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Precisamos de falar sobre o Wolverhampton Wanderers FC

Francisco Correia · 5 min

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Um dos principais protagonistas do mercado de verão em Portugal (sim) tem sido o Wolverhampton. Depois de um forte investimento que se traduziu num primeiro lugar no Championship e um acesso automático à Premier League – competição que já não disputava há seis anos – os Wolves continuam a fazer chegar algumas caras novas e bem conhecidas do nosso futebol ao plantel. Rui Patrício, João Moutinho e Raúl Jiménez são alguns dos nomes, e não passa muito disso. Por causa disso mesmo, não será que estejamos a colocar um clube recém-promovido num lugar imaginário que não devíamos?

Primeiro que tudo, há mea culpa a atribuir aos órgãos de comunicação social. O valor-notícia de proximidade nunca falou tão alto nos últimos dois anos quando qualquer notícia surgia sobre o Wolverhampton, desde o treinador até ao grande conjunto de jogadores, que são de nacionalidade portuguesa. Com os títulos que o nosso país tem conquistado ao longo dos últimos anos nos vários escalões do futebol, é normal que se destaque em força aquilo que alguns protagonistas associados ao nosso país fazem lá fora.

É importante existir esse ‘apoio’, mas este tipo de transferências nem chegam lá perto ao real mediatismo que existe por Inglaterra em volta das contratações de clubes como Liverpool, Arsenal e Manchester City e até de emblemas de nível mais inferior como o Everton ou o Crystal Palace. E há o reverso desta medalha.

Este caso pode ser comparado ao do Newcastle que, entre 2012 e 2016, tinha um número considerável de jogadores franceses e eram logicamente seguidos pelos meios de comunicação social franceses. O excesso dessa nacionalidade, quando se pensava que apenas se tratavam de bons reforços, foi alvo de críticas pois o Newcastle – emblema também histórico em Inglaterra – chegou a descer de divisão e teve de fazer uma limpeza no plantel para ‘espantar esse mal’.

Apesar de já ter presenças em competições europeias e finais de taças, Nuno Espírito Santo está perante o maior desafio da sua carreira como treinador
Fonte: Wolverhampton Wanderers FC

De seguida, é importante questionar a mudança de contexto, da segunda para a primeira divisão de uma das melhores ligas do mundo. Terá Nuno Espírito Santo o pulso suficiente para orientar uma equipa que tem de ter um primeiro objetivo: a permanência na Premier League? Há vários pontos de comparação para o que vem aí.

Logo à primeira vista, lembramo-nos (ou não) do seu tempo como treinador do FC Porto em 2016/2017, um clube que procura títulos todas as temporadas. Nessa época, o ponto mais alto foi logo ao início quando conseguiu o acesso à Liga dos Campeões depois de ‘cilindrar’ a Roma, em Itália, naquela 2ª mão do play-off de acesso por 0-3. Na liga milionária, caiu aos pés de outros italianos, a Juventus, nos oitavos de final. A nível interno, nunca conseguiu ‘assaltar’ o primeiro lugar do campeonato ao Benfica quando era possível. Na Taça de Portugal ficou-se pela quarta eliminatória e na Taça da Liga na fase de grupos. Ao longo dessa temporada, muito se pediu a Espírito Santo para arriscar mais e agora estamos a ver um pouco disso a acontecer em Inglaterra.

Antes de rumar ao Dragão, Nuno deu-se a conhecer como treinador no Rio Ave e no Valência. Recorde-se que os vila condenses chegaram em 2014 às finais da Taça da Liga e da Taça de Portugal, levando-os no ano seguinte à fase de grupos da Liga Europa pela primeira vez na história do clube, altura em que já estava no comando técnico do Valencia.

Na primeira época em Espanha conseguiu colocar os ‘Che’ de volta à Liga dos Campeões com um quarto lugar no campeonato, mas no ano seguinte foi uma campanha desastrosa, no 12.º lugar, o que levou a uma reconstrução do plantel nos anos seguintes. Num palco com objetivos mais modestos, Nuno Espírito Santo já mostrou ser capaz de brilhar, mas é necessária consistência, logo na Premier League, onde qualquer erro se paga caro.

Rui Patrício, João Moutinho e Raúl Jiménez são alguns dos poucos reforços do Wolves no regresso à Premier League
Fonte: Wolverhampton Wanderers FC

Apesar do calor, “sem ovos, não se fazem omeletes”. O Wolverhampton ainda não tem claramente uma equipa de calibre Premier League, mesmo que mostre qualidade em campo. Apesar dos muitos milhões que se arrecada com a subida de divisão, não fez assim tantas aquisições. Ou seja, a equipa é muito semelhante à da época anterior e isso preocupa os seus adeptos.

Rui Patrício tem a qualidade necessária e poupa comentários, fica apenas a questão se é este o clube que ele merecia depois de deixar o Sporting daquela forma. João Moutinho é um reforço ideal se existir qualidade mais vincada noutros sectores do terreno e veremos como irá encarar o desafio inglês. Raúl Jiménez teve o impacto no Benfica que todos conhecemos, mas sempre relegado para segunda opção.

Ruben Neves e Diogo Jota foram as referências do Wolves na última temporada, mas o feito pode não se repetir na Premier League por razões naturais
Fonte: Wolverhampton Wanderers FC

Outros portugueses como Rúben Neves e Diogo Jota, que já transitam da época anterior, podem levar um ‘abanão’ perante jogadores de outros argumentos físicos e táticos. Pode estar aqui uma das razões de Fernando Santos não ter escolhido o antigo nº6 do FC Porto para ser a alternativa ao lesionado Danilo Pereira na Seleção Nacional durante o Mundial da Rússia. Ivan Cavaleiro, que teve oportunidades no Benfica e no Mónaco, mas nunca se fixou, encontrou o ‘seu’ lugar no Wolverhampton e já vai aí cumprir a terceira. Rúben Vinagre e Pedro Gonçalves podem ainda não ter a sua oportunidade dado que não há grande espaço para dar minutos a estes jovens no escalão máximo do futebol.

Como ‘bom português’ espero o melhor desta filial portuguesa em Molineux, mas Hélder Costa, extremo direito, é o que me deixa mais curioso. Parece ser o jogador que tem capacidades semelhantes a alguns jogadores que vão sobressaindo na Premier League. Em jogos da Taça na última época, Hélder foi o mais da equipa do Wolverhampton, sendo este um dos momentos que se tornou viral, contra o Liverpool, que podia ter dado um golaço:

Em resumo, o Wolverhampton é uma equipa bastante jovem. Tem uma média de idade de 24,06 anos e até agora só se verificam dois jogadores acima dos 30 (João Moutinho e o guarda-redes John Ruddy). Provou (se calhar) ter qualidade a mais para o longo campeonato que é o Championship, mas quererá isso significar qualidade para disputar a Premier League e obter um bom resultado logo à primeira? Não necessariamente, se bem que não é comum um clube inglês subir à primeira divisão e descer na mesma temporada. Veremos e, claro, desejamos tudo de bom aos portugueses lá fora.

Dia 11 de agosto já rola a bola entre Wolverhampton e o Everton, de Marco Silva, na Premier League. Um duelo de ‘boa imprensa’ para nós portugueses a abrir aquela que é para muitos a melhor liga de futebol do mundo.

Foto de Capa: Wolverhampton Wanderers FC

Artigo revisto por: Jorge Neves

Francisco Correia

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