Jabulani Forlán: Apelido de casamento

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O coro de vuvuzelas entoava a mais bonita das melodias e a bola, como a serpente que reage ao encantador de flauta na mão, parecia seguir os ritmos com as mais absurdas vontades. A Jabulani, que do Zulu original se traduzirá em algo semelhante a um sugestivo Alegrai-vos!, personificava bem o imperativo do seu nome com o seu comportamento errático, que alimentava a festa permanente das bancadas. Era recíproco e autossustentável, uma leva coisa levava à outra, espiral incontrolável.

O jogo tornou-se caótico, ninguém sabia bem como controlar as incidências – os Espanhóis, campeões europeus e que seriam do Mundo, não sofreram tanto pela preferência pelas associações curtas do tiki-taka. Porém, quem não se importava de mandar subir a equipa e pedir ao ponta-de-lança para segurar, aceitou inocentemente fazer parte da anarquia. Muitos foram o que se queixaram, a polémica cresceu a níveis nunca vistos e foi assunto durante anos – e poderemos afirmar com toda a certeza que um só homem soube compreender a bola do Mundial da África do Sul em toda a sua idiossincrasia.

A bola, apaixonadíssima por ser finalmente compreendida, entregou-se fielmente a Diego Forlán, que teve engenho suficiente para superar o poder do feitiço da cacofonia circundante sobre o esférico. A partir do momento que lhe chegava aos pés, a bola ficava surda de tanto fixar os olhos na cabeleira loira do uruguaio.

O que tinha a bola de tão especial? Bem, era o pináculo da tecnologia Adidas. Era a primeira bola totalmente impermeável e totalmente esférica, forma conseguida com a redução dos painéis ou gomos – que nas bolas anteriores chegaram a ser 32 e nesta eram oito; Os oito moldados termicamente e com uma série de sulcos inovadores na superfície do material, sintetizados no slogan Grip and Grove! – ao contrário da TeamGeist de 2006, totalmente lisa, a Jabulani tinha uma série de relevos concêntricos para a tornar mais aerodinâmica. E não nos alongamos mais, deixando as explicações técnicas para os entendidos da Física.

Tanta inovação levava a bola a ser imprevisível, muito mais rápida e com trajectórias aleatórias. Toda a gente se queixou – e toda a gente são mesmo todos os intervenientes, de todos os quadrantes. Pela força do estilo, os brasileiros foram os mais descomplexados nas queixas; E, naturalmente, os mais contundentes na generalidade da crítica foram os guardiões – além de Júlio César, também  Iker Casillas ou Buffon, os melhores para a IFFHS nos anos anteriores, não se coibiram de reprovar a bola em público.

Enquanto uns se queixavam, Forlán esforçava-se para lhe descobrir os segredos. Quem o revelou foi ‘El Loco’ Abreu, o carismático globetrotter companheiro de Forlán naquele Uruguai.

«Três meses antes do Mundial, Forlan pediu à Adidas para lhe enviar uma Jabulani. No Atlético, ficava até mais tarde, depois dos treinos, a praticar com ela movimentos e livres directos.»[1]

Diego Fórlan, de 31 anos, tinha motivos para tanta preparação. Prodígio revelado na cantera dum dos gigantes de Avellaneda, o Independiente, depois de ter passado por Peñarol e ter sido rejeitado por… Laszlo Boloni, o campeão português de 2002 pelo Sporting, numa triagem no Nancy, nunca tivera uma verdadeira afirmação internacional. Bem, sim, fora duas vezes Pichichi da La Liga, por Villareal e Atlético, e Bota de Ouro para UEFA ao lado de Henry, em 2005 – mas quando Sir Alex Ferguson o vai buscar à Argentina em 2001, esperava-se bem mais do uruguaio. Até 2004 faria 10 golos em pouco mais de 60 jogos, nunca ganhando consistência nas suas perfomances – e é aí que vai para Espanha se tornar lenda do Submarino Amarelo primeiro e do Atleti depois.

