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Já habituado a jogar com o número 10 nas costas e a utilizar a braçadeira de capitão, Zeca Rodrigues é um caso de estudo interessante. Em exclusivo ao Bola na Rede, o médio português naturalizado grego falou acerca da sua carreira: a formação como Ganso em que até começou como avançado, o salto para o Vitória FC onde se estreou na Primeira Liga e foi importante num jogo da Taça de Portugal, a ida para o Panathinaikos em que teve uma estreia em grande no dérbi da capital grega contra o Olympiacos, a chamada à seleção helénica e o primeiro campeonato conquistado na carreira pelo FC Copenhaga.
– Início como Ganso –
Bola na Rede [BnR]: O Bairro do Zambujal no município da Amadora foi onde começaste a dar os primeiros pontapés na bola. Que memórias tens dos tempos de infância?
Zeca Rodrigues [ZR]: Lembro-me que nessa altura no Bairro do Zambujal era uma loucura, porque vínhamos todos para a rua, jogar à bola e havia cinco, seis equipas de futebol de fora ou até mais à espera para rodar. Jogávamos todos contra todos, mais velhos contra mais novos, não havia idade, e foi aí que aprendi a jogar, ganhar um pouco de competitividade e a não gostar de perder (risos). Viver e jogar lá foi muito importante, porque me ensinou muita coisa que trago comigo até hoje.
BnR: Quais eram os teus ídolos de infância?
ZR: Os meus ídolos de infância sempre foram o Ronaldo “O Fenómeno”, o Zidane e o Rui Costa. Adorava vê-los jogar e tentava de certa forma imitar alguns dos lances que faziam quando jogava no Bairro.
BnR: Como é que vais parar ao Casa Pia AC?
ZR: Na altura, eu tinha um amigo no Bairro que era o Fábio, que já jogava no Casa Pia. Certo dia, estávamos juntos e ele disse: “Tenho de ir treinar, mas tu tens de vir comigo fazer uma experiência para ver se gostas”. E eu respondi: “Nem sequer tenho botas nem nada, só uns ténis” (risos). Ele insistiu para ir e que isso não era problema, então lá fui. Os treinos nesse tempo eram no Pina Manique em Belém, faço o primeiro treino, gostaram de mim e quiseram ficar logo comigo, tanto que pediram para trazer o bilhete de identidade para a minha mãe assinar o papel que me deixava jogar. Foi ele que me incentivou a ir jogar, pois já estava mais comprometido com o futebol, e motivava-me sempre para ir aos treinos. Depois comecei a ir treinar, a ganhar o gosto pelo treino, fazer amigos e gostava da competição e dos jogos ao fim-de-semana, e assim passei a levar o futebol cada vez mais sério. Foi ele o principal responsável pelo meu ingresso no Casa Pia.
BnR: Na formação, já jogavas como médio ou ainda foste testado noutra posição pelos teus treinadores?
ZR: Na minha formação até aos 13/14 anos, antes de começar futebol de 11, jogávamos futebol de 7, eu era o avançado da minha equipa.
BnR: A sério?
ZR: Sim, e por acaso, marcava muitos golos (risos). E é nessa altura, quando estava no futebol de 7, que o Sporting me chamou para ir fazer umas captações e estive lá uma semana a treinar. Foi nesse momento que comecei a acreditar mais que podia ser jogador, já que o Sporting teve interesse em chamar-me para ir lá treinar. Quando subo aos iniciados, vieram para o Casa Pia jogadores emprestados do Sporting, inclusive um avançado muito bom que se fartava de marcar golos, e comecei a ir mais para médio-centro, extremo e fui fazendo o resto da minha formação assim, e a partir daí foram sempre as minhas posições.
BnR: Jogaste ao lado do Pedro Santos e Diogo Salomão nos juniores. Vocês os três juntos eram o “trio” temido pelos adversários?
ZR: Nessa altura, eu já só estava a jogar como médio, e eles a extremo. O Pedro, que por sinal é o meu melhor amigo, e o Diogo eram mais temidos pelos adversários, pois eram jogadores fortes no um para um, rápidos e viam muita qualidade neles. Eles sim eram muito temidos, eu era mais um jogador que corria para trás e para a frente, recuperava e dava-lhes a bola para eles fazerem acontecer, marcar golos e assistirem (risos).
BnR: Tens alguma história com eles?
ZR: Sim, lembro-me que nesse ano fomos a única equipa na fase regular a ganhar ao Sporting. Vencemos por 3-1, em que o Pedro Santos marcou dois golos e o Salomão o outro. Nessa altura, a equipa do Sporting tinha o Rui Patrício, Daniel Carriço, Tiago, Fábio Paím, João Martins…era uma equipa cheia de craques.
BnR: Uma vitória em grande certo?
ZR: Exato, ainda para mais foi a única derrota deles nesse ano, e para nós foi quase como ganhar o campeonato (risos). Tínhamos uma bela equipa e os adversários que jogassem contra o Casa Pia, sabiam que iam enfrentar uma equipa forte e que tinha, pelo menos, quatro ou cinco jogadores que se via que eram de outro nível e que podiam chegar a fazer carreira no futebol.
BnR: É ainda no clube lisboeta que te estreias como sénior. Quantas épocas estiveste lá e como é que terminaram?
ZR: Fiz três épocas nos séniores. Na primeira, fomos campeões na Distrital e vencemos a Taça (da Associação) de Lisboa. Na segunda época, na III.ª Divisão, ficámos em segundo e subiu o Camacha. No ano a seguir, ganhámos nós o campeonato e subimos à II.ª Divisão, e é nessa altura que saio do clube.
– Por terras sadinas –
BnR: No verão de 2010 assinas pelo Vitória FC. Tendo em conta a realidade de que vinhas, quais as maiores dificuldades sentidas nos primeiros tempos?
ZR: As maiores dificuldades que tive nessa altura foi mesmo o ritmo de jogo e a quantidade e qualidade dos treinos, porque eram muito mais difíceis, competitivos e fortes, exigiam mais de mim, então tive ali um momento de adaptação que me custou um bocadinho, pois vinha de outra realidade em que os treinos não exigiam assim tanto de mim. A velocidade de jogo era completamente diferente, tinha menos tempo para pensar e acontecia tudo mais rápido, mas felizmente tive colegas e um treinador que me deu muita confiança, o Manuel Fernandes, e assim foi mais fácil para mim e não levou assim tanto tempo para me conseguir afirmar.
