Estávamos a 1 de setembro de 2018, no final do verão, e na Indonésia decorria a 18ª edição dos Jogos Asiáticos, um evento que, de quatro em quatro anos, reúne desportistas de todos os países da Ásia. No Pakansari Stadium, a final do futebol masculino, entre a Coreia do Sul e o Japão, ia a prolongamento, após o 0-0 no tempo regulamentar.

A expetativa era muita. Não só estava em jogo uma medalha de ouro, como também o futuro do melhor futebolista asiático da atualidade e, muito possivelmente, de sempre. Os olhos estavam postos em Son Heung-Min, que dependia da vitória mais do que ninguém. Caso os coreanos saíssem derrotados, o avançado do Tottenham seria obrigado a cumprir dois anos de serviço militar e, consequentemente, a interromper a carreira durante esse período.

E foram precisamente duas assistências de Son a desbloquear o encontro. Aos 93 e 101 minutos do tempo extra, Lee Seung-Woo e Hwang Hee-Chan, respetivamente, agradeceram as ofertas do compatriota e marcaram os dois golos que selaram a conquista da competição. Son Heung-Min podia, assim, voltar a Londres para continuar a envergar a camisola dos Spurs.

O regresso à equipa de Mauricio Pochettino acabou, contudo, por defraudar um pouco as expetativas, numa fase inicial. Na Premier League, o Tottenham perdia em “casa” (Wembley) diante dos dois principais rivais na luta pelo título – Manchester City FC e Liverpool FC – e na Liga dos Campeões apenas amealhava um ponto em três jornadas (derrotas contra o FC Barcelona e Inter de Milão e empate frente ao PSV Eindhoven). No final de outubro, a época era tudo menos um mar de rosas para os ingleses.

Os números de Son também não ajudavam à festa. É certo que um avançado não deve ser só avaliado pelos golos, muito menos quando apresenta uma qualidade de desequilíbrio, longe da baliza, acima da média. Porém, chegar ao 12º desafio da temporada sem qualquer golo e com uma utilização irregular era algo a que o coreano não estava habituado.

A alegria de Son após a passagem às meias-finais da Champions
Fonte: Tottenham Hotspur FC

Foi com algum (ou muito) alívio que os adeptos londrinos assistiram aos dois golos de Son na vitória frente ao West Ham por 3-1, a 31 de outubro. Afinal, a estrela asiática não tinha perdido o dom da finalização e ia bem a tempo de realizar mais um ano notável a todos os níveis.

Chegamos ao final do mês de janeiro e a uma altura determinante da época. No espaço de três dias, o Tottenham jogava a continuidade na Carabao Cup e na FA Cup, enquanto Son almejava a conquista da Taça Asiática pela seleção sul-coreana.

E, em três dias, o que podia correr mal correu mal: nas meias-finais da Carabao Cup, os Spurs foram eliminados pelo Chelsea FC nas grandes penalidades; no dia seguinte, a Coreia do Sul (com Son a titular) era afastada do torneio asiático após o desaire com o Qatar nos quartos-de-final; dois dias depois, a 27 de janeiro, a derrota do Tottenham contra o Crystal Palace FC ditava a saída precoce da FA Cup, nos dezasseis avos-de-final.

A juntar ao afastamento de todas estas frentes, Son e o clube londrino viam ainda City e Liverpool a distanciarem-se no topo da Premier League. Restava, então, aos Lilywhites lutar pela Liga dos Campeões. Mas já lá vamos.

O dia 3 de abril foi um dia especial em Londres. Dois anos após o velhinho White Hart Lane ter sido demolido, o Tottenham Hotspur Stadium, construído de raiz ao lado do antigo estádio do clube, teve finalmente direito à sua inauguração. Naquele que é, agora, o segundo maior palco de futebol do país, o Tottenham estreava-se com uma vitória por 2-0 diante do Crystal Palace. Para a história, fica o golo de Son Heung-min aos 55 minutos, o primeiro “furar de redes” de sempre daquela casa e que deixou os 59 mil adeptos londrinos ao rubro.

Agora sim, podemos falar da Champions. Se os primeiros três jogos da fase de grupos deixaram a ideia de que os Spurs iam ficar pelo caminho, os últimos três encontros do conjunto de Pochettino contrariaram essa mesma ideia. Ainda em Wembley, o Tottenham venceu o PSV e o Inter pela margem mínima. Em Camp Nou, um empate alcançado ao cair do pano, conjugado com o empate no Inter-PSV, permitiu aos Spurs seguirem até aos oitavos-de-final.

Nesta fase da competição, Son e companhia despacharam o Borussia Dortmund por 4-0 no conjunto das duas mãos, com um dos golos a pertencer ao sul-coreano. Era altura de disputar os quartos-de-final, frente ao conhecido rival Manchester City.

Heung-Min Son tem sido a grande figura do Tottenham
Fonte: Tottenham

A equipa de Guardiola era claramente favorita. Não só a profundidade do plantel é maior, como o futebol apresentado traz mais garantias. Os 10 golos marcados ao FC Schalke 04 nos oitavos eram um bom exemplo disso.

Contudo, é sempre possível fugir à regra, o que se verificou a 9 de abril, no já inaugurado Tottenham Stadium. Aproveitando uma exibição miserável dos citizens, os londrinos exploraram da melhor forma as debilidades encontradas nesse dia, e venceram o City por 1-0: com mais um golo de Son, já perto do fim do encontro. Oito dias depois, jogava-se o tudo ou nada no Etihad Stadium.

Manchester é conhecida por ser escura e sombria, mas no dia 17 de abril viu-se uma cidade diferente do habitual: a tristeza visível nos rostos da casa contrastava com uma luz resplandecente vinda dos adeptos visitantes. O Tottenham perdera por 4-3 frente ao Manchester City, num jogo cheio de plot twists, mas passava às meias-finais da Liga dos Campeões, graças aos três golos marcados fora. Desses três golos, dois foram apontados por um nome familiar: Son Heung-Min. O asiático tornava a ser decisivo.

Amanhã a velhice e a juventude vão estar de mãos dadas. Se, por um lado,  é o regresso do Tottenham a umas meias-finais da Champions 57 anos depois, por outro o palco das emoções é um “bebé” com menos de um mês.

A história escreve-se de uma forma tão incrível que quis o destino que do outro lado estivesse o AFC Ajax: as duas surpresas da competição num frente-a-frente. No entanto, a história é também cruel, pelo que amanhã não veremos Son a espalhar magia em Londres. O coreano de 26 anos não vai poder jogar a 1ª mão (por acumulação de amarelos) e terá de assistir ao encontro nas bancadas.

Após um ano atribulado, repleto de altos e baixos, são poucos os que merecem tanto esta Champions como o sul-coreano. Mas ninguém duvide de que o asiático ainda tem uma palavra a dizer na competição. O início da história está escrito e Son Heung-Min pode muito bem ser o herói da mesma.

Foto de capa: Tottenham Hotspur FC

Artigo revisto por: Jorge Neves

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