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«Olhando aquele homem, vislumbra-se todo o sentimento rojiblanco. Com ele, através dele e por ele construiu-se uma verdadeira equipa, o conjunto com todos os caracteres e com todo o carácter. Nunca como Simeone houvera alguém que conseguisse de forma tão pefeita fazer com que o global fosse imensamente superior à soma das partes, das individualidades e dos egos.

O ‘Atleti’ demorou 18 anos a limpar a cara, a reconstituir o rosto e a levá-lo à luta. Rodeado pelos adasmatores financeiros, criou o seu BI feito de um jogar verdadeiramente intransmissível, assente na garra, na vontade, na crença e no espírito guerreiro e combativo que apenas serviu para exponenciar a qualidade da ocupação dos espaços, da destreza táctica e da perspicácia na tomada da (melhor) decisão. Com bola, houve a astúcia para despir, rapidamente, o fato de operário e colocar o traje de gala, com passe curto ou longo mas com uma classe e fiabilidade indesmentíveis. O futebol musculado surgia quando o futebol apoiado não dizia ‘presente’; inauditos foram os timbres que os colchoneros foram, ao longo dos meses, sabendo tocar e aperfeiçoar, adaptar e moldar. Se o jogo exigia defesa compacta e excelência de posicionamento, o Atletíco virava rocha; se era preciso correr atrás e assumir, o Altético encarnava a pele de um lobo esfomeado, astuto quanto baste para desferir o ataque mortal à sua presa no momento certo.

No seu comando, o homem a quem tudo devem. Simeone é o catalisador da máquina, personagem central de uma equipa mecanicamente realizada, onde proemine sempre a alma. A fibra emanada do banco impulsiona os adeptos e encontra forma nos seus jogadores – olhando para ele, os (hoje) craques encontram certeza no processo e a grande probabilidade do resultado. Porque acreditam em quem os guia e no seu tão cativante quanto apaixonado discurso.

Há ciclos da vida que, por serem tão ricos, nos custam a fechar. A época 2013/14 é um caso paradigmático – ver jogar este ‘Atleti’ é um prazer, por provar que a comunhão de dezenas de complexas almas rumo a um objectivo comum é possível. Mas também cansa porque o seu esforço, por vezes, surgiu como sobrehumano. Qual fénix, o ‘Atleti’ renasceu das cinzas agarrado ao carisma de El Cholo – reuniu-se daqueles que melhor interpretaram os valores da combatividade e da eficácia e, com eles, construiu uma máquina de futebol. Uma máquina que convenceu e emocionou aqueles que mais gostam deste desporto. E desmentiu, assustando, os livros de cheques.»

simeone!
Ser campeão no Camp Nou – um feito para a história.
Fonte: Mundo Deportivo

Tais linhas, escritas num tempo em que o Atlético dava a ideia de que se desmoronaria, encontram-se hoje simultaneamente prestes a ser desmentidas e confirmadas. Desmentidas porque aquilo que se poderia julgar episódico e atípico – uma época soberba de uma equipa por quem “nada se dava”, passe o exagero – tem tudo para ser uma história ainda com curtos capítulos, cujos actores até podem mudar, mas cuja qualidade da trama é inquestionável; confirmadas porque, não obstante as tais mudanças em pedras fulcrais, a equipa continua a evidenciar-se como um verdadeiro conjunto, plenamente sólido, com uma matriz de jogo inquebrável e princípios de jogos perfeitamente assimilados, exaltando, a cada diferente momento de jogo, o fantástico trabalho de um ‘louco’ Simeone.

Desde a final da Champions, em Maio deste ano, a equipa rojiblanca viu sair Courtois, Filipe Luís, David Villa, Diego Costa e os sempre úteis Sosa, Diego e Adrián Lopez. Ou seja, dos 14 que actuaram no Estádio da Luz, perdendo, de forma dramática, o caneco para o Real Madrid, 6 deles estão noutras paragens. Simeone não abalou e enquanto outros faziam capas e capas de jornais, inflacionavam o mercado com compras tão altas quanto (talvez) desnecessárias, o ‘Atleti’ planeava aquilo que desejava ser o continuar do seu conto de fadas.