BnR: O técnico Manuel Fernandes acaba por ter um papel importante na tua adaptação. De que forma é que ele te ajudava nos treinos?
ZR: O Manuel Fernandes teve o papel mais importante possivelmente na minha carreira. Ele e o filho, o Tiago Fernandes, que já era adjunto dele. Ajudava nos treinos porque me dava a confiança para fazer aquilo que achava melhor, não metia nenhuma barreira. Ensinava-me muitas coisas, o posicionamento em campo, a forma de defender que na altura era completamente diferente, e era um treinador que nunca desistia de mim e estava sempre à procura que fosse melhor, e quando as coisas são assim, é mais fácil, tens mais confiança, estás mais disposto para trabalhar e aprender, e sabia também que aos poucos estava a apostar em mim, então ajudou-me muito nessa altura a ter a confiança necessária para conseguir jogar.
BnR: A tua estreia no campeonato foi frente ao Marítimo. Qual foi o resultado? E foi um sonho concretizado poder jogar na Primeira Liga?
ZR: Foi um sonho realizado sim. Na Madeira, até comecei no banco e entrei na segunda parte, e recordo-me que quando entrei, o coração estava com um batimento acelerado por causa da emoção, até porque o ritmo no jogo era diferente, estava também muito ansioso, e quando corria, qualquer pique que fizesse parecia que estava numa maratona. Foi um sonho jogar na Primeira Liga e vencemos por 0-1 com um golo do Jaílson. Foi fantástico, lembro-me de pensar na viagem de regresso que tinha realizado um sonho, ainda para mais com uma vitória.
BnR: Apanhas um balneário repleto de colegas experientes como o Zé Pedro, Hugo Leal e Neca. Quais foram os melhores conselhos que recebeste desses jogadores?
ZR: Na altura, era um dos mais novos, mas o meu grupo era eu, Hugo Leal, Zé Pedro, Neca, Ricardo Silva e o Paulo Regula, que é um ano mais novo que eu. Estávamos sempre juntos, e o que nos diziam era para trabalharmos a cada dia, não levarmos as coisas num modo de garantido, aprendermos as coisas do futebol em termos táticos, a ler e perceber melhor o jogo e que iam estar ali aquele tempo todo para nos ajudar e apoiar. Então isso ajudou-nos muito, foi importante para nós porque sabíamos que tínhamos aqueles jogadores ao nosso lado, nos treinos estavam sempre a puxar por nós e davam-nos confiança. Naquela altura, tinha o Hugo Leal que vivia em Lisboa, eu e ele éramos os únicos a morar em Lisboa, e, ao fim de uma semana a treinar no Vitória de Setúbal, ele viu-me na ponte 25 de Abril e pergunta “Tu vives em Lisboa pá?” e eu disse que sim. “Então vamos passar a vir juntos”, porque na altura ele sabia que ganhava muito pouco, e os gastos com gasolina e portagens eram altos, então tomou a ideia: “Vamos começar a ir juntos, uma semana levo eu o carro, na outra levas tu” e assim aconteceu um ano todo com o Hugo Leal, e depois fiquei muito amigo dele. Cheguei a ir a casa dele, e dava-me sempre conselhos em termos de dinheiro: “Zeca, quando começares a ganhar o teu dinheiro, não comeces a gastar como certos jogadores que compram logo carros e muitas coisas”. Foi uma pessoa muito importante para mim nessa altura.
BnR: Além de companheiro de viagens, o Hugo Leal era teu parceiro de meio-campo. O que aprendeste com ele?
ZR: Era incrível. Aprendi muito, tentava olhar para ele e perceber as coisas que ele fazia porque ele, o Neca e Zé Pedro ali do meio-campo para frente eram muito diferenciados dos outros. Mas o Hugo Leal era aquele que me enchia as medidas, porque ele pensava muito mais rápidos que os outros, via as situações mais rápido que os outros e apercebia-se do que ia acontecer mais rápido que os outros e depois com a bola nos pés era incrível. Uma vez num treino, ele na brincadeira comigo…estava um pouco “chateado” porque o treino não estava a correr bem, e diz assim “Epá ó Zeca, vou passar o resto do treino só a utilizar o pé esquerdo”. “Só com o pé esquerdo? Se eu faço isso, caio” (risos). Depois começo a vê-lo só a jogar com o pé esquerdo, e parecia que estava a treinar com o pé direito. Aí vês a qualidade e por onde ele passou, os clubes onde jogou e podia ter tido uma carreira maior e melhor que, por uma ou outra razão não a teve, mas tinha muita qualidade.
BnR: Acabas por realizar 32 partidas nesse ano em Setúbal. Estavas à espera de ser utilizado regularmente, visto que era o teu primeiro ano na Liga?
ZR: Na altura, nem sabia e esperava que isso me ia acontecer. Nessa altura cheguei a pensar que a minha meta era fazer 10 a 12 jogos ou a titular ou a entrar a partir do banco, e já era uma coisa muito boa para mim vindo da realidade que tinha vindo, e quando vejo no final da época que fiz 32 jogos e metade deles foram a titular, fiquei super contente e estava orgulhoso. Mas também a meio do ano fui percebendo que podia jogar mais, se melhorasse um pouco mais, ia ter mais oportunidades, sendo assim difícil tirarem-me da posição que tanto custou a conquistar, e isso foi uma das coisas que meti na minha cabeça, fui trabalhando sempre mais e mais, mas também tive a sorte de ter treinadores que apostaram em mim, primeiro o Manuel Fernandes e depois o Bruno Ribeiro.
BnR: Num desses jogos, fazes um golo ao Sporting para uma eliminatória da Taça de Portugal. Ainda te recordas desse lance? Em que medida foi importante esse golo?
