Não poderia deixar de iniciar a minha colaboração com o BnR sem escolher como tema aquele que para mim é, indiscutivelmente, o melhor treinador de todos os tempos! Fez recentemente 48 anos e continua a dar-nos lições todos os dias na forma como pensa o jogo, como coloca as suas equipas a jogar, como exerce a sua liderança junto da sua equipa, como comunica, como continua a destruir preconceitos, mitos urbanos, tidos como verdades absolutas e irrefutáveis pela generalidade dos amantes do jogo. O que Pep Guardiola nos vai deixar como legado – já deixou – será de uma riqueza verdadeiramente incomparável.

Como jogador também foi um dos grandes. Peça basilar do Dream Team do FC Barcelona erguido por Johan Cruyff, seu grande mentor e influenciador, Guardiola foi um médio-defensivo de eleição, dos melhores de sempre. As suas caraterísticas assentes em qualidade técnica, inteligência e criatividade, a garantir um início de construção com muito critério e mestria, cortaram com os designados carregadores de piano, ou trincos, muito mais conhecidos pela capacidade de luta e abnegação do que pela destreza com bola no pé.

Nesse sentido, Guardiola foi pioneiro logo enquanto jogador, por assim dizer. Pontificou-se numa equipa recheada de estrelas (Koeman, Bakero, Michael Laudrup, Stoichkov, Romário…) e ganhou tudo com a camisola blaugranna, com destaque para a Taça dos Campeões Europeus em 1991-92, em Wembley.

Foi, no entanto, como treinador, que Guardiola atingiu um patamar inalcançável e promete continuar a fazer história e a marcar pela diferença. Os quatro anos em Barcelona foram do melhor que o mundo já viu. O seu Barça é a página futebolística mais bonita que já se escreveu, a melhor equipa de todos os tempos, o que mais próximo existe da perfeição, sucedido num tapete verde.

E porquê? Deu-se um encontro perfeito entre a ideia de jogo de um treinador e os jogadores que a corporizaram. Guardiola não teria logrado um futebol tão majestoso sem Messi, Xavi, Iniesta, Sergio Busquets, Piqué, Dani Alves… Mas aqueles maravilhosos jogadores nunca teriam jogado tanto sem os ensinamentos e diretrizes do técnico catalão. Foi o destino que os uniu para algo singular, talvez irrepetível.

Em quatro anos, Pep ganhou 14 (!) títulos colectivos, dos quais se destacam três Ligas Espanholas e duas Ligas dos Campeões (ambas diante do Manchester United FC de Sir Alex Ferguson). Verdadeiramente impressionante! Mas será pelos títulos que ele já ganhou um lugar privilegiado na Eternidade? Ganhar títulos, todos ganham. Ganhar muitos títulos, alguns eleitos também conseguem.

Revolucionar o Futebol através de ideias inovadoras é coisa de predestinados. E foi isso que Guardiola levou a cabo na Cidade Condal em 2008-09, 2009-10, 2010-11 e 2011-12. Ganhou tudo o que havia para ganhar, mas não de qualquer maneira. Fê-lo consoante a sua cabeça idealizou, e segundo o qual treinou e preparou a sua equipa. Conceber uma ideia de jogo diferenciada das demais, ensiná-la, implementá-la, treiná-la e triunfar com ela… haverá prazer maior para um treinador?

“Take the Ball, Pass the Ball!” Foi assim que Guardiola foi destruindo preconceitos, um após outro. Deixou de ser verdade absoluta que não se pode jogar com um meio-campo só de criativos e que era preciso também músculo e capacidade física. Deixou de ser verdade absoluta que os centrais ou os avançados têm de ser altos e fortes. Deixou de ser verdade absoluta que não se devia arriscar atrás no início de construção.

Deixou de ser verdade absoluta que havia que fazer cruzamentos sempre que se ganhava a linha de fundo. Deixou de ser verdade absoluta que a posse de bola devia ser sempre em progressão. Etc, etc, etc… O estilo diferenciador que Guardiola implementou no FC Barcelona e no Futebol foi o seu grande triunfo, e o que lhe garantirá um lugar na memória coletiva futura.

Quando se escrever a História do Futebol, o seu Barça estará lá num sítio especial e distinto. Luís Enrique, por exemplo, também ganhou tudo ao comando da equipa catalã. Mas que marca deixou?

Guardiola continua a ser um revolucionário, agora em Inglaterra.
Fonte: Manchester City FC

No FC Bayern Munique, em três temporadas, ganhou igualmente tudo a nível interno, além de uma Supertaça Europeia e um Mundial de Clubes, mas ficou o amargo na boca de não ter conseguido a Liga dos Campeões.

Afinal, era o objetivo primordial da sua contratação para o lugar do então campeão europeu em título Jupp Heynckes. Não conseguiu vencer em todas as linhas, mas manteve-se fiel à sua identidade, bastante antagónica àquilo que se praticava na Bundesliga.

