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É estranho prestar tributo a quem nos marcou apenas na hora da morte. Hoje o Facebook, o Twitter e o Instagram encheram-se de homenagens a Johan Cruyff de gente que nem uma palavra sequer lhe tinha dedicado antes do seu último fôlego. O redator deste texto cai nessa categoria. E odeia-se por isso.
Porque é o cheiro da relva acabada de regar que lhe faz lembrar, como as Madalenas de Proust, os bons tempos da infância. Em que tardes soalheiras o alimentavam de sonho de um dia estar dentro do campo e, ao mesmo tempo, lhe davam o gozo de estar a ver aquilo que ele mais gostava no mundo e que se sobrepunha, claramente, a quaisquer “Dragonball” ou “Pokémon”.
90 minutos era pouco. Não chegava viver aquilo durante tão pouco tempo, e, do estádio, a paixão passava para casa, onde, não podendo sair para ir brincar por já ser noite, replicava o que tinha visto, mesmo sabendo que ia “ouvir das boas” por estar a jogar futebol onde não devia… Mas valia a pena o puxão de orelhas por cinco minutos de expressão.
Na escola, não era diferente. Não se punha a jogar dentro das aulas, mas um par de canetas serviam de jogador e guarda-redes, disputando fervorosamente um bocado de papel amassado e improvisado de bola.
Nos intervalos, a paixão continuava. A campainha da escola era o tiro de partida para que ele fugisse para o campo de futebol, onde, em 20 minutos, sentia a recompensa de mais um dia de escola, ganhando o respeito dos “grandalhões do 3.º ciclo” porque mais ninguém naquele momento sentia o mesmo.

Fonte: Ajax FC
A caminho de casa, o futebol não lhe saía da cabeça. Cada paragem de autocarro, cada garagem, cada porta era imaginada como uma baliza e, na cabeça do redator deste texto, calculavam-se trajectos e formas de execução espectaculares de meter uma bola lá para dentro. Se fosse acompanhado, via ali uma oportunidade de falar da jornada do último fim-de-semana ou da caderneta de cromos, que geria com a organização e o empenho de quem governava um país.
Entretanto cresceu, começou a dar importância, igualmente, a outras coisas. As cartas de amor, pintadas a batom, já não eram amassadas para servir de bolas de futebol. O gosto musical foi-se diversificando para lá de Limp Bizkits, Eminems e Linkin Parks, os filmes que via deixaram de ser só sobre bonecos e/ou bola e até encontrava mensagens filosóficas dentro dos que passou a ver.
Passou a ser mais completo, a diversificar o conhecimento, a ter mais amores, mas nunca se divorciou do principal, mesmo sabendo que não podia jogar mais em competição de alto nível e que o sonho de criança não podia ser concretizado. Então estudou o fenómeno, a teoria depois da prática, e tropeçou na sabedoria de frases como “Durante um jogo, está provado que um jogador tem a bola nos pés durante três minutos. Portanto, o mais importante é o que ele vai fazer durante os 87 minutos que passa sem ela. É isso que vai demonstrar quão bom ele é” ou “Jogar futebol é muito simples, mas jogar futebol simples é das coisas mais difíceis que existem”. As sub-raízes do futebol total, começado por Rinus Michels.
O redator deste texto, mais tarde, começou a escrever. Primeiro sobre outras coisas; depois, sobre futebol. Falou dos catalisadores da sua paixão, mas nunca sobre quem os influenciou. Sobre quem tinha sido o verdadeiro responsável pelo vício, pelo amor, pela paixão.
Quando era mais novo, o redator deste texto não sabia, mas, sem um senhor chamado Johan Cruyff, provavelmente, a magnitude da sua paixão para com o futebol não teria conhecido a escala que conheceu.
Nunca lhe agradeceu, e já não vai a tempo. Mas pode sempre deixar a sua homenagem.









