Seleção do País Basco: teríamos candidato ao Euro 2024?

    O País Basco é uma Comunidade Autónoma muito importante para Espanha, não apenas no contexto futebolístico, mas em outros pontos, como económico, político ou histórico. É sem dúvida uma região especial, com uma identidade própria extremamente vincada, com vários pontos específicos, como o euskera. São mais de 700 mil pessoas a falarem a língua, que poucos conseguem entender. Não existe nenhum fenómeno semelhante na Europa. O basco não integra a família das línguas românicas e a sua origem permanece um mistério.

    Porém, falemos de futebol. O País Basco apresenta regulamente várias equipas na La Liga e na Segunda Liga espanhola (vamos excluir os escalões inferiores, pois os mesmos estão repletos de turmas de todo o norte de Espanha, sendo que o país passa pela mesma dificuldade que Portugal neste aspeto, o centro é quase vazio, futebolisticamente falando, exceto Madrid), sendo que outras comunidades nem sequer apresentam qualquer representante no futebol 100% profissional. Além disso, as instituições da Euskadi não vêm geralmente fazer de “corpo presente” para as respetivas competições, conseguindo lutar por postos respeitáveis, inclusivamente por lugares de qualificação continental.

    Atualmente, na La Liga encontramos o Athletic na disputa por um acesso à Champions League, a Real Sociedad em lugares de acesso a provas continentais e o Alavés a realizar uma temporada tranquila, depois de ter obtido a promoção em 2022/23.

    No segundo escalão, o Eibar é um dos candidatos à subida, enquanto que o Amorebieta ainda não conseguiu criar um projeto que consiga afirmar-se na La Liga Hypermotion, sendo a despromoção um cenário bem real.

    O sucesso vivido deve-se imenso os atletas da formação das instituições, que foram nascidos e criados no País Basco. As políticas aplicadas são um sucesso. Analisemos muito brevemente o caso do Athletic (conhecido por praticamente todos os aficionados do desporto-rei) e o da Real Sociedad, protagonizado pela figura de Roberto Olabe, alguém que subiu a pulso dentro do futebol espanhol, transformando-se num dos melhores diretores desportivos do mundo, na atualidade.

    O Athletic tem uma “lei”: somente utilizar jogadores nascidos ou criados na região. Isto faz com que o seu mercado seja muito reduzido, “obrigando-se” a apostar na sua formação e em garantir jovens para as suas camadas jovens, para serem trabalhados no Lezama. Nem todos os atletas acabam por representar a seleção espanhola. Veja-se o caso de Iñaki Williams. O extremo joga pelo Gana, enquanto que o irmão Nico Williams veste as cores da La Roja.

    Se a turma de Bilbao se encontra “obrigada” a saber-se mexer no País Basco, a Real Sociedad tem feito algo semelhante, mas não por decreto. Roberto Olabe impôs o famoso 60/40. O que significa isto na prática? O plantel terá que ser composto por 60% de elementos vindos da formação (ou contratados em tenra idade), sendo que outros 40% podem ter outra origem. Nos dois casos, a observação de promessas é algo em que se trabalha a 100% diariamente. É mais importante encontrar um jovem de 13 anos que possa ser um grande futebolista do futuro, do que confirmar-se que um jogador de 27 ou 28 anos tem talento para a equipa A..

    Assim sendo, nestas duas turmas temos atletas como: Unai Simón, Dani Vivian, Yeray, Ander Herrera, Oihan Sancet, Iker Muniain, Iñaki Williams, Nico Williams, Gorka Guruzeta, Álex Remiro, Martin Zubimendi, Igor Zubeldia, Aritz Elustondo, Odriozola, Beñat Turrientes, Mikel Oyarzabal ou Ánder Barrenetxea. Fora os jovens promissores com Jon Pacheco, Gorotxategi ou Unai Gómez, que sabem que têm espaço de manobra para poderem evoluir em duas grandes potências do futebol espanhol, constantemente envolvidas na luta pelos lugares europeus.

