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Segundo a definição, fria e objectiva (como deve ser), de um dicionário, um caloiro é um estudante de primeiro ano de um curso superior ou um novato em outra coisa qualquer. Não deixa de ser verdade, mas deixa de fora todos os sonhos que ele traz consigo. As ambições de chegar longe, independemente do que tenha de enfrentar.

Um caloiro, normalmente, é assim. Respeitoso para com quem já existe no meio em que se insere, mas também cheio de sonhos, e com a coragem necessária para os manter, independentemente do tamanho dos obstáculos que lhe apareçam pela frente.

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É encantador sentir, na voz, o entusiasmo de um caloiro falar do novo desafio. Mesmo que diga absolutos disparates, e que se contradiga em toda a sua dissertação sobre o assunto que julga saber. Não tem nada a perder, porque não nasceu ensinado, então arrisca, como muitas figuras ilustres de qualquer ramo o fizeram quando nele se iniciaram.

Nas praxes (as boas), testam-lhe o carácter, mas sem forçar a barra, sem se chegar à humilhação. A integração é a prioridade, o “doutor” sabe-o. Porque também ele beneficia disso, ao criar um laço com o caloiro, uma pessoa nova com quem interagir, mas acima de tudo alguém que ele está a ver e fazer crescer, social e tecnicamente.

Esse laço permite, também, fazer crescer o “doutor”, que se identifica com o brilho no olhar e as ambições desmedidas, relembrando-o do que ele fora no início dessa aventura. Dá-lhe alento para retomar os sonhos, e passa a ter alguém por quem possa torcer. A noção de responsabilidade vai ficando cada vez mais vincada e, caso esteja apaixonado pelo meio (curso, instituição, ramo) em que se insere, encarrega-se de certificar que as gerações tenham a capacidade de dar um futuro saudável aos mesmos. Cresce a noção de sustentabilidade e não é hipócrita quando lhe diz que deseja que tenha tanto ou mais sucesso que ele, ficando genuinamente feliz pelo facto de ele ter melhor nota que ele no cadeirão de primeiro ano, pela primeira venda do seu “protegido” ser significamente maior que a sua ou pelo primeiro golo que ele marcou ter sido mais bonito que qualquer um que este tenha marcado ao longo da carreira.  Assim se entendem e se explicam os sorrisos de Rui Costa e Pavel Nedved na passada sexta-feira.

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Dybala, a nova pérola “bianconera”
Fonte: Juventus FC

Em Roma, Paulo Dybala, depois de já ter conseguido furar entre a defensiva da Lazio e de ter originado um auto-golo, aproveitou uma bola perdida pela defensiva contrária para parar, receber a bola, ampará-la com o joelho e disparar, sem deixar cair no chão, o esférico para o 0-2 que sentenciaria o resultado.

Em Lisboa, Renato Sanches, depois de já ter somado várias intervenções de qualidade, trouxe a bola e a equipa (numa das muitas vezes que o fez) consigo, combinou com Eliseu, e, com espaço, a 20 e tal metros da baliza da Académica, deixou o resultado final em 3-0. Nos pés destes miúdos (Dybala tem 22, Sanches 18), naqueles momentos, esteve a força das ambições e a confiança que só um estreante consegue ter quando chega a um novo destino. Acreditam no seu potencial, como mais ninguém, e o limite ainda não existe.

Quem vê de dentro, fica feliz. Sorri, como Rui Costa e Pavel Nedved, por adivinharem um futuro brilhante aos miúdos que eles viram e fizeram crescer. Momentos de uma espécie de passagem de testemunho, que têm todo o potencial para ficar perpetuados na história como os acontecimentos que garantiram o futuro aos seus respectivos clubes ou, simplesmente, ao futebol.

Regressaram, por milésimos de segundo, ao tempo em que eles próprios começaram a fazer história enquanto “caloiros”… ou miúdos de ambição, paixão e coragem desmedidas.

Foto de Capa: SL Benfica