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El Rubin Kazan, ejército ruso dirigido por el camarada Berdyev, hizo lo imposible en el Camp Nou, que asistió atónito a la Revolución Rusa del siglo XXI. El Rubin fue capaz de ganar al Barcelona en su propia casa y asaltar un estadio ajeno en los últimos tiempos a todo tipo de males.”. Foi desta forma que o jornal Marca, através da sua página na Internet, descreveu a épica vitória do Rubin Kazan em pleno Camp Nou, perante 55930 espectadores, a 20 de Outubro de 2009.

Há seis anos atrás, a equipa da República do Tartaristão, superiormente orientada pelo misterioso Kurban Berdyev, viajou até à Catalunha para medir forças com o FC Barcelona de Pep Guardiola para a Liga dos Campeões e saiu de Camp Nou com uma valiosa vitória por 2-1, numa época em que os Blaugrana se sagraram campeões de Espanha com apenas uma derrota em 38 jogos.

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O médio russo Alexander Ryazantsev e o irreverente extremo turco Gökdeniz Karadeniz apontaram os golos do emblema russo que só em 2003 havia chegado à divisão de elite do futebol russo e que nada tinha conseguido de relevante durante a era soviética. O homem que arquitectou essa equipa foi nada mais, nada menos que Kurban Berdyev, um treinador nascido em Asgabate, capital do Turquemenistão, em 1952, na altura em que a república ainda integrava a extinta URSS.

Kurban Berdyev, com o seu famoso Misbaha na mão, dando instruções ao capitão de equipa, Sergei Semak, durante o período em que esteve ao serviço do Rubin Kazan Fonte: http://zateevo.ru
Kurban Berdyev, com o seu famoso Misbaha na mão, dando instruções ao capitão, Sergei Semak, durante o período em que esteve ao serviço do Rubin Kazan
Fonte: zateevo.ru

Depois de uma carreira mediana como jogador, Berdyev tem vindo a dedicar a sua vida ao futebol e vive a sua profissão com uma intensidade e uma dedicação admiráveis. Após algumas passagens pelas divisões inferiores do futebol russo, pelo Cazaquistão e pela Turquia, Berdyev chega ao comando do Rubin Kazan em 2002, vencendo de imediato a FNL (segunda divisão da Rússia) e logrando assim a subida ao primeiro escalão do futebol russo. O treinador turcomeno desenvolveu, nos anos que se seguiram, um trabalho de tal forma estruturado e meritório que fez com que se sagrasse campeão com a equipa tártara em 2008 e em 2009, vencendo também a Taça da Rússia por uma vez e a Supertaça em duas ocasiões. Foram os anos de glória do Rubin Kazan, que, com uma equipa totalmente construída de raiz por Kurban Berdyev, conseguiu importunar os gigantes moscovitas e o FC Zenit na luta pelos lugares cimeiros do futebol russo.

Apesar de tudo, ao fim de 12 anos de trabalho apaixonado e de dedicação, Berdyev, que também ocupou em simultâneo a posição de vice-presidente do emblema tártaro durante algum tempo, foi despedido, não tanto por incapacidade ou por resultados menos conseguidos no plano desportivo, mas sim por políticas internas de difícil compreensão, bastante comuns nas equipas russas, que têm como principal investidor e regulador o governo local da região que integram.

Berdyev deixou o Rubin Kazan em 2013 e um ano mais tarde, a 18 de Dezembro de 2014, foi apresentado como treinador do FC Rostov, que vivia então uma profunda crise e tinha o espectro da descida de divisão a pairar sobre a sua cabeça como um destino mais do que certo, dada a escassez de pontos e o marasmo financeiro que o clube enfrentava. O treinador turcomeno, que se faz acompanhar do seu Misbaha (um objecto semelhante a um rosário, tradicionalmente usado na religião muçulmana), conseguiu, no entanto e contra todas expectativas, não só livrar a equipa da descida de divisão, como também construir uma equipa sólida, que esta temporada se encontra em segundo lugar da Liga Russa, atrás do CSKA Moscovo.

