Durante 74 minutos, o Benfica competiu e teve o jogo ao seu gosto, relativo claro, como não poderia deixar de ser diante de um adversário desta envergadura. Contra o Bayern Munique, uma das potências mundiais no futebol feminino, a robustez de uma exibição sólida, madura e compacta foi atraiçoada por um golo genial – os grandes clubes têm disto em todo o lado – que, entre a galvanização e a derrocada emocional, deu ao resultado contornos de uma goleada curta. O 3-0 com que o Bayern Munique venceu o Benfica não é enganador porque foram, de facto, três as bolas que entraram na baliza defendida por Lena Pauels. Mas é muito curto para analisar o jogo.
Na conferência de imprensa, cada treinador tentou puxar a superioridade para o seu lado. É normal que assim seja, principalmente num jogo em que nunca haveria um vencedor claro em circunstâncias normais. José Barcala, o mais sorridente, fez-se valer da superioridade com bola e da quantidade de oportunidades para justificar a superioridade. Ivan Baptista olhou para as oportunidades claras, para os lances capitais que, com outra eficácia, teriam definido o jogo para o outro lado. Tudo certo. Afinal, ambas as análises estão certas. E, até pela diferença de orçamentos e peso histórico, é esse o elogio maior à exibição encarnada.
Até aos 74 minutos, esse número maldito, já com o relógio a terminar o primeiro quarto da segunda volta, o Benfica conseguiu defender-se bem e explorar os espaços deixados para, de forma mais rápida, chegar à frente. Curiosamente, os maiores problemas durante este período, particularmente na primeira parte, até surgiram de erros próprios na saída de bola. Sem bola, a estratégia foi bem pensada e de igual modo executada.


Por mais que o bloco alto tenha sido uma realidade, mais importante foi a forma como à linha defensiva subida se juntavam as médias e extremas, em muitos momentos alas. Geralmente, a uma linha defensiva subida, pede-se que haja um acompanhamento de toda a equipa. Não foi, necessariamente, o que aconteceu. Por mais que houvesse gatilhos de pressão definidos e momentos de pressão alta, as médias funcionaram de forma compacta e dinâmica a preencher o espaço, reduzindo a distância para a linha defensiva, e cortando linhas de passe por dentro. Qualquer passe mais longo, na procura do jogo mais direto que o Benfica endereçava no convite, era demasiado demorado para gerar perigo e esgotavam-se as opções de bola dentro do bloco. As extremas eram, em muitos momentos alas, compensando eventuais desequilíbrios da linha defensiva, mas procurando fechar esta segunda linha.
Depois, além da estratégia, a execução foi muito interessante por parte do Benfica. Tinkara Testen, num cenário delicado devido ao amarelo precoce, e Diana Gomes fizeram um jogo contundente nos duelos, fugindo à ação mais institiva para pensar nos timings. Diante de uma avançada com a corpulência e o perfil de Jovana Damnjanovic, capaz de fixar centrais e empurrar a linha defensiva lá para trás, foi uma exibição responsável e contundente das centrais encarnadas. Às médias de um meio-campo constituído e desenho para ter dinamismo na ocupação dos espaços e capacidade de ir rodando nas posições, destaca-se o trabalho invisível, longe dos holofotes, mas que levou as alemãs a mastigar o jogo na procura quase infinita de encontrar um espaço para acelerar.
Com o Bayern a projetar as laterais e montado num 2+2 para começar a construção, o Benfica também construiu um caminho bem claro para sair. Recuperando a bola num corredor, o objetivo passava por fazê-la chegar rapidamente ao lado contrário, esperando que a lateral demorasse um bocadinho mais de tempo a chegar do que a extrema encarnada. Nas vezes em que tal se sucedeu, houve perigo criado.