ZR: Recordo-me desse lance, e é engraçado porque há uns dias o Vitória de Setúbal pôs na sua página de Instagram o vídeo do golo e lembro-me que eliminámos o Sporting, e eu como sportinguista também, acabamos por conseguir esse feito. Foi uma alegria imensa, lembro-me de ter feito o golo e como no dia a seguir não ia haver treino, fui sair com os meus amigos para comemorar a vitória e o golo, porque eles sabiam que não era muito de fazer golos (risos). A partir daí, a comunicação social começou a dar mais ênfase à minha história e a tentar conhecer-me melhor, começou tudo ali de um momento para o outro tudo rápido a falar para os jornais, coisa que não fazia muito, e aí comecei a perceber o futebol e de que modo os teus jogos e a tua forma como jogas podem influenciar as pessoas e ajudar também.
🎯 11 de dezembro de 2010. Depois do golo inaugural de Ney, Zeca dilatou a vantagem vitoriana, que iria culminar no triunfo (2-1) sobre o Sporting nos oitavos-de-final da Taça de Portugal. Qual o sentimento ao rever este golo? ⚽️🥅🐬
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— Vitória Futebol Clube – Oficial (@oficialvfc) April 27, 2020
– Carreira no Panathinaikos –
BnR: Verão de 2011 e dás mais um salto, mas desta vez para a Grécia. Sentias-te preparado para esse desafio, uma vez que tinhas apenas um ano de Primeira Liga? E como é chegar a uma equipa recheada de estrelas?
ZR: De verdade, não achava que estava preparado, mas a oportunidade chegou e era bom para mim. Ia para um clube que lutava para ser campeão e ia às competições europeias, e então pensei: “Apareceu agora esta oportunidade, não sei quando pode voltar a aparecer uma igual, vamos agarrá-la com unhas e dentes e dar o máximo para conseguir ter sucesso ali”. E quando lá cheguei, é que vi realmente a qualidade do plantel era elevadíssima com grandes jogadores: jogadores que ganharam o Euro 2004, que jogavam na seleção francesa, atletas que jogaram no Liverpool, jogadores que ganharam o Mundial como o Gilberto Silva. Na altura em que cheguei, ele saiu ao fim de uma semana, mas ainda convivi com ele e só pensava: “Não acredito que estou no balneário com o Gilberto Silva que jogou no Arsenal e venceu o Mundial” (risos).
BnR: Uma realidade totalmente nova daquela que tinhas vivenciado até então, onde o Jesualdo Ferreira também teve um papel importante certo?
ZR: Completamente diferente, não esperava para ser sincero chegar ali e ver aquele balneário, ver aqueles jogadores que estás habituado a ver na televisão e que costumam ganhar coisas importantes. Com o passar do tempo, também com o professor Jesualdo Ferreira que apostou em mim desde o início e foi o melhor treinador que tive até hoje. Acho que posso dizer que tudo o que sei hoje no futebol e a maneira de ver o jogo foi por causa do professor Jesualdo Ferreira, e pôs-me naquela equipa e com aqueles jogadores, fui aprendendo cada vez mais, os treinos eram de um nível superior, os jogadores também e eu nesse caso só podia melhorar, e se isso não acontecesse é porque alguma coisa estava errada comigo ou não estava a fazer as coisas como deve ser. Mas tinha tudo para melhorar, os treinadores eram portugueses e falavam a minha língua, numa altura em que ainda não falava inglês, por isso foi uma grande ajuda.
BnR: E qual foi a melhor lição que recebeste dele?
ZR: A melhor lição que ele me deu foi a receção orientada, pois perdeu muito tempo comigo para eu fazê-las bem, já que quando recebia a bola estava sempre de costas para a baliza adversária, nunca metia o meu corpo de uma forma que pudesse tanto ir para trás ou para a frente. O meu primeiro controlo era sempre para trás e depois tentava-me virar, e ele levou muito tempo comigo, parava os treinos e ensinava-me a forma de meter o meu corpo, a forma de estar em campo e tentar sempre mexer a minha cabeça, olhava para um lado e para o outro, ver onde é que estavam os adversários, onde podia receber a bola e daí fazer o controlo orientado e isso foi das coisas que me fez melhorar muito. Hoje estou muito grato que ele me tenha ensinado isso porque vejo que esse pormenor é metade do futebol, a receção e perceção de onde estás no campo e onde estão os adversários é metade do trabalho feito.

BnR: Além do Seitaridis, tinhas no meio-campo a companhia de Katsouranis e Karagounis que passaram pelo campeonato português. O que aprendeste com eles em termos de adaptação ao campeonato e perceção de jogo?
ZR: No meu início, lembro-me que o que eles queriam fazer era que me sentisse bem e fosse aprendendo um pouco de inglês porque eles podiam dizer-me como é que se diziam as coisas em português, e foi mais nessa de me fazerem sentir bem e parte da equipa. Depois foi explicar como era o campeonato, a história do clube, a história dos dérbis contra o Olympiacos, eles também viam que eu estavam a melhorar cada vez mais e muito rápido. O que me ajudavam muito era em campo, chamavam por mim para posicionar ali, vir para aqui, ou seja, situações do jogo normal. Quando os jogos terminavam, o Katsouranis vinha falar comigo e dizia “Lembras-te daquele lance ali, ali e ali? Tens de fazer isto, fazer aquilo, fechar mais por dentro, estar mais aberto”. Quando por vezes o lateral metia a bola no Katsouranis, eu já sabia que ele ia meter de primeira nas costas do defesa, porque nessa altura jogava a extremo quando cheguei ao Panathinaikos, e ele dizia-me “De oito em dez vezes, a bola vai entrar nas costas do lateral porque sei que as defesas não estão tão orientadas e organizadas, e como tu és mais rápido que eles, os jogadores que estão na frente são mais rápidos, portanto quando a bola vier do lateral, prepara-te para correr nas costas. Não olhes para mim, não olhes para mais nada, quando a bola está no meu pé, saí a correr”. Na maioria das vezes, pegava os defesas de surpresa mesmo eles sabendo, aquilo era tão rápido…a bola chegava e já estás a fazer o movimento que depois aparecia muitas vezes em situação de golo ou de fazer a assistência. E pronto, ele puxava por mim, sentava-se ao meu lado e explicava as coisas.
BnR: Foi um apoio importante no início da aventura no Panathinaikos.