Recebeu inúmeras críticas, muitas delas de gente com responsabilidade no clube bávaro, somou alguns desaires traumáticos, nomeadamente na Champions contra o Real Madrid CF, mas tal nunca o fez recuar daquilo que lhe trazia realização e que acreditava ser o caminho mais eficaz para ganhar: jogar o seu jogo, independentemente do adversário, sem nunca se adaptar a ele, pelo menos de modo global e significativo.

Agora, em Inglaterra, ao leme do Manchester City FC, numa Premier League cheia de especificidades e diferenças para o futebol continental, continua a trilhar o seu caminho de afirmação de um estilo, uma identidade, sem se desviar daquilo que sempre o norteou.

Depois de uma primeira temporada em que perdeu o campeonato para o Chelsea FC de Antonio Conte, e onde enfrentou alguns problemas para se rodear de jogadores com as características adequadas para o seu complexo ideário, na segunda época já conseguiu dar muitos passos em frente e jogar o seu futebol de posse constante, assente muito mais em capacidades intelectuais do que físicas.

Dotou a equipa de muita competência na transição ofensiva mais rápida, fruto sobretudo da exploração da velocidade de deslocação e execução de Sterling e Sané, mas continuou agarrado às suas ideias de sempre, jogando com um meio-campo com dois elementos criativos (entre David Silva, De Bruyne e Bernardo Silva) e apostando sobretudo no ataque posicional, em entrar no bloco contrário através de combinações e tabelas de dois/três jogadores, numa construção curta e apoiada, em ligações interiores, em pouco jogo pelo ar, na criatividade e entendimento do jogo dos seus jogadores.

No fundo, cortou radicalmente com uma cultura britânica fortemente enraizada, marcou novamente pela diferença, impôs-se pelas ideias e triunfou. Venceu a Premier League com 19 pontos de vantagem para o Manchester United FC de José Mourinho, somou 100 pontos (recorde absoluto em Inglaterra), foi o melhor ataque da prova (106 golos marcados) e a melhor defesa (27 golos sofridos) e, sobretudo, praticou um futebol esteticamente apelativo, que subjugou os opositores e divertiu os adeptos. Não é, afinal, para desfrutar que todos gostamos de Futebol?

O desígnio de ganhar a Liga dos Campeões no clube inglês continua vivo, e bem vivo. Até agora, Pep ainda não conseguiu dotar os citizens de capacidade suficiente para ombrear com as melhores equipas da Europa, mais habituadas a estas andanças. Na corrente Premier League, segue em segundo lugar atrás do fantástico Liverpool FC de Jurgen Klopp e não é líquido que consiga revalidar o título inglês.

Porém, o seu legado continua a ser reforçado ano após ano, e o seu maior triunfo é resistir à denominada “Era da Estratégia”, em que a maioria das equipas se molda ao adversário e atua em função deste, ao invés de preconizar sempre o mesmo modelo, trabalhado consistentemente. A identidade é muito bonita, mas são raras as equipas que procuram jogar sempre da mesma maneira, seja qual for o adversário.

A maioria não tem um traço que as caraterize e as distinga das demais. Limitam-se a adoptar estratégias consoante o oponente que encontram pela frente. Tão depressa podem querer assumir a iniciativa do jogo, como abdicar dela. Tão depressa saem apoiado, como batem longo. Tão depressa jogam em bloco alto, como em bloco baixo. Não têm um comportamento modelado em treino até à exaustão, antes, andam ao sabor dos adversários e dos próprios jogos.

As equipas de Guardiola resistem, continuam com a sua identidade bem vincada, sejam quais forem os adversários. E é por isso que, para mim, continua a ser o melhor, de longe. Mesmo que não ganhe sempre, mesmo que perca como todos os outros.

Fonte: Manchester City FC

Enquanto escrevo este texto, vou vendo imagens de uma das mais superlativas exibições coletivas de uma equipa. Há oito anos, o FC Barcelona de Guardiola cilindrava o Real Madrid CF de Mourinho por 5-0, e podiam ter sido oito, nove, dez, num jogo que constituiu uma das maiores subjugações/humilhações de uma equipa sobre outra teoricamente similar.

Uma verdadeira sinfonia, um desempenho sublime e harmonioso, de quase perfeição, de domínio avassalador, de demonstração de poderio do futebol de iniciativa sobre o futebol de estratégia, do futebol ofensivo e pró-ativo sobre o jogo defensivo e meramente reativo. Um regalo para os olhos dos amantes do espectáculo, de quem encara o Futebol como arte, e não apenas como ópio das massas.

Parabéns, Guardiola! Obrigado, Guardiola!

Foto de capa: FC Barcelona

Artigo revisto por: Jorge Neves 

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