Há momentos no desporto que transcendem fronteiras, idiomas e culturas. A cada quatro anos, o futebol oferece um desses raros instantes em que o planeta parece mover-se ao mesmo ritmo. As rivalidades dos campeonatos nacionais ficam temporariamente suspensas, os debates dividem famílias e grupos de amigos, as bandeiras reaparecem nas varandas e as ruas enchem-se de esperança. Durante pouco mais de um mês, o mundo inteiro passa a olhar na mesma direção. É tempo de Mundial de Futebol.
Entre 11 de junho e 19 de julho de 2026, os olhos de milhares de milhões de pessoas estarão voltados para a América do Norte, palco daquela que promete ser a mais ambiciosa edição da história da competição. Pela primeira vez, três países partilham a organização do maior evento de seleções do futebol mundial. Estados Unidos, Canadá e México unem-se para receber um torneio que marcará uma nova era, não apenas pela dimensão geográfica, mas também pela transformação profunda do formato competitivo.


Este Mundial de 2026 ficará para sempre associado ao número 48. Nunca tantas seleções participaram numa fase final. Nunca tantos jogadores tiveram a oportunidade de representar os respetivos países no palco mais prestigiado do futebol. Nunca houve tantos encontros para disputar. Ao longo de 39 dias de competição serão realizados 104 jogos, um recorde absoluto que transformará este verão numa autêntica maratona futebolística.
A expansão da prova significa também uma abertura inédita a novos protagonistas. Seleções que durante décadas sonharam apenas com uma presença pontual passam agora a acreditar legitimamente na possibilidade de alcançar os grandes palcos. O mapa do futebol mundial alarga-se e, com ele, surgem novas histórias, novos heróis e novas páginas para escrever.
Mas um Campeonato do Mundo é sempre muito mais do que números, calendários ou regulamentos. É o encontro das maiores figuras do jogo com a eternidade. É o palco onde carreiras lendárias encontram o seu derradeiro capítulo e onde jovens talentos iniciam jornadas que poderão durar uma geração inteira.
Em 2026, esse contraste será particularmente marcante. De um lado estarão alguns dos nomes que definiram o futebol das últimas duas décadas. Cristiano Ronaldo continua a desafiar a passagem do tempo e poderá disputar o seu último Mundial. Lionel Messi, campeão do mundo em 2022, prepara-se para mais uma presença numa competição que ajudou a engrandecer. Neymar procurará conduzir novamente o Brasil na perseguição ao tão desejado sexto título. Manuel Neuer, uma das figuras mais influentes da história dos guarda-redes, poderá despedir-se do torneio que venceu em 2014. James Rodríguez, também eternamente ligado a esse Mundial do Brasil, tentará acrescentar mais um capítulo à sua história numa prova onde já brilhou como poucos.
A esta lista juntam-se ainda Guillermo Ochoa, símbolo das campanhas mexicanas em Campeonatos do Mundo, Casemiro, peça fundamental da geração brasileira da última década, Luka Modric, um dos médios mais influentes da história recente, Kevin De Bruyne, referência da Bélgica, Mohamed Salah, estrela maior do futebol egípcio, Virgil van Dijk, líder da seleção neerlandesa, Sadio Mané, figura incontornável do Senegal, e Edin Dzeko, capitão e goleador histórico da Bósnia e Herzegovina. Para todos eles, 2026 poderá representar a derradeira oportunidade de disputar o maior palco do futebol mundial.


Do outro lado da balança, surge uma geração que cresceu a ver essas lendas pela televisão e que agora se prepara para ocupar o centro do palco. Lamine Yamal chega já como uma das figuras mais fascinantes do futebol atual. Erling Haaland poderá finalmente estrear-se numa fase final de um Campeonato do Mundo. João Neves, por sua vez, representa a renovação portuguesa.
Além disso, Gavi, Florian Wirtz, Endrick, Warren Zaire-Emery, Arda Guler, Kenan Yildiz, Nico Paz, Pau Cubarsí, Yan Diomande, Désiré Doué e o benfiquista Andreas Schjelderup, entre muitos outros, fazem parte da nova vaga de talentos que poderá disputar o primeiro Mundial da carreira e transformar essa estreia numa afirmação definitiva perante o planeta.
A coexistência destes dois mundos oferece um dos ingredientes mais fascinantes da competição. Enquanto algumas carreiras caminham para os últimos capítulos, outras estão apenas a começar. É assim o eterno ciclo do futebol, repetido de geração em geração, perante a audiência mais vasta do desporto mundial.
Esta edição será igualmente histórica pela distribuição geográfica dos jogos. Os Estados Unidos assumem o papel principal da organização, recebendo 78 encontros distribuídos por 11 cidades, incluindo as duas meias-finais e a final. O México acolhe 13 partidas em três cidades e volta a fazer parte da história dos Mundiais depois das memoráveis edições de 1970 e 1986. O Canadá recebe também 13 jogos e estreia-se como anfitrião de um Campeonato do Mundo masculino.
A final terá lugar a 19 de julho, no MetLife Stadium, em East Rutherford, no estado de New Jersey. Durante a competição, o recinto será oficialmente designado New York New Jersey Stadium e receberá oito partidas, incluindo, lá está, o derradeiro encontro que consagrará o campeão do mundo. Perante mais de 80 mil espectadores nas bancadas e milhões espalhados pelos cinco continentes, será ali que um país erguerá o troféu mais desejado do futebol.
O formato também apresenta mudanças profundas. As tais 48 seleções participantes estarão distribuídas por 12 grupos de quatro equipas. Cada seleção disputará três jogos na fase de grupos. Os dois primeiros classificados de cada grupo garantem automaticamente o apuramento para a fase seguinte. A estes juntam-se os oito melhores terceiros classificados, formando um quadro de 32 equipas que dará início aos 16 avos de final.
O aumento do número de participantes cria, por isso, uma fase a eliminar mais extensa e mais exigente. Para chegar ao troféu será necessário sobreviver a um percurso ainda mais longo, atravessando sucessivas eliminatórias até alcançar a grande final. O caminho para a glória nunca foi tão difícil. Em contrapartida, nunca houve tantas oportunidades para sonhar.


A verdade é que, antes de a bola começar a rolar, todas as seleções partem do mesmo ponto. Tudo bem que há favoritos, candidatos, eventuais surpresas e sonhos aparentemente impossíveis, mas a história dos Mundiais ensina que nenhuma previsão é absoluta, até porque o que hoje parece improvável pode transformar-se amanhã numa das maiores histórias do desporto.