ZR: Sim, e, depois disso, continua a ser. Quando tenho jogos da seleção, ele vem ter comigo ao hotel e falamos sobre a vida e de futebol, por causa da seleção, para me dizer algumas coisas, o que podia ter feito melhor, que estive bem ou que fiz um grande jogo. Até hoje, falamos muito.
BnR: Qual era o teu estado de espírito na estreia no dérbi Olympiacos vs Panathinaikos? Ainda para mais, com um golo…melhor estreia era impossível certo?
ZR: É engraçado falares nisso, até porque nesse dia estávamos no centro de treino, e quando estamos a ir para o autocarro para irmos para o estádio, entro no autocarro e não consigo parar de tossir. Tossia, tossia e tossia, e o Jesualdo, ao fim de 10 minutos de me ouvir tossir, sai da parte da frente do autocarro, vem ter comigo e diz assim: “O que é que se passa? Estás com medo de jogar? Com medo do jogo? É que se tiveres com medo do jogo, diz-me já que não te ponho a jogar!” – porque já sabíamos quem é que ia jogar – “Não te ponho a jogar e mudo-te já!”. E eu, meio a tossir, respondi: “Não mister, está tudo bem” (risos). “Então vê lá se bebes água e pões-te como deve ser que isto não é uma guerra, não é nada de mais, é um jogo.”. “Ok mister”. Ele começa a andar para o seu lugar, mas vira-se para mim e volta a frisar “Se não tiveres bem, diz-me que te tiro logo!” (risos).
BnR: Os nervos a falarem mais alto (risos)
ZR: Ali comecei a acalmar-me um pouco mais, apesar de continuar a tossir, e quando chego ao estádio e vamos para o aquecimento. Nesse momento, quando piso o relvado e vejo aquele ambiente todo, desapareceu tudo! Não sei o que me aconteceu, mas fiquei calmo, estava muito focado no jogo, aquela ansiedade toda desapareceu e estava tranquilo. E em relação ao golo, se fores ver esse lance, o golo acontece da forma como expliquei antes: vinda do lateral, o Katsouranis mete uma bola por detrás das costas da defesa para o Quincy – que foi o jogador mais rápido com quem já joguei até hoje, uma autêntica “flecha” (risos) – e quando a bola está a ir na direção do outro extremo, vejo que ele sai a correr e digo para mim “Este gajo só pode ganhar a bola, porque ele é mais rápido”. Então, eu saio da outra ponta a correr, ele mete a bola perfeita para o primeiro poste, e de carrinho faço o primeiro golo.
(Resumo do jogo – Golo aos 0:49)
BnR: E qual a sensação de fazer o golo ao rival?
ZR: Foi incrível, um sentimento espetacular. O meu primeiro golo pelo Panathinaikos na casa do Olympiacos, o eterno rival, foi demais. E foi a partir desse momento que as pessoas começaram cada vez mais a gostar de mim e adorar-me mais. Passei a ter uma relação diferente com os adeptos depois desse dia e desse golo.
BnR: No Panathinaikos, és utilizado a 6 e 8. Em qual destas posições te sentias mais confortável a atuar?
ZR: Houve uma altura em que me sentia confortável a jogar a 8. Nos dois primeiros anos no Panathinaikos, sentia-me muito bem a jogar nessa posição. Depois veio outro treinador, colocou-me a jogar ao lado de outro colega, só que era o que tinha menos liberdade para atacar. E a partir desse momento comecei a gostar mais de estar ali atrás a criar mais jogo, pois um dos meus pontos fortes que posso dizer que tenho é na recuperação à perda da bola, acho que sou muito forte nisso, então começava a posicionar-me para saber onde é que a bola ia cair e o que é que ia acontecer, e conseguia ganhar muitas bolas, estava sempre em jogo e criava jogo, comecei a gostar cada vez mais e a tentar ser melhor nessa posição que agora só me vejo a jogar nessa posição de 6.
BnR: Em 2013/2014, passas a usar a camisola número 10 e a braçadeira de capitão. Sentiste o peso da responsabilidade de envergar um número mítico e ser o líder do balneário?
ZR: Por acaso, confesso que na altura não queria o número. Inclusive, quando chego ao Panathinaikos, o 10 estava disponível e lembro-me do meu empresário Carlos (Gonçalves) me perguntar: “Estão me a perguntar pelos números, qual é o que queres?”. E eu “Quais são os disponíveis?” “O 10…olha, porque não metes o 10 nas costas?!”. Disse logo “Não Carlos, o 10 é muito peso para esta altura, deixa-me estar” (risos). Havia o 17, e como no Vitória tinha usado esse número, fiquei com ele. Depois, ao fim de dois anos, quando subo a capitão de equipa, não tive escolha para o número, o treinador acabou por eleger os números da equipa, porque esteve muitos anos na Holanda e lá fazem muito colocar o onze inicial com os números de 1 a 11, e na altura, ele disse que ia ser o número 10, que não tinha hipóteses de escolha e iria jogar com esse número e ser o capitão de equipa. Foi nesse instante que pensei “Tenho aqui um osso duro de roer” (risos). Porque quando as coisas não correm bem, tens de dar a cara pela equipa.
BnR: Assumir a responsabilidade pela equipa, como se costuma dizer.
ZR: Sim, e não é nada fácil. Os adeptos podem ser os melhores do Mundo, mas às vezes podem ser os piores, não há ali meio-termo. Foi altura de muita pressão, o clube estava numa fase de transição em que saíram muitos jogadores, e de repente a maioria do plantel era das camadas jovens, e a equipa era completamente nova, e estava a ver que podia ser um ano difícil, mas felizmente até acabou por ser um ano positivo para nós.
BnR: Nessa mesma época, conquistas a Taça da Grécia. Quão importante foi para ti e para o clube conquistar esse título?
ZR: Para mim, foi muito importante pois era o meu primeiro troféu que ganho na carreira. E foi incrível a forma como ganhámos a Taça por 4-1 contra o PAOK, foi espetacular. E como capitão poder levantar a taça, acho que podes imaginar que foi uma sensação muito boa. Um sentimento único e nessa altura lembro-me de ter pensado na minha família e nos amigos que estavam em Portugal. Conquistar algo após três anos neste clube que tanto merecia, e já há quatro anos que não ganhava nada, e as pessoas, tanto do clube como os adeptos, estavam à espera de vencer algo para dar algum alento devido aos problemas financeiros que começávamos a ter. Foi uma “lufada de ar fresco” para a equipa.
