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Nápoles sobrevive à saída do príncipe?

João Nuno Aguiar · 4 min

Nápoles sobrevive à saída do príncipe?

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Cabeçalho Liga ItalianaNo seu livro, Diego Maradona conta que chegou um dia a Nápoles e construiu uma equipa que viria mais tarde a vencer duas Série A e uma Taça UEFA. Por isso e por tudo o que a história lhe reconhece, foi idolatrado naquela cidade. Só para se perceber como aquela cidade vive os seus jogadores, num Itália-Argentina do Mundial de 1990, em pleno San Paolo, a certa altura do jogo, gritava-se mais pela Argentina de Maradona do que pela anfitriã Itália.

Em 2013/2014 chegava ao sul de Itália  outro argentino, que se viria a tornar na bandeira da cidade nos três anos seguintes. ‘El pepita’ Higuaín vinha de um Real Madrid onde alternava a titularidade com Benzema, mas o faro pelo golo estava intacto. Hoje, depois de fazer a sua melhor época a nível pessoal, o avançado trai um clube, uma claque, uma cidade e sai para o principal adversário na luta pelo scudetto, numa transferência envolta em polémica e que envolve 90 milhões de euros. Por estes dias, por toda a cidade, multiplicam-se as camisolas queimadas com o nome de Gonzalo Higuaín.

Com uma média de quase um golo por jogo (0,90) e 35% dos tentos dos napolitanos em toda a época, o argentino foi crucial para o segundo lugar dos azul celeste. Prova disso é a pior série de resultados da equipa, entre Série A e Liga Europa, que apareceu quando o avançado andou arredado dos golos. Será inevitável perceber como irá o Nápoles suprimir esta perda e até que ponto o bom futebol que a equipa vem apresentando será afetado.

Para já, parece estar encontrado o substituto natural do pepita. Aos 22 anos, Arkadiusz Milik chega a Nápoles depois de duas épocas recheadas de golos no Ajax e de um Europeu igualmente em bom plano. A qualquer hora surgirão as inevitáveis comparações, mas, para já, parece que o polaco tem características que servem de feição ao estilo de jogo da equipa:  capacidade de segurar a bola e aguentar os defesas nas suas costas, enquanto espera pelo apoio frontal dos médios bastante criativos; profundidade atacante e velocidade na transição defesa-ataque – a maior arma dos napolitanos  – e bom jogo aéreo, com enorme capacidade de resposta a cruzamentos dos excelentes extremos que o irão acompanhar.  Contudo, a tenra idade e alguma inexperiência do dianteiro deixa no ar a questão sobre se será suficiente para todas as competições.

Mas há, essencialmente, um nome que faz com que a crença dos tifosi não se desvaneça: Maurizio Sarri, o ex-banqueiro que, fruto de muita dedicação, foi cavalgando divisões até chegar à sua cadeira de sonho. O excelente trabalho que desenvolveu no Empoli deu-lhe a visibilidade para chegar ao clube do seu coração, o Nápoles. O Deus da cidade (Maradona) criticou-o mal pegou na equipa, mas depois dos momentos brilhantes que os azuis apresentaram durante grande parte da época, o astro argentino teve que admitir que Sarri o tinha surpreendido e deu a mão à palmatória, pedindo desculpa.

sarri
Sarri é napolitano desde que se conhece e já conquistou a paixão dos adeptos
Fonte: Nápoles

O Nápoles é hoje um equipa com processos muito bem definidos. Uma defesa estabilizada, com Koulibaly e Albiol como esteios e laterais bastante equilibrados, os habituais titulares Ghoulam e Hysaj (lançado por Sarri no Empoli) e o contratado Davide Santon, que serve ambos os lados . Um meio-campo com Allan a servir de tampão defensivo, Jorginho a iniciar as transições e o maestro e capitão Hamsik a dar criatividade ao jogo napolitano. No ataque, a rapidez e qualidade técnica são atributos que todos os extremos possuem, de Callejón a Insigne, passando por Mertens. Milik será o pilar incumbido da finalização.

Os napolitanos transformam uma situação defensiva num ataque mortífero, de uma forma como poucas equipas o fazem no mundo. A verticalidade do contra-ataque é um dos pontos fortes deste Nápoles. Cada jogador sabe perfeitamente a sua função e o local onde tem que aparecer para o processo não sofrer retrocessos. De igual forma, as trocas de bola em apoio (essencialmente protagonizadas nas linhas por laterais, médios interiores e extremos), como que adormecem o adversário, permitindo, de seguida, chegar à linha de fundo e efetuar cruzamentos para o golpe final, do ponta-de-lança, dos médios vindos de trás ou do extremo do lado contrário.

Um dos adeptos mais conhecidos do Nápoles disse por estes dias que “jogadores vêm e vão, mas os adeptos nas bancadas, com as suas camisolas azuis como céu, estarão ali para sempre”. Higuaín faria falta a qualquer equipa do mundo, mas o Nápoles está bem vivo e o comandante Sarri conseguirá, juntamente com os que ficaram, fazer esquecer o argentino com o futebol apaixonante de uma equipa. A cidade vai estar lá em todas as horas a apoiar, pois a grande força do Nápoles está no todo e não na individualidade.

João Nuno Aguiar

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