Dentro de poucas horas, os hinos voltarão a ecoar pelos estádios da América do Norte. As bancadas vestir-se-ão de dezenas de cores diferentes. Milhões de adeptos adaptarão horários, trocarão noites de sono por emoções e acompanharão cada lance como se fosse o último. Durante pouco mais de um mês, o futebol deixará de ser apenas um jogo para voltar a ser o centro do mundo.
É precisamente nesse momento que começa a verdadeira viagem. Uma viagem através dos grupos, das seleções, das estrelas consagradas e dos jovens que procuram conquistar o seu lugar na história. Uma viagem que terminará apenas quando restar um campeão e quando o último apito encerrar o Mundial de 2026, deixando para trás mais uma coleção de memórias destinadas a atravessar gerações.
Passemos, então, à antevisão de cada grupo do torneio que se avizinha.
Grupo A – México, África do Sul, Coreia do Sul e Chéquia
Ora, o Grupo A abre oficialmente o Mundial de 2026 e apresenta um conjunto de seleções que, apesar de não figurarem entre as principais candidatas à conquista do título, oferecem vários motivos de interesse. Há história, tradição, experiência em grandes competições e até um curioso cruzamento de destinos entre países que, em diferentes momentos, receberam a maior prova do futebol mundial.
O favoritismo recai naturalmente sobre o México. A seleção mexicana beneficia de um contexto que poucas equipas conseguem igualar. Jogará perante os seus adeptos, terá a responsabilidade e o privilégio de inaugurar a competição no lendário Estádio Azteca e apresenta-se numa fase particularmente positiva. Depois de alguns anos em que surgiram dúvidas sobre a capacidade competitiva da equipa, os mexicanos chegam embalados pelas recentes conquistas continentais e sustentados por um grupo equilibrado, onde convivem figuras experientes e jovens talentos de enorme potencial. Raúl Jiménez continua a ser uma referência ofensiva, Edson Álvarez mantém-se como o principal pilar do meio-campo e Gilberto Mora surge como o rosto mais entusiasmante da nova geração. No fundo, o México habituou-nos a transformar os seus estádios em fortalezas quase intransponíveis e sabe que uma campanha forte na fase de grupos poderá alimentar o entusiasmo de milhões de adeptos.
A principal ameaça às aspirações mexicanas parece ser a Coreia do Sul. Os asiáticos acumulam já alguma experiência em Campeonatos do Mundo e apresentam um lote de jogadores habituados aos maiores palcos do futebol europeu. Apesar de alguns resultados recentes terem levantado dúvidas sobre a consistência coletiva da equipa, a qualidade individual continua a ser significativa. Son Heung-min permanece como a grande figura do futebol sul-coreano, enquanto jogadores como Kim Min-jae ou Lee Kang-in oferecem garantias em diferentes setores do terreno. Num grupo sem gigantes mundiais, essa experiência competitiva dos coreanos pode revelar-se determinante na luta pelo apuramento.
A Chéquia surge como uma das equipas mais interessantes deste grupo. O regresso a um Campeonato do Mundo duas décadas depois acrescenta um simbolismo especial a uma seleção que procura recuperar algum do protagonismo perdido ao longo dos últimos anos. Embora nenhum dos atuais jogadores tenha experiência mundialista, existe qualidade suficiente para discutir os lugares de qualificação. Patrik Schick continua a ser a principal referência ofensiva e o líder natural de uma equipa fisicamente forte, organizada e particularmente perigosa em contextos de jogo direto. O percurso dramático nos play-offs de qualificação, frente à República da Irlanda e à Dinamarca, reforçou a confiança do grupo e deixou a sensação de que os checos podem assumir o papel de surpresa nesta fase inicial da competição.
Já a África do Sul completa o grupo com o estatuto de incógnita. O regresso ao Mundial dezasseis anos depois representa já uma conquista importante para uma seleção que atravessou momentos difíceis no caminho até à qualificação. Sem o mediatismo de outras equipas, os sul-africanos apostam num futebol tecnicamente interessante e numa identidade coletiva bem definida pelo experiente Hugo Broos. Lyle Foster, ex-Vitória SC, assume o papel de principal figura, mas a equipa vive sobretudo da sua organização e da capacidade para explorar transições rápidas. Num grupo relativamente equilibrado, qualquer resultado positivo nas primeiras jornadas poderá transformar a África do Sul numa séria candidata a complicar as contas dos favoritos.
No papel, México e Coreia do Sul partem um passo à frente na corrida aos dois primeiros lugares. Os mexicanos beneficiam do fator casa e de um ambiente que promete empurrá-los para a liderança do grupo, enquanto os sul-coreanos possuem argumentos individuais suficientes para garantir o apuramento. Ainda assim, a margem de erro será reduzida, visto que a Chéquia apresenta qualidade para desafiar as previsões e a África do Sul possui características capazes de criar dificuldades a qualquer adversário. Num Mundial que inaugura um novo formato e uma nova dimensão competitiva, o Grupo A poderá ser um dos primeiros exemplos de que o favoritismo nem sempre é garantia de sucesso.
Grupo B – Suíça, Canadá, Bósnia e Herzegovina e Catar
À primeira vista, o Grupo B poderá não despertar o mesmo fascínio mediático de outros agrupamentos recheados de campeões mundiais, superpotências históricas ou candidatos declarados ao troféu. No entanto, uma observação mais atenta revela um conjunto extremamente interessante, onde coexistem diferentes realidades futebolísticas e onde a luta pelo apuramento promete ser bastante mais equilibrada do que muitos antecipam.
Deste modo, a Suíça entra logo como principal candidata ao primeiro lugar, sustentada por uma consistência rara no futebol europeu das últimas décadas e por uma identidade coletiva muito bem definida. Sob o comando técnico de Murat Yakin, a equipa helvética mantém uma base sólida que já provou capacidade em grandes torneios, com nomes como Granit Xhaka, Manuel Akanji, Gregor Kobel e Breel Embolo a garantirem experiência e qualidade em todas as zonas do campo. É uma seleção que não se desorganiza facilmente, que sabe competir em jogos de elevada pressão e que raramente abdica do controlo emocional das partidas, o que a coloca, naturalmente, no topo das previsões para este grupo.
Já o Canadá chega ao Mundial com um sentimento diferente de qualquer outra participação anterior, uma vez que joga em casa pela primeira vez na sua história na prova. Esse fator, por si só, transforma por completo a ambição da equipa, que procura finalmente ultrapassar a fase de grupos depois de duas participações sem pontos somados, até porque a geração atual mudou o paradigma. Alphonso Davies continua a ser a grande referência, com impacto tanto defensivo como ofensivo, enquanto Jonathan David acrescenta golo e presença constante na área adversária. No miolo, há Stephen Eustáquio, jogador que ainda pertence aos quadros do FC Porto. Com Jesse Marsch no comando, o Canadá tornou-se uma equipa mais vertical e intensa, que procura acelerar o jogo e explorar ao máximo a capacidade atlética dos seus jogadores, o que pode ser decisivo num contexto de forte apoio interno.
