Superliga Europeia: o inevitável fluxo do futebol moderno?

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É um dos temas do momento. A criação da Superliga Europeia já fez correr muita tinta, vendeu alguns jornais, gerou debates intensos e provocou reações de grandes figuras do futebol. Agora, mais a frio, vamos analisar todos estes acontecimentos que surgiram desde dia 3 deste mês, data em que a investigação ‘Football Leaks’ revelou um anexo de um email enviado ao presidente do Real Madrid, Florentino Perez, que consistia num acordo para a criação da Superliga Europeia, em 2021. O documento deveria ser assinado pelos presidentes dos 11 clubes fundadores. Esses 11 clubes são o Real Madrid, o Barcelona, o Manchester United, o Manchester City, o Chelsea, o Arsenal, o Liverpool, o PSG, a Juventus, o Milan e o Bayern de Munique. A estes juntar-se-iam cinco convidados, o Atlético de Madrid, o Olympique de Marselha, o Inter de Milão, a Roma e o Dortmund.

A “bomba” rebentou e as grandes instituições do futebol não ficaram indiferentes. Gianni Infantino, presidente da FIFA, deu a entender que os jogadores que participem na Superliga Europeia poderão ser banidos. “Ou estão dentro, ou estão fora”, atirou o italiano. De Espanha, surgiram notícias de que a UEFA tem preparado um “plano de emergência” para combater a Superliga Europeia, propondo, por exemplo, passar os jogos da Liga dos Campeões para o fim-de-semana, deixando para os dias de semana as competições nacionais. Recorde-se que o presidente da UEFA chegou a referir, a 22 de março do ano passado, que não existiria Superliga Europeia: “Tenho a certeza de que não haverá uma Superliga. Isso significaria uma guerra à UEFA. Claro que ninguém o pode garantir, mas enquanto eu lá estiver não haverá Superliga”. “O apuramento para a Liga dos Campeões tem de ser um sonho para todos. Não pode haver uma competição fechada”, revigorou o esloveno.

Também de Espanha surgiram notícias de que o projeto da Superliga Europeia estava sem financiamento, devido ao abandono da empresa norte-americana Relevent que abandonou o projeto devido à ausência de um plano financeiro. Até será bastante surpreendente se um projeto destes não tiver pernas para andar, porque, ao que parece, basta reunir um grande investimento para montar uma competição com algumas das melhores equipas do mundo. Com maior ou menor brevidade, acredito que o futebol acabará por ceder e a Superliga acontecer. É o passo natural à medida que os clubes desaparecem e se transformam em empresas. É, no fundo, criar um modelo competitivo de inspiração norte-americana (NBA, NFL…), onde todas as equipas são empresas, mais vocacionadas para o aspeto comercial e económico do que desportivo. As competições são fechadas a um número restrito de equipas que a elas só podem chegar por convite pois são as próprias equipas que chefiam a organização do campeonato. É um modelo que até poderá fazer sentido nos Estados Unidos (os americanos quase não conhecem outra forma da fazer as coisas) mas não no resto do Mundo, em particular na Europa. É a total destruição do futebol e de tudo aquilo que representa, uma atitude elitista em contra-senso com tudo o que esta modalidade representa, colocando também de parte os interesses dos adeptos de cada clube, que para seguir a sua equipa teriam que fazer viagens mais longas e dispendiosas.

Uma festa que não será possível com a Superliga europeia
Fonte: UEFA

Entendo o ponto de vista dos que querem campeonatos mais competitivos, mas não me parece que seja este o caminho a seguir. Por exemplo, o campeonato francês parece um autêntico passeio para o PSG, mas ainda há duas épocas foi conquistado por outra equipa. Quando, entre 2001/2002 e 2007/2008 foi conquistado sempre pelo Lyon, parecia-me mais desequilibrado. Em Itália, a Juventus já coleciona títulos há sete anos consecutivos, mas nunca se pode dar ao luxo de adormecer fruto das prestações das equipas de Milão, Roma e Nápoles. Na Alemanha, o Bayern tem dominado, mas as escorregadelas têm-se acumulado. Em Inglaterra, os big-6 equilibram-se e ainda há pouco tempo foi o outsider Leicester campeão. Em Espanha, os três grandes têm dividido protagonismo, mas não entram para todos os jogos a ganhar. Esta época, o Real Madrid já perdeu com Alavés e Levante e o Barcelona com Leganés e Bétis. Será assim tão desequilibrado?

Os melhores não serão sempre os melhores. A magia do futebol reside também no facto de a “bola ser redonda” e de os pequenos vergarem os grandes. Ainda na semana passada, assistimos ao delicioso Estrela Vermelha 2-0 Liverpool na Liga dos Campeões, um jogo com uma paixão tremenda, a fazer relembrar os velhos tempos da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Querem mesmo acabar com isto? Tirem-me tudo menos a magia da Liga dos Campeões, o ritual de ouvir o hino e ficar com pele de galinha, de assistir a grandes jogos (não necessariamente das equipas mais poderosas) e ver grandes jogadores. Há espaço para tudo, não tentem desvirtuar as competições só para proporcionar “jogos grandes”, porque os “grandes jogos” serão sempre os melhores.

Fonte: UEFA

Artigo revisto por: Jorge Neves

João Brandão
João Brandãohttp://www.bolanarede.pt
Desde cedo o avô lhe colocou o bichinho do futebol e não mais parou de crescer, expandindo-se para outras modalidades. Atento e perfecionista, gosta de analisar ao pormenor cada aspeto do jogo. Considera que o melhor que a vida nos pode dar é um bom jogo de futebol, para ver com um bom grupo de amigos.                                                                                                                                                 O João escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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