BnR: Os gregos são caraterizados pela forma apaixonada com que vivem o futebol. Tens algum episódio marcante?
ZR: Não consigo escolher apenas uma, pois tive várias situações, boas e más, mas na realidade quero-me lembrar das positivas. Recordo-me de entrar no Estádio Olímpico de Atenas num jogo frente ao Olympiacos, e estarem 68 mil pessoas, só Panathinaikos.
BnR: Uma sensação espetacular, imagino…
ZR: Foi incrível, o estádio todo a puxar por nós do primeiro ao último minuto, o ambiente super fervoroso. Sinceramente, não passa pela cabeça de ninguém! Não paravam um minuto, e isso dá-te um boost enorme e uma força incrível. Também me recordo do último jogo que fiz pelo Panathinaikos contra o Athletic Bilbau, em que começaram a cantar o meu nome em todo o estádio, e ainda não sabiam da proposta, nem mesmo eu, para ir-me embora, e cantarem o meu nome foi espetacular. E outra situação foi quando ganhámos a Taça, em que fomos ter com os adeptos, saltaram das bancadas para vir festejar connosco e não criaram problema algum, só queriam era celebrar com a equipa e foi lindo. Outro episódio foi quando vencemos o Olympiacos por 0-3 na casa deles, em que se eles vencessem o jogo, eram campeões. Nós podíamos ter feito parte da festa, só que conseguimos impedir, e, na chegada ao centro de treinos, tínhamos sem exagero 1500 adeptos à nossa espera, e fomos obrigados a fazer 3,4 kms a pé para chegar ao centro de treinos.
BnR: Loucura total (risos)
ZR: Para tu veres, os adeptos decidiram fechar com os carros e tudo, para a equipa sair mesmo do autocarro para nos abraçarem e fazer a festa. Houve jogadores que foram levados em braços e tudo! (risos).
BnR: Atendendo ao teu percurso no Panathinaikos, sair do clube foi a decisão mais difícil que tiveste de tomar até hoje?
ZR: Foi sem dúvida. Sabia que tinha uma semana para me decidir até ao mercado de transferências fechar, e percebi que na altura o clube precisava de dinheiro, também não vou ser mentiroso, porque para mim era melhor financeiramente, e houve um momento em que percebi que o clube necessitava de dinheiro e tinha de me vender. Mas eu mesmo assim, continuava a dizer “Não sei se eu quero sair” e o meu coração diz-me uma coisa e a cabeça outra. A cabeça dizia “Zeca, vai que será melhor para ti e tua família”, mas o meu coração estava ali no clube. Fazia parte daquilo e já tinha idealizado não jogar por mais nenhum clube, inclusive acabar ali a minha carreira. Foi complicado e lembro-me que no dia em que assinei e fui-me despedir dos colegas, chorei o dia todo. Não me conseguia aguentar e dizer “Adeus” às pessoas do clube com quem tenho uma grande relação com elas, e vê-los chorar por mim, pedirem-me para não ir ou, se fosse, para nunca os esquecer e ir dando notícias, que eles iam fazer o mesmo. E só por isso podes perceber o nível de amizade forte que tenho. Até tenho duas pessoas no clube, uma é a Maria que digo que é a minha “mãe grega” e outra que é o senhor Gregory que chamo como “pai grego”, e sempre que lhes ligo, é uma alegria imensa. São duas pessoas importantes, falo muito com eles e sabem muita coisa da minha vida que passei e ainda hoje passo, ligo-lhes e conto tudo, então são pessoas muito importantes. Devido a tudo isso, foi muito difícil sair do clube.
BnR: Tiveste seis épocas na Grécia, fazes 248 jogos e eras muito acarinhado pelo público. Sentes que conseguiste conquistar um lugar no Olimpo?
ZR: Por um lado posso dizer que sim, mas por outro não e vou explicar porquê. O porquê de dizer que sim, foi pela forma como me entreguei ao clube e pelo amor e carinho que as pessoas têm por mim, e saber que consegui ser o terceiro jogador estrangeiro com mais jogos no clube, e isso quer dizer muita coisa. Mas por outro lado, digo que não por não consegui conquistar aquilo que eu queria, que era mais campeonatos e mais taças. Mas sinto que no coração dos adeptos do Panathinaikos, não sei tanto na história do clube, fiquei na história.
– Naturalização pela Seleção Grega –
BnR: No Panathinaikos, eras utilizado com regularidade e a fazer boas exibições, embora não tenhas sido chamado à Seleção. Ninguém da Federação chegou a falar contigo para seres convocado? Pode ser um tema delicado de falar…
ZR: Não, ninguém chegou a falar comigo e não é um tema delicado muito sinceramente, pois consigo ver e perceber que a qualidade de opções na seleção portuguesa era imensa. Acredito que podia ter tido uma oportunidade nessa altura, talvez ser chamado para um estágio para um particular, confesso que acredito que poderia ter sido chamado a certo ponto. Nunca aconteceu, não guardei mágoa e nem fiquei muito triste, não pensava nisso a toda a hora. Houve uma altura em que pensei que poderia acontecer, mas o tempo foi passando e eu sabia que já não ia acontecer. A qualidade na seleção continuava a crescer com novos jogadores, jovens com muito potencial e em grandes clubes. Também tens de tentar perceber em que situação é que estás e em que situação os outros estão e reconhecer que a qualidade era muita. Então isso não me faz sentir triste ou magoado com alguma coisa.
BnR: Como surgiu a possibilidade em naturalizares-te como grego?