Também a Bósnia e Herzegovina regressa ao maior palco do futebol mundial doze anos depois da estreia, trazendo consigo a ambição de alcançar um feito inédito: a presença na fase a eliminar. O apuramento conquistado de forma dramática frente a adversários de peso, incluindo a eliminação de País de Gales e, sobretudo, da Itália no play-off, reforçou a confiança de um grupo que mistura experiência e juventude. Aos 40 anos, Edin Dzeko continua a ser a figura central e o grande símbolo de uma geração, vivendo aquilo que poderá ser a sua última grande competição internacional. À sua volta, jogadores como o benfiquista Amar Dedic, Ermedin Demirovic ou Benjamin Tahirovic dão alguma frescura e qualidade adicional, permitindo aos bósnios acreditar que podem ser mais do que meros participantes.
Por fim, o Catar entra nesta fase final com a responsabilidade de demonstrar evolução face à participação anterior em 2022, onde, apesar de ter jogado em casa, não conseguiu somar pontos. A qualificação obtida através do percurso asiático mostrou um crescimento competitivo e confirmou que a seleção deixou de depender apenas do estatuto de anfitriã. Julen Lopetegui trouxe maior organização tática e uma abordagem mais disciplinada, apostando num bloco compacto e numa gestão mais cuidada dos momentos do jogo. Do ponto de vista individual, Akram Afif mantém-se como o jogador mais influente, capaz de decidir jogos através da sua criatividade e eficácia no último terço, sendo o principal elemento de desequilíbrio numa equipa que ainda depende muito da inspiração individual.
Em teoria, a Suíça possui os argumentos mais sólidos para terminar no primeiro lugar do grupo. A experiência acumulada, a estabilidade do projeto e a maturidade competitiva colocam os helvéticos numa posição privilegiada. Atrás deles, a luta promete ser intensa, uma vez que o Canadá beneficia do entusiasmo de jogar em casa e possui talvez o teto competitivo mais elevado entre os restantes concorrentes. A Bósnia apresenta qualidade suficiente para discutir o apuramento até ao fim e alimenta-se da motivação de proporcionar uma despedida inesquecível a Dzeko. O Catar, por sua vez, tentará provar que os progressos registados nos últimos anos não foram circunstanciais.
Grupo C – Brasil, Marrocos, Escócia e Haiti
O Grupo C apresenta um favorito claro, mas está longe de ser um grupo fechado. O Brasil chega com a habitual responsabilidade de lutar pelo título mundial, carregando o peso de cinco conquistas e de uma história incomparável na competição. A seleção orientada por Carlo Ancelotti continua a reunir alguns dos jogadores mais talentosos do planeta, com Vinícius Júnior a tentar assumir cada vez mais protagonismo e Neymar a preparar aquela que deverá ser a sua última grande aventura internacional. Apesar de algumas dúvidas levantadas durante a fase de qualificação, os brasileiros continuam a possuir profundidade, talento e experiência suficientes para serem apontados como os principais candidatos ao primeiro lugar do grupo e como sérios aspirantes a chegar longe no torneio.
Marrocos apresenta-se novamente como uma das seleções mais respeitadas fora do lote tradicional de candidatos ao título. A campanha histórica de 2022, culminada com a presença nas meias-finais, deixou de ser encarada como uma surpresa isolada e passou a ser vista como reflexo do crescimento sustentado do futebol marroquino. Os africanos chegam ao Mundial embalados por excelentes resultados recentes e por um plantel recheado de jogadores que competem ao mais alto nível europeu. Achraf Hakimi continua a ser a principal figura da equipa, mas nomes como Bono, Brahim Díaz, Mazraoui ou En-Nesyri garantem qualidade suficiente para discutir até a liderança do grupo. A ambição parece, por isso, passar claramente por repetir uma campanha memorável e confirmar que Marrocos pertence à elite do futebol internacional.
Já a Escócia regressa aos Campeonatos do Mundo após uma ausência de quase três décadas, transportando consigo um entusiasmo enorme e a sensação de que atravessa um dos melhores momentos da sua história recente. O crescimento do futebol escocês nos últimos anos tem sido evidente, sustentado por uma geração experiente e habituada aos principais campeonatos europeus. Scott McTominay surge como a grande figura de uma equipa que também conta com jogadores importantes como John McGinn, Andy Robertson ou Che Adams. Embora não parta com o favoritismo de Brasil e Marrocos, a seleção britânica possui argumentos suficientes para sonhar com o apuramento e promete discutir cada ponto até ao último jogo.
O Haiti é provavelmente uma das histórias mais curiosas deste Mundial. Cinquenta e dois anos depois da sua última participação, a seleção caribenha regressa ao maior palco do futebol mundial, aproveitando a expansão da competição para concretizar um sonho há muito aguardado. Sem nomes mediáticos ou grande tradição internacional, os haitianos chegam sem pressão, mas, certamente, com enorme orgulho pela qualificação alcançada. Wilson Isidor e Jean-Ricner Bellegarde assumem o papel de principais referências de uma equipa que procurará aproveitar o entusiasmo e a irreverência para surpreender adversários teoricamente mais fortes e escrever algumas das páginas mais bonitas da sua história.
Teoricamente, o Brasil é o favorito natural à liderança do grupo, mas não é algo que pode ser dado como “adquirido”, e a luta pelo segundo lugar promete igualmente ser uma das mais interessantes desta fase inicial. Marrocos parte ligeiramente à frente pela qualidade demonstrada nos últimos anos, embora a Escócia tenha argumentos para disputar o apuramento até ao fim. O Haiti surge como outsider, mas terá a oportunidade de jogar sem grande pressão e tentar criar uma das surpresas do torneio.
Grupo D – Estados Unidos, Paraguai, Austrália e Turquia
À partida, o Grupo D, à semelhança do Grupo B, pode não reunir o mesmo brilho mediático de outros. No entanto, parece que poucos grupos apresentam um grau de imprevisibilidade tão elevado, já que não existe uma seleção claramente dominante nem uma equipa condenada antecipadamente ao último lugar. Pelo contrário, os quatro participantes desembarcam na América do Norte convencidos de que possuem argumentos legítimos para alcançar a fase a eliminar da competição.
