O futebol espanhol está, nos dias de hoje, na moda. Anda nas bocas do mundo desde a última década, quer pelo seu futebol, quer pela qualidade dos recursos humanos que cria e lança em catadupa, quer pela dinâmica de vitórias que tem vindo a apresentar. Mas até chegar a este patamar nem tudo foi um mar de rosas.

Desde que as competições de seleções existem – Mundial, desde 1930, e Europeu, desde 1960 -, até há oito anos atrás a história do futebol espanhol era pouco mais do que pobre, sobretudo para um país que, com 47 milhões de habitantes e dois dos maiores colossos do futebol mundial, Real Madrid e Barcelona, deveria competir com as grandes potências europeias como são Itália, Alemanha ou França. A verdade é que desde 1964, quando conseguiu o seu primeiro título no Campeonato da Europa com os saudosos Amaro Amancio, Luis Suarez, Iribar ou Marcelino Martinez, o desempenho da seleção espanhola tinha variado entre o suficiente e o paupérrimo até ao novo triunfo de 2008.

Em 1979 nasceu um projecto que permitiria ao futebol espanhol viver actualmente o período mais bonito da sua história: La Masia. La Masia existe desde 1702 – albergava arquitectos e homens da construção civil, servindo basicamente como casa de campo – mas em 1957, quando o Camp Nou foi inaugurado, passou a servir de sede social do FC Barcelona. Em 1979, mais precisamente a 20 de Outubro, tornou-se o quartel-general da formação do clube. Intimamente ligada à escola holandesa, através dos ensinamentos do homem que levou a Holanda à glória europeia (Rinus Michels) e de um dos seus pupilos nessa mesma seleção e no Barcelona (Johan Cruyff), La Masia foi criada a pensar nesse modelo, com o objectivo de formar e moldar os jovens com potencial para fornecer o clube e para criar uma base que possibilitasse também municiar a seleção, carente de grandes talentos e sobretudo de resultados.

Johan Cruijff e Pep Guardiola: dois responsáveis pelo sucesso de La Masia  Fonte: Vavel.com
Johan Cruijff e Pep Guardiola: dois responsáveis pelo sucesso de La Masia
Fonte: Vavel.com

A ideia foi posta em marcha e os talentos começaram a aparecer. Foi pelas seleções mais jovens que começou a aparecer a mudança de paradigma futebolístico espanhol. Em 1991 apareceria a primeira Taça dos Campeões Europeus vencida pelo Barcelona com os canteranos Pep Guardiola e Albert Ferrer, e em 1992 a Espanha seria campeã olímpica com os mesmos. A partir daí, não mais parou de crescer a fábrica de talentos culé e, por consequência, o futebol espanhol.

Em 1998, Espanha vence o Europeu sub-21 com Arnau e Roger em destaque – sobretudo o primeiro, que é eleito o jogador do torneio – e em 1999 vence o Mundial de sub-20, com Xavi e Gabri como os baluartes do meio-campo. A partir de 2002 surge a hegemonia espanhola, com a cantera culé à cabeça: vence seis Campeonatos do Mundo de sub-19 (2002, 2004, 2006, 2007, 2011 e 2012), com Iniesta e Sergio Garcia (2002), Piqué e Jefrén (2006), e mais recentemente Sergi Gomez, Deulofeu ou Denis Suarez (2012); e conquista, em 2011 e 2013, o Europeu de sub-21 com os culés Thiago Alcantara, Montoya, Bojan Krikic e novamente Jefrén (2011) e com os mesmos Thiago e Montoya, aos quais se juntam Bartra e Tello em 2013.

Thiago, Tello, Bartra, Muniesa and Montoya - vencedores do Euro sub-21  Fonte: fcbarcelona.com
Thiago, Tello, Bartra, Muniesa and Montoya – vencedores do último Euro sub-21
Fonte: fcbarcelona.com

Em La Masia cresceu uma ideia, cresceu uma maneira de interpretar e jogar futebol, que atinge o seu auge no Europeu de 2008, quando a seleção espanhola vence o torneio com Xavi, Iniesta, Reina, Puyol, Sergio Garcia e Cesc como representantes da escola fantástica. A partir daí, a história tem sido sempre dourada. O clube vence três Champions (2006, 2009 e 2011) e a seleção atinge o máximo que um país pode ambicionar, o Mundial de Futebol, com nada mais, nada menos do que nove canteranos! Os já anteriormente citados (exceptuando Sergio Garcia) em 2008, mais Piqué, Valdés, Pedro e Busquets.

Hoje elogiámos uma fantástica geração, mas a verdade é que esta não nasce por acaso. O sucesso de nuestros hermanos surge de uma ideia cujas bases demoraram praticamente uma década a ser criadas e que permite que hoje haja um leque de estrelas que não pára de crescer ano após ano. La Masia é, muito provavelmente o expoente máximo da formação de jovens futebolistas em todo o mundo, e é o principal pioneiro no crescimento futebolístico de jovens no país vizinho, tendo levado outros clubes a investir e aproveitar mais e melhor a sua formação.

Hoje olhamos para o Barcelona e, por consequência, para a Seleção Espanhola, e vemos uma base de futuro que parece não parar de regenerar-se. Ainda há duas semanas venceu a Youth Champions League com duas novas estrelas que poderão dar que falar nos próximos tempos: El Haddadi e Adama Traoré.

Será este um modelo viável de seguir em Portugal?

Comentários