A Bundesliga está completamente resolvida no que às contas do título diz respeito, mas não é por isso que deixou de haver motivos de interesse. O Borussia Dortmund, que vai realizando uma época bastante irregular, parece ter acertado em cheio nos reforços. Pierre-Emerick Aubameyang voltou a brilhar, bisando na vitória confortável sobre o Ein.Frankfurt (4-0). O “Neymar do Gabão” tem feito uma temporada de estreia extremamente positiva, tal como Henrikh Mkhitaryan, que se adaptou sem dificuldades à equipa e tem vindo a somar boas exibições. No Bayern, que vai passeando no campeonato alemão, o destaque vai para Guardiola. O técnico espanhol está a surpreender tudo e todos pela sua abordagem aos últimos encontros: tem apostado em dois médios de perfil à frente da defesa, algo que, na sua carreira, nunca tinha acontecido. Veremos se é apenas uma experiência táctica pontual ou se, pelo contrário, temos, pela primeira vez, um Guardiola infiel ao “seu” 4-3-3.

Na tentativa de fazer frente ao Bayern, a estratégia de mercado do Dortmund passou por contratar pela certa. Nesse sentido, chegaram ao clube dois jogadores já com provas dadas: Aubameyang, que era a principal referência do Saint-Étienne, e Mkhitaryan, que foi o melhor marcador da última liga ucraniana e que esteve a um passo do Liverpool. Para já, confirma-se que os dois reforços acrescentaram qualidade à equipa. O “Neymar do Gabão”, como é conhecido (mais pelo penteado do que pelas semelhanças no estilo de jogo), foi contratado por 13 milhões de euros e leva já 13 golos apontados no campeonato. Depois de ter sido o segundo melhor marcador da Ligue 1, o avançado está novamente a mostrar a sua veia goleadora. Rápido, dotado tecnicamente e com bom poder de desmarcação, tem jogado do lado direito – embora possa actuar em qualquer posição do ataque –, mas aparece com naturalidade em zonas de finalização. É importante para o Borussia que o gabonês consiga manter a boa forma, até porque é uma incógnita perceber o que Lewandowski poderá render até ao final da temporada. Em relação a Mkhitaryan, que veio do Shakhtar Donestk a troco de 25 milhões de euros, não se pode dizer que esteja a fazer uma época deslumbrante, especialmente se tivermos em conta que foi o médio mais goleador do futebol europeu em 2012/13, com 29 golos apontados. No entanto, leva até ao momento cinco golos e cinco assistências no campeonato e, estando em clara subida de forma, tem tudo para atingir números bastante razoáveis. Apesar de ainda não ter sido “espremido” ao máximo por Klopp, as suas características – criativo, com uma excelente visão de jogo e muito eficaz nas transições – vão ao encontro do futebol que tem sido praticado pelo Dortmund, nos últimos anos.

Lahm e Kroos são fundamentais para Guardiola Fonte: bundesliga.de
Lahm e Kroos são fundamentais para Guardiola
Fonte: bundesliga.de

Ao chegar a Munique, Guardiola rapidamente desfez o 4-2-3-1 de Heynckes, invertendo o vértice do triângulo e passando a jogar com apenas um médio defensivo à frente da defesa. Na prática, o técnico espanhol rompeu com um modelo vencedor, que arrecadou todos os títulos na última temporada, para implementar o seu modelo vencedor, que tanto sucesso teve na Catalunha. Até aqui, nada de surpreendente. A novidade surgiu nos últimos jogos do Bayern, em que Guardiola apostou, pela primeira vez na sua carreira, num duplo pivot com Lahm e Kroos à frente da defesa. Numa altura em que a equipa tem todas as competições bem encaminhadas, esta alteração táctica não tem uma explicação óbvia. Na minha opinião, deve-se a pressões externas. Beckenbauer criticou a utilização de Götze como “falso 9”, e esta foi a solução encontrada por Guardiola para jogar simultaneamente com o alemão e com Mandzukic, que não é, de todo, o avançado adequado para o futebol de posse que as equipas de Pep costumam praticar. A mudança não tem tido consequências nos resultados, mas não se pode dizer o mesmo em relação à qualidade de jogo. Com dois médios de perfil, a equipa não tem tanta capacidade de ter posse de bola dentro do bloco adversário – Götze é o único jogador que se movimenta entre linhas, o que faz com que haja menos linhas de passe para o portador da bola –, e é obrigada a praticar um futebol mais directo (com jogadas menos trabalhadas). Para além disso, perde capacidade para pressionar alto e permite que o adversário jogue com o bloco mais adiantado.

Será que temos Guardiola a alterar o modelo de jogo em função dos jogadores que tem à disposição, ao invés de os adaptar às suas ideias? Ou é apenas uma forma de preparar a equipa para um sistema alternativo? Uma questão a que o treinador espanhol responderá nos próximos encontros, sendo certo que não me parece provável que, de um momento para o outro, Guardiola tenha alterado radicalmente a sua visão do futebol.

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