A anfitriã Estados Unidos entra neste Grupo D com a responsabilidade de corresponder às expectativas de uma geração que foi preparada durante anos para este momento. Christian Pulisic continua a ser a principal referência de uma equipa que reúne cada vez mais jogadores habituados às grandes ligas europeias, enquanto Mauricio Pochettino procura transformar potencial em resultados concretos. O fator casa poderá revelar-se decisivo ao longo da fase de grupos, sobretudo num país onde o entusiasmo em torno da seleção nunca foi tão elevado. Ainda assim, permanecem algumas dúvidas sobre a capacidade dos norte-americanos para dar o salto competitivo que os coloque entre as seleções mais respeitadas do torneio. A qualidade existe, mas será dentro de campo que terá de ser confirmada.
O Paraguai também chega ao Mundial como uma das equipas mais incómodas e difíceis de enfrentar desta fase de grupos. Gustavo Alfaro devolveu identidade, confiança e competitividade a uma seleção que passou largos anos afastada dos grandes palcos internacionais. Sem o brilho individual de outras equipas sul-americanas, os paraguaios compensam com organização, agressividade nos duelos e uma enorme capacidade para sobreviver em jogos equilibrados. Gustavo Gómez lidera uma defesa muito sólida, enquanto Julio Enciso representa a principal esperança criativa de uma equipa que voltou a acreditar depois de mais de uma década de ausência. Não será uma seleção espetacular, mas poderá perfeitamente ser uma das mais eficazes.
A Austrália continua a provar que raramente deve ser subestimada em grandes competições. Os Socceroos construíram uma reputação assente na disciplina tática, na intensidade física e na capacidade de competir contra adversários teoricamente superiores. A campanha realizada em 2022, onde apenas foi derrotada, nos oitavos de final, pela seleção que viria a ser campeã, a Argentina, reforçou essa imagem e a atual geração pretende voltar a surpreender. Jackson Irvine assume o papel de líder dentro de campo, enquanto o jovem Nestory Irankunda, extremo, de 20 anos, do Watford, surge como uma das figuras mais entusiasmantes desta nova vaga australiana. Talvez não possua o talento individual de algumas rivais diretas, mas a Austrália continua a ser uma equipa extremamente difícil de derrotar e capaz de aproveitar qualquer deslize dos adversários.
Finalmente, a Turquia regressa aos Campeonatos do Mundo vinte e quatro anos depois com uma das gerações mais talentosas da sua história recente. Arda Guler tornou-se o rosto de uma equipa que combina juventude, criatividade e ambição, acompanhado por jogadores de enorme qualidade como Kenan Yildiz, Hakan Çalhanoglu e os ex-Benfica Orkun Kokçu e Kerem Akturkoglu. Numa segunda prateleira, há ainda Deniz Gul, avançado do FC Porto. Vincenzo Montella conseguiu dar estabilidade a uma seleção que durante muitos anos alternou entre momentos brilhantes e deceções inesperadas. De facto, o talento nunca faltou ao futebol turco, mas o desafio passa agora por transformá-lo numa campanha consistente. Pela qualidade individual disponível e pelo entusiasmo que acompanha este regresso, os turcos surgem ligeiramente acima dos restantes concorrentes na luta pelos lugares de qualificação.
Tudo aponta para uma disputa extremamente equilibrada até à derradeira jornada. A Turquia parece reunir os argumentos mais sólidos para terminar no primeiro lugar, mas os Estados Unidos beneficiam do apoio dos seus adeptos e de uma geração construída para brilhar neste Mundial. O Paraguai apresenta-se como um adversário incómodo para qualquer seleção, enquanto a Austrália mantém intacta a capacidade de superar previsões. No fundo, é um daqueles grupos onde praticamente todos os cenários parecem plausíveis e onde um único resultado poderá alterar completamente as contas do apuramento.
Grupo E – Equador, Curaçau, Costa do Marfim e Alemanha
O Grupo E reúne uma combinação particularmente interessante de tradição, talento emergente e ambição. Entre um dos gigantes históricos do futebol mundial, uma seleção africana em crescimento, uma geração dourada sul-americana e uma estreante absoluta na competição, este é um grupo que promete oferecer duelos muito distintos e uma luta intensa pelos lugares de apuramento para a fase a eliminar.
Ora, a Alemanha volta a apresentar-se como uma das grandes candidatas à conquista do troféu. Mesmo sem reunir a mesma quantidade de superestrelas de outras épocas, a Mannschaft continua a destacar-se pela profundidade do plantel, pela qualidade coletiva e pela cultura competitiva que acompanha a seleção praticamente desde sempre. Florian Wirtz, Jamal Musiala, Aleksandar Pavlovic e Nick Woltemade representam a nova geração de talento alemão, enquanto jogadores como Joshua Kimmich, Antonio Rudiger, Kai Havertz, Leroy Sané e o regressado Manuel Neuer oferecem experiência e liderança. Julian Nagelsmann conseguiu devolver estabilidade e identidade a uma equipa que atravessou momentos difíceis nos últimos Mundiais. Agora, o objetivo passa claramente por voltar a colocar a Alemanha entre as melhores seleções do planeta.
Ligeiramente mais abaixo, o Equador chega a este Mundial envolto num entusiasmo raro na história do seu futebol. Muitos consideram esta a melhor geração que o país alguma vez produziu e os argumentos para sustentar essa ideia são evidentes. Moisés Caicedo é um dos médios mais completos do futebol mundial, Piero Hincapié e Willian Pacho afirmaram-se ao mais alto nível europeu e talentos como Kendry Páez continuam a alimentar a esperança de um futuro ainda mais brilhante. A excelente campanha de qualificação na CONMEBOL demonstrou a maturidade competitiva de uma seleção que perdeu apenas frente aos gigantes Argentina e Brasil. Num grupo equilibrado, os equatorianos acreditam que podem discutir o segundo lugar e até causar problemas à favorita Alemanha.
Paralelamente, a Costa do Marfim regressa aos Campeonatos do Mundo depois de uma longa ausência e chega com legítimas ambições de ultrapassar, pela primeira vez, a fase de grupos. Os “Elefantes” possuem uma das seleções africanas mais talentosas presentes no torneio, reunindo qualidade em praticamente todos os setores. Da solidez defensiva de Evan Ndicka, Wilfried Singo e o sportinguista Ousmane Diomande, à criatividade e capacidade física de Franck Kessié, Seko Fofana (atuou pelo FC Porto esta época) e Ibrahim Sangaré, sem esquecer o talento ofensivo de Amad Diallo, Simon Adingra ou Yan Diomande, existe matéria-prima suficiente para sonhar alto. Convém referir o trabalho desenvolvido por Emerse Faé, que devolveu competitividade ao futebol costa-marfinense e reforçou a convicção de que esta geração pode finalmente alcançar um marco histórico para o país.
