Nos últimos dois ou três anos, em agosto, no início de cada época futebolística, a pergunta que se faz em Alvalade é a mesma: será que é este ano que Iuri Medeiros se vai afirmar no plantel principal do Sporting? A resposta tem sido sempre igual: “precisa de mais maturidade”; “afirmar-se no Moreirense ou no Boavista é diferente de se destacar no Sporting”; “mais um ano em empréstimo e entra no onze titular”.

Depois de duas épocas em que fez quase tudo o que podia  para ganhar a confiança de Jorge Jesus, o extremo direito português voltou, em janeiro deste ano, a sair do emblema leonino por empréstimo, desta feita para o Génova, na Liga Italiana. Será Iuri um “patinho feio” mal aproveitado pelo Sporting ou será que o treinador dos verde e brancos vê algo errado nele que quase ninguém vê?

Antes de passarmos à análise técnica (e, de certa forma, psicológica) do jogador, vamos ver os números: nas épocas de 2015/2016 e de 2016/2017, Iuri Medeiros acumulou um total de 18 golos e 22 assistências em 64 jogos (todas as competições), ao serviço do Moreirense FC (2015/2016) e do Boavista FC (2016/2017). São números impressionantes, especialmente para um jogador de equipas do meio da tabela. E são números que, tanto em agosto de 2016 como em agosto de 2017, lhe valeram uma hipótese na equipa do Sporting.

Mas foram hipóteses quase impossiveis de agarrar. Em 2016, uma pré-época manifestamente negativa levou ao seu afastamento quase imediato do plantel principal, tendo sido novamente emprestado, desta feita ao Boavista FC; nesta época, houve mais paciência e Iuri Medeiros ainda pôde fazer seis meses de leão ao peito.

Mas esse leão parecia pesar-lhe: nunca pareceu confiante com a bola nos pés; a qualidade técnica continuava inegável, mas a capacidade de decisão traía-o vezes sem conta. Muitos passes errados, muitos cruzamentos mal feitos, muitos remates sem nexo. Ainda conseguiu uma assistência em seis jogos no campeonato mas em janeiro de 2018 o destino voltaria a ter uma saída temporária de Alvalade.

A primeira aventura fora de portas, no Génova, da Serie A, tem corrido de feição ao internacional sub-21 português. Tendo-se estreado no onze inicial apenas em abril, fê-lo logo com um golo, numa vitória de 2-1 sobre o Cagliari. No fim de semana passado, frente ao Hellas Verona, voltou a faturar, marcando o primeiro de três golos do emblema da Ligúria (resultado final de 3-1). A juntar a isto, já conseguiu uma assistência, em apenas três jogos como titular.

O próprio jogador disse, em declarações ao jornal O Jogo, que está contente em Itália. “Neste momento prefiro estar aqui, fazer o máximo de jogos”, afirmou.

Poderá este ser um sinal de que Iuri Medeiros já percebeu que dificilmente terá lugar na equipa leonina? É natural que esteja bem no Génova: o seu rendimento aumentou e tem recuperado a confiança perdida entre setembro e janeiro ; tem outros jogadores portugueses consigo, tais como Miguel Veloso e Pedro Pereira. Mas o que é que o Sporting estará a perder se deixar o extremo direito ir-se embora definitivamente?

Iuri Medeiros ganhou vida no Genoa CFC
Fonte: Genoa CFC

Já falámos dos números. Já falámos das suas qualidades técnicas, cujo único limite é a confiança do jogador (ou neste caso, a falta da mesma). Mas há outro fator, mais intangível, que distingue Iuri Medeiros: estamos a falar de um atleta que chegou ao Sporting em 2004. Um Ronaldo de 18 anos chorava na Luz pela derrota na final do europeu e um Iuri com dez ingressava no clube leonino.

São 14 anos de ligação ao emblema. Numa época em que muito se criticou a falta de empenho e de amor à camisola de alguns jogadores, tal não pode ser apontado ao extremo português. Aliás, talvez esta paixão tenha estado por trás de algumas exibições menos conseguidas: o nervosismo e a pressão de se afirmar num clube que representou a vida toda podem ter limitado o seu crescimento.

Como disse, esta não é mais que uma intangível, uma suposição. Já analisámos os factos, e os factos dizem-nos que este é um jogador com qualidade para outros palcos. O problema é precisamente a incapacidade de dar o salto para esses palcos. E se perceber que é impossível dar espetáculo no Estádio José Alvalade XXI, então Iuri terá que procurar outra audiência. O futebol português só ficaria a ganhar.

Foto de Capa: Sporting CP

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