A coragem de sair e o silêncio de ficar no futebol em Portugal

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No início desta semana, o futebol em Portugal foi surpreendido por um gesto raro e, por isso mesmo, digno de reflexão. António Miguel Cardoso apresentou a demissão da presidência do Vitória SC.

Fê-lo assumindo, de forma clara e inequívoca, a responsabilidade por uma época que ficou aquém dos objetivos traçados, mesmo depois de ter conquistado um título inédito para o clube, a Taça da Liga.

Pau Victor Gonçalo Nogueira Braga Vitória SC
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Num tempo em que os dirigentes se habituaram a relativizar o insucesso e a diluir responsabilidades em fatores externos como arbitragens, calendários ou azares, este gesto tem um peso simbólico evidente. Mais do que o resultado desportivo isolado, António Miguel Cardoso olhou para o plano global da época, reconheceu falhas no planeamento e decidiu agir em conformidade. Não se escondeu atrás de conquistas pontuais nem procurou justificar o injustificável. Assumiu e saiu.

Este episódio levanta uma questão essencial. Por que é que este tipo de responsabilização é tão raro no futebol português?

A resposta pode encontrar se, em parte, na realidade de outros clubes e, inevitavelmente, no caso do Benfica. Ao longo dos últimos cinco anos, o clube encarnado tem acumulado objetivos falhados no plano desportivo. Apesar de vitórias pontuais e momentos de alguma recuperação, a verdade é que o projeto tem revelado inconsistências profundas.

O problema não é apenas perder, porque perder faz parte do jogo, mas sim a forma como se perde e, sobretudo, a ausência de um rumo claro. O Benfica tem vivido refém de um planeamento feito em cima do joelho, com sucessivas contratações falhadas e uma evidente falta de critério. Como o próprio presidente admitiu, “podemos falhar o jogador, mas não podemos falhar o critério”. O que se tem verificado é precisamente o contrário, falha se o jogador porque falha, desde logo, o critério.

A isto soma se uma sucessão de promessas eleitorais que ficaram por cumprir. É certo que não se pode exigir uma demissão com base exclusiva em promessas, mas também não se pode ignorar que este é já o segundo mandato da atual direção. Ao fim de cinco anos, a margem para justificações começa inevitavelmente a esgotar se.

Adeptos Benfica Lenços Brancos
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

O insucesso não se limita ao plano desportivo. Sem receitas da Liga dos Campeões, o impacto económico torna se inevitável, agravando ainda mais a fragilidade do projeto. Institucionalmente, o clube parece também perder força, enquanto se assiste a uma crescente banalização de uma cultura de conformismo que pouco ou nada se coaduna com a exigência histórica do Benfica.

É aqui que o paralelismo com o Vitória SC ganha verdadeira relevância. Num clube com menor dimensão e recursos, houve coragem para assumir responsabilidades após uma época aquém das expectativas. No Benfica, apesar de um contexto incomparavelmente mais exigente, essa responsabilização tarda em surgir.

Importa, por isso, fazer uma reflexão séria. Até que ponto é sustentável manter um projeto que falha de forma reiterada? E mais, fará sentido prolongar um ciclo que não apresenta sinais claros de inversão?

Idealmente, não se discutiriam lideranças poucos meses após eleições. Mas o futebol vive de resultados, de coerência e de capacidade de execução. Quando esses elementos falham de forma consistente, a continuidade deixa de ser uma questão de estabilidade e passa a ser uma questão de teimosia.

Se mais uma época terminar dentro deste padrão de insucesso, a pergunta tornar-se-á inevitável. Não fará sentido seguir o exemplo de Guimarães? Porque, no futebol, essa é e sempre foi a sina dos presidentes. O sucesso desportivo não é apenas um objetivo, é a condição essencial da sua continuidade.

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