ZR: Surgiu através de uma conversa com o presidente do Panathinaikos. Tinha uma relação muito boa com o presidente, e ele estava sempre a dizer “Vais ficar aqui para sempre, vais viver aqui” e pergunta por que não trato da minha naturalização. Eu disse “Não tenho problema nenhum. Posso naturalizar-me grego”. “Aí é? Então pronto!”. Passado umas semanas, ele liga-me e diz “Olha Zeca, preciso disto, disto e uns papéis para dar entrada para o passaporte”. Achei estranho e disse “A sério? Você está mesmo a falar a sério?”. “E tu não estavas a falar a sério?” pergunta ele. “Sempre achei que estava na brincadeira comigo” disse (risos). “Fica descansado que vou tratar de todas as coisas, vou colocar os papéis”, e assim aconteceu. Na altura, já conseguia falar bem grego, sentia-me como um deles, e quando o treinador da seleção grega, na altura era o alemão Michael Skibbe, se apercebeu que estava a tratar do passaporte, ligou-me e perguntou se podia tomar um café para conversar comigo. Nessa conversa, ele disse-me assim: “Tu estás a fazer o passaporte e nós queremos que tu jogues pela seleção. Tu queres Zeca?”. Respondi “Eu quero, se me derem essa oportunidade”. “Então vamos ajudar com o processo do passaporte, para que as coisas sejam mais rápidas e assim puderes jogar o mais rápido possível pela seleção grega”, e assim foi. Na altura, três semanas antes de receber o passaporte, a Grécia teve dois particulares na Austrália contra a seleção australiana, e o treinador fez um pedido à FIFA a ver se eu podia ir com o grupo e jogar, pois, o passaporte estava a sair, tinha passado no teste e só faltava isso, mas a FIFA não permitiu. Depois o passaporte veio e acabei por ser chamado à seleção. Foi um momento especial e único, saberes que não nasceste no país, mas as pessoas vêm-te como um grego, tratam-te bem e dão-te oportunidade de representar o país deles, e sinto que isso é das coisas mais bonitas que tu podes conseguir no futebol. O amor e carinho de um país que tanto querem que jogues pelo país deles.

BnR: O facto de teres aceitado o convite para representar a Grécia pode ser visto como uma forma de agradecimento por tudo o que fizeram por ti no Panathinaikos?
ZR: Sim, representar a seleção grega, a partir do momento em passou a ser uma possibilidade, era uma forma de agradecer ao Panathinaikos, à Grécia e por incrível que pareça, eu sentia o carinho do povo porque até os adeptos do Olympiacos chegavam ao pé de mim e diziam “Eu sei que és do meu clube rival, mas eu olho para ti e vejo que dás tudo pela tua equipa. Gosto da tua forma de jogar, do teu caráter, da pessoa que és e do que demonstras”. Então aí já começavas a perceber que até os adeptos do clube rival gostavam de ti, e os gregos sempre foram espetaculares comigo. Eu tinha essa “dívida” para com eles, de tentar fazer com que se sentissem orgulhosos de mim por me terem deixado representar o país deles.
BnR: A estreia foi frente a Bélgica. Que tal foi essa noite?
ZR: Por acaso, foi uma noite tranquila (risos). Na noite antes dos jogos, é tranquilo pois sou um jogador que não fica a pensar como vai ser o jogo, confesso que levo as coisas de uma forma tranquila. O “problema” foi quando saímos para o jogo, ali começa a vir a adrenalina toda e não é fácil, mas como também já sabia que ia para o banco de suplentes e nem sabia se ia entrar, mas estava muito feliz por realizar um sonho de poder jogar por uma seleção, e ainda para mais poder jogar contra uma seleção forte para uma qualificação para o Euro, e ter a ideia de que poderia jogar um Europeu era incrível. Lembro-me da altura em que oiço o hino nacional grego e canto-o, tive o mesmo sentimento quando me estreei pelos sub-23 de Portugal a cantar o hino nacional português, arrepiei-me da mesma forma e senti as mesmas coisas. Na altura de estar a cantar o hino, lembrei-me do meu pai, que faleceu quando tinha 10 anos, e o quão orgulhoso ele estaria, e isso mexeu muito comigo e com as minhas emoções. Na altura em que acaba o hino, os meus colegas ficam perplexos a olhar para mim e dizem “Sabes cantar o hino?”, pois não estavam à espera de que eu conseguisse cantar o hino como eles. E foi por pouco que a minha estreia não foi vitoriosa, já que estivemos a ganhar até ao fim, mas acabamos por empatar frente a uma Bélgica fortíssima. Foi bom para nós, era a melhor a vitória, mas foi um bom resultado.
BnR: O primeiro golo pela seleção A helénica foi contra quem?
ZR: Foi precisamente contra a Bélgica, no segundo jogo em Atenas. Estávamos a perder 0-1, e nessa altura o mister pôs-me a jogar a extremo direito, lembro-me que o Tzavelas tinha a bola na esquerda, e ele tem uma capacidade de cruzamento enorme. A Bélgica jogava em 3-5-2, e o Carrasco é que estava comigo, vejo o cruzamento a partir e antecipo-me a ele, remato de primeira de pé esquerdo e faço o golo ao Courtois.
(Resumo do jogo: Golo aos 0:58)
BnR: Uma alegria enorme não?
ZR: Sim, e só me lembro realmente de correr, cair de joelhos e apontar para o céu. Pensei em toda a minha família e arrepiar-me todo, inclusivamente ter vontade de chorar. Acabamos por perder o jogo 1-2, mas foi um momento muito bom e posso dizer que sou um sortudo no Futebol, também acredito que faço por isso, mas sou um sortudo porque as coisas acontecem na hora certa e momento certo, isso faz com que seja ainda mais incrível.
BnR: A Grécia conquistou o Euro 2004 em Portugal. Existe alguma pressão dos adeptos para conseguirem voltar a repetir esse feito num futuro próximo?
ZR: Não, não há qualquer tipo de pressão. A pressão que há é de qualificarmos para o Europeu e Mundial. Em relação a isso há pressão, mas para repetir a conquista do Euro não, e acredito que os próprios adeptos saibam que é muito complicado isso voltar a acontecer. E já que tocas nesse ponto do Euro 2004, posso confessar que sofri tanto quando cheguei à Grécia (risos). Os meus colegas tinham ganho, gozavam comigo e não gostava muito, tanto que ficava chateado.
BnR: Doloroso para todos os portugueses falar nisso (risos).
