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Consumada a derrota diante do Crystal Palace no último domingo, o Hull City de Marco Silva desceu à segunda divisão inglesa.
À primeira vista, é um fracasso do treinador português, que, agora, no seu registo pessoal, juntamente com uma subida de divisão após recuperação pontual impressionante com o Estoril na sua primeira época no banco, uma Taça de Portugal com uma recuperação de desvantagem impressionante na final, um campeonato grego com um registo de vitórias recordista, vê-se agora obrigado a juntar uma despromoção numa Premier League.
Sem embargo, atrás dos títulos, dos palmarés, das galerias, há todo um caminho, um contexto que explica ou ajuda a perceber os sucessos e os insucessos.
É o objetivo deste texto: explicar o fracasso no final das contas deste Hull City que é de Marco Silva, mas não é só. Foi de Steve Bruce na pré-época e de Mike Phelan até à 20ª jornada. O primeiro demitiu-se a cerca de um mês do início do campeonato em litígio com a direção, alegando a falta de proatividade diretiva ao nível de contratações. O segundo herdou a complicada herança e, embora não tivesse começado nada mal, com duas vitórias nas duas primeiras jornadas, não resistiu a uma série de 9 jornadas sem ganhar.

Fonte: Sky Sports
Assumindo as rédeas da equipa da cidade de Kingston upon Hull, Marco Silva chegou antes de dois compromissos para as taças, a de Inglaterra, em casa, a contar a terceira eliminatória, diante do Swansea, e a da liga inglesa, jogo da primeira mão da meia-final, diante o Manchester United, em Old Trafford.
O primeiro jogo resultou numa vitória por 2-0 e o segundo uma derrota pelo mesmo resultado em casa da equipa orientada por Mourinho. Dois tubos de ensaio para o primeiro jogo na Premiership numa altura em que o técnico português não concedeu qualquer folga ao plantel num ato de consciência em relação à atribulada e mal planeada (pré-)época que vinha decorrendo para os ‘Tigers’, adicionando-se outro elemento indesejável, um boletim clínico pleno de lesões.
Até ao final de janeiro, mais quatro jogos, dois para o campeonato, com uma vitória caseira, frente ao Bournemouth (3-1), e uma derrota em casa do campeão Chelsea (2-0), para além das duas eliminações nas duas taças, embora, na taça da liga, com uma vitória sobre o ‘United’ de Mourinho (2-1).
Janeiro foi também o mês de tentar reajustar o pobre aproveitamento do período de transferências do verão de 2016 num clube que atravessa sérios problemas financeiros cujo dono, Assem Allam, é uma figura ‘sui generis’ cuja relação com os adeptos não é a melhor, longe disso, mas isso já são outros assuntos. Uma série de transferências foram realizadas, tentando servir um treinador que logo entusiasmou o dono egípcio-inglês pela sua “filosofia”.
As saídas de Livermore para o West Bromwich por 11,50 milhões de euros e de Robert Snodgrass para o West Ham por um valor semelhante (12 milhões de euros) constituíram duas saídas de jogadores influentes na manobra da equipa, mas, por outro lado, foram dois bons encaixes financeiros para o clube, que fez um total de 8 contratações anti-despromoção, sendo a mais cara a do avançado Kamil Grosicki, polaco, que se transferiu do Stade Rennais FC por 9 milhões de euros, depois o médio-ofensivo norueguês, Markus Henriksen, que estava emprestado pelo AZ Alkmaar, foi adquirido pelo clube em troca de 5,30 milhões de euros e o também ofensivo meio-campista Evandro, que rumou desde o FC Porto numa transferência fixada nos 2,50 milhões de euros.
16,80 milhões foi o total do valor pago pelo clube na compra de jogadores, mas, quanto a entradas, ainda resta falar dos empréstimos, que não foram nada menos ‘sonantes’ que as compras propriamente ditas. Listemo-los: Alfred N’Diaye, médio senegalês do Villarreal, Andrea Ranocchia, central italiano do Inter de Milão, Elabdellaoui, lateral/ala norueguês do Olympiacos, Lazar Markovic, avançado do Liverpool, e Oumar Niasse, avançado do Everton.

