Regresso a Casa: O primeiro título do míster Dejan Stankovic

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O Regresso a Casa é uma rubrica onde os antigos redatores voltam a um lugar que bem conhecem e recordam os seus tempos antigos escrevendo sobre assuntos atuais.

Foi mesmo no clube onde despontou para o futebol, na casa de partida que Dejan Stankovic ergueu o primeiro troféu da sua carreira de treinador. Foram poucos dias antes do Natal que o ex-médio, que se sagrou campeão europeu pelo Inter de Milão sob as ordens de José Mourinho, assumiu o comando técnico do Estrela Vermelha, conjunto que garantiu o tricampeonato sérvio na última sexta-feira.

Anunciado pelo clube do centro de Belgrado poucos dias antes do Natal, o técnico que trabalhava nas camadas jovens do Inter de Milão substituiu Vladan Milojevic. O homem que havia sido o obreiro do ‘bi’ rumou ao Al Ahli Jeddah, da Arábia Saudita, e ainda levou consigo Marko Marin, experiente criativo alemão que pensava o jogo ofensivo da equipa que dominou esta edição da Liga da Sérvia.

Depois de pendurar as botas e antes de trabalhar nos escalões de formação do ‘seu’ Inter, Stankovic esteve, em 2014/15, na Udinese como treinador-adjunto, coadjuvando Andrea Stramaccioni, o último treinador com quem trabalhou no seu trajeto de futebolista, ao passo que na temporada seguinte assumiu a função de diretor desportivo no… Internazionale.

Não podia, pois, recusar a oportunidade de viver a primeira experiência como treinador principal num clube cuja equipa começou a capitanear, ainda adolescente, em meados dos anos 90. O trabalho realizado pelo antecessor deixava o título nacional bem ao alcance, dado que, à 20ª jornada, altura em que houve mudança de equipa técnica, o Estrela Vermelha era líder, com 55 pontos, mais 11 do que o Partizan e apenas uma derrota na prova, precisamente contra o arqui-rival da cidade de Belgrado, no reduto do adversário.

Daí para cá, o novo timoneiro soube conduzir a tripulação vermelha e branca numa sequência sem derrotas, de cinco vitórias e dois empates em sete jogos. Mais, à boa maneira italiana, a equipa orientada pelo jovem treinador, de 41 anos, revelou grande solidez defensiva, uma vez que apenas sofreu um golo nesse período. É de facto um dos pontos fortes do estilo de Stankovic: o seu 4-2-3-1 é marcado pela disciplina tática, o que não impede a equipa de ser produtiva no ataque. É que foram 16 os tentos concretizados na série referida.

Veja-se o exemplo do jogo que deu o título ao ‘Crvena Zvezda’. Uns inapeláveis 5-0 em casa do Rad Beograd abriram o champanhe da festa de um inédito tricampeonato para o clube desde o fim da antiga Jugoslávia, o 31º em toda a história do emblema fundado a 4 de março de 1945.

Para além do ‘nosso’ Tomané, nesta equipa do Estrela Vermelha saltam à vista, são os seus principais destaques, o guarda-redes e capitão Milan Borjan, o defesa-central Milos Dejenek, o extremo Aleksa Vukanovic ou até o ponta-de-lança El Fardou Ben.

Conquistado este título no primeiro jogo após o regresso do futebol na Sérvia, cujas competições estavam suspensas pelas óbvias razões da pandemia mundial do coronavírus, Stankovic, ainda com três jornadas do campeonato pela frente e os mesmos 11 pontos de vantagem para o Partizan que havia herdado, já afirma estar a pensar na ‘dobradinha’. O Estrela Vermelha está nos quartos-de-final da Taça.

De referir é igualmente as circunstâncias competitivas diferentes desta campanha. Por força da paragem que a Covid-19 provocou no futebol daquele país de leste, os responsáveis locais pela modalidade decidiram, excecionalmente, não terminar a Liga com o play-off de campeão com os oito primeiros classificados, mas através ‘apenas’ da classificação da fase regular. Por outro lado, não haverá descidas e a prova, na temporada que se avizinha, aumentará de 16 para 20 equipas.

29 de maio volta a estar marcado na história do clube das cores vermelhas e brancas, pois havia sido igualmente nesse dia que, em 1991, o Estrela Vermelha ergueu a antiga Taça dos Campeões Europeus, uma coincidência histórica que faz os fervorosos adeptos do emblema de Belgrado experimetar a euforia destan glória, esquecendo um pouco os tempos de dúvidas e incertezas em que vivemos.

Quanto a Dejan Stankovic e traçado o retrato do seu primeiro troféu enquanto ‘míster’, há a reconhecer uma clara influência italiana na forma de jogar da sua equipa. Não é para menos. Passou lá 15 anos da carreira de jogador e as três experiências após o fim dessa caminhada dentro das quatro linhas recheada de sucessos foram todas em Itália.

Conforme afirmou o próprio à chegada a esta nova etapa, podemos esperar de Stankovic um pouco das características dos treinadores com quem trabalhou, desde José Mourinho a Sven-Göran Eriksson, de Mancini a Mihajlovic… Não lhe faltam bons mestres.

É certo que naturalmente dirá que o treinador português o marcou de uma maneira mais especial e revelou até lhe ter mandado mensagem quando abraçou a nova aventura em dezembro. O ‘Special One’, por sua vez, já deve ter mandado mensagem, entretanto, para congratular Dejan pelo êxito alcançado.

A manter esta organização coletiva que privilegia, reforçada por toda a plural bagagem que dispõe e pelas atitude e personalidade vincadas, com uma ‘gracinha’ nas competições europeias pelo seu ‘Estrela’, Stankovic pode voltar à ribalta nos próximos anos. Só que desta vez lendo e analisando o jogo ao longo da linha lateral.

Rúben Tavares
Rúben Tavareshttp://www.bolanarede.pt
O futebol foi a primeira paixão da infância, no seu estado mais selvagem e pueril. Paixão desnuda. Hoje não deixou de ser paixão, mas é mais madura, aliada a outras paixões de outras idades: a literatura, as ciências sociais, as ciências humanas.                                                                                                                                                 O Rúben escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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