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José Mourinho e AS Roma unem-se para arrebatar o ouro italiano

Marta Rebelo · 5 min

José Mourinho
Foto: UEFA

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Fecho os olhos e imagino um miúdo traquina que todas as manhãs sai de casa com a bola debaixo do braço para passar o dia a correr desalmadamente junto à baía de Setúbal. Imagino a algazarra do mercado, o cheiro a peixe, a mini e a sandes de choco na mão, as teimosas gotas de suor que se acumulam nas testas dos pescadores. Depois, imagino um jovem sentado, de olhos postos no horizonte, com a brisa e o sol a passear alegremente pela sua cara enquanto ele finalmente entende que os sonhos são, afinal, caminhadas longas e que a “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.

Admito que a AS Roma de Totti e Batistuta era a equipa que eu pedia emprestada a Fabio Capello há 20 anos, nos dias em que queria simplesmente ganhar os jogos do Championship Manager sem ter de pensar muito. Na altura ainda mal conhecia José Mourinho, mas ele já estava prestes a tornar-se num special one que reinventou o sonho e pôs muitos a desejar ser treinadores de futebol. E como se isso não bastasse, o setubalense ainda abriu as portas de várias casas por esse mundo fora para que muitos técnicos portugueses pudessem entrar e ser recebidos como ilustres convidados.

Hoje em dia as coisas estão um pouco diferentes e a Roma é um clube que, com 94 anos de história, apenas arrecadou o scudetto por três vezes. Já José Mourinho, é o treinador que foi melhor do mundo pela última vez em 2011, depois do incrível trabalho que fez ao serviço do FC Internazionale Milano. Mas é sobre o futuro que queremos conversar.

Depois de ter começado no ano passado um processo de reestruturação que já se avizinhava longo, com a compra do clube por parte do americano Dan Friedkin e, mais recentemente, com a contratação de Tiago Pinto para diretor desportivo, a verdade é que a Roma ainda tem muito trabalho pela frente para nos voltar a deixar com água na boca, como fazia nos tempos de Totti. O decorrer da época que está a chegar ao fim demonstra bem as lacunas na formação dos Giallorossi. Falta espírito de equipa, falta concentração nos momentos importantes, falta mentalidade ganhadora. É preciso muito mais.

Tal como afirmou Tiago Pinto, para construir um projeto desportivo de sucesso são precisas paciência e as pessoas certas ao lado, e o diretor acredita piamente que José Mourinho é a pessoa ideal para o que aí vem. O treinador português irá certamente ter menos pressão do que aquela que gosta e à qual está habituado. Os responsáveis têm perfeita noção que esta nova Roma é um desafio a longo prazo e que as grandes mudanças só com esforço e tempo trazem resultados. Tudo isto não retira exigência ao objetivo e bem sabemos que facilidades não são a praia do catedrático que só pensa em ganhar. Da sua parte, o clube romano precisava de um líder carismático, experiente, que conheça o futebol italiano por dentro e por fora e agarre o balneário com unhas e dentes de gladiador. O simples facto de ter Zé, como gosta que lhe chamem, no banco, irá inevitavelmente ter de elevar o nível de ambição dos jogadores da La Magica.

Apesar de tudo, e ainda que seja normal pensar que um clube que tem dinheiro para pagar a José Mourinho também deve ter para investir em jogadores, importa referir que Friedkin e Pinto deixaram claro que a situação financeira não irá permitir investimentos astronómicos. O clube e o técnico já têm definidas as prioridades para o mercado, que passam pela contratação de um guarda-redes e de um avançado. Contudo, existe claramente, e principalmente, uma revolução a ser feita, com vários jogadores com mais de 30 anos a ter de sair. Ainda assim, a Roma dispõe de um núcleo de jovens com bastante potencial, como Mancini, Kumbulla, Zaniolo, Villar e Pellegrini, à volta dos quais José Mourinho pode perfeitamente construir uma equipa competitiva.

Tornou-se algo comum nos últimos tempos ouvir que José Mourinho é bem capaz de ter perdido o Toque de Midas. É certo que nos propusemos a falar sobre o futuro, mas a memória também não pode ser curta ao ponto de esquecer todo o palmarés do special one que, por onde passa, ganha, sendo que apenas deixou “a folha em branco” no UD Leiria, no SL Benfica e, agora, no Tottenham Hotspur FC. Nenhum ser humano consegue escapar a períodos menos favoráveis. O futebol, como a vida, é feito de altos e baixos. No futebol, como na vida, nem todos podem ganhar sempre, mas todos, seja qual for o resultado final, têm necessariamente de aprender alguma coisa pelo caminho.

Há dois anos, com a tal baía de Setúbal nas costas, dizia o próprio José Mourinho que por vezes se aprende mais na dificuldade e que o objetivo é manter a identidade e não cometer os mesmos erros. Os desafios não deixarão nunca de aparecer e é neles que foca toda a sua atenção. Inspirado desde cedo pela paciência e carisma de Bobby Robson, o ex-professor setubalense não nega a importância de tantas outras coisas, mas cita Charles Darwin para intensificar que, na sua opinião, os mais fortes são aqueles que têm uma maior capacidade de adaptação aos diferentes obstáculos que a vida faz questão de nos trazer. José Mourinho quer, tão e somente, provar a si próprio que é capaz de se reinventar, e nós só devemos querer muito estar cá para vê-lo voltar a ser bem-sucedido.

Ainda que tenham sangue na guelra, o entusiasmo incondicional dos tiffosi torna a histórica cidade de Roma num lugar incrível para viver o futebol. Provavelmente, tanto José Mourinho como os Giallorossi já passaram por dificuldades suficientes e estão agora prontos para juntos colmatarem lacunas e devolverem a glória à equipa. A caótica cidade romana precisa da tranquilidade de Setúbal e Mourinho precisa do rebuliço das vitórias a que nos acostumou. Os italianos habituaram-nos à expressão “em Roma, sê romano”, mas eu, se tivesse oportunidade, diria ao nosso Zé: “em Roma, sê Mourinho!”

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Marta Rebelo

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