Já a estreia de Curaçau representa uma das histórias mais bonitas deste Campeonato do Mundo. A pequena ilha das Caraíbas conseguiu uma qualificação histórica e apresenta-se agora no maior palco do futebol internacional sem qualquer pressão, mas com uma enorme vontade de surpreender. Grande parte do plantel foi construída através de jogadores nascidos nos Países Baixos com raízes familiares na ilha, algo que permitiu elevar significativamente a qualidade da equipa. Tahith Chong, jogador formado no Manchester United, surge como a principal figura de uma seleção orientada pelo experiente Dick Advocaat, um treinador que já viveu praticamente tudo no futebol. Embora parta como a equipa teoricamente mais fraca do grupo, Curaçau poderá beneficiar precisamente desse estatuto para jogar de forma descontraída e tentar escrever uma das maiores surpresas da competição.
Visto de fora, tudo indica que a Alemanha possui argumentos suficientes para terminar no primeiro lugar do grupo, mas a luta pela segunda vaga promete ser uma das mais interessantes desta fase inicial. Equador e Costa do Marfim apresentam plantéis de enorme qualidade e chegam ao torneio com expectativas elevadas, enquanto Curaçau tentará aproveitar o entusiasmo da estreia para desafiar todas as previsões.
Grupo F – Países Baixos, Japão, Suécia e Tunísia
O Grupo F reúne quatro seleções com argumentos legítimos para sonhar com a qualificação e, na teoria, apresenta-se como um dos mais equilibrados de todo o Campeonato do Mundo. Sem qualquer campeão mundial entre os seus integrantes, mas com dois finalistas históricos, este é um lote onde a margem para o erro será reduzida e onde cada detalhe poderá fazer a diferença.
Portanto, os Países Baixos chegam aos Estados Unidos como a seleção mais cotada do grupo. A formação orientada por Ronald Koeman combina experiência, talento e profundidade de opções, apresentando nomes como Virgil van Dijk, Frenkie de Jong, Cody Gakpo, Denzel Dumfries ou Ryan Gravenberch. A qualificação foi praticamente irrepreensível e a sensação é de que a laranja mecânica tem condições para voltar a realizar uma campanha de destaque. Ainda assim, a história recente mostra que os neerlandeses raramente têm vida fácil em fases finais e este grupo promete exigir o máximo desde o primeiro encontro.
Adicionalmente, o Japão continua a afirmar-se como uma das seleções mais consistentes do futebol asiático e chega a esta edição com uma geração cada vez mais consolidada nos principais campeonatos europeus. Com Kaoru Mitoma de fora por lesão, Takefusa Kubo é quem assume o papel de principal referência técnica, mas a equipa conta também com jogadores influentes como Wataru Endo, o ex-Marítimo Daizen Maeda, Ayase Ueda ou Keito Nakamura. Depois das vitórias memoráveis sobre Alemanha e Espanha em 2022, os nipónicos querem finalmente quebrar a barreira dos oitavos de final e demonstrar que já pertencem ao lote das seleções capazes de surpreender qualquer adversário.
A Suécia regressa, também, aos grandes palcos com uma equipa renovada e recheada de qualidade ofensiva. Viktor Gyokeres é hoje uma das grandes figuras do futebol europeu e forma, juntamente com Alexander Isak, uma dupla atacante capaz de decidir jogos ao mais alto nível. Os nórdicos sofreram para garantir o apuramento, apenas conseguido no play-off, mas chegam motivados e conscientes de que possuem argumentos para discutir a passagem à fase seguinte. A tradição competitiva sueca continua presente e a experiência acumulada em grandes ligas, incluindo a portuguesa, com Gustaf Lagerbielke, defesa do SC Braga a constar na convocatória de Graham Potter, pode revelar-se decisiva nos momentos de maior pressão.
Por outro lado, a Tunísia surge como a seleção teoricamente menos favorita, mas está longe de ser um participante ocasional. Soma já várias presenças consecutivas em Campeonatos do Mundo e mantém uma identidade muito própria, assente na organização, intensidade e rigor tático. Ellyes Skhiri continua a ser a principal referência da equipa, enquanto Hannibal Mejbri representa a esperança de acrescentar criatividade e qualidade técnica ao meio-campo. Não terá tarefa fácil perante adversários de elevado nível, mas possui experiência suficiente para transformar partidas equilibradas em verdadeiros testes de resistência.
Desta forma, supostamente, os Países Baixos parecem reunir as melhores condições para terminar no primeiro lugar. No entanto, Japão e Suécia apresentam níveis muito próximos e deverão protagonizar uma luta intensa pela segunda vaga de apuramento. A Tunísia tentará aproveitar qualquer deslize dos favoritos para se intrometer nas contas. Assim sendo, num grupo onde não existe uma diferença significativa entre três das quatro seleções, não seria surpreendente que tudo ficasse decidido apenas na última jornada.
Grupo G – Bélgica, Egito, Irão e Nova Zelândia
Relativamente ao Grupo G, este apresenta um favorito relativamente claro, mas está longe de ser um agrupamento fechado. Bélgica, Egito, Irão e a Nova Zelândia chegam ao Mundial com ambições distintas, embora todas encontrem motivos para acreditar que a fase a eliminar está ao seu alcance. Entre uma potência europeia habituada aos grandes palcos, uma seleção africana liderada por uma das maiores estrelas do futebol mundial, um conjunto asiático cada vez mais competitivo e uma formação oceânica determinada em desafiar as probabilidades, este promete ser um grupo marcado por contrastes de estilos e percursos.
Nesse sentido, a Bélgica continua a surgir como a principal candidata ao primeiro lugar. Liderada por Rudi García, já não conta com o esplendor da geração que encantou o mundo na década passada, mas mantém qualidade mais do que suficiente para encarar este grupo com legítimas aspirações de liderança. Kevin De Bruyne continua a ser o cérebro da equipa, Thibaut Courtois oferece garantias entre os postes e Romelu Lukaku permanece uma ameaça constante para qualquer defesa. Ao mesmo tempo, nomes como Jérémy Doku, Charles De Ketelaere, Amadou Onana ou até o leão Zeno Debast representam a renovação de uma seleção que procura voltar a aproximar-se da elite mundial.
Ainda que num patamar mais abaixo, o Egito pode ser o principal rival dos belgas na luta pelo topo da classificação. Mohamed Salah continua a ser a grande figura dos faraós e chega aos Estados Unidos determinado a deixar finalmente uma marca profunda num Campeonato do Mundo. Ao seu lado surge Omar Marmoush, cada vez mais afirmado no futebol europeu, formando uma dupla ofensiva capaz de decidir jogos equilibrados. A grande questão passa por perceber se a equipa conseguirá manter o mesmo nível competitivo quando enfrentar adversários de maior qualidade coletiva.
