Deportivo Alavés: Se Mendizorrotza falasse

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Aberto ao público em Abril de 1924, o Mendizorrotza é o terceiro estádio mais antigo do futebol profissional espanhol. É velho. Se fosse capaz, como velho que é, contaria, a quem por lá passa, todas as histórias de uma vida cheia.

A maior parte delas teria doses generosas de ganas, ensinando-nos a importância do carácter no reerguer após a queda. Sempre com o mesmo protagonista: o seu Deportivo de Alavés. Aquela equipa que lhe invadiu o coração, pintando-o de azul e branco antes de lhe provocar as arritmias de alegria de que padece ainda hoje.

Se Mendizorrotza falasse, emocionar-se-ia ao recordar 1970, 1986 e 2009. Não choraria nem lamentaria os anos mais penosos do Alavés. Porque sabe que, sem eles, não teria histórias tão extraordinárias para contar e os Babazorros não teriam o carácter próprio de quem consegue fazer algo muito bom de uma situação desfavorável.

Nos anos 70, ao escalar 2 divisões em 2 anos, ganharam a força que lhes permitiu, mais tarde, sair dos confins da 4ª divisão (em 1986) até à liderança da 2ª (com meias-finais da Taça do Rei incluídas) em 11 anos.

Chegados à elite, em 1998, tremeram muito (16º lugar), mas não caíram. Ganharam forças e, na temporada seguinte subiram 10 posições, qualificando-se de forma inédita para a europa. E o que aconteceu? Mendizorrotza diria novamente “tremeram, mas não caíram”.

Na primeira eliminatória da Taça UEFA, Mendizorrotza, já de cara lavada (remodelado em 1999), assistiu ao jogo de estreia. 0-0 com o Gaziantepsor. 15 dias depois, na Turquia, o Alavés, mesmo depois de se ver em desvantagem na eliminatória por duas vezes saiu com um incrível 4-3 que os embalou para uma campanha europeia épica, terminada num jogo a condizer.

Cruyff festeja um dos 9 golos do jogo mais significativo da vida do Alavés Fonte: Goal.com
Cruyff festeja um dos 9 golos do jogo mais significativo da vida do Alavés
Fonte: Goal.com

Em Dortmund, frente a um Liverpool que se dava ao luxo de ter no banco jogadores como Robbie Fowler ou Patrick Berger, o Alavés brilhou. Dispostos no habitual 5x4x1 que já antes atormentara o Inter, os Barbazorros viram-se a perder por 2-0 aos 16 minutos e foram para o intervalo a perder por 3-1.

Desistir? O que é isso? Aos 49’ o jogo já estava igualado a 3 graças a um bis de Moreno. Fowler entrou para voltar a dar a vantagem aos reds, e pensou-se que o jogo estaria resolvido. A 2 minutos dos 90 Jordi Cruijff fez questão de cimentar o carácter do símbolo que representava e empatou.

No prolongamento, em inferioridade numérica (duas expulsões), um livre batido por McAllister sobre o lado direito da defesa azul-e-branca terminou, após um desvio de Geli,  no fundo das redes espanholas. O jogo acabava ali. A fria regra do Golo de Ouro assim o impunha.

Mendizorrotza foi inundado por lágrimas. Absorveu-as todas. Porque sabe que, uma dia, o Alavés vai ter a glória que não conheceu em Dortmund. A história encarrega-se de o demonstrar.

Esta equipa pode ser derrotada, humilhada, mas levanta-se logo a seguir. E brilha, impulsionada pela força do carácter que o seu símbolo carrega. Foi assim desde a 4ª divisão à Final da Taça UEFA, poderá muito bem ser, assim, também, desde a 3ª Divisão (2009) à final da Taça do Rei, para a qual se qualificaram depois de umas meias-finais aguerridas e ganhas ao Celta de Vigo.

No último fim-de-semana, os Barbazorros foram goleados, perante o olhar do Mendizorrotza, por 6-0. Os blagurana feriram o orgulho de um clube que iida extraordinariamente bem com isso. Estabeleceram uma espécie de prenúncio.

Foto de capa: LaLiga

Pedro Machado
Pedro Machado
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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