Em 2009-10, já a chegar aos 31 anos, era o tudo ou nada duma carreira à qual faltavam distinções colectivas de grande calibre. Depois de fazer 36 golos em 2008-09, a época começa mal – a ele e ao clube, que teve um desastroso início de época com Abel Resino. Ruas da amargura, nenhuma vitória na fase de grupos da Liga dos Campeões e uma nas primeira dez jornadas da Liga. Quique Flores, acabado de fracassar categoricamente no Benfica, chegou e arrumou a casa. Accionou no seu 4-4-2 predilecto uma linha atacante doutro quilate – Reyes e Simão pelas bandas, Aguero ao lado de Diego – e levou os Colchoneros à final da Copa del Rey e à conquista da Liga Europa – sucesso onde Forlan foi o grande herói, com seis golos: os dois que eliminaram o Liverpool nas Meias-finais e os dois que derrotaram o Fulham em Hamburgo.

Era, assim, um ultramotivado Forlán que chegava à concentração do Uruguai no estágio para o Mundial. Depois duma decepcionante qualificação falhada em 2006, no play-off intercontinental contra a Austrália, a Celeste do sábio Tabarez apostava o seu sucesso na linha atacante, tal como o Atlético: e Diego, preponderante num, seria noutro, com a braçadeira de capitão e a posição ‘10’ no apoio a uma parelha Luis Suárez-Cavani.

O resto da equipa primava pela generosidade física e disciplina tática, essencial para tridente tão talentoso na frente. Os portistas Álvaro Pereira e Fucile ocupavam-se da ala esquerda, o benfiquista Maxi da direita; Walter Gargano e Areválo Ríos eram os cães de caça e Diego Lugano dirigia tudo desde o eixo defensivo.  Zero golos sofridos numa fase de grupos com França, México e os anfitriões. Parecia fácil.

E a primeira grande demonstração de amor entre bola e uruguaio é o golo que abre o 3-0 à África do Sul na segunda jornada. Forlán recebe ainda longe, enquadra-se a 35 metros e arrisca dali – ninguém esperava tanto repentismo nem tanto ziguezague no trajecto até à baliza. A Jabulani voa descontrolada e aninha-se na rede, num golo de belo efeito que deixou o keeper Itumeleng Khune petrificado.

Diego voltaria a marcar no épico embate contra o Gana nos Quartos, na triste eliminação contra a Holanda nas Meias e contra a Alemanha no jogo do terceiro lugar – novo golaço num volley cheio de técnica e primorosa execução, considerado assim o golo do torneio. Prémio que Diego juntou a outros três – a Bola de Ouro de Melhor Jogador, a nomeação para equipa do torneio e a liderança na tabela dos melhores marcadores, com cinco golos, prémio partilhado com Sneijder, Villa e Müller. Construía-se a lenda.

Glória eterna viria um ano depois, com a conquista da primeira Copa América celeste desde 1995 – cumprida com dois golos de Diego no 3-0 da final contra o Paraguai. Que, infelizmente, não foram marcados com uma Jabulani, antes com uma Total 90 Tracer, da marca rival.

A Jabulani seria descontinuada em 2012, depois de encerrado o propósito e esgotados os argumentos a favor de outras marcas. No muitas vezes caricato futebol português não podia deixar de ter tido o seu papel em história rocambolesca, logo a seguir ao Mundial.

2010-11 iniciava a todo o vapor, com o benfiquista rolo compressor de Jesus a ter que demonstrar que não fora tudo fruto da novidade. A 2 de Julho, era apresentada a versão Liga Portugal da Jabulani, que juntava os detalhes verdes e amarelos da nossa bandeira a um laranja impressionante, tom com que se geralmente joga nos nevões da Europa do Norte. A ironia da escolha da cor para país com clima tão temperado levantou desde logo impressões pertinentes do povo, comediante eterno.

Os primeiros jogos de pré-época serviram para mostrar a novidade e duas semanas depois, a 18 de Julho, as primeiras queixas: noticiava o Correio da Manhã que «um grupo de pessoas daltónicas» afirmavam ser difícil acompanhar a partida, por a cor da bola se confundir com a do relvado. Foi essa a mesma justificação que alguns benfiquistas encontraram para os erros clamorosos do portero Roberto e a polémica cresceu, inchou e explodiu no final desse mês, a dia 30: era oficializado o volte-face.

A Liga decidira voltar atrás e o Campeonato, que se iniciaria nos idos de Agosto, já começaria com uma bola branca, como no Mundial.


[1] Tradução livre: https://footballbh.net/2023/03/16/diego-forlan/

Pedro Cantoneiro
Pedro Cantoneirohttp://www.bolanarede.pt
Adepto da discussão futebolística pós-refeição e da cultura de esplanada, de opinião que o futebol é a arte suprema.

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