Fonte: SkySports
Em termos de saídas, encimadas pelas duas mais marcantes de Livermore e Snodgrass, as restantes foram de jogadores pouco ou nada utilizados, com empréstimos a clubes ‘menores’, casos do central inglês Alex Bruce e do também inglês James Weir, médio (Wigan), o guarda-redes escocês, Allan McGregor (Cardiff City) e o eslovaco Dusan Kuciak, também guarda-redes, com saída a custo zero para o Lechia Gdansk, da Polónia.
Depois de um janeiro com seis jogos, fevereiro não começou por ser meigo, com uma deslocação a Old Trafford para o campeonato e uma receção de seguida ao Liverpool. Empate no primeiro (0-0) e vitória caseira no segundo (2-0), que até fez Klopp elogiar o técnico luso.
“Time running out, that was for definite. A sleeping giant with barely a breath in it” (“O tempo a esgotar-se, isso era definitivo. Um gigante adormecido que mal conseguia respirar”). A parte inicial do hino do Hull City, fundado em 1904, parecia ser a melhor forma de analisar epigraficamente a travessia do clube ‘amber and black’ (‘âmbar e preto’) até à chegada de Marco Silva, que parecia ter o condão que havia despertado o ‘gigante adormecido’.
Da 24ª jornada, a vitória diante dos ‘reds’, até à 29ª, o Hull perde dois jogos fora e empata um e não perde em casa, empate com Burnley (1-1) e vitória sobre o Swansea (2-1). A 30ª jornada abre o mês de abril, o melhor mês sob a égide de Marco Siva, uma vez que, com a vitória sobre o West Ham logo no primeiro dia de abril, o Hull City, pela primeira vez desde a 9ª jornada consegue a tão desejada saída da zona de despromoção, no 16º lugar, posição que manterá até ao final do mês, depois de vitórias caseiras consecutivas contra West Ham (2-1) e Middlesbrough (4-2), duas derrotas fora de portas com Leicester City (3-1) e Manchester City (3-1), com, desta vez, Guardiola a elogiar o colega português e, chegada a 34ª jornada, uma vitória indiscutível diante do duro de roer Watford de Walter Mazzari (2-0).
Antes de nos determos sobre o fatídico mês de maio e o jogo que deitou tudo a perder, desdobremo-nos sobre a filosofia e modelo de jogo de Marco Silva na equipa britânica.
Ao bom estilo português, o técnico mostrou-se adaptável no sistema de jogo da equipa até em relação aos adversários que tinha pela frente, mas, sobretudo, nos primeiros tempos com três competições e um ritmo competitivo muito elevado, vimos a formação do Hull City jogar em diferentes sistemas- 3x4x3, 4x4x2, 4x2x3x1, 4x3x3.
Quanto ao sistema, isso pode levar a confusões na cabeça do leitor e até nem é o mais importante, mas sim a forma de jogar da equipa. Voltemos então à ‘filosofia’ que Sallam primeiro admirou em Marco Silva e depois se manifestou no perfil da equipa: gosto por ter bola, por circulá-la e produzir lances de golo foi a maneira briosa que Marco Silva tentou imprimir na equipa, sem esquecer, obviamente, os momentos em que defrontou equipas muito melhores e a equipa tinha de recuar.
A maleabilidade tática do 11 começava a partir de trás: num Jakupovic, guardião suíço que raramente compromete, à sua frente chegou a ver-se Maguire-Ranocchia-Davies ou Maguire-Dawson-Ranocchia num sistema de três centrais que projetava ora Elabdellaoui ou Elmohamady na direita, bem como Robertson na esquerda, sem descurar as ocasiões em que extremos caíam em funções de ala a formar linhas de 5, casos de Markovic ou Grosicki, por exemplo.

Fonte: Hull City
Já numa linha de 4 defensiva, Maguire jogou quer nas duas laterais, quer a central, Ranocchia e Dawson eram parceiros geralmente na zona central e Robertson dono da lateral esquerda. No miolo, Clucas e Alfred N’Diaye, 11 e 10 nas costas, um canhoto a jogar pela meia-esquerda, outro destro a jogar pela meia-direita, um de expedita técnica inglesa quer no passe curto quer no longo, o outro a força africana a distribuir sem comprometer tecnicamente e a finalizar quer dentro quer fora da área.
Perto dos avançados, nas suas costas, chegou a jogar Evandro ou a aparecer Clucas e N’Diaye quando a presença de Huddlestone à frente da defesa permitia a liberdade destes dois. Os extremos, Grosicki e Markovic, nas diagonais e movimentos por dentro enriqueciam o jogo interior, já Elabdellaoui ou Elmohamady jogavam mais por fora.
Sem esquecer quando Abel Hernández e Niasse coabitavam na frente de ataque e a equipa jogava com dois pontas de lança, o primeiro mais fiável a segurar a bola para a equipa e letal a finalizar, o segundo mais esguio e a dar mais capacidade de furar nos espaços mas menos evoluído com a bola nos pés, um pouco estilo-trapalhão.
Por outro lado, existiam as soluções alternativas que eram opções recorrentes como eram os casos de, no ataque, Diomandé ou Mbokani, nos flancos (para lateral ou extremo), Joshua Tymon, Shaun Maloney e Jarred Bowen ou, no meio-campo, David Meyler.
Ainda que o futebol jogado tenha melhorado com Marco Silva, os erros defensivos foram também penosos em certos jogos e, em detalhe, acabaram por deitar tudo a perder e deixar o treinador português a abanar a cabeça de desilusão e frustração no banco de suplentes.
Analisando as jogadas e os golos sofridos pelo ‘Hull’ facilmente concluímos que os tentos concedidos aconteceram entre os centrais ou no espaço lateral-central ou nas costas dos centrais. Em equipas que precisam de pontos como os pulmões de oxigénio a reincidência nos erros defensivos são fatais.
Vou usar três jogos exemplificativos deste diagnóstico, as duas maiores derrotas de Marco Silva, 4-0 com Everton (29ª jornada) e Crystal Palace (37ª jornada), o jogo que sentenciou a pena do Hull, no último domingo, e a partida da derrota proibida diante de um despromovido Sunderland (36ª jornada).