Já o Irão volta a aparecer como uma das seleções mais subestimadas da competição. Nas últimas edições mostrou capacidade para discutir jogos com equipas teoricamente superiores e apresenta um bloco sólido, disciplinado e experiente. Mehdi Taremi, antigo avançado do Rio Ave e do FC Porto, continua a ser a principal referência, mas o valor coletivo dos iranianos costuma ser o seu maior trunfo. Aliás, poucas equipas gostam de enfrentar uma seleção que raramente oferece espaços e que sabe explorar cada erro do adversário.
Por último, a Nova Zelândia entra como outsider, mas não como mera participante. O futebol kiwi continua a crescer e chega a este Mundial com o objetivo de conquistar a primeira vitória da sua história na competição. Chris Wood é o líder natural da equipa e uma referência ofensiva capaz de causar problemas a qualquer defesa. Ainda assim, os neozelandeses sabem que precisarão de superar as expectativas para discutir seriamente um lugar nos 16-avos de final.
Enfim, à partida, a Bélgica parece reunir mais argumentos para terminar na liderança do grupo. O Egito surge logo atrás, apoiado no talento extraordinário de Salah e na qualidade crescente do seu plantel. Contudo, o Irão tem experiência e organização suficientes para transformar qualquer previsão numa dor de cabeça, enquanto a Nova Zelândia tentará aproveitar cada oportunidade para escrever uma das histórias mais inesperadas deste Mundial.
Grupo H – Espanha, Uruguai, Cabo Verde e Arábia Saudita
O Grupo H junta quatro seleções com percursos, realidades e ambições bastante distintas, mas com argumentos suficientes para tornar a luta pelo apuramento particularmente interessante. Entre campeões do mundo, candidatos assumidos e estreantes cheios de entusiasmo, este promete ser um dos grupos mais interessantes de acompanhar na fase inicial do Mundial 2026.
Ora, a Espanha apresenta-se nos Estados Unidos como uma das seleções mais fortes de toda a competição. Campeã europeia em 2024, a equipa orientada por Luis de la Fuente recuperou a identidade vencedora que parecia perdida após a geração dourada de Xavi, Iniesta e companhia, embora com um estilo de jogo bastante diferente. Lamine Yamal é já uma das grandes estrelas do futebol mundial, enquanto Pedri, Rodri, Nico Williams, Gavi e Pau Cubarsí representam uma combinação rara de juventude, talento e maturidade competitiva. Os espanhóis não escondem a ambição de voltar a conquistar um Mundial pela primeira vez desde 2010, até porque têm desiludido imenso nas últimas edições.
Por conseguinte, o Uruguai surge naturalmente como o principal opositor à candidatura espanhola. A histórica Celeste continua a ser uma seleção extremamente competitiva, mesmo sem atravessar um dos períodos mais brilhantes da sua história. Marcelo Bielsa procura terminar a sua passagem pela seleção com uma campanha memorável e dispõe de jogadores capazes de desequilibrar qualquer encontro. Federico Valverde é o líder técnico da equipa, Darwin Núñez continua a ser uma ameaça constante no ataque e nomes como Ronald Araújo, José María Giménez, Manuel Ugarte os agora sportinguistas Maxi Araújo e Rodrigo Zalazar acrescentam qualidade e intensidade a um conjunto tradicionalmente difícil de enfrentar.
Já Cabo Verde protagoniza uma das histórias mais bonitas deste Campeonato do Mundo. A estreia absoluta dos “Tubarões Azuis” representa um marco histórico para o futebol cabo-verdiano e para todo o arquipélago. Sem a pressão dos favoritos, a equipa orientada por Bubista poderá jogar com liberdade e entusiasmo. Ryan Mendes continua a ser uma das principais referências, enquanto jogadores como Sidny Cabral, Telmo Arcanjo, Jovane Cabral, Kevin Pina e Wagner Pina procuram aproveitar o palco mundial para se afirmarem perante uma audiência global.
A Arábia Saudita, por sua vez, já demonstrou em edições anteriores que não deve ser subestimada. A surpreendente vitória frente à Argentina em 2022 continua bem viva na memória coletiva do futebol mundial e serve de exemplo da capacidade competitiva desta seleção. Salem Al-Dawsari mantém o estatuto de principal figura, enquanto Saud Abdulhamid simboliza uma nova geração de jogadores sauditas cada vez mais habituados a competir em contextos exigentes. Num grupo onde não parte como favorita, a equipa asiática tentará, por isso, repetir o papel de surpresa.
Em suma, tudo aponta para uma disputa direta entre Espanha e Uruguai pelos dois primeiros lugares do grupo. A qualidade coletiva espanhola e a profundidade do plantel colocam La Roja um patamar acima da concorrência, mas a experiência e a intensidade uruguaias prometem equilibrar essa luta. Cabo Verde e Arábia Saudita entram como outsiders, embora possuam características suficientes para complicar as contas dos favoritos.
Grupo I – França, Noruega, Senegal e Iraque
O Grupo I apresenta uma das disputas mais interessantes desta fase de grupos, dado que é onde coexiste favoritismo, talento emergente e memórias históricas, pelo que a luta pelos lugares de qualificação promete ser intensa até à derradeira jornada.
Tendo isso em vista, a França entra como principal candidata ao primeiro lugar e como uma das grandes favoritas à conquista do Mundial. Com uma profundidade de plantel difícil de igualar, os franceses apresentam uma combinação impressionante de experiência, juventude e qualidade individual. Kylian Mbappé continua a ser a principal referência ofensiva, mas Ousmane Dembélé, Michael Olise, Ryan Cherki, Aurélien Tchouaméni e William Saliba garantem que existe talento em todas as zonas do terreno.
A Noruega aparece como a maior ameaça ao favoritismo francês. O regresso a um Campeonato do Mundo, quase três décadas depois, coincide com a melhor geração norueguesa dos últimos anos. Erling Haaland é a grande figura, mas Martin Odegaard, Alexander Sorloth, Antonio Nusa e Andreas Schjelderup oferecem argumentos suficientes para sonhar com uma presença nos oitavos de final. De facto, a combinação entre talento individual, estabilidade coletiva e confiança acumulada durante toda a fase de qualificação transforma esta seleção nórdica numa das equipas mais interessantes para acompanhar nesta competição.
Associadamente, o Senegal continua a representar uma das maiores forças do futebol africano. A experiência de Sadio Mané, a liderança de Kalidou Koulibaly e a velocidade de Ismaila Sarr mantêm os “Leões de Teranga” como um adversário extremamente competitivo. Além disso, permanece viva a memória da histórica vitória sobre a França no Mundial de 2002, onde chegaram aos “quartos”, um resultado que prova que os senegaleses sabem como desafiar favoritos.
