A importância da bola parada no Arsenal

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O Arsenal evolui a cada temporada sob o comando de Mikel Arteta, mas o fantasma de uma seca de títulos na Premier League, que dura há mais de duas décadas, continua a assombrar o norte de Londres. Depois de frustrações recentes perante a hegemonia do Manchester City, Mikel Arteta percebeu que, no patamar de exigência máxima do futebol inglês, jogar bem não chega. É nos detalhes que se ganham campeonatos e foi precisamente com essa mentalidade que os londrinos transformaram a bola parada num método quase infalível e numa das armas mais letais de toda a Europa.

Esta revolução tem uma assinatura de Nicolás Jover. O especialista em bolas paradas, que Mikel Arteta foi resgatar em 2021 depois de já terem trabalhado juntos no Manchester City, mudou por completo a cultura do clube nesta vertente do jogo.

Mikel Arteta Arsenal
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Com a chegada de Nicolás Jover ao Arsenal de Arteta, os cantos e os livres laterais deixaram de ser momentos de aleatoriedade, onde os jogadores cruzam a bola e esperam que aconteça alguma coisa, para passarem a ser jogadas cuidadosamente ensaiadas. A equipa atingiu um nível de letalidade absurdo, fazendo com que cada bola na área adversária soe a um autêntico alarme de pânico. Tudo começa no momento de cobrar o canto, onde o Arsenal opta invariavelmente por executantes de pé trocado, como Declan Rice na esquerda ou Bukayo Saka e Noni Madueke na direita, garantindo que a bola faz uma trajetória curva em direção à baliza. A partir do momento em que o cobrador levanta o braço, a equipa move-se e há duas peças fundamentais que explicam o sucesso prático deste sistema.

Primeiro, William Saliba assume um papel muitas vezes invisível, mas crucial. O defesa central raramente é o alvo do cruzamento, a sua missão é fazer o trabalho sujo. Posicionado na pequena área, atua como um poste de basquetebol, bloqueando fisicamente o guarda-redes adversário e impedindo a sua saída da baliza, uma tática que roça os limites das regras, mas que tem sido brutalmente eficaz.

Depois, entra em cena Gabriel Magalhães. O defesa central brasileiro, imponente com o seu 1,90m e exímio finalizador de cabeça, nunca está estático à espera da bola. O plano coloca-o quase sempre na zona da marca de penálti para atacar o espaço com embalo, sabendo que um jogador que entra de rompante tem sempre vantagem física e de impulsão sobre um defesa que o tenta marcar de forma parada.

A imprevisibilidade de toda esta dinâmica nasce de padrões táticos que desmontam qualquer marcação. Por vezes, o Arsenal opta pela sobrecarga, deixando o primeiro poste vazio para atrair as marcações e, subitamente, lançar quatro ou cinco jogadores para esse mesmo espaço. Outras vezes usam o engano, simulando essa corrida para o primeiro poste para arrastar a defesa, mas batendo a bola para o segundo poste que ficou completamente deserto. Têm ainda a capacidade de explorar a surpresa, com jogadores a saírem das costas da defesa para atacar a zona central sem serem percebidos, ou aplicam um bloqueio máximo, formando autênticas barreiras humanas no meio da área que impedem os defesas de chegar à zona onde a bola vai cair.

O futebol moderno exige soluções criativas e a bola parada tornou-se numa forma perfeita de desbloquear jogos para os londrinos. Com registos impressionantes, como a marca de 21 golos de bola parada alcançada na época passada, esta estratégia deixou de ser apenas um plano de recurso. É, hoje, o grande trunfo de Mikel Arteta para desatar nós em jogos fechados.

Duarte Rêgo
Duarte Rêgohttp://www.bolanarede.pt
O Duarte é mestre em Ciências da Comunicação – Media e Jornalismo e licenciado em Som e Imagem. Colabora com o BnR como redator de opinião e fotógrafo, unindo a paixão pelo desporto à cobertura visual e escrita.

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