Já habituado a jogar com o número 10 nas costas e a utilizar a braçadeira de capitão, Zeca Rodrigues é um caso de estudo interessante. Em exclusivo ao Bola na Rede, o médio português naturalizado grego falou acerca da sua carreira: a formação como Ganso em que até começou como avançado, o salto para o Vitória FC onde se estreou na Primeira Liga e foi importante num jogo da Taça de Portugal, a ida para o Panathinaikos em que teve uma estreia em grande no dérbi da capital grega contra o Olympiacos, a chamada à seleção helénica e o primeiro campeonato conquistado na carreira pelo FC Copenhaga.

– Início como Ganso –

Bola na Rede [BnR]: O Bairro do Zambujal no município da Amadora foi onde começaste a dar os primeiros pontapés na bola. Que memórias tens dos tempos de infância?

Zeca Rodrigues [ZR]: Lembro-me que nessa altura no Bairro do Zambujal era uma loucura, porque vínhamos todos para a rua, jogar à bola e havia cinco, seis equipas de futebol de fora ou até mais à espera para rodar. Jogávamos todos contra todos, mais velhos contra mais novos, não havia idade, e foi aí que aprendi a jogar, ganhar um pouco de competitividade e a não gostar de perder (risos). Viver e jogar lá foi muito importante, porque me ensinou muita coisa que trago comigo até hoje.

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BnR: Quais eram os teus ídolos de infância?

ZR: Os meus ídolos de infância sempre foram o Ronaldo “O Fenómeno”, o Zidane e o Rui Costa. Adorava vê-los jogar e tentava de certa forma imitar alguns dos lances que faziam quando jogava no Bairro.

BnR: Como é que vais parar ao Casa Pia AC?

ZR: Na altura, eu tinha um amigo no Bairro que era o Fábio, que já jogava no Casa Pia. Certo dia, estávamos juntos e ele disse: “Tenho de ir treinar, mas tu tens de vir comigo fazer uma experiência para ver se gostas”. E eu respondi: “Nem sequer tenho botas nem nada, só uns ténis” (risos). Ele insistiu para ir e que isso não era problema, então lá fui. Os treinos nesse tempo eram no Pina Manique em Belém, faço o primeiro treino, gostaram de mim e quiseram ficar logo comigo, tanto que pediram para trazer o bilhete de identidade para a minha mãe assinar o papel que me deixava jogar. Foi ele que me incentivou a ir jogar, pois já estava mais comprometido com o futebol, e motivava-me sempre para ir aos treinos. Depois comecei a ir treinar, a ganhar o gosto pelo treino, fazer amigos e gostava da competição e dos jogos ao fim-de-semana, e assim passei a levar o futebol cada vez mais sério. Foi ele o principal responsável pelo meu ingresso no Casa Pia.

BnR: Na formação, já jogavas como médio ou ainda foste testado noutra posição pelos teus treinadores?

ZR: Na minha formação até aos 13/14 anos, antes de começar futebol de 11, jogávamos futebol de 7, eu era o avançado da minha equipa.

BnR: A sério?

ZR: Sim, e por acaso, marcava muitos golos (risos). E é nessa altura, quando estava no futebol de 7, que o Sporting me chamou para ir fazer umas captações e estive lá uma semana a treinar. Foi nesse momento que comecei a acreditar mais que podia ser jogador, já que o Sporting teve interesse em chamar-me para ir lá treinar. Quando subo aos iniciados, vieram para o Casa Pia jogadores emprestados do Sporting, inclusive um avançado muito bom que se fartava de marcar golos, e comecei a ir mais para médio-centro, extremo e fui fazendo o resto da minha formação assim, e a partir daí foram sempre as minhas posições.

BnR: Jogaste ao lado do Pedro Santos e Diogo Salomão nos juniores. Vocês os três juntos eram o “trio” temido pelos adversários?

ZR: Nessa altura, eu já só estava a jogar como médio, e eles a extremo. O Pedro, que por sinal é o meu melhor amigo, e o Diogo eram mais temidos pelos adversários, pois eram jogadores fortes no um para um, rápidos e viam muita qualidade neles. Eles sim eram muito temidos, eu era mais um jogador que corria para trás e para a frente, recuperava e dava-lhes a bola para eles fazerem acontecer, marcar golos e assistirem (risos).

BnR: Tens alguma história com eles?

ZR: Sim, lembro-me que nesse ano fomos a única equipa na fase regular a ganhar ao Sporting. Vencemos por 3-1, em que o Pedro Santos marcou dois golos e o Salomão o outro. Nessa altura, a equipa do Sporting tinha o Rui Patrício, Daniel Carriço, Tiago, Fábio Paím, João Martins…era uma equipa cheia de craques.

BnR: Uma vitória em grande certo?

ZR: Exato, ainda para mais foi a única derrota deles nesse ano, e para nós foi quase como ganhar o campeonato (risos). Tínhamos uma bela equipa e os adversários que jogassem contra o Casa Pia, sabiam que iam enfrentar uma equipa forte e que tinha, pelo menos, quatro ou cinco jogadores que se via que eram de outro nível e que podiam chegar a fazer carreira no futebol.

BnR: É ainda no clube lisboeta que te estreias como sénior. Quantas épocas estiveste lá e como é que terminaram?

ZR: Fiz três épocas nos séniores. Na primeira, fomos campeões na Distrital e vencemos a Taça (da Associação) de Lisboa. Na segunda época, na III.ª Divisão, ficámos em segundo e subiu o Camacha. No ano a seguir, ganhámos nós o campeonato e subimos à II.ª Divisão, e é nessa altura que saio do clube.