A nostalgia é traiçoeira, corrompe percepções e constrói mitos. O talento existe, esse é inegável. O tempo e algumas decisões de carreira questionáveis encarregam-se de castigar o legado de um jogador que poderia ter sido tudo, mas que será lembrado pelo potencial que demonstrou na Vila Belmiro com apenas 17 anos de idade.
Muito se falou da possível convocatória de Neymar Jr. para o Mundial de 2026, com discussões intensas, polarizadas como é costume nas redes sociais sem chegar a nenhum consenso. As opiniões dividem-se e Neymar, infelizmente, já não é o jogador de outros tempos. As lesões prejudicaram-no. A falta de mentalidade, de dedicação e algumas idas ao Carnaval do Rio de Janeiro foram um entrave para o alcance do patamar que se imaginava para Neymar, a possibilidade de vencer uma Bola de Ouro.
Não será, portanto, necessário descrever a restante carreira de Neymar. As passagens por Barcelona e Paris são de elite, pela Arábia Saudita nem tanto, um erro de gestão de carreira por parte do extremo brasileiro. Seguiu-se o regresso ao Santos, à Vila Belmiro, onde tudo começou e onde o Brasil via o nascimento de uma estrela. Criaram-se narrativas, onde o hexa era uma certeza e uma conquista liderada por Neymar, feito que nunca se materializou devido a vários infortúnios.
O regresso a casa tambem não tem sido um conto de fadas, com as recorrentes lesões musculares, o que levou a uma falta de consistência no rendimento do jogador. Desde que chegou, foram 43 os jogos pelo Santos, com 17 golos marcados e oito assistências. À primeira vista, são bons números, com alguns dos golos a serem decisivos para a manutenção do Santos na época passada.
Já esta época, tem sido marcada por lesões, polémicas que vão desde agressões a colegas de equipa, passando por substituições duvidosas por erro aparente da equipa de arbitragem. A polémica persegue Neymar, ou será o próprio que se alimenta de manchetes, dos rumores e da fama de estrela boémia que vem alimentando há largos anos? Basta ver a sua chegada à concentração do Brasil, de helicóptero, com toda a pompa e circunstância. Neymar vive dos holofotes, das chamadas de atenção, o futebol parece assumir uma dimensão secundária na cabeça do jogador.


Todos estes fatores acabam por pesar na hora da derradeira escolha dos nomes que irão ao Campeonato do Mundo 2026. O grupo tem de ser colocado em primeiro lugar, não há espaço para momentos de vedeta numa seleção nacional, onde cada jogo é visto como uma final para os adeptos. A verdade é que, para uma grande massa dos adeptos brasileiros, Neymar não envelheceu, continua a ser o menino da vila que despontou na Vila Belmiro com 17 anos, e que prometia ser o próximo Messias do futebol brasileiro que trará o hexa.
De tal modo que, a partir do momento em que Carlo Ancelotti entoa o nome do avançado brasileiro no anúncio da convocatória, uma porção do público que assistia irrompe num sentimento de êxtase e euforia. Este anúncio levanta uma questão pertinente: se Ancelotti convocou Neymar pelo seu desempenho, ou pelo saudosismo de outros tempos, com uma dose de pressão por parte do público e da CBF à mistura.
O ceticismo perante a convocatória do jogador aumenta quando o mesmo se lesiona, sensivelmente uma semana após ter sido chamado, com os alarmes a soar e a forte dúvida do estado físico de Neymar. A ausência de João Pedro, que tem estado em boa forma pelo Chelsea, para a inclusão do Neymar, ajuda a alimentar um clima de injustiça, onde o rendimento desportivo é ignorado em prol do estatuto antigo de outros membros do grupo. Na presente época, João Pedro conta com 23 golos marcados e seis assistências, números muito bons num Chelsea em dificuldades. O jogador brasileiro é aposta constante no emblema inglês, sem lesões e em ótimas condições físicas, num contexto competitivo muito acima do brasileiro.
O Brasil não vence o Campeonato do Mundo desde 2002, a nação brasileira anseia por títulos e por estabilidade numa seleção que vem colecionando desilusões à largos anos. O joga bonito, tão associado à seleção canarinha, deu lugar a um futebol enfadonho, sem criatividade, capaz de adormecer o mais ferrenho dos adeptos. Desde que Ancelotti assumiu o cargo, os resultados continuam sem ser os melhores, contabilizando sete vitórias em doze jogos pela seleção brasileira. Ancelotti não deve tomar decisões com base na nostalgia, cabe ao técnico escolher a melhor seleção com base no mérito, que concede ao Brasil a maior probabilidade de conquistar o troféu.


Não é fácil escrever este texto. Neymar é um ídolo, um jogador que fez uma geração apaixonar-se por futebol, com os seus toques de génio, de quem transformou o Camp Nou numa homenagem ao futebol de rua. O brasileiro divertia-se em campo, com roletas, chapéus e elásticos. Era o típico jogador que fintava um adversário e, não satisfeito, voltava atrás para repetir o feito. Tal como disse no início, a nostalgia tolda a perceção de quem aprecia futebol, custa admitir que os jogadores que admiramos envelheceram e que os desempenhos já não são os mesmo de outros tempos.
O Campeonato do Mundo de 2026 será um torneio de despedidas, o último de muitas lendas, com Neymar a ser uma delas. De tal forma, como amante de futebol, fico contente com a inclusão de Neymar, que em boas condições físicas, terá a última oportunidade de se consagrar como a maior estrela no futebol brasileiro.