No início desta temporada, ainda que ninguém tivesse esquecido aquilo que Berdyev materializou com o FC Rostov no final da época passada, não era de toda a forma expectável que o histórico emblema do Oblast de Rostov estivesse no segundo lugar da Liga Russa, com apenas 3 derrotas em 15 jogos e com a terceira melhor defesa da competição, apenas atrás do CSKA Moscovo e do FC Krasnodar.

O FC Rostov, que continua afundado em graves problemas de ordem financeira e que apenas conseguiu pagar os salários que estavam em atraso há cerca de duas semanas, transfigurou-se após a chegada de Kurban Berdyev. O profundo conhecimento da modalidade detido por este treinador tem-se feito notar neste “novo” FC Rostov, que se apresenta como uma equipa extremamente organizada e com processos de jogo muito bem definidos. Berdyev alterna, com alguma frequência, o esquema táctico da sua equipa, variando entre o 4-2-3-1, o 4-4-1-1 e, mais recentemente, um 5-3-2 bastante musculado no sector defensivo, mas com jogadores de aporte técnico elevado, quer na linha intermédia, quer no último terço de terreno.

Legenda – Berdyev a ajustar pequenos aspectos tácticos do jogo com um dos elementos da sua equipa técnica Fonte: rostov.kp.ru
Legenda – Berdyev a ajustar pequenos aspectos tácticos do jogo com um dos elementos da sua equipa técnica
Fonte: FC Rostov

É precisamente no meio-campo que está o âmago do futebol da sua equipa, onde o talentoso médio equatoriano Christian Noboa, a jovem promessa do futebol russo Pavel Mogilevets (que está em Rostov por empréstimo do FC Zenit) e o experiente trinco moldavo Alexandru Gatcan pautam o ritmo de jogo dos Selmashi. Nas alas, o experiente e altamente versátil médio bielorrusso Timofei Kalachev e o talentoso extremo russo Dmitry Poloz, que tem estado em especial destaque nos últimos jogos da sua equipa e que leva já 5 golos marcados nesta temporada, dão profundidade à equipa e deslocam-se com alguma frequência para o corredor central, confundindo as marcações da equipa adversária. A frente de ataque está entregue ao promissor jovem iraniano Sardar Azmoun (que está em Rostov por empréstimo do Rubin Kazan) e ao poderoso avançado russo Aleksandr Bukharov, que reencontrou o caminho das boas exibições após a chegada de Berdyev.

O técnico de 63 anos, oriundo da velha escola soviética, é considerado por muitos um dos últimos herdeiros da corrente de estilo mais mecanizada, rígida e disciplinadora, que teve em Valeriy Lobanovskiy o seu expoente de eficácia. Berdyev é visto como um homem introvertido, altamente disciplinador, pouco afável com os jogadores, mas ao mesmo tempo um verdadeiro connaisseur da modalidade, que respira futebol por todos os poros do seu corpo e que deixa, um pouco por onde passa, uma marca absolutamente fantástica de uma genialidade errática.

Dmitry Poloz, um dos homens em maior destaque na equipa do FC Rostov esta temporada Fonte: FC Rostov
Dmitry Poloz, um dos homens em maior destaque na equipa do FC Rostov esta temporada
Fonte: FC Rostov

Na sua obra Crime e Castigo, Fyodor Dostoyevsky dizia que era necessário algo mais do que inteligência para agir de forma inteligente, e Kurban Berdyev é definitivamente possuidor desse “algo mais” que caracteriza aqueles que são dotados de uma genialidade ímpar, já que foi capaz de transformar uma equipa perdida e vergada por problemas financeiros num conjunto vencedor, tudo enquanto dedilha impacientemente as contas do seu Misbaha.

Foto de Capa: FC Rostov