Fonte: GettyImages
No jogo em Merseyside, os golos surgiram de solicitações nas costas da defesa ou, o último golo, uma oferta de Maguire ao atrasar a bola para Jakupovic e Lukaku a intercetá-la primeiro. No encontro com o Sunderland, um ataque perdulário e dois lances consentidos em bola parada no coração da área foram fatais, com Ranocchia a falhar no primeiro golo e Maguire no segundo.
Agora passando para a partida com o Crystal Palace do ‘Big Sam’ Allardyce, comecemos por falar no central italiano a chegar aos trinta anos e que, já arredado da seleção principal transalpina, de empréstimo em empréstimo, tenta mostrar ao Inter de Milão que pode voltar a ser primeira opção.
O primeiro golo dos ‘The Eagles’ (‘As Águias’) deixa qualquer treinador em estado de ira. Acontece logo aos três minutos e mostra bem o sintoma suicida que afundou a equipa de Marco Silva. Lançamento lateral de Maguire em reduto defensivo, o meio-campo contrário recupera a bola e lança nas costas de Ranocchia que, com a bola ao alcance, falha primariamente o corte e isola Zaha para o 1-0. No segundo, Benteke surge sozinho no coração da área a saltar sobre Maguire, na sequência de um canto, e os dois últimos nem vale a pena analisar muito porque aconteceram nos últimos minutos, numa altura em que, na cabeça dos jogadores, já não havia mais nada a não ser o Championship.
Não se trata de martirizar os centrais ou a linha defensiva do Hull até porque defender é um processo coletivo, mas, à lupa, vê-se um padrão de falhas no posicionamento defensivo, questão que, aglutinada ao facto da equipa não marcar há três jogos, proporcionou um contexto altamente desfavorável. Por outro lado, a experiência de Premier League dos treinadores rivais, Sam Allardyce (Crystal Palace) e Paul Clement (Swansea) pode ter tido um papel de influência significativo na estabilidade que as duas equipas ‘contenders’ pelo mesmo objetivo demonstraram neste mês das decisões: o Swansea com duas vitórias que selaram a permanência e um Crystal Palace que no jogo de domingo da decisão final mostrou nunca vacilar ao longo dos 90 minutos, ainda que os ‘Tigers’ tenham tido números a rondar os 70% de posse de bola.
Num mês de maio que geralmente nos campeonatos europeus é o mês da verdade, o ‘Hull’, na hora da verdade, claudicou. E como, nos momentos mais cruciais se vêm realmente quais são as grandes virtudes ou máculas das pessoas, no futebol, quando chega a hora H, descobrem-se as grandes virtudes ou os piores defeitos das equipas. Infelizmente para Marco Silva e para os ‘Tigers’, depois de um abril a respirar sobre a linha de água, as duas derrotas de maio com seis golos sofridos e nenhum faturado puseram a nu os podres da equipa e ditaram o afundar na divisão secundária inglesa, mas não escondeu nem aligeirou o percurso do seu timoneiro.
A verdade é que o Hull City que desceu é o de Mike Phelan + Marco Silva. 13 + 21 pontos resultam nos 34 atuais. 21 pontos em 17 jogos, seis vitórias, 3 empates e 8 derrotas não chegaram para operar o milagre, mas, e como fez questão de comunicar na segunda-feira, para a direção do clube, a satisfação é real pelo trabalho de Marco Silva. É que, se contássemos só os jogos da Premier League desde a chegada do português, o Hull City seria 12º classificado, 5 pontos acima da linha de água.

Fonte: Hull City
Depois de deixar o gabinete de diretor desportivo, a vida de treinador de Marco Silva começou com uma subida inesquecível e a chegada às competições europeias com o Estoril em duas épocas consecutivas. No Sporting, já treinou uma equipa que luta por campeonatos nacionais, ganhou a Taça. No Olympiacos foi campeão recordista e esteve à porta dos ‘oitavos’ da Champions. Já a experiência inglesa foi diferente de todas as outras, mas com certeza fá-lo-á mais treinador e, sem dúvida, um treinador com mais mercado: em terras de Sua Majestade, a competência transmitida por este jovem treinador foi real.
O treinador português escuda-se no silêncio em relação ao seu futuro, mas parece claro que não irá com os ‘Tigers’ para o Championship. O contexto altamente adverso que enfrentou desde janeiro só beneficiou a sua carreira aos olhos de quem sabe ver o futebol, desde logo, através da montra da Premier League.
Marco Silva e a passagem pelo Hull City. Sucesso ou fracasso? Na História, os sucessos e os insucessos ficam imortalizados como sentenças perenes e a verdade é que 16/17 foi época de ‘relegation’ para Marco Silva e os ‘Tigers’, mas a História, bem sucedida ou fracassada, nunca conta tudo.
Foto de Capa: Facebook Oficial de Marco Silva