    Durante os últimos dias ficámos a conhecer duas convocatórias. Em primeiro lugar de Luis de la Fuente, para os particulares de Espanha com Colômbia e Brasil. Em segundo lugar a de Jagoba Arrasate, para o desafio do País Basco ante o Uruguai. Vamos verificar primeiramente a espanhola:

    Guarda-redes: Unai Simón (Athletic), David Raya (Arsenal), Álex Remiro (Real Sociedad);

    Defesas: Dani Carvajal (Real Madrid), Jesús Navas (Sevilha), Pedro Porro (Tottenham), Aymeric Laporte (Al Nassr), Robin Le Normand (Real Sociedad), Daniel Vivian (Athletic), Pau Cubarsí (Barcelona), José Luis Gayà (Valencia), Alejandro Grimaldo (Bayer Leverkusen); 

    Médios: Rodri (Manchester City), Martín Zubimendi (Real Sociedad), Mikel Merino (Real Sociedad), Fabián Ruiz (PSG), Álex Baena (Villarreal), Oihan Sancet (Athletic);

    Avançados: Álvaro Morata (At. Madrid), Nico Williams (Athletic), Lamine Yamal (Barcelona), Dani Olmo (Leipzig), Joselu (Real Madrid), Gerard Moreno (Villarreal), Mikel Oyarzabal (Real Sociedad) e Pablo Sarabia (Wolverhampton).

    Num total, são nove elementos que militam em emblemas do País Basco, A isto somamos Aymeric Laporte que foi formado no Athletic. 38% da La Roja passou ou por Lezama ou por Zubieta (não apenas na formação, Mikel Merino é formado no Osasuna). São dados factuais, não dá para inventar.

    Verifiquemos agora os chamados para a turma orientada por Arrasate (que é o atual treinador do Osasuna):

    Guarda-redes: Aitor Fernández (Osasuna) e Julen Agirrezabala (Athletic);

    Defesas: Andoni Gorosabel (Alavés), Martín Aguirregabiria (Famalicão), Aritz Elustondo (Real Sociedad), Unai García (Osasuna), Jon Pacheco (Real Sociedad) e Imanol García (Athletic);

    Médios: Dani García (Athletic), Jon Moncayola (Osasuna), Ander Guevara (Alavés), Mikel Vesga (Athletic), Jon Ander Olasagasti (Real Sociedad), Oier Zarraga (Udinese) e Iván Martín (Girona);

    Avançados: Álex Sola (Alavés), Roberto Torres (Gol Gohar Sirjan FC), Álvaro Djaló (Braga), Adu Ares (Athletic) e Asier Villalibre (Athletic).

    O primeiro ponto que nos chama a atenção é a presença de dois atletas que atuam pelos relvados portugueses. O segundo, é que há muita qualidade e não é difícil imaginar que certos elementos que figuram nesta lista, passem para a apresentada em cima, como Andoni Gorosabel (temporada incrível nas mãos de Luís García Plaza) ou Jon Moncayola (absolutamente fundamental para o Osasuna).

    O desafio proposto é: quão longe chegaria uma seleção do País Basco?

    Se juntarmos todos os nomes passiveis de uma convocatória, é fácil imaginar uma passagem com relativa facilidade de uma fase de grupos de um Euro 2024. Depois, iria depender do adversário. Contra um dos favoritos ao troféu, seria complicado uma vitória “sem espinhas”, mas imaginar o País Basco como outsider da competição é viável e tem validade, pelo menos aos olhos de quem acompanha a La Liga.

    Tudo isto é um sistema que vai obter continuidade, sem qualquer sombra de dúvida. Vão surgir novos atletas, uma nova geração que não será desperdiçada e que terá margem de crescimento, em alta competição. Não falamos de campeonatos secundários ou sem expressão no mundo. Falamos da La Liga e da Segunda Liga espanhola, que contam com alguns dos melhores jogadores e futebol. Athletic e Real Sociedad têm condições de luxo e valorizam os seus ativos, que no fundo são o que dão identidade a uma instituição. A somar a isto, boas escolas como o Antiguoko ou o Danok Bat, conseguem sempre criar um ou outro nome forte por geração, fora o Alavés, o Eibar, o Amorebieta, o Real Unión, entre muitos outros, que contam com uma secção importante de futebol sénior e podem lançar os seus elementos para o profissionalismo, embora não cheguem a um patamar de seleção, na maioria dos seus casos.

    Não podemos afirmar que existe uma “dependência” da seleção espanhola com esta parte do país. Mas estas políticas facilitam imenso a vida aos selecionadores, quer ao principal, quer aos mais jovens. Num caso hipotético de independência (cenário extremamente improvável), teríamos aqui uma seleção a ser considerada e analisada.

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