Três meses volvidos e um Mundial ultrapassado, o mesmo adversário da Luz e eterno rival apareceu-lhes novamente no caminho. A Supertaça de Espanha ditava um duplo confronto que parecia agora muito mais desequilibrado. Puro engano. A casa tinha sofrido com algumas telhas partidas, a fachada estava menos apelativa, mas os alicerces estavam e estão mais firmes do que nunca. Simeone viu em Moyá, Siqueira, Saul, Griezmann e Mandzukic alternativas válidas às importantes saídas e aquele ‘Atleti’ que parecia espremido até ao tutano voltou revigorado e fresquinho que nem uma alface.

Esta página dourada que Simeone e a sua equipa trataram de assinar – apenas a segunda vitória na Supertaça espanhola em toda a história do Atlético – permitiu comprovar que a estrutura e os princípios da equipa são os mesmos da época (quase) perfeita de 2013/14. O hoje fora da moda 4-4-2 clássico (facilmente desdobrável em 4-4-1-1) é a base táctica de uma equipa que até se deixa dominar mas jamais deixa de controlar. Defensivamente (e será sempre aqui se notará mais a qualidade do trabalho de um treinador), voltamos a ver um ‘Atleti’ muito compacto, com as linhas próximas e com correctas coberturas perante os craques do Real – ainda mais notório quando a bola cai nas alas merengues e a equipa trata de apertar sempre com três homens (o lateral, o médio ala e o médio central que descai para aquele lado). Mesmo quando arrisca com mais homens no ataque e a perda de bola acontece, o Atlético reposiciona-se com tanta qualidade quanto rapidez, não permitindo em nenhum dos jogos que o Real aplicasse uma das suas mais poderosas armas: a transição ofensiva.

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Mais do que qualquer individualidade, a força do Atlético é o seu conjunto
Fonte: bbc.co.uk

Com a saída dos três homens mais utilizados na frente de ataque – Diego Costa, Adrián e Villa –, o ‘Atleti’ ainda não consegue ser tão ameaçador quanto desejaria. Mandzukic é um jogador da mesma estirpe física do ex-‘19’ rojiblanco mas não tem a velocidade nem a capacidade de explorar a profundidade que o agora jogador do Chelsea demonstra. Por outro lado, o baixinho Griezmann pode vir dar outro poder de fogo e outro improviso no último terço do campo, atenta a forma inteligente como conduz e define os lances – algo, aliás, visível principalmente na segunda metade do jogo da segunda mão da Supertaça em que surgiu não raras vezes a dar apoio central e a ligar o jogo da equipa. Todavia, isto, em princípio, implicará a derivação do ‘farol’ Raúl Garcia para a direita (pelo menos enquanto Arda não recupera), ele que é – como era – o alvo quando a equipa tem necessidade de um jogo mais directo e mais ‘esticado’, apelando à fortíssima dimensão aérea do seu nº 8. De facto, foi essa forma de jogar que o Atlético utilizou durante muito tempo no jogo no Santiago Bernabeu bem como na 1ª parte no Vicente Calderón. Depois, com mais espaço, a equipa tornou-se mais capaz de fazer algo que tão bem sabe também: gestão do ritmo de jogo com bola. Neste sentido, a titularidade de Tiago foi um plus, tamanha a qualidade de posicionamento e capacidade (de oferecer linhas) de passe do internacional português, capitalizando ainda mais a valência que o ‘Atleti’ demonstra de fazer “campo grande” quando quer fazer posse, utilizando de forma sistemática os seus dois laterais, hoje Siqueira e Juanfran (que grande partida fez na 2ª mão!).

Tudo somado, o Atlético levou de vencida o conjunto de Ancelotti e garantiu a sua primeira conquista da época. Talvez até mais do que o título, de reter ficam já os bons feelings que a equipa de Simeone foi capaz de dar, demonstrando que as bases do inimaginável recente sucesso têm tudo para ser replicadas nesta nova época. Perante as várias baixas de peso, não admirará se o Atlético ainda vier a fazer um pequeno ajuste no seu plantel; de todo em todo, a forma como se bateu no duplo confronto diante do super-Real deixa antever que qualquer sonho que percorra a mente de Simeone pode ser materializado – os guerreiros em forma de jogadores de futebol estão de volta e, com isso, a prova de que vencer no futebol, felizmente, não depende de um livro de cheques.

super Atleti!
Depois da derrota na Luz, o ‘Atleti’ vingou-se do seu maior rival.
Fonte: Marca

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