Já o Iraque regressa ao Campeonato do Mundo quarenta anos depois da sua única participação e assume o papel de outsider do grupo. Ainda assim, a ausência de pressão pode jogar a seu favor. Jogadores como Zidane Iqbal, Youssef Amyn e Ali Al-Hamadi representam uma geração que pretende mostrar que o futebol iraquiano está novamente preparado para competir entre os melhores.
Em síntese, a França parte claramente na frente, mas a luta pelo segundo lugar promete ser uma das mais equilibradas da competição, já que Noruega e Senegal apresentam argumentos muito semelhantes e qualquer deslize poderá ser decisivo. O Iraque surge um degrau abaixo, mas tem condições para retirar pontos a qualquer adversário e influenciar diretamente as contas do grupo.
Grupo J – Argentina, Áustria, Argélia e Jordânia
O Grupo J do Mundial 2026 assume um peso especial nesta fase de grupos, não só pela qualidade competitiva das seleções envolvidas, mas sobretudo pela presença da Argentina, atual campeã do mundo e uma das principais referências do futebol internacional na última década. É um grupo que junta uma potência consolidada, habituada a lutar pelos grandes títulos, com três seleções que chegam com percursos e ambições diferentes, mas todas com motivos fortes para encarar esta participação como um momento marcante.
Ora, a Argentina entra naturalmente como grande favorita, sustentada pela conquista no Mundial anterior e por um plantel que continua a combinar experiência e talento em grande nível. A formação comandada por Lionel Scaloni entra na competição com o estatuto de favorita e com a ambição de voltar a fazer história, tentando tornar-se numa das raras seleções a revalidar o título mundial. Depois da conquista no Catar, a Albiceleste mantém uma base forte e experiente, onde continuam a sobressair nomes como Lionel Messi, que deverá viver aqui o seu último Mundial, ainda que já numa fase mais próxima do adeus do que do auge físico. À sua volta, surgem jogadores de enorme qualidade como Lautaro Martínez, Julián Álvarez, Enzo Fernández, Alexis Mac Allister e Emiliano Martínez, garantindo um equilíbrio que sustenta as aspirações de uma equipa que continua a ter muito talento e soluções em praticamente todos os setores.
Atrás da Argentina, a luta pelo segundo lugar deverá ser bem mais aberta. A Áustria surge como a seleção mais preparada para assumir esse papel, regressando a um Campeonato do Mundo quase três décadas depois. A equipa orientada por Ralf Rangnick tem vindo a crescer de forma consistente, com uma identidade bem definida e uma organização coletiva que a torna competitiva frente a qualquer adversário. Jogadores como David Alaba, Marcel Sabitzer, Konrad Laimer, Christoph Baumgartner e o bracarense Florian Grillitsch dão qualidade e experiência a um conjunto que já mostrou evolução nas grandes competições recentes.
A Argélia surge logo de seguida como principal alternativa, regressando ao Mundial 12 anos depois da sua última presença e apostando numa geração com talento ofensivo relevante. Riyad Mahrez continua a ser a grande figura, acompanhado por jogadores como Mohamed Amoura, Amine Gouiri ou Houssem Aouar, capazes de criar perigo em qualquer jogo. Ainda assim, a irregularidade poderá ser um fator decisivo num grupo exigente.
A Jordânia fecha o grupo e representa, também, uma das grandes histórias emocionais desta edição, ao garantir pela primeira vez a sua presença num Campeonato do Mundo. Sem o mesmo nível competitivo das restantes seleções, entra como outsider, mas com o mérito de já ter atingido um marco histórico para o seu futebol. Com jogadores maioritariamente a atuar fora dos grandes palcos europeus, a equipa orientada por Jamal Sellami procura dignificar a estreia e aproveitar a experiência. Moussa Al-Tamari destaca-se como a principal referência ofensiva, sendo o elemento mais capaz de desequilibrar.
Em jeito de antevisão da classificação final, a Argentina surge destacada como principal candidata ao primeiro lugar, fruto da diferença de qualidade e experiência competitiva face aos restantes adversários. A luta mais equilibrada deverá centrar-se no segundo posto, onde a Áustria parte com ligeira vantagem, sobretudo pela sua organização coletiva e consistência recente em grandes palcos, ainda que a Argélia tenha argumentos para disputar essa posição até ao fim, principalmente se conseguir manter regularidade ao longo da fase de grupos. A Jordânia deverá ocupar o último lugar, mas com a possibilidade de deixar uma imagem positiva na sua estreia mundialista, num grupo onde a hierarquia parece clara no topo, mas mais aberta na discussão intermédia.
Grupo K – Portugal, Colômbia, RD Congo e Usbequistão
O Grupo K é, naturalmente, o grupo que mais atenção desperta em Portugal. A presença da Seleção Nacional faz com que todas as atenções estejam voltadas para uma equipa que chega ao Mundial 2026 carregada de ambição e confiança, alimentando o sonho de conquistar pela primeira vez o título de campeã do mundo. Depois da recente conquista da Liga das Nações, Portugal apresenta-se nos Estados Unidos, Canadá e México com a convicção de que possui argumentos para discutir o troféu com qualquer seleção presente na competição.
No papel, a Equipa das Quinas surge como a formação mais forte deste grupo. O talento existente no plantel português é inegável e distribui-se por todos os setores do terreno. Da segurança de Diogo Costa na baliza à liderança de Rúben Dias na defesa, passando pela criatividade de Bruno Fernandes, pela inteligência de jogo de Bernardo Silva, pela influência crescente de Vitinha e João Neves e pela experiência incomparável de Cristiano Ronaldo, Portugal dispõe de recursos que poucas seleções conseguem igualar. A expectativa dos adeptos é elevada e o objetivo passa claramente por terminar esta fase de grupos no primeiro lugar.


A principal ameaça deverá surgir da Colômbia. Os sul-americanos continuam a ser uma das seleções mais competitivas do continente americano e possuem jogadores habituados aos maiores palcos internacionais. Luis Díaz assume-se como a principal figura de uma equipa que alia qualidade técnica, intensidade e agressividade competitiva. A experiência de James Rodríguez continua a ser um fator importante, enquanto jogadores como Daniel Muñoz, o benfiquista Richard Ríos e o avançado do Sporting, Luis Suárez, melhor marcador do campeonato português em 2025/26, reforçam a qualidade coletiva de uma seleção que promete discutir o apuramento até à última jornada. Em função disso, o duelo entre portugueses e colombianos, agendado para a terceira ronda, tem tudo para ser um dos encontros mais interessantes desta fase de grupos.