Não sendo um Benfica de muitas oportunidades, houve clareza na chegada à frente. Para lá de Lúcia Alves, com maior acerto, e de Chandra Davidson, mais impetuosa na procura destes espaços, o jogo de Froya Dorsin também merece palavras positivas. Resistiu ao isolamento natural para organizar momentos de pressão e procurar segurar a bola em ataques mais diretos. Está a cimentar-se por dentro no Benfica.
Ao intervalo, Andreia Norton chegou para dar transporte e condução e aproximar o Benfica do último terço e da baliza adversária e Caroline Moller foi chamada mais cedo do que previsto em virtude da lesão de Pauleta. O atrevimento foi crescendo com o perfil mais ofensivo das médias, mas o risco não foi compensado em golos. Entre as mudanças nas características individuais e o cansaço acumulado, quer físico, quer mental, o Bayern Munique viu a oportunidade para crescer. Antes, viu Lena Pauels agigantar-se. Quando nada podia fazer, a alemã viu as comptatiotas celebrar.
De resto, as marcadoras dos golos alemães evidenciam os três pontos de maior desequilíbrio do Bayern Munique. Franziska Kett, como lateral esquerda, metia-se quase sempre por dentro para organizar o jogo e criar vantagens. À sua frente, numa relação complementar, Klara Buhl viu aumentar o espaço para acelerar e atacar a baliza. Algo tapada pela proximidade das defesas e médias encarnadas, Pernille Harder viu a quantidade de metros disponíveis para jogar e pensar o jogo aumentar e cresceu de influência. Os objetivos dos primeiros 74 minutos tornaram-se realidade e a dose de realismo inundou a Luz. O peso do resultado deixou um semblante mais carregado que a leveza de uma exibição muito competente. Depois de vencer em Turim, o Benfica bateu-se olhos nos olhos com o Bayern Munique. A amostra da temporada nacional tem sido 100% vencedora e, na Champions League Feminina, tem emergido a versão competitiva. Há sinais positivos, mesmo numa derrota por 3-0. Basta querer olhar para eles.


BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: O Benfica entra em campo com uma linha defensiva muito subida, mesmo sabendo que, à partida, teria muitos momentos sem bola. Qual o propósito e quais os motivos que levaram a esta decisão e, com as médias a procurar coberturas e desdobrarem-se em campo, qual o segredo da estratégia defensiva, principal até aos 74 minutos.
Ivan Baptista: Havia duas formas em que queríamos estar no momento defensivo. Uma era com o bloco compacto, porque o Bayern além das três médias, traz várias jogadoras para espaço central. Esse posicionamento do meio-campo era muito importante. Nós, basicamente, defendíamos com cinco médias e, só no momento em que a bola caia fora, é que queríamos bloquear o corredor. A linha alta é muito para nos dar o conforto de não estarmos perto da nossa baliza. Sabemos que isso acarreta algum tipo de risco associado, temos uma linha muito bem trabalhada a esse nível e no que diz respeito ao retirar no momento da bola longa. Sabemos que há sempre riscos associados, porque o Bayern tem jogadoras muito rápidas e muito fortes no ataque a esse espaço, mas era um risco calculado e que nós assumimos para conseguir estar o mais longe possível da nossa baliza, ainda que estivéssemos durante grande parte do tempo em bloco médio. Houve momentos em que o Bayern com bola nos conseguiu empurrar mais para bloco baixo, houve momentos em que subimos a linha e ficámos em bloco alto também. Respondendo à sua questão, era um bocadinho por aí. Esse desdobramento das médias era para conseguirem, mais do que ter referências individuais e andar atrás delas, porque assim não iam descansar e íamos perder referências e estar sempre a reagir aos momentos do adversário, estarmos posicionados nos espaços que sabíamos que o Bayern ia explorar. Ao mesmo tempo, prontos para defender as costas, prontos para cair no corredor na pressão quando assim fosse. Sinto que a equipa cumpriu de forma exímia esse plano de jogo. A forma como sofremos os golos nada têm a ver com o momento de organização defensiva, onde sinto que fomos praticamente perfeitos.
Bola na Rede: A Pernille Harder era, muitas vezes, a chave do jogo do Bayern pela forma como conseguia jogar a toda a largura e nas costas das médias do Benfica. Qual sente que foi o momento em que começou a ganhar mais espaço e capacidade para surgir neste espaço e criar superioridades?
José Barcala: Tentámos sempre ganhar o espaço nas costas das 6. Esse espaço é preciso ganhá-lo desde a base, da posição das 6, ou desde o corredor exterior. Para esse espaço, o Benfica estava muitas vezes compactado num espaço muito pequeno. Era preciso muita precisão na receção da bola. Eram muito importantes as costas da defesa do Benfica para fazermos que corram nesses primeiros metros e abrir um espaço entre linhas para recebermos com mais dois metros. Essa foi uma das chaves do nosso jogo.

