existe a escola, etc.

Tomás Podstawski: Sim, é uma dinâmica diferente. A Federação tem feito um grande trabalho e felizmente no Porto também tínhamos um apoio do departamento de psicologia, que nos apoiava nessas logísticas e nos horários escolares. A nossa escola também foi uma escola que sempre esteve aberta em cooperar com jogadores de alto rendimento. E isso ajudou imenso para que durante essas ausências continuássemos a ter um acompanhamento escolar bom. Tínhamos os portáteis no estágio e íamos acompanhando alguma informação e os professores ajudavam-nos quando voltávamos. Não era fácil, mas conseguíamos manter notas médias, não muito boas, mas não chumbávamos. Mas não era mesmo nada fácil, era muito tempo por ano que passávamos fora da escola.

Bola na Rede: Estreaste-te no escalão sénior num jogo da equipa B do FC Porto, pela mão do Luís Castro, tens alguma memória especial deste dia ou alguma recordação de como te sentiste ao longo do dia?

Tomás Podstawski: Na equipa A uma pessoa fica sempre com as memórias definidas. Há sempre muito mais ansiedade e atento. No entanto, na equipa B éramos todos maioritariamente miúdos, da minha idade, por isso não foi difícil a adaptação. Foi um processo natural, uma extensão do percurso de formação após os juniores. Claro que jogar na Segunda Liga foi diferente e foi ótimo. Fiz mais de 100 jogos na Segunda Liga, mas o primeiro jogo não ficou marcado como se fosse na equipa A. Para mim, foi um continuar num escalão.

Bola na Rede: Como referiste foste um dos mais utilizados pela equipa B do FC Porto nessa altura, houve por parte dos responsáveis do FC Porto um depósito de confiança em ti com uma porta aberta para a equipa A?

Tomás Podstawski: Não. Na verdade, nunca senti isso. Nunca senti uma aposta dos jogadores da equipa B para poderes ir à equipa A. A equipa B era muito boa para nós a nível competitivo, o que eu acho é que após fazer uma ou duas épocas na equipa B teríamos de dar um salto para uma equipa da Primeira Liga, nem que fosse por empréstimo. Isso aconteceu comigo, mas talvez um pouco tarde. Houve uma fase que o FC Porto não me quis ceder, porque achava que eu ficava melhor na equipa B, quando eu já tinha sido campeão da Segunda Liga pela equipa B. Por isso sim, nunca senti esse suporte de alguém que me dissesse que ia para a equipa A. Até porque acontecia muito que os jogadores da equipa A, que não eram utilizados regularmente, vinham rodar para a equipa B. Mas isso é normal, o que não pode acontecer foi aquilo que aconteceu nos primeiros anos connosco que vinham sempre 5/6 jogadores da equipa A e que acabam por tirar espaço ao jogador jovem. Faltou também a oportunidade de ter 2/3 jogadores da equipa B para treinarem regularmente com a equipa A e isso facilitava a adaptação. Eu fui chamado para treinar com a equipa A muito de vez em quando.

Bola na Rede: Acredito que por um lado sintas gratidão ao FC Porto pelas ferramentas que te deram na tua formação, mas há alguma mágoa por ter falhado essa confiança em teres uma oportunidade de jogar pela equipa A?

Tomás Podstawski: Nós claro que sonhamos sempre em chegar e ficar na equipa A. No entanto, quem está no comando dessas decisões tem sempre justificações para elas. O facto de nós estarmos na equipa B e termos feito uma grande época, sendo jogadores internacionais não chegou para que dessemos o salto para a equipa A. Houve outros jogadores portugueses que conseguiram e ainda bem, gostava que tivessem dado ainda mais. Agora vê-se mais aposta, há mais jovens a treinar com a equipa A. Acho importante haver sempre 2/3 jogadores bons da formação a treinar sempre com a equipa A. E nós na altura não tivemos isso. Estou muito contente por todo o trajeto que tenho no FC Porto, não tive a oportunidade de integrar a equipa A, mas não havia espaço para todos. Se eu gostava muito? Gostava. Se fico magoado? Isso é sempre muito subjetivo porque vão haver outras opiniões que dirão que eu não tinha espaço para estar lá e há que respeitar. Embora um jogador queira sempre chegar ao máximo patamar, infelizmente não deu.

Bola na Rede: Falando até num feito que atingiste nesse percurso, seres campeão da Segunda Liga pelo FC Porto B, algo praticamente inédito do futebol mundial, olhando para esse plantel, tirando o André Silva, praticamente mais ninguém chegou ao patamar da equipa A e se estabilizou por lá. Vocês nesse plantel sentiam que o FC Porto na altura era dos três grandes aquele que menos abria as portas à formação?

Tomás Podstawski: Sim, sentíamos isso. No entanto, também era a formação que obtinha mais títulos. E por isso era difícil. O tempo passa e se olharmos já passaram seis, sete anos desde que eu entrei na dinâmica de equipa B. Entretanto, já muita coisa mudou. O Sporting CP é um clube que tradicionalmente aposta muito na formação, mas só ganhou agora um campeonato passado 19 anos. O FC Porto é um clube com uma mentalidade diferente que só pensa em ganhar e que tem essa responsabilidade de ser campeão, por isso eles olham sempre para o nível competitivo dos seus jogadores. Por isso eu digo que também é difícil pedir que o FC Porto apostasse em nós e quisesse continuar a ganhar ao mesmo tempo. Se era possível fazer de outro forma? Eu acredito que sim. No entanto, também entendo que não podiam lançar tantos jovens, porque é difícil ter o melhor dos dois mundos, ganhar e apostar nos jovens. Mas acho que essa gestão neste momento está a ser melhor para os jogadores da formação.

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