Já a RD Congo aparece logo atrás na hierarquia teórica do grupo, mas seria um erro considerá-la um adversário acessível. A seleção africana tem evoluído significativamente nos últimos anos e apresenta um conjunto fisicamente forte, competitivo e capaz de criar dificuldades a qualquer equipa. Jogadores como Yoane Wissa, Cédric Bakambu, Aaron Wan-Bissaka, Chancel Mbemba, antigo defesa do FC Porto, ou Noah Sadiki oferecem qualidade e experiência a uma equipa que sonha com uma campanha histórica. Se conseguir impor a sua intensidade física e aproveitar os espaços em transição, poderá perfeitamente discutir um lugar entre os apurados.
O Usbequistão fecha o grupo e protagoniza um dos contos mais marcantes deste Mundial. Pela primeira vez na sua história, os usbeques conseguiram garantir presença numa fase final de um Campeonato do Mundo. Apesar de entrarem como claros outsiders, chegam, à medida de outras seleções que pouca experiência possuem neste tipo de competições, com entusiasmo e sem pressão, procurando demonstrar a evolução que o futebol do país tem conhecido nos últimos anos. Eldor Shomurodov continua a ser a principal referência ofensiva, enquanto Abdukodir Khusanov surge como um dos jovens mais promissores do plantel. A experiência de Fabio Cannavaro no comando técnico, que sabe o que é ganhar um Mundial, embora como jogador e pela seleção italiana, poderá também ajudar uma seleção que pretende aproveitar cada momento desta estreia histórica.
À partida, Portugal surge como favorito destacado à conquista do Grupo K, mas a luta pelo segundo lugar promete ser bastante interessante. A Colômbia parece partir em vantagem, embora a RD Congo tenha qualidade suficiente para ameaçar as contas do apuramento. Quanto ao Usbequistão, procurará aproveitar esta primeira presença em Mundiais para ganhar experiência e tentar surpreender adversários teoricamente mais fortes.
Grupo L – Inglaterra, Croácia, Gana e Panamá
Para encerrar esta maratona de antevisões, o Grupo L surge como um dos mais interessantes desta fase inicial do Mundial 2026. Não só pela presença de uma seleção candidata ao título, como também pela mistura entre duas equipas habituadas a grandes palcos, uma seleção africana com tradição competitiva recente e um Panamá que regressa com o orgulho de voltar a uma fase final.
Neste contexto, a Inglaterra chega como uma das grandes favoritas à conquista do Mundial. Sob o comando de Thomas Tuchel, a equipa inglesa entra num novo ciclo, marcado por decisões fortes na convocatória e por uma ideia de jogo mais exigente e estrutural. A ausência de alguns nomes de peso gerou discussão, mas a base continua extremamente forte e recheada de talento. Harry Kane atravessa uma das melhores fases da carreira e lidera uma geração que inclui Jude Bellingham, Bukayo Saka, Declan Rice, Marcus Rashford e Eberechi Eze. Para se ter noção, Thomas Tuchel deu-se ao luxo de deixar de fora da convocatória nomes como Trent Alexander-Arnold, Harry Maguire, Phil Foden ou Cole Palmer, tendo, obviamente, criado bastante polémica, mas com alguma razão à mistura, diga-se. Como se pode ver, é uma seleção que combina qualidade individual com profundidade de plantel e que tem, claramente, obrigação de lutar pelo primeiro lugar do grupo.
Por seu lado, a Croácia continua a ser um caso muito particular no futebol mundial. Um país pequeno em dimensão, mas gigante em rendimento competitivo nas últimas décadas. Mesmo numa fase de transição geracional, a equipa mantém uma identidade muito própria e uma capacidade notável de competir em jogos grandes. Luka Modric deverá disputar o seu último Mundial, encerrando um ciclo histórico, enquanto nomes como Josko Gvardiol, Luka Vuskovic, Josip Stanisic, Mateo Kovacic e Ivan Perisic asseguram qualidade e experiência. Apesar de já não apresentar o mesmo brilho coletivo de outras edições, continua a ser uma seleção extremamente perigosa em jogos decisivos.
O Gana surge como uma das seleções africanas mais interessantes do grupo. Carlos Queiroz assume o comando técnico num projeto ainda recente, mas com ambição clara de levar a equipa à fase a eliminar. O plantel combina juventude e experiência, com destaque para Antoine Semenyo, Thomas Partey, Caleb Yirenkyi, Jordan Ayew e Iñaki Williams. É uma seleção fisicamente forte, capaz de causar dificuldades através da intensidade e do jogo direto, embora ainda procure maior estabilidade competitiva.
Finalmente, o Panamá completa o grupo e regressa ao Mundial com mérito, após um percurso de crescimento consistente na sua confederação. A equipa orientada por Thomas Christiansen tem uma estrutura bem definida e um núcleo de jogadores experientes, como Michael Murillo e Adalberto Carrasquilla. Apesar de ser a seleção com menos recursos técnicos do grupo, chega com organização e espírito coletivo, tentando melhorar a imagem deixada na sua última participação.
O espetáculo “Mundial” está prestes a começar
Com todos os grupos analisados, fica a sensação de que tudo está pronto para o momento que o futebol mundial mais espera. O início do Mundial 2026 aproxima-se e, com ele, regressa aquela mistura única de emoção, expectativa e nervosismo que só esta competição consegue gerar. São semanas em que o mundo abranda, em que as rotinas mudam e em que cada jogo ganha uma importância quase exagerada, como se tudo pudesse mudar num único lance.
Realmente, esta edição chega envolta em diversos debates e alguma polémica, desde a dimensão alargada da prova até às questões logísticas e ao calendário apertado, que levanta dúvidas sobre o impacto físico nos jogadores. Ainda assim, nada disso parece travar o entusiasmo global.
Pelo contrário, a curiosidade em torno deste novo formato, com mais seleções e mais jogos, apenas aumentou a atenção sobre aquilo que poderá acontecer dentro das quatro linhas. Há quem veja riscos na mudança, mas também há quem veja uma oportunidade de dar palco a novos protagonistas e histórias inesperadas.
Feliz ou infelizmente, quando a bola começar a rolar, tudo isso ficará para segundo plano. O que ficará será o jogo, os golos, as surpresas e as eliminações dramáticas que fazem desta prova um fenómeno único. Estão reunidas seleções históricas, gerações de ouro e jogadores que podem marcar uma era, mas também equipas que chegam pela primeira vez e sonham simplesmente com viver o momento.
E é precisamente essa mistura que transforma o Mundial no maior espetáculo do futebol mundial. Dentro de poucas horas, o apito inicial dará início a mais um capítulo inesquecível desta história coletiva que, de quatro em quatro anos, continua a parar o planeta.

