O futebol moderno é cada vez mais assente numa globalização dos futebolistas. Quando utilizo o termo globalização, refiro-me à ideia de que o futebol atual raramente tem barreiras geográficas.

De facto, hoje em dia, a probabilidade um jogador de futebol efetuar toda a sua carreira no país de origem é, no mínimo, escassa. O dinheiro, a ambição e mesmo a busca por um maior nível de competitividade leva a que “emigração” seja um termo bastante associado ao mundo do futebol.

Contudo, as ligas de maior dimensão, como a inglesa e a espanhola, ainda conseguem “segurar” os craques.
Em Espanha, existe um caso particular que sempre me causou surpresa: David Villa Sánchez. O jogador em questão, agora com 32 anos, é um dos exemplos mais enigmáticos daqueles que optam por permanecer no “conforto” da liga onde cresceram.

Num curto resumo, exponho aqui o trajeto do avançado: David Villa despontou para o futebol no Sporting Guijón, onde jogou entre 2001 e 2003. Ainda muito novo, transferiu-se para o Real Zaragoza. Em duas temporadas, faturou 38 golos em 73 jogos e conquistou a Copa del Rey e a Supercopa. Os golos e as boas exibições despertaram o interesse do Valência, e, em 2005, David Villa ingressava no clube. Foi precisamente no clube valenciano que o avançado mostrou as suas melhores qualidades: em cinco épocas, num total de 166 partidas, Villa marcou 108 golos e fabricou exibições de luxo. Rapidamente se transformou no ídolo dos adeptos e na maior figura da equipa. Porém, em cinco anos, conquistou apenas (e novamente) uma Copa Del Rey e uma Supercopa – pouco, muito pouco.

Villa com as cores do Valência.
Villa com as cores do Valência. / Fonte: Reuters

Foi então que, em 2010, o Barcelona pagou 40 milhões de euros ao Valência, e, finalmente, David Villa representava um grande clube europeu. Um clube à sua medida.
A verdade é que só assim o avançado foi capaz de juntar ao seu palmarés uma Liga dos Campeões, duas Ligas Espanholas, um Campeonato do Mundo de Clubes e uma Supertaça Europeia. Depois de três anos na cidade condal, a idade e os alegados desentendimentos com Leonel Messi fizeram com que o Barcelona vendesse David Villa ao Atlético Madrid por apenas 5,1 milhões de euros.
Este época o avançado espanhol leva 11 golos e três assistências, em 19 jogos, mas vive muito na sombra do incrível (e jovem) Diego Costa.

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No meio de tudo isto, David Villa ganhou com a Seleção espanhola o Campeonato da Europa por duas vezes (2008 e 2012) e o Campeonato do Mundo da Africa do Sul (2010), onde foi o melhor marcador, com cinco golos.
O que torna, então, o caso de David Villa especial? Eu respondo: apesar de toda a qualidade demonstrada desde muito cedo, Villa nunca protagonizou a tão esperada transferência para um grande do futebol europeu. Recordo-me perfeitamente de não haver um verão em que o nome de David Villa não surgisse como alvo de transferência de quatro ou cinco “tubarões”. Felizmente, o Barcelona trouxe algum brilho a uma carreira que seria no mínimo desapontante e injusta, face à qualidade demonstrada. No entanto, foi, na minha opinião, muito tarde. O jogador permaneceu demasiado tempo em Valência – com todo o respeito pelo clube.

Villa foi o melhor marcador do Campeonato do mundo em 2010. / Fonte: The Sun
Villa foi o melhor marcador do Campeonato do mundo em 2010. / Fonte: The Sun

Obviamente, as razões para permanecer em Espanha podem ter sido muitas: vontade própria, afeto ao Valência e à Liga espanhola, receio na adaptação a uma cultura futebolística diferente ou até questões financeiras. A verdade é que o próprio jogador pode sentir-se perfeitamente realizado com o seu trajeto. O fundo deste texto propõe-se apenas a retratar um caso que foge ao comum e cujo currículo não reflete a qualidade daquele que é o melhor marcador de sempre da Seleção espanhola, com 56 golos.

Rápido e explosivo, David Villa é um avançado versátil com capacidade para jogar entre os centrais ou em qualquer ponto do último terço do terreno. Tem um remate colocado e forte que o torna letal em frente às balizas. Os movimentos em campo demonstram uma inteligência acima da média, que, aliada a uma rápida leitura de jogo, o tornam num dos avançados mais completos do futebol. O elevado número de golos não surpreendem. Contudo, as muitas assistências que sempre fez ao longo da carreira revelam uma tendência para o jogo coletivo – tão amado pelos espanhóis.
Os defeitos são poucos, ou quase nenhuns. Talvez lhe deva apontar a fraca capacidade física devido à baixa estatura e baixo peso. Porém, tudo isso é suplantado pela capacidade natural de marcar golos.

É por estas razões que, sempre que vejo um golo de David Villa, sinto uma espécie de mágoa, como se a história deste avançado não fosse a correta ou tivesse sido alterada. Talvez esteja a ser demasiado dramático, eu sei. Porém, acho que Villa tinha e deveria ter ficado na elite do futebol por mais tempo (e há mais tempo).

Em 2008, ainda antes da conquista do primeiro Europeu de seleções, Cesc Fabregas afirmou: “David é um jogador incrível – ele tem uma enorme mobilidade, faz golos e é raçudo. Eu adorava que ele se juntasse a mim no Arsenal. Ele seria fantástico na Liga Inglesa”.

Ora, caros leitores, eu não podia estar mais de acordo.

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Benfiquista até ao último osso, mudou-se do Norte para Lisboa para poder ver o seu Benfica e só depois estudar Jornalismo. O Pedro é, acima de tudo, apaixonado pelo desporto rei e não perde uma oportunidade de ver um bom jogo de futebol.                                                                                                                                                 O Pedro escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.