ZR: Perguntavam para me picar “Então Zeca, conta lá nesse dia, o que é que aconteceu? Como é que estavas quando acabou o jogo?”. Pedia sempre para me deixarem em paz, mas insistiam para falar desse jogo (risos). Agora, já não se fala tanto nisso, e às vezes quando estou na seleção e há conversas sobre Euros, e vem à conversa o de 2004, eu viro-me para eles e digo: “Epá, eu não sei quanto a vocês, mas eu ganhei dois Euros. Ganhei o de 2004 e o de 2016 com duas seleções diferentes, por isso estou melhor que vocês” e depois acaba ali a conversa pois desatam-se todos a rir (risos). Mas já não se fala tanto nisso, mas custou-me muito no início.
BnR: Uma das coisas que gostas sempre de vincar é que, mesmo representado a Grécia, não deixas de ser português, apesar de haver pessoas que pensem o contrário certo?
ZR: Claro, e não posso deixar de falar porque eu sou português, entendes? Há cerca de 7/8 meses, dei uma entrevista, e depois li uns comentários das pessoas a dizer que já não era mais português por ter optado jogar por outra seleção. Mas enganam-se, sou português, tenho uma filha portuguesa, o meu irmão é português, o meu pai era português, a minha mãe é africana, mas a minha vida foi passada em Portugal. Nasci em Portugal, sou português como os outros. Levo o país no coração para todo o lado que vou e tento fazer o melhor por Portugal e pela Grécia agora, pelos dois juntos. Não tive oportunidade de representar a minha seleção, mas não quer dizer que deixe de ser português ou seja menos português. E porque é que os portugueses tanto adoram o Pepe e o Deco? Lá está, são brasileiros que se sentem portugueses, não deixam de ser brasileiros, mas fizeram de tudo por Portugal. E cada vez que jogam dão o máximo por Portugal, mas não deixam de ser brasileiros. E é esse o meu caso também, tanto que em todas as entrevistas que dou na Grécia, os jornalistas costumam dizer que é o “grego português” sempre, e as pessoas sabem da minha ligação ao meu país e a ligação que tenho a eles.
BnR: Deveria ser um motivo de orgulho ver um português que partiu tão jovem do nosso país e tem tido uma carreira de sucesso lá fora.
ZR: Também acho que sim, deveriam estar orgulhosos por um português que venceu na vida. Teve um ano a jogar na Primeira Liga, foi para outro país, é adorado por um povo diferente, fez a carreira que fez e continua a fazer. Eu acho que as pessoas deveriam ter um motivo de orgulho, mas as que não tiverem cabe também a mim mudar a opinião delas.
– Experiência no Copenhaga –
BnR: Depois segue-se a mudança para a Dinamarca, onde o clima nada tem a ver com o grego. Foi essa a maior dificuldade na adaptação ao país?
ZR: Foi, sem dúvida. Aliás, foi e continua a ser (risos). Em comparação à Grécia e a Portugal, é completamente diferente. Há uma altura no Verão em que fica de dia mais tempo e anoitece às 23h, no inverno às 15h já é de noite. É um frio incrível, neve, chuva…podes ir a qualquer lado, mas como eu sofro com o frio e chuva, opto por ficar em casa e mesmo assim custa. Foi o que me custou mais, mas agora já estou mais habituado. Não tive assim muitas dificuldades na mudança, apenas essa na realidade.
BnR: A estreia pelo Copenhaga foi em grande, com um golo frente ao Midtjylland. Isso foi um bom prenúncio para o início de um novo desafio na carreira?
ZR: Sim, é sempre bom começar com um golo no primeiro jogo. Lembro-me que na altura já estava aqui há 3/4 dias, e soube que ia jogar a titular e fui considerado o melhor em campo. Marcar um golo na estreia foi um bom presságio do que estava para vir. Não nesse ano, pois esse ano foi complicadíssimo para nós, já que o Midtjylland acabou por ser campeão, conseguiu ultrapassar o Brondby na penúltima jornada, em que o Brondby nesse ano tinha sido a equipa mais forte, só que na reta final deixou-se dormir e o Midtjylland aproveitou. Foi um ano difícil em termos coletivos, mas para mim foi bom pois consegui afirmar-me e mostrar o meu valor, por isso foi importante começar bem.

BnR: Sendo um dos reforços do Copenhaga nesse ano, recebe logo a braçadeira de capitão. Como aconteceu isso? E qual foi a reação dos teus colegas?
ZR: Aconteceu ao meu terceiro jogo pelo clube. Nesse jogo, os capitães de equipa não estavam disponíveis para jogar, e o treinador chamou-me ao balneário pois queria falar comigo, e ele é muito direto e diz apenas: “Olha, vais ser capitão no domingo. Tens algum problema com isso?”. “Não tenho problema nenhum, pois fui durante os meus últimos quatro anos tenho sido capitão, mas como é que isto vai ser pelos meus companheiros no balneário?” perguntei. “Não te preocupes com isso, apenas quero saber se tu te sentes bem ou não”. “Sim, não há problema nenhum” (risos). Confesso que não sabia metade dos nomes da equipa e quando fui capitão pela primeira vez. Mas já sabia que a ideia do treinador ao trazer-me para cá era querer que, num futuro próximo, fosse capitão de equipa, mas não pensava que fosse acontecer ao fim de três jogos. E foi uma estreia horrível como capitão, já que perdemos 3-1 frente ao Lyngby. Alguns companheiros olharam para mim de uma forma estupefacta, outros vieram ter comigo e disseram “Tranquilo, não há problema nenhum e estamos contigo” e então foi fácil.
BnR: Quais são as maiores diferenças entre o futebol dinamarquês e o grego?
ZR: É muito mais físico, o jogo é sempre a correr, as equipas não param, estão bem preparadas fisicamente, existem jogadores com muita qualidade técnica. As equipas são fortes, e sinto que o jogo físico foi a maior diferença em relação ao futebol grego.
BnR: E em que é que a experiência na Grécia te ajudou para te ambientares rapidamente ao estilo de jogo dinamarquês?
