Há momentos em que o futebol nos obriga a parar e a pensar no que estamos, afinal, a perder. Não são necessariamente grandes jogos, golos históricos ou finais decididas no último minuto. Às vezes, são acontecimentos fora das quatro linhas que, sem querer, dizem mais sobre o estado do jogo do que noventa minutos alguma vez poderiam dizer.
Nas últimas semanas, três momentos distintos fizeram-me pensar na mesma coisa: paixão.
O primeiro foi o documentário da Netflix sobre José Mourinho. Mais do que revisitar uma carreira extraordinária, a série faz-nos revisitar uma determinada forma de viver o futebol. Mourinho é, para o bem e para o mal, uma personagem de uma época em que os treinadores pareciam sentir o jogo de outra maneira. Mourinho vivia cada jogo como se fosse mais do que um jogo. A conferência de imprensa, o balneário, o rival, o árbitro, o adepto, a vitória e até a derrota faziam parte de uma mesma história. Havia uma intensidade difícil de separar da própria pessoa. E talvez seja isso que mais impressiona quando olhamos para trás: Mourinho não parecia apenas trabalhar no futebol. Parecia viver dentro dele.
Não é uma questão de dizer que o futebol daquela época era necessariamente melhor. Nem de transformar Mourinho numa figura perfeita. É reconhecer que havia uma relação emocional com o jogo que hoje parece cada vez mais difícil de encontrar.
E é curioso que, quase ao mesmo tempo, Pep Guardiola nos tenha mostrado exatamente a mesma preocupação, mas de uma forma completamente diferente.


Na série que acompanha os últimos anos do Manchester City, Guardiola revela aos jogadores que se divorciou da mulher porque, em determinado momento, os dois tinham perdido a paixão. E utiliza essa experiência para lhes falar sobre futebol. Diz-lhes, essencialmente, que não quer apenas os melhores jogadores. Quer jogadores apaixonados. Porque é essa paixão que pode fazer a diferença quando chega o momento de ganhar. É uma ideia simples, quase demasiado simples para o futebol moderno, porque não basta ser bom, é preciso gostar de jogar.
E talvez seja aqui que as declarações recentes de Abel Ferreira ganhem ainda mais sentido. Quando o treinador do Palmeiras diz que o futebol está doente, a crítica parece ir precisamente ao encontro desta perda. À forma como deixámos de olhar para o jogo pelo que ele é e passámos a olhar para ele quase exclusivamente pelo que ele produz: o resultado.
Já não discutimos tanto o remate, o passe, a finta, o drible maravilhoso, o corte fantástico. Discutimos quem ganhou. Quem perdeu. Quem está em primeiro. Quem foi eliminado. Quem tem mais títulos. O futebol deixou de ser, para muitos, o fim. Tornou-se o meio para chegar àquilo que realmente importa: a vitória.
E quando a vitória passa a ser o único critério, tudo o resto começa a parecer secundário. O segundo lugar passa a ser quase equivalente ao último. Quem não ganha é um perdedor. E, pior do que isso, começa a criar-se a ideia de que a vitória justifica tudo. É aqui que o futebol se torna doente, porque o futebol não devia ser apenas uma batalha para determinar quem ganha. Devia ser também um espetáculo que vale a pena ver.


O meu pai sempre me falou de um jogador que o marcou particularmente no início dos anos 2000, o Ronaldinho. Hoje em dia talvez seja pelo estado do futebol que o Ronaldinho continue a representar tanto para o meu pai e para os adeptos de futebol em geral. Porque o Ronaldinho não jogava apenas para ganhar. Jogava para fazer as pessoas gostar de futebol. Havia qualquer coisa de imprevisível quando recebia a bola. Um drible que não estava no plano. Uma finta impossível. Um sorriso. Uma jogada que fazia milhares de pessoas levantar-se ao mesmo tempo.
Ronaldinho enchia o olho. E talvez seja disso que sentimos falta hoje.
Num futebol cada vez mais profissionalizado, vemos jogadores extraordinariamente preparados para ocupar espaços, pressionar, correr, interpretar movimentos e cumprir funções. E isso também é futebol. É, aliás, uma parte fundamental do futebol moderno. Mas, no meio de tanta organização, eficácia e previsibilidade, falta-nos qualquer coisa: jogadores que nos façam parar de falar de sistemas para começar a falar deles. Jogadores que levem multidões ao estádio não apenas porque podem decidir o resultado, mas porque podem fazer acontecer alguma coisa que ninguém estava à espera de ver. Jogadores que nos façam levantar da cadeira, que nos surpreendam, que nos devolvam aquela sensação de que, durante noventa minutos, tudo pode acontecer. Faltam-nos mais Ronaldinhos.
Porque o adepto não vai ao estádio apenas para assistir à vitória. Vai para ver futebol. E talvez esta distinção seja mais importante do que parece. Vai para se emocionar, para se surpreender, para ver uma jogada que conte aos filhos no dia seguinte. A vitória é parte do espetáculo, mas não pode ser o espetáculo inteiro.


Quando saímos de um estádio depois de uma derrota, podemos estar frustrados. Podemos estar tristes. Podemos até estar revoltados. Mas, durante aqueles noventa minutos, devíamos ter conseguido esquecer tudo o resto. Devíamos ter visto 22 jogadores a dar-nos um espetáculo.
Hoje, muitas vezes, a batalha continua depois do apito final. Nas redes sociais, nos insultos, nas discussões, nos grupos de amigos. Como se o resultado de um jogo tivesse de determinar quem tem razão na vida.
E talvez seja precisamente isso que precisamos de recuperar: a capacidade de gostar do futebol independentemente daquilo que o resultado diz sobre nós. Não significa que ganhar não importe, claro que importa, mas o resultado não pode ser maior do que o jogo.
Porque, se deixarmos de nos importar com o jogo, podemos continuar a ter campeões, troféus, rankings, estatísticas e milhões. Podemos continuar a ganhar. Mas, a certa altura, talvez já não saibamos muito bem o que estamos a ganhar.
A paixão pode estar perdida, mas só precisa de ser reencontrada ou talvez só precise de ser reacendida.

