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Na Civilização Romana – talvez o Império com maior impacto de que há memória – havia uma estrutura. Políticos. Cidadãos. Escravos, também (infelizmente). Por falar em escravo, “12 Anos Escravo” é maravilhoso. E tudo o que o filme nos quer dizer vai para lá das palavras. Obrigatório. Continuando. Havia os legisladores: os homens das leis. E havia o exército: o grande pilar de sustentação dos tentáculos de Roma. Como uma principesca. Poderosa. Majestosa. Inexorável. Ninguém lhe escapava. A cruz indicava o final severo de uma vida interrompida contra vontade. E só no outro mundo se escapava da capital latina.

Legionários. Carne para canhão. Carne na mesa só em dia de festa. Patuscadas eram poucas. Somente nas orgias e nos massacres das guerras. De espada embainhada, escudo, uniforme e dispostos em quadrado (ou tartaruga, ou quincôncio, etc), lá partiam eles, para mais uma investida de extravasamento do Império. Conhecer mundos e dar universos. Iluminar os ensombrados.

Futebol? Alguns anos mais tarde. Isto a propósito de um “Estudo Demográfico”, documento elaborado anualmente pelo “Observatório do Futebol” (CIES Football Observatory). Na nossa Primeira Liga, dos 399 jogadores que iniciaram a época nas 16 formações presentes, 208 são estrangeiros. Realmente um campeonato com tamanho número de estrangeiros até pode confundir os olhos mais desatentos. Isto é, com tantos metecos , até parece outro país. Qual a nação mais representada? É o país da coluna semanal sobre a qual tenho jurisdição. Como um Romano. Obviamente que as contas têm de ser equilibradas. Não estou a defender um mercantilismo futebolístico desenfreado. Porém, simples regras. Como a utilização máxima de três ou quatro estrangeiros por onze inicial; quotas de forasteiros nas equipes. Entre outros. Mas quem sou eu para dar palpites? Diversidade também é boa. E falando o Brasil português, falamos todos a mesma língua. Pelo menos isso.

Já outros campeonatos não podem dizer o mesmo. É que os brasileiros são os estrangeiros em maior número, não só aqui, no “país mais bonito do norte de África”, como disse Chuck Berry (um dos percursores do rock) quando veio dar um concerto a este retângulo plantado à beira do Atlântico. Os irmãos de Vera Cruz são a maior Legião Estrangeira na Europa. Uma prova de que o futebol com samba tem mais encanto. Ou não. Mas eu prefiro dizer que sim. Os movimentos de ida agora já não são mais feitos só para cá. Mas também para lá. À medida que o tempo avança, o Brasil vai se afigurando como um gigante económico. E já consegue reter os seus maiores valores. Veja-se o caso de Neymar.

Batalhando em relvados alheios; uns melhor, outros… nem tanto, os habitantes da terra do pau cor de brasa impõem uma civilização. Exportam, de uma maneira ou de outra, uma fração de cultura do país. Se não é pela língua, pela escultura, ou pelo direito, pelo menos é por um público satisfeito e um estádio a aplaudir de pé. Depois é descansar, porque a vida espartana requer pouco lazer e muito sofrimento. Na semana seguinte toca a reunir tropas, pois vem aí outra guerra.

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O Daniel Melo é por vezes leitor, por vezes crítico. Armado em intelectual cinéfilo com laivos artísticos. Jornalista quando quer. O desporto é mais uma das muitas escapatórias para o submundo. A sua lápide terá escrita a seguinte frase: "Aqui jaz um rapaz que tinha jeito para tudo, mas que nunca fez nada".                                                                                                                                                 O Daniel escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.