Esta semana decidi escrever este texto. Um texto que nasceu enquanto observava um jogo do Barcelona. Era o FC Barcelona contra o Real Madrid CF e voltava, bons tempos mais tarde, a sentar-me perante a televisão e a ver este bonito clube jogar. Foi um jogo que me fez recordar o porquê de ser adepto do Barcelona e, principalmente, a razão pela qual fico com um belo sorriso na cara quando os vejo a trocar a bola.

Eu cresci a ver o Barcelona, um clube enorme no futebol mundial. Cresci a ver o Barcelona, porque jogava lá o meu jogador favorito. Um craque. Um jogador que ninguém, mas mesmo ninguém, podia não gostar. Ronaldinho Gaúcho. Um fenómeno que durante anos espalhou magia, e que magia, com o símbolo do Barça ao peito. A saga de Ronaldinho no clube espanhol despertou-me cada vez mais para esta arte e para acompanhar “de perto” aquilo que o clube ia conquistando. Lembro-me que o “Dinho” foi o jogador que mais admirei, inicialmente. No despertar de Ronaldinho, o seu futebol individual era o que mais me surpreendia. As suas arrancadas. O seu desequilíbrio. A sua finta. Os inúmeros golos. O golo que fez adeptos do Real Madrid levantarem-se e aplaudirem o camisola dez do Barcelona. Era um talento puro. Talvez agora, o mais próximo de ser um Ronaldinho em estilo de jogo seja mesmo o conterrâneo Neymar. Foi esse o “meu primeiro passo” enquanto adepto do clube de Barcelona.

Logo de seguida, Puyol. Um poço de força e um dos maiores exemplos do futebol mundial. Um pequeno central que marcou imensos golos de cabeça em pontapés de canto. Um capitão que ensinou muito a Piqué e que mostrou ser um senhor dentro das quatro linhas. Puyol mostrou-me o exemplo que era. Um jogador como hoje não há. Um senhor que procurava simplesmente jogar à bola e que nunca, mas nunca, entrava em discussões além bola. Nunca mais surgiu um homem assim no futebol, como todos deviam ser. Após e durante a era de Puyol, jogava no meio-campo um senhor chamado Xavi.

Oh, rico Xavi.

Um homem que hoje joga no Catar e que deixou saudades no futebol europeu. O camisola seis era o motor da equipa do Barça. O “todo o terreno” que transportava a bola e que fazia a ligação defesa-ataque. Muitas vezes discreto, mas a sua qualidade estava sempre presente. Tantas outras vezes jogava a passo, pois sabia que era assim que rendia mais ao jogo. Foi talvez o jogador que mais me custou ver partir do clube espanhol. Ao lado dele, o menino Iniesta.

Ter-Stegen tem feito um trabalho fantástico no clube espanhol
Fonte: FC Barcelona

Poucas são as palavras para descrever o talento de Iniesta. Um craque que Deus fez e que devia ser eterno nos relvados dos principais estádios de futebol. O homem que envergou a braçadeira de capitão depois da saída de Xavi. Um homem que, com a idade que tem, joga mais que muitos meios-campos adversários juntos. Hoje espalha talento em terras japonesas.

Esta era. Uma era que terminou com a saída de um grande leque de jogadores que muito deu ao futebol do Barça, deu início a uma era menos boa. Uma era onde o estilo de Guardiola tinha desaparecido e se receava nunca mais voltar a ver o querido Barcelona a jogar tanto. Deixámos de ver com o mesmo encanto o futebol que o Barcelona praticava. Muitas vezes, até, deixámos de ver o Barcelona a conquistar os troféus que tanto nos habituou a conquistar. A juntar a isso, Messi ia deixando escapar os títulos de melhor jogador do Mundo para Cristiano Ronaldo, do Real Madrid. A “crise”, se assim lhe quiserem chamar, era uma bola de neve que não tinha forma de parar de girar pela montanha a baixo.

Hoje, e depois daqueles 5-1 que tão feliz me fizeram ficar, não tenho dúvidas que estamos a entrar numa nova era de sucesso do Barça. Uma era muito semelhante àquela descrita acima, tanto pelas individualidades, como pelo coletivo. Tanto pela organização defensiva, como ofensiva. Uma maravilha de equipa que tem muito para conquistar no Mundo.