ZR: O que a experiência na Grécia me demonstrou foi que eu podia jogar para onde quer que fosse e tinha de que me afirmar o mais rápido possível, e sabia que isso iria acontecer. Na realidade, o que me ajudou muito é a minha maneira de ser, a maneira de trabalhar em que os meus colegas começaram a ver que sou um jogador que trabalha para a equipa porque houve muita história aqui por causa da minha transferência, em que aparecia todos os dias nos jornais, na altura em que cheguei, durante uma, duas semanas, haviam jornalistas a querer falar comigo e os meus colegas pensavam “Este deve achar que é o Ronaldinho, uma estrela” e depois começaram a perceber que não sou desse tipo, que sou um jogador trabalhador e que joga para a equipa. Quando comecei a mostrar a minha qualidade, ganhei a confiança e amizade deles, e aqui tenho um treinador que me dá liberdade para eu criar e fazer as coisas que acho que são melhores dentro de campo. Sinto que é mesmo a pessoa que eu sou e a forma como trabalho que me faz adaptar a qualquer situação.
BnR: Na época passada, conquistas o primeiro campeonato da carreira. Era um título que já ambicionavas há muito tempo?
ZR: Sim. Na realidade, uma das coisas que me fez vir para o Copenhaga, à parte do bom contrato que ia ter, era por saber que era um clube vencedor, que lutava para conquistar campeonatos, onde na maioria das vezes acaba por acontecer, e era uma realização poder ganhar um campeonato e poder dizer que fui campeão. E o que queria não era apenas ganhar só um campeonato, era poder ganhar todos os anos em que estou aqui. Sei que é um clube vencedor e provavelmente vai ser o vencedor durante os próximos anos, e isso fez muito a diferença na minha escolha. Foi importante para mim ganhar o campeonato, ainda para mais no meu primeiro ano como capitão de equipa em que fui eleito para tal, e voltou a ser importante poder levantar o troféu de campeão, pois nunca o tinha sido e é para isso que nós também jogamos futebol, para no final da época podermos conquistar títulos e levantar os troféus como capitão, era algo que ambicionava muito e continuo a ambicionar, e sei que vou levantar mais de certeza.
BnR: Além do título, ganhas ainda o prémio de melhor jogador do campeonato. Consideras que esse foi o teu melhor ano até hoje? E estás na melhor fase da tua carreira?
ZR: Sim, posso dizer que sim, por causa dos prémios que conquistei, que foi o melhor ano da minha carreira e, para ser sincero, estou a ficar mais velho, mas sinto-me cada vez melhor e a perceber cada momento do futebol. Já não é só aquela coisa de correr de trás para a frente e para todo o lado, agora é com mais calma e experiência, e tenho vindo a desfrutar destes últimos anos e tem sido espetacular. Foi importante para mim ter sido considerado o melhor jogador da Liga no meio de tantos jogadores de qualidade, um jogador que joga na posição de 6 ganhar o prémio de melhor jogador da Liga.

BnR: Quais são os planos para o futuro?
ZR: Os planos para o futuro é mais do mesmo: voltar a ganhar o campeonato que este ano está mais difícil, não é impossível, mas sabemos que está difícil e caso não o consigamos, na próxima época de certeza voltar a vencer, jogar nas competições europeias, este ano fizemos uma boa campanha na Liga Europa que ainda estamos em competição, e não sabemos o que vai acontecer, e se passarmos esta fase, faremos história no futebol dinamarquês como a primeira equipa que neste novo formato da Liga Europa chega tão longe. Continuar a ganhar e a estar ao mais alto nível são esses os meus planos para o futuro.
BnR: Há algum sonho no futebol que tenha ficado por cumprir?
ZR: O sonho que me ficou por cumprir era ganhar um campeonato pelo Panathinaikos. Não sei se ainda vai ser possível voltar para ganhar, mas é algo que tenho atravessado em mim, que era um sonho que queria cumprir. Agora daqui para a frente o importante é viver o momento e desfrutar. Daqui a três meses, estou a fazer 32 anos e já começas a pensar em desfrutar o momento e do futebol cada vez mais e no dia-a-dia, e no final das contas quando chegar o fim da época puderes dizer que conseguiste ser campeão. E em relação a sonhos grandes, não tenho mais. Tenho uma mágoa por não ter ganho um campeonato com o Panathinaikos, tive um sonho durante muito tempo que era poder vestir a camisola do Sporting e não consegui. Agora o objetivo é estar aqui, ganhar o máximo possível enquanto estiver no Copenhaga, e depois logo se vê onde vou estar.
Ao primeiro toque
BnR: Jogador com quem mais gostaste de jogar até aos dias de hoje?
ZR: Ui, isso é complicado (risos). É complicado porque tenho três: Hugo Leal, Sebastián Leto e Mladen Petric.
BnR: Melhor golo?
ZR: Pelo Copenhaga frente ao The New Saints, na qualificação para a Liga dos Campeões, que foi um remate fora de área, a uma distância considerável, e nem sabia que consiga fazer aquilo (risos). Enchi-me de coragem, fiz o remate e foi o golo mais bonito da minha carreira.
BnR: Melhor momento da carreira?
ZR: Uf…melhor momento da carreira? É difícil escolher, pois o melhor momento da minha carreira até a um certo ponto foi chegar ao Vitória FC e jogar na Primeira Liga, depois foi ganhar a Taça com o Panathinaikos, depois foi ganhar o campeonato pelo Copenhaga. Não posso dizer que tive só um, pois esses foram os melhores momentos da minha carreira e, de alguma forma, me marcaram muito, por isso não consigo dizer só um.
BnR: Maior frustração da carreira?
ZR: Não ter ganho um campeonato pelo Panathinaikos.
BnR: Adversário mais difícil de marcar?
ZR: Luka Modric num jogo a contar para o play-off do Mundial 2018, em que a Croácia venceu-nos e qualificou-se para a prova, onde chegaram à Final.
BnR: Treinador que mais te marcou?
ZR: Jesualdo Ferreira.
BnR: Melhor estádio onde jogaste até hoje?
ZR: (Zeca fica pensativo antes de responder) Vou dizer que foi o Estádio Olímpico de Atenas, por causa do episódio dos 68 mil adeptos só do Panathinaikos. Joguei no Estádio da Luz, do Dragão, que são mais recentes que o Olímpico, mas por tudo o que envolveu, escolho o Olímpico de Atenas.