Defensivamente, vemos um conjunto de jogadores talentosos que garantem o presente e o futuro da equipa. A experiência de Piqué junta-se com o monstro Umititi e também com o recém-chegado Lenglet. Dois jovens franceses, o segundo, certamente perto de se tornar internacional pela equipa campeã do mundo, e o primeiro, com as melhores estatísticas individuais de um central do Barcelona dos últimos anos. Dois grandes talentos que vieram de fora do clube para ajudar o coletivo.

Nélson Semedo tem dividido o lado direito da defesa com Sergi Roberto
Fonte: FC Barcelona

As laterais estão também bem entregues. Do lado direito, Nélson Semedo e Sergi Roberto oferecem um estilo de jogo muito diferente, mas prometem, e dão, trabalho ao coletivo. Do lado esquerdo, Alba oferece um presente de qualidade, conseguindo corresponder ao longo de toda a linha esquerda. Sobre ele não é preciso dizer muito. É apenas necessário começar a trabalhar internamente, ou à procura de uma alternativa de médio a longo prazo para o internacional espanhol, na equipa desde 2012.

O meio-campo é também um conjunto de peças que fazem a equipa crescer no relvado. Busquets é, sem margem de dúvida, o melhor trinco do Mundo.

“Ah, mas como é que podes dizer isso… blá blá blá.”

A verdade é que o espanhol é a peça mais importante da equipa do Barça. Defende muitíssimo bem, ataca muitíssimo bem e é, ao mesmo tempo, um dos jogadores mais discretos da equipa. Na hora de passar faz lembrar Xavi, com a elevada taxa de sucesso. Na hora de defender acaba por não dar quase trabalho algum ao sector defensivo. É o jogador com maior taxa de sucesso nas suas funções, no futebol mundial.

Metros acima “vivem” Rakitić e Arthur, num meio-campo surpreendente. Rakitić é vice-campeão do Mundo, um jogador influente tanto no clube como na seleção e, sem dúvida, um dos jogadores que mais cresceu nos últimos anos com a camisola do Barcelona. Ao seu lado, o reforço brasileiro que sentou Vidal. É verdade, Arthur chegou ao clube espanhol e o seu trabalho e dedicação foi recompensado com o lugar que, à partida, seria do chileno. O brasileiro herdou a camisola de Xavi e tem estado à altura desse número nas costas. Uma excelente qualidade de passe que faz recordar os anos do ex-internacional espanhol. Uma leitura de jogo que ocupa o espaço deixado por Iniesta. Uma margem de progressão que faz dele um dos futuros melhores médios do Mundo.

O ataque é o do costume. Messi e Suárez são os protagonistas do costume, mas o destaque deste paragrafo vai para Coutinho. Oh, Sr. Coutinho. Já tínhamos visto muito do trabalho dele em Terras de Sua Majestade e até em Milão, mas a adaptação em Barcelona tem sido fantástica. Uma técnica fenomenal, um trabalho coletivo perfeito e na hora de rematar às redes adversárias tem sido letal. Hoje, o ataque do Barcelona é tão ou mais perigoso que os ataques do clube nos últimos anos (excepção é o trio MSN). No banco, ainda contam com a prata da casa e com um Dembélé que apenas precisa de tempo de jogo para mostrar todo o seu talento, tanto de pé direito como esquerdo.

O estilo de jogo desta equipa é uma mistura do famoso tiki-taka e do futebol mais moderno. O tiki-taka foi bem visto no primeiro dos cinco golos da partida frente aos rivais de Madrid. Trinta passes levaram a bola aos pés de Coutinho, que precisou apenas de encostar. Uma jogada que mostrou a grande e importante mobilidade dos jogadores e a qualidade de cada um deles em sair da zona de conforto.

Este Barcelona, em muito faz lembrar o Barcelona treinado por Guardiola, ou o jogado por Deco e Ronaldinho. É um Barcelona cheio de vida que mistura o tiki-taka do passado com o futebol da atualidade. É um coletivo de jogadores que tem estado em destaque esta temporada e que, se ninguém colocar um travão, vai acabar a conquistar meio Mundo. E o outro meio? Será também conquistado por eles.

Foto de capa: FC Barcelona

Artigo revisto